Arquivo do mês: fevereiro 2012

maternidade real

A mãe tem um prazo apertadíssimo, que está dando o maior trabalho: não acha fontes; ninguém sabe do assunto; os que sabem não querem falar; há pouca informação disponível em locais confiáveis; o tema é compleeeeexo; ela nunca escreveu sobre isso, de modo que também está aprendendo; muitos interesses em conflito, daí que são zentas versões diferentes e uma jornalista vendida na situação, que precisa escrever uma capa em 3 dias.

O que acontece então? Acontece que a tal maternidade real fica mais real ainda:

1) Mamãe, essa coleira convicta que acha mesmo que lugar de filho é no colimdimamãe, começa a tentar convencer Enzo de que, talvez, colimdimamãe não seja assim tão bom. Filho chora lá no sofá, depois de uns minutos distraído. Mamãe ainda está no começo daquele e-mail importantão que pode definir muito da bagunça em que a apuração se encontra. E aí a cria continua chorando, enquanto mamãe faz força pra ignorar, tentando se concentrar pra terminar a p… do e-mail. Filho chora mais, mamãe tenta dialogar, depois de dar uma espichada de olho e ver que está tudo ok. “Mamãe já vai, espera só mais um pouquinho”. Mais choro. Mais “calma, filho”. Mais mãe tentando se concentrar pra terminar mais rápido. Finito! Mãe termina o e-mail. Olha pro filho, feliz, pra dar a boa notícia. Silêncio. Filho deitadinho no sofá, segurando a naninha, dormiu. Na prática, mamãe fez o que, na teoria, as moças que pensam como ela não deveriam fazer: deixar bebê chorando, sem resposta, até adormecer. Mamãe suspira, triste, ajeita Enzo no sofá pra ele dormir melhor e corre pro notebook aproveitar o tempo, que o tempo “ruge”.

2) Mamãe vai ao freezer pegar papinhas para dar almocinho ao recém-acordado minimenininho, que brinca feliz e contente no carrinho (coisa rara, minhagente, beeeeem rara). Descongela a papinha, dando graças aos céus por ter tido a brilhante ideia de deixar várias prontas congeladas, e começa a servir o bebê. Mas acontece que Enzitolino está muito mais interessado em continuar brincando do que em comer.  Mamãe, em condições normais de temperatura e pressão, não insistiria. Guardaria a papinha por mais alguns minutos e ofereceria depois. Respeitaria a inclinação do guri. Aliás, não teria nem oferecido, já ciente de que a cria estava dando de ombros pra essas necessidades da natureza. Aproveitaria, pois, a tranquilidade para deixar pronta a frutinha da sobremesa. O que a mamãe faz de fato? Insiste. “Ah, Enzo, só mais essa colheradinha, vai”. “Filho, come mais essa”. “Não cospe tudo, está tão gostosa”. “Isso, gargalha mesmo que a mamãe aproveita e bota mais uma colher na sua boca”. Resultado: muxoxo, chororô, 20 minutos de queda de braço, com Enzitolino derrotando mamãe e sua colher cheia de ervilhas-e-beterrabas-e-abóboras-e-espinafres de lavada. Nem metade do potinho foi consumido, Enzo agora está irritado e mamãe, frustrada e atrasada.

3) Todo mundo sabe que não se deve dar mamadeira aos bebês quando eles não querem comida. Mamãe também sabe. Só que mamãe tem pressa. Lembra que Enzo não comeu direito? Pois é, então agora Enzo está com fome. Só que mamãe está atrasada e não pode ficar outros 20 minutos dando comida de novo (lembra que ela, contrariando suas mais sábias determinações, insistiu à beça com o bebê?). Pois eis que ela tem a brilhante ideia de dar a mamadeira. Mamãe prepara em dois minutos, bebê mama em outros cinco minutos. Almoço resolvido. Resolvido? Será? Mamadeira não é almoço, mamãe sabe. E suspira, arrependida. Mas o que está feito, está feito. E mamãe corre pro notebook que o tempo, ah, esse “ruge”.

