working mom

Mãe está ao telefone. Ela é jornalista, trabalha de casa, está de pijamas e cabelo preso em coque por um… lápis. Enquanto ouve atentamente o sujeito do outro lado da linha -sua fonte para uma matéria especial que tem de entregar no dia seguinte-, percebe uns ruidinhos vindos do quarto.

Em dois (sim, eu disse dois) segundos, os ruidinhos viram uma sucessão de “ilééé ilééé ilééé” em volume crescente. Ok, filho acordou e já no limite da fome, o glutãozinho. O que fazer com bebê, fonte, entrevista?

– Hã, o sr. me dá licença por um segundinho?

– Claro.

Ufa! Corre pro quarto, doida, e pega seu filho!

Bebê no colo, razoavelmente mais calmo, mamãe volta pra sala, pega o telefone e tenta, tenta, continuar a entrevista enquanto desabotoa o soutien para amamentar o pequeno, que começa a resmungar alto de novo.

– Então, o sr. falava sobre…

E a fonte retoma o raciocínio, não sem um tico de constrangimento.

Em pé, a mãe segura o telefone com a orelha e o bebê com uma das mãos, tentado encaixar o peito na boca dele. Com a outra, vai digitando como dá o que o entrevistado fala -e o que ela consegue entender do que ele fala.

– Crescimento de dois dígitos (…) novas indústrias no segmento (…) exposição depois dos itens de maior giro (…) mais vendas no canal (…) consumo das classes emergentes (…)

– O sr. pode repetir esse número, por favor?

E ele repete. E ela não anota de novo.

Guarda na memória, guarda na memória, guarda na memória. E segura o Enzo direito, pelamor!

Bebê está se contorcendo, fazendo caretas, reclamando e mamando nada, desconfortável. Primeiro que a mãe mal consegue segurá-lo. Segundo que ela ainda não botou o peito direito na boca da criança.

– Então, o importante é a exposição dos itens.

Calma, filho! Mamãe já vai terminar aqui. Não, não, não ainda, não. Ainda tenho que perguntar sobre a margem. E o f… é que está interessante pra c… Shhhh! Não pensa palavrão perto do menino!

Ilééé ilééé ilééé em alto e bom som de novo. Mãe torce pro moço entrevistado ser meio surdo e tenta trocar o bebê de peito. Quem sabe do outro lado fica mais fácil? Não fica. E o fio do telefone está pendurado no rosto do pequeno. Deu certo não, volta tudo ao arranjo anterior.

– O sr. citou as margens brutas, eu gostaria de saber…

Tu é corajosa mesmo de lançar uma pergunta dessas nessa situação!

Mãe chacoalha a si mesma tentando chacoalhar o filho.

Calma, filho! Calma, mãe!

Bebê chora de novo. Meio torta, em cima de um pé só, se equilibrando com o outro sobre a cadeira pra melhorar a posição do filho, a mãe acerta o peito e a boca.

– Temos de ponderar isso com…

Anota isso que importaaaante! Digita errado mesmo, desde que não perca o número!

Enzo começa a mamar finalmente. Mãe respira aliviada por mais dois segundos. E a vida segue.

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1 comentário

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Uma resposta para “working mom

  1. natal

    muito interessante, e muito bem escrito por isso é melhor ser pai.

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