da prisão que construímos para os filhos

Educar nossos filhos para o mundo é um clichê. Mas é uma imagem útil, pois sintetiza bem um dos desafios mais importantes para os pais. Porque, afinal, não consigo imaginar coisa mais decisiva que ajudar os pequenos a se prepararem para as batalhas que eles vão escolher, diariamente.

Entretanto, estamos falhando miseravelmente. Faz tempo que reflito sobre isso e eis que nessa semana encontro esse texto da Eliane Brum, que não poderia ser mais certeiro. Ela discute justamente sobre como a geração “mais preparada”, que parece ser a desses jovens que agora chegam à idade adulta, na verdade não está preparada para coisa nenhuma.

A responsa desse despreparo é dos pais. Parece que, num mundo em que não se pode falhar, em que o resultado prático é a medida de tudo, em que a felicidade é compulsória e ajuda a definir seu grau de sucesso, os pais dão à prole muito mais do que a prole precisa, tirando dos pequenos o direito de errar, de escolher, de batalhar pelas conquistas.

O mundo ficou mais complexo, é fato. E os pais se preocupam em prover os filhos com ferramentas que lhes serão úteis na vida adulta. Nada errado com isso. Mas acontece que a vida é uma construção, não um fato pronto e acabado. Se a gente não ensinar nossos filhos a construir, de nada vai adiantar eles falarem cinco idiomas, terem experiência em outros países, cursarem as melhores faculdades e ainda terem feito aquele MBA nos EUA.

E construir é lidar com altos e baixos, é frustração, é tentativa e erro, é não ter uma fórmula ou um programa de computador em que baste apertar play que o objeto sai pronto do outro lado. E é escolher, de repente, um modelo de sucesso e felicidade que não passa por ser executivo na empresa x nem por ganhar o primeiro milhão antes dos 30.

Parece que os adultos da nossa geração -e até os que são um pouquinho mais velhos- são os primeiros a lidar com as próprias frustrações como se tivessem sido empecilhos ao seu desenvolvimento. Nos esforçamos para elaborar nossos conflitos resolvendo-os nos pequenos.

Trabalhamos loucamente para evitar que nossos filhos se frustrem, que ouçam um “não”, que sejam questionados pelos seus atos, que passem vontade, que sejam diferentes dos coleguinhas de escola. Mostramos aos filhos que felicidade é dinheiro no banco (pra comprarem o que quiserem) e um vidrinho de ritalina. E que nós é que devemos garantir a eles, sem falha, o acesso a essas dádivas.

Nos antecipamos até mesmo quando a questão é de foro íntimo e envolve os afetos e a sexualidade da prole, como se pudéssemos evitar os corações partidos ou controlar por quem, como e quando a cria vai se apaixonar. E como se isso fosse saudável.

Na ânsia de libertá-los da frustração (e de evitar a nossa frustração também pois, sejamos francos, não somos assim tão altruístas), aprisionamos os filhos numa ilusão (de que a vida não pressupõe conflitos) e num modelo único de existência (em que o importante é ser feliz, ainda que à base de valium; e que felicidade é consumo -a bolsa Prado ou o BMW).

O Enzo tem só 1,5 mês ainda, mas já perco o sono pensando nisso, principalmente porque constato que, em meus delírios de mãe perfeita, muitos desses erros são fantasias constantes.

É claro que, sendo um bebê indefeso e estando numa fase de total dependência, é salutar mesmo que Dri e eu estejamos inteiramente à disposição do pequeno. Mas não sei se, conforme ele for crescendo, esse desejo de provê-lo totalmente antes mesmo que ele perceba a falta do que quer que seja vai diminuir.

Ou se, sábia como os índios, vou entender que proteção é libertadora somente se usada na medida certa. Do contrário, é prisão.

O texto da Eliane, que recomendo vivamente, está aqui ó.

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