Arquivo do mês: setembro 2011

aterrorizarás as próximas

O Manual Internacional dos Pitaqueiros, Palpiteiros e Especialistas Amadores em Maternidade (que eu citei aqui) deve ter como regra principal disseminar o pânico entre as mães, pais, avós e agregados.

Eu imagino, facinho facinho, que o primeiro mandamento seja: “Aterrorizarás as próximas e amedrontarás genitoras em geral”.

Só isso pra explicar como, de tantos assuntos que alguém pode conversar com uma grávida ou mãe, sempre, sempre, sempre o tema escolhido é alguma experiência aterrorizante pela qual alguém -supostamente- já passou. É, os pitaqueiros, além de tudo, são sádicos.

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Moça grávida de alguns meses conversa com um dos integrantes da Confraria Internacional dos Pitaqueiros, Palpiteiros e Especialistas Amadores em Maternidade:

-Ah, você está grávida de 4 meses? Você sabe que não pode fazer esforço, né? Foi justamente com esse tempo de gestação que a irmã do namorado da prima da amiga da conhecida da vizinha do dono do açougue sofreu um descolamento de placenta. Você sabe que, nesses casos, só repouso absoluto mesmo, né? Então, ela passou o resto da gravidez internada, sem poder mexer nada do corpo. Nadica de nada. Só os olhos. Tadinha…

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Moça a termo conversa com um dos integrantes da Confraria Internacional dos Pitaqueiros, Palpiteiros e Especialistas Amadores em Maternidade:

– E já está pra parir, é? Está com medo? Eu estaria. Fiquei sabendo que a amiga da prima do irmão da prima do cunhado da vizinha da Soraya, que é vizinha da prima da irmã da amiga da conhecida da minha avó, teve um parto demoradíssimo! Sério, mais de 50 horas pra parir um único bebê. Acharam que fossem uns 10, pela demora. O moleque não queria sair de jeito nenhum e, enquanto isso, a mãe ficava lá, com todas as dores. Dizem que ela desmaiou mais de 150 vezes, precisaram até do corpo de bombeiros para retirar a criança. E tudo isso sem anestesia, porque ela era alérgica. É raro, mas tem gente que é alérgica e aí a anestesia não pega. Mas você só fica sabendo na hora, né? Melhor rezar pra não ser seu caso. Acende uma vela pra nossa senhora do 190…

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Recém-mãe conversa com um dos integrantes da Confraria Internacional dos Pitaqueiros, Palpiteiros e Especialistas Amadores em Maternidade:

-Que bom que você está amamentando, né? Mas, me conta: já rachou o bico? Ah, não se preocupe que vai rachar. Você se lembra da Marli, a filha da irmã da prima da tia da cunhada da manicure da sogra da amiga da vizinha da nossa avó? Então, menina, os peitos dela racharam inteirinhos, não foi só o bico não. Tudo, tudo, tudo. Parecia que iam cair. Um horror! E ela chorava bicas quando ia amamentar. Até anestesia teve que tomar, acredita? Nada resolvia. A médica fez de um tudo, e os peitos continuaram rachados por anos. É, por A-N-O-S, mesmo depois do filho já ter entrado na universidade!

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Mãe de criança de colo conversa com um dos integrantes da Confraria Internacional dos Pitaqueiros, Palpiteiros e Especialistas Amadores em Maternidade:

– É assim sempre? O bebê chora e você corre e pega ele do berço? Não faça isso, pelamordedeus! Essa criança vai viciar em colo e aí você vai ver o que é bom pra tosse. Eu ouvi uma história que lá na rua onde mora a mãe do filho do cunhado do irmão do primo do amigo de infância do ex-chefe do João tem um rapaz de 35 anos que ainda é viciado no colo da mãe. Ele só dorme se ela embalá-lo cantando “Entre Tapas e Beijos”. E ele só levanta pra trabalhar se a mãe for pegá-lo no berço. Adaptado, né, claro, pra ele caber. Viciou mesmo em colo. Já tentaram interná-lo várias vezes numa dessas clínicas de reabilitação, mas ele disse “no, no, no”.

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os pitaqueiros puristas que me perdoem

Aqui em casa, Enzo mama em livre demanda, da forma que quer, quanto quer, na hora em que der na telha dele e pelo tempo que achar necessário. É uma prática que horroriza os pitaqueiros mais puristas, aqueles que acreditam em mamadas de três em três horas, 15 minutos em cada peito, sem chance de o bebê “chupetar” um pouquinho. E que defendem que a cria nunca, nunquinha pode dormir no peito.

Por que a gente sabe, né? Grávidas ou recém-mães são como para-raios de “especialistas”, palpiteiros e curiosos em geral, todos com “boas dicas” sobre maternidade. Parece que a gente atrai toda sorte de comentários bem intencionados sobre partos, dificuldades de amamentar e sobre como os bebês são espertos e já nascem preparados para manipular os pobres e indefesos pais (ironia mode on).

Eu faço tudo ao contrário do que manda o Manual Internacional dos Pitaqueiros, Palpiteiros e Especialistas Amadores em Maternidade. E olha que essa turma às vezes tem apoios de peso, como obstetras, pediatras e avós…

E, pra desespero do grupo, vem dando muito certo, obrigada! Ao contrário, aliás, do que aconteceu no comecinho quando, mãe de prima meio perdida, tentei enquadrar meu filho e eu num calendário militar de mamadas e trocas de fraldas, que nos deixou estressados e irritados.