4) Todo mundo sabe que os bebês devem comer ao menos três porções de frutas por dia. Mamãe também sabe. Acontece que ela não teve tempo de ir comprar frutinhas fresquinhas. Acontece que ela olha na geladeira, esperando pela redenção, e só encontra uma (sim, UMA) ameixa, madura demais. Mamãe analisa a fruta, vira, desvira, cheira, chacoalha, parece boa, parece estragada, deixa pra lá que eu não vou ter coragem de dar isso ao Enzo. Gosto amargo da frustração combinado com o gosto azedo de que p. de mãe eu sou, sabe como? “Ah, não, filho, não tem nem fruta!”, a mãe desabafa, com a cara mais feia do mundo, porque Enzitolino para tudo o que está fazendo e encara a mãe, sério. E mãe devolve o pequeno no sofá e volta pro note, um tanto aliviada de não ter dado nada, porque demoraria ainda mais amassar fruta, botar bebê no cadeirão, botar babador, dar fruta, brincar com Enzo brincando com a fruta, tirar babador, tirar bebê do cadeirão. E aí a mãe se dá conta de que, secretamente, comemora não ter alimentado direito seu filho, deosdoceu! E aí fica triste de novo, mas pega o telefone e liga pro próximo de sua looooonga lista de fontes.

E passa o dia se sentindo a mãe mais porcaria de todas as mães, de todos os mundos, de todos os planetas, de todos os tempos, de todas as galáxias. E quase liga pro marido pra encher o saco dele desabafar. E quase liga pra própria mãe pra encher o saco dela desabafar. E, atrasada, liga pra fonte pra encher o saco dela entrevistar.

Balanço do dia: culpa-materna-nível-máximo MODE ON convicto.

Conclusão inconteste: maternidade real sucks!

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Arquivado em lado B, Maternidade

as fotos na praia

Tinha prometido aqui que postaria fotos do Enzo em sua primeira incursão litorâneo-turística. Como promessa é dívida, aí estão alguns dos registros mais bacanas no minimenininho na praia.

"ih, tá gelada!" Enzito reprovando a primeira molhadinha de pé

soninho chegando

soneca na praia. tem coisa melhor?

já causando com os meninos

pausa para o lanche no colim di papai

resumo da ópera: primeiro dia de praia aprovadíssimo

Ó só que farra boa, né? Relato completo da viagem e dos perrengues preparativos para viagem aqui ó.

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Arquivado em bebezices, viagens & passeios

dou colo em livre demanda sim

Enzo adora colo, não é segredo para ninguém. E quem lê o blog sabe que sou coleira convicta. Mas parece que isso incomoda demais as pessoas que, de um jeito ou de outro, convivem com meu filho, ainda que só de vez em quando. Tenho sido cada vez mais cobrada e questionada. Uns acham que Enzo manipula a mamãe, o maquiavélico. Para outros, eu tenho é preguiça de educar. Pelo que tenho visto por aí, não sou a única a ser cobrada/questionada. O paradigma hegemônico diz que o “certo” é deixar bebês chorando, pois são todos uns manhosos.

Eu não ia escrever sobre isso. Sinceramente, não me incomodo com as críticas. Sei que as pessoas, na maioria das vezes, estão tentando “me ajudar”, sei que o senso comum determina que colo é mau, já sabia que a pressão viria, de modo que estou preparada para lidar com ela. Dou a resposta-padrão “li muito sobre isso, acho que dar colo é ótimo, não se preocupe”, sorrisinho e assunto encerrado.

Mas eis que um casal que está pensando em ter filhos veio conversar comigo sobre isso no fim de semana. Eles queriam entender porque a gente faz diferente aqui em casa e disseram que se surpreenderam com a calma do Enzo. Queriam saber se a cria é tão sossegada e sorridente por causa do colo. E confessaram que estavam curiosos, pois tudo o que ouvem vai no sentido contrário, no sentido do “não dê colo”.

Então achei que valia um post para explicitar parte das minhas convicções. Começo dizendo que, como a maioria, fui orientada por todo mundo -de obstetra e pediatra a parentes- a não dar colo para o Enzo. E acreditei nisso. E achei que faria isso. E achei que Enzo teria de ser “treinado”, teria de me obedecer desde sempre, caso contrário, me manipularia, abusaria, viveria sem limites.

Mas eis que no caminho encontrei a blogosfera e a Mari e Gonzalez,  Laura Gutman, John Bowlby, Donald Winnicott, Sue Gerhardt (e seu lindo Why Love Matters), a Associação Internacional de Parentagem por Apego. E aí tudo mudou. Refleti, refleti, refleti muito, e percebi que dar colo não só é algo muito natural (genético até) como é altamente desejável.

