o pediatra nem sempre está certo

Desde que eu soube que estava grávida, comecei a pesquisar sobre amamentação. Li um bocado de textos, estudos, reportagens. Preparei os peitos e a cabeça para amamentar, como ensinavam os especialistas. Arquivei um sem-número de links para sites com dicas interessantes ou que ensinassem como dar a volta em certas dificuldades comuns para mães de primeira viagem.

E ainda conversei bastante com minha obstetra e meu médico, optei por uma maternidade com histórico de apoio ao aleitamento exclusivo (que eu sabia que não ofereceria complemento ao bebê nos breves momentos no berçário) e na qual eu poderia manter Enzo comigo no quarto o tempo todo.

De modo que é desnecessário dizer como eu estava convencida de que amamentaria o Enzo exclusivamente até os seis meses e, depois disso, manteria o aleitamento até quando ele quisesse. Até porque, como sou frilancer e trabalho em casa, não tenho que me preocupar com o fim da licença maternidade, coisa que dificulta muito a vida das mães e dos bebês em período de lactação.

Tanto é que Dri e eu nem compramos mamadeiras e afins para o enxoval do Enzo. Nadica de nada, nem um mamadeirazinha que fosse. Nas nossas planilhas de gastos,  nem um centavo previsto para a compra das fórmulas.

Tudo isso para dizer que dá para imaginar o tamanho do golpe quando, na primeira consulta do bebê com o pediatra, uma semana de vida, o médico decretou para mim:

– Você não tem leite!

E ele concluiu isso simplesmente porque eu contei, em busca de apoio para manter o aleitamento, algumas dificuldades que estava enfrentando. Na prática, Enzo dormia pouco e acordava frequentemente para mamar, mesmo depois de ficar geralmente por mais de uma hora no peito. Para mim, sinais claros de que ele não estava se alimentando o suficiente.

Pois o pediatra fez exatamente o oposto do que eu esperava e recomendou que eu começasse a dar o Nan como “complemento”.

E eu, inexperiente, topei a orientação, porque fiquei muito assustada com o prognóstico que o pediatra fez, caso o Enzo não engordasse. E como ele só tinha engordado 30 gramas de supostos 200 que deveria ter ganhado, achei que não tinha opção senão introduzir as fórmulas na alimentação do meu filho.

Mas, pesquisando aqui e ali (santo Google) para Enzo não desmamar, fiquei sabendo de alternativas que sequer foram cogitadas pelo pediatra, como a translactação, que pode ajudar a mãe a produzir mais leite sem deixar o pequeno passando fome enquanto isso (vale a pena clicar aí no link e ler o depoimento da Mari, do Pequeno Guia Prático para Mães Sem Prática).

Descobri sozinha que, dos motivos que impedem ou atrapalham a amamentação, só os físicos são permanentes, o que não é meu caso. Ou seja, o problema poderia ser resolvido. Talvez nem fosse o caso de complementar. Isso se o médico tivesse ao menos tentado investigar as razões da produção insuficiente de leite.

Fato é que apesar de todas as campanhas pró-amamentação, de tudo o que é divulgado pela mídia especializada ou geral, de toda a troca de informações de mãe para mãe e apesar mesmo de tudo o que dizem os médicos e enfermeiros na teoria, na prática há uma “pressa” em resolver a alimentação do bebê pelo caminho mais fácil.

Eu já estive em outros pediatras depois desse -que continua atendendo o Enzo, pois é muito bom em outros aspectos- e nenhum deles topou o desafio de nos ajudar -a mim e ao bebê- no aleitamento, seja para manter seja para aumentar a quantidade de ingestão de leite materno no lugar das fórmulas.

Há sempre o receio latente de que o bebê não engorde, por exemplo. E é muito trabalhoso acompanhar o processo de aleitamento até que as coisas entrem nos eixos. Que pediatra quer esse encargo, de ver mãe e filho constantemente, de acompanhar as mamadas, de orientar a ordenha da mãe para ver quanto leite produz, de testar caminhos e possibilidades?

Mais fácil mandar complementar com Nan e torcer para o bebê manter ao menos em parte o aleitamento (embora os pediatras todos não acreditem muito nisso. Já ouvi muito “ele vai desmamar” por aí).

Quem mais me ajudou, nesse sentido, foi a obstetra, receitando remédios, alimentação, chás. Nem isso os peds fizeram.

Além do mais, nem fomos orientados quanto ao uso das mamadeiras e bicos adequados. Marcas boas têm o “bico zero”, indicado para recém-nascidos e bebês novinhos em fase de lactação. As outras já começam do “bico um”, cujo fluxo é grande para um neném acostumado ao peito. Resultado: ele engasga facilmente e, como efeito colateral, vai ficando “preguiçoso”.

Exatamente o que aconteceu com o Enzo, que, no peito, mama melhor o primeiro leite, aquele mais aguado. Quando chega na parte do leite mais grosso -e que dá mais trabalho para sugar, naturalmente-, ele começa a resmungar e a soltar o peito.

Desserviço completo ao aleitamento, ainda que todo mundo já tenha ao menos ouvido falar sobre a importância de amamentar exclusivamente no peito até os seis meses. E quem mais deveria ajudar as mães nisso, deixa a responsabilidade nas nossas costas e lava as mãos com fórmulas artificiais.

Não foi nem uma nem duas vezes que os pediatras me disseram: “se quiser tentar, tente”. Sozinha? Se era para ser por minha conta e risco, não precisaria estar aqui, cara-pálida!

O relato foi longo, mas é para alertar as mães de prima como eu: nem sempre o pediatra tem razão, nem sempre ele tem a boa vontade necessária para fazer o certo. Cabe a nós, mães, com a informação de que dispomos, seguir procurando a melhor alternativa.

Eu ainda estou em busca de um pediatra mais comprometido com o aleitamento que me ajude a diminuir o uso das fórmulas na alimentação do Enzo. Ajudar, nesse caso, é acompanhar mesmo, para evitar prejuízos para o crescimento do meu filho. Tenho consulta marcada em duas semanas. Depois conto como foi.

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