Depois que a sanidade voltou (quando Enzo tinha mais ou menos um mês), resolvi ouvir apenas meu filho. Além de deixá-lo mamar em livre demanda, ainda deixo, toda orgulhosa, confesso, o bonitão dormir chupetando livremente. E ele A-DO-RA! E dorme rapidinho, feito um anjo.

Contrariando todas as expectativas agourentas dos pitaqueiros, Enzo tem uma rotina bem certinha de mamadas (sempre por volta de 8h, 11h, 14h, 17h, 19h, 22h, 00h00). Fica um bom tempo acordado durante o dia, sem precisar que eu o force a isso, como recomendam os palpiteiros. E, com apenas 2,5 meses, dorme a noite todinha.

Pitaqueiros puristas que me perdoem, melhor rever o manual aí. E, mães de prima, se eu puder dar um conselho, o meu é esse: ouçam as crias, que elas sabem das coisas.

PS: O tom do post é bem humorado, mas o assunto é sério. É tanto pitaco errado que se ouve por aí. E atrapalha à beça, pra dizer o mínimo.

PS2: E ainda nem falei sobre a polêmica dos nossos dias (assunto principal dos pitaqueiros agourentos): pegar o bebê no colo ou deixá-lo chorar no berço? Estou escrevendo sobre isso e posto djá djá, inspirada por esse post da sempre certeira Mari, do Viciados em Colo. Recomendo fortemente que leiam o que ela pensa sobre o assunto. E depois voltem pra cá, puxem uma cadeira, que o papo vai ser looongo.

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primogênita

Nos primeiros dias, a primogênita não sabia ainda muito bem quem era o irmãozinho. Não sabia, na verdade, o que era o irmãozinho. Entre curiosa e assustada, ficava olhando de longe, ressabiada, e arregalava o par de olhos azuis toda vez que ele fazia algum barulhinho.

Não demonstrava ciúme, mas ressentiu a perda de terreno: antes, praticava cama compartilhada com os pais. Sempre fora assim, desde que a primogênita chegara em casa, havia cinco anos. Com a vinda do pequeno notável, foi delicadamente expulsa do quarto -e da cama- do casal. Passou madrugadas plantada à porta dos pais, esperando que alguma brecha se abrisse e ela pudesse entrar.

Não exigiu muito dos pais na fase de adaptação. Quando o irmão chorava, descia logo do colo da mãe e a deixava livre; quando o papai ia trocar a fralda do pequeno, entendia que a brincadeira ia acabar e se recolhia.

Com o passar do tempo, foi se interessando mais pelo novo membro do clã. Cerca seu carrinho, observa atenta o ritual de troca de fraldas e das mamadas, esparrama-se na poltrona de amamentação quando vazia, estica o pescocinho -olhinhos brilhando- por sobre o bebê.

Mas não deu tanto mole assim.

Intimidade crescente, até no berço entrou. Ao menos duas vezes, uma com o irmãozinho dormindo, outra quando ele estava nos braços da mãe. Também vive subindo no trocador e dando trabalho extra à mãe dos dois.

Levou umas bronquinhas, mas, faceira, deu de ombros: nada com o qual já não estivesse acostumada, levada que sempre foi.

Comida ela sempre quer na mesma hora que o irmão. Como nenhum dos dois fala ainda, ela achou que poderia competir de igual pra igual. Se ele manda um “iléé’iléé” de fome, ela mantém seu “miiiiu miiiiiu”.

Se esfrega nas canelas da mãe e sai rebolando na frente, intentando ser seguida até o prato de comida. Se frustrada, espera pacientemente.

Mas ai de quem a deixa esperando muito (muito, no caso, é uns dois minutos): a pessoa leva umas mordiscadas no pé, no tornozelo ou em qualquer outra parte acessível que a primogênita seja capaz de morder enquanto o sujeito anda.

E ainda tem os apelos por brincadeirinhas a qualquer hora do dia ou da noite, cujo objetivo não declarado é deixar os pais com o coração partido: quando vê os adultos se aproximarem, ainda que com o bebê no colo, ela sai correndo na frente toda serelepe, tentando começar um pega-pega, que geralmente não acontece por motivos óbvios.

Embora se sinta meio jogada pra escanteio (o que deixa claro com seu olhar tristonho flagrado às vezes), sem saber, a primogênita conseguiu uma coisa inédita: todos os apelidos carinhosos pelos quais os pais a tratam foram imediatamente “masculinizados” e usados para o irmão.

Exemplos? Ela é a princesa, ele é o princeso; ela é a tuca, ele é o tuco; ela é a banquinha, ele é o banquinho; ela é a malandrinha, ele é o malandrinho….e por aí vai.

A primogênita tem cinco anos, uns 20 cm de altura, 4 kg, um rabão sempre em pé, um par de olhos azuis e um nariz rosinha de desenho animado. Atende pelo nome de Johanna Maria, a.k.a. Jojó e Jóca. É a gata mais cheia de personalidade que seus pais conheceram -e também a mais linda e charmosa. Vai ter muito o que ensinar pro Enzo.

 

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