Fiz escolhas conscientes como mãe. Até onde tenho domínio racional sobre minhas ações (e olha que sei que, na prática, é bem pouquinho), escolhi ser a mãe que sou, a maternagem que ofereço, com a qual me identifico. Até onde consigo controlar (de novo, bem pouquinho), procuro não reproduzir por reproduzir um jeito “x” ou “y” de maternar, procuro pensar sobre os porquês de fazer ou não fazer isso e aquilo e, de novo, escolho aquilo com o qual me identifico. E tenho como parâmetro nessa análise o bem estar e o desenvolvimento emocional do meu filho.

Isso significa que: não sou escrava do Enzo, nem manipulada por ele. Pelo contrário. Dou colo em livre demanda, sim, pois decidi dar, pois acredito nisso como a melhor forma de maternar e amar uma criança. Dou colo em livre demanda, porque acredito no que diz Carlos Gonzalez: os filhos precisam do colo para se sentirem amados, amparados, seguros. Assim como nós, adultos, temos nossos rituais de segurança, os bebês têm os deles, o que inclui colimdimamãe.

Aqui rola colo à vontade porque aplico a maternagem por apego, cujos pressupostos incluem me colocar no lugar do bebê, o indefeso, e não o contrário. O neném, recém-chegado nesse mundo, é que precisa ser protegido e acalentado, é quem está confuso, perdido e assustado, é quem olha para a mãe esperando dela a calma necessária para ajudá-lo a organizar o turbilhão de emoções e novas experiências que ele vivencia. E o toque, o holding (vide Winicott) é que vão dar, em larga medida, a segurança de que precisa o pequeno para ir organizando, a seu tempo, o seu mundo interior.

Respondendo à pergunta que os amigos fizeram, acho que sim: colo colabora muito para manter Enzo mais calmo, tranquilo e sorridente. Claro que a personalidade dele ajuda muito, é até determinante, penso. Mas colo, carinho, afago, tudo isso evita estresse e frustração, com os quais ele não saberia lidar pela pouca idade. Sobre isso, recomendo muito essa entrevista aqui, com a Sue Gerhardt, psicóloga inglesa especializada no desenvolvimento do sistema nervoso.

E dou colo em livre demanda porque quero, porque me dá prazer ter meu filho coladinho em mim, porque obviamente dá muito prazer a ele estar coladinho a mim, recebendo abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim. E rindo. E mordendo meu nariz. E sendo feliz. Por que não?

Quer dizer que não estimulo Enzo a brincar sozinho, engatinhar, ficar no chão livre, leve e solto? Claro que estimulo. Claro que brinco com ele, que o incentivo a desenvolver habilidades motoras e sensoriais para as quais ele precisa estar autônomo, sentadinho no sofá, num cercadinho, num tapete. Mas faço na medida do desejo dele, do interesse dele, da inclinação dele, não da minha conveniência. Se ele quer carinho no colo, vai ter. Se está interessado em brincar, vamos brincar no chão, ajudá-lo a desenvolver a coordenação motora, a fortalecer seus músculos etc.

Isso também significa que não sou mole nem deixo para lá na hora de mostrar limites. Só que meus limites são um tanto diferentes dos limites dos outros. Não vejo meu filho alguém que deve ser “ensinado” a se adaptar às minhas necessidades. A adulta sou eu, a mãe sou eu, eu que tenho que me adaptar às necessidades do pequeno e provê-lo de tudo quanto ele necessite enquanto ele ainda precisar que seja assim, seja mamadeira, seja colo. Colo nada mais é que desejo de amor e proteção, desejo de locomoção (para quem não anda), desejo de ver o mundo de um outro ângulo, curiosidade. Se negar todas essas coisas lindas a um bebê que, óbvio, minha gente, só depende de mim, é impor limites, não quero impor limite nenhum.

Acredito que, para o bebezico, “mamãe te ama” é colo, calor humano, carinho, estômago cheio, fralda limpa, brincadeiras, atenção. E tudo isso requer dedicação, proximidade (física inclusive), disponibilidade, disposição. Botar  “limites”, ainda mais esses limites, não faz o menor sentido nesse momento do desenvolvimento dos pequenos.

Não acredito em manha. Bebês têm direito de chorar por coisas que queiram e isso não é “fazer manha”. O tipo de maternagem que escolhi é aquele em que meu filho pode se comunicar comigo, da maneira que consegue, e exprimir suas frustrações, ainda que esteja frustrado simplesmente por não poder pegar determinado brinquedo. Não acho isso ruim ou tentativa de manipulação ou má-fé, como pressupõe a palavra. Para o que é importante para mim, não rola deixar bebê chorando e ensiná-lo a não reivindicar seus interesses, como se o desejo dele valesse menos que o meu. Isso é igual a fazer tudo o que o bebê quer? Não, nem seria saudável. Mas é igual a ouvir o bebê e levar em conta seus interesses, seu ponto de vista, ao invés de deixá-lo chorando sozinho porque ele é “manhoso” e “só quer colo”.

