primogênita

Nos primeiros dias, a primogênita não sabia ainda muito bem quem era o irmãozinho. Não sabia, na verdade, o que era o irmãozinho. Entre curiosa e assustada, ficava olhando de longe, ressabiada, e arregalava o par de olhos azuis toda vez que ele fazia algum barulhinho.

Não demonstrava ciúme, mas ressentiu a perda de terreno: antes, praticava cama compartilhada com os pais. Sempre fora assim, desde que a primogênita chegara em casa, havia cinco anos. Com a vinda do pequeno notável, foi delicadamente expulsa do quarto -e da cama- do casal. Passou madrugadas plantada à porta dos pais, esperando que alguma brecha se abrisse e ela pudesse entrar.

Não exigiu muito dos pais na fase de adaptação. Quando o irmão chorava, descia logo do colo da mãe e a deixava livre; quando o papai ia trocar a fralda do pequeno, entendia que a brincadeira ia acabar e se recolhia.

Com o passar do tempo, foi se interessando mais pelo novo membro do clã. Cerca seu carrinho, observa atenta o ritual de troca de fraldas e das mamadas, esparrama-se na poltrona de amamentação quando vazia, estica o pescocinho -olhinhos brilhando- por sobre o bebê.

Mas não deu tanto mole assim.

Intimidade crescente, até no berço entrou. Ao menos duas vezes, uma com o irmãozinho dormindo, outra quando ele estava nos braços da mãe. Também vive subindo no trocador e dando trabalho extra à mãe dos dois.

Levou umas bronquinhas, mas, faceira, deu de ombros: nada com o qual já não estivesse acostumada, levada que sempre foi.

Comida ela sempre quer na mesma hora que o irmão. Como nenhum dos dois fala ainda, ela achou que poderia competir de igual pra igual. Se ele manda um “iléé’iléé” de fome, ela mantém seu “miiiiu miiiiiu”.

Se esfrega nas canelas da mãe e sai rebolando na frente, intentando ser seguida até o prato de comida. Se frustrada, espera pacientemente.

Mas ai de quem a deixa esperando muito (muito, no caso, é uns dois minutos): a pessoa leva umas mordiscadas no pé, no tornozelo ou em qualquer outra parte acessível que a primogênita seja capaz de morder enquanto o sujeito anda.

E ainda tem os apelos por brincadeirinhas a qualquer hora do dia ou da noite, cujo objetivo não declarado é deixar os pais com o coração partido: quando vê os adultos se aproximarem, ainda que com o bebê no colo, ela sai correndo na frente toda serelepe, tentando começar um pega-pega, que geralmente não acontece por motivos óbvios.

Embora se sinta meio jogada pra escanteio (o que deixa claro com seu olhar tristonho flagrado às vezes), sem saber, a primogênita conseguiu uma coisa inédita: todos os apelidos carinhosos pelos quais os pais a tratam foram imediatamente “masculinizados” e usados para o irmão.

Exemplos? Ela é a princesa, ele é o princeso; ela é a tuca, ele é o tuco; ela é a banquinha, ele é o banquinho; ela é a malandrinha, ele é o malandrinho….e por aí vai.

A primogênita tem cinco anos, uns 20 cm de altura, 4 kg, um rabão sempre em pé, um par de olhos azuis e um nariz rosinha de desenho animado. Atende pelo nome de Johanna Maria, a.k.a. Jojó e Jóca. É a gata mais cheia de personalidade que seus pais conheceram -e também a mais linda e charmosa. Vai ter muito o que ensinar pro Enzo.

 

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