Porque eu acredito que, se a questão é evitar que os filhos sejam “tiraninhos” quando um pouco maiores, o caminho é o inverso. Com um ano, um ano e pouco, o bebê vai desobedecer mesmo. Não por falta de limite, mas por curiosidade, porque esquece recomendações. Nesse caso, o ideal vai ser distrai-lo e chamar sua atenção para outras coisas. Enchê-lo de “não” só vai vulgarizar a palavra.

E, quando for ainda maior (2, 3 anos), confrontar a ordem dos pais vai ser reafirmar sua personalidade, pois é nessa fase que as crianças começam um processo de individualização: testam quem são, do que gostam, o que preferem, de que forma colocar as preferências em prática. E, assim como na adolescência, a melhor forma de ser você é deixar de ser o outro (os pais). Daí a confrontar abertamente é um passo. Só que sabe qual criança vai passar por essa fase mais tranquilamente? Aquela que tem vínculo de melhor qualidade com os pais, aquela que se sentiu mais amada e protegida lááá atrás, na fase bebezica. Sabe qual? Essa mesma, a do colo, a “viciadinha”-dependente-que-“fazia-manha”. E não estou sozinha nisso. Dê uma boa olhada aqui e aqui. Aliás, isso ainda rende outros posts, no forno. Até porque não pratico “maternagem de resultados”. É muito bom que bebê coleiro seja mais tranquilo até nas fases emocionalmente confusas, mas faço o que faço por princípios. Ainda que os resultados fossem “piores”, ainda que fosse mais “eficiente” não dar colo, daria.

E chegamos ao ponto da tal independência, que parece que virou o objetivo principal de pais e mães. Independência é desejável? Muito. Já disse em algum outro post que crio meu filho pro mundo, para se encontrar, para se virar, para saber se respeitar e respeitar os outros, para viver suas próprias experiências, fazer suas próprias escolhas, trilhar seu caminho, sem interferências. Minha função como mãe, minha tarefa maternal, é ajudar Enzo a SER ELE MESMO, seja lá o que isso signifique, seja lá quanto tempo ele demore para descobrir quem é (se é que vai descobrir completamente), seja lá onde isso o leve. Não quero, não vou nem posso interferir numa jornada que é dele, só dele. O que quero, posso e vou fazer é ajudá-lo a estar pronto quando as escolhas começarem a cercá-lo, quando for preciso optar pelos caminhos. E ampará-lo se ele precisar.

Se minha tarefa é ajudá-lo a estar pronto, minha tarefa é prepará-lo, ajudar a prepará-lo. Pois eis que, para estar pronto lá na frente ele precisa se fortalecer agora, precisa se saber amado, protegido, precisa de fundação, de raízes, de um porto-seguro. Saca o tal “resiliente”? Ele só é resiliente porque as pontas são flexíveis, mas a raiz é sólida. Raiz sólida é amor, é autoestima, é reconhecimento de si próprio como capaz e amado. E, para isso, é preciso dependência completa quando o bebê for completamente dependente. Não é óbvio? Não é óbvio que exigir independência de um ser emocionalmente dependente é queimar etapas que, lá na frente, farão falta? Não é óbvio que quanto mais eu respeitar os limites do meu filho e suas necessidades físicas e psíquicas agora, mais independente ele será no futuro, quando estiver pronto para isso?

Gonzalez definiu muito bem (sempre ele) duas correntes de maternagem/paternagem/palpites. Ele falava, na verdade, sobre pediatras, mas vale para todo mundo. De um lado, os que pensam que tomam partido dos pais. Esses acham que os bebês devem ser treinados desde o primeiro dia para a independência, que deve chegar ainda na bebezice. Nesse caso, os pais só estão autorizados a fazer coisas relativas às necessidades básicas físicas ao bebê, como dar de comer, limpar, dar banho. Serão maus pais se derem colo, se ninarem para dormir no colo, se deixarem chupetar o peito, se estimularem o bebê a experimentar o mundo pelo afago “colístico” da mãe.

E há o outro grupo que entende que não há lado nessa história: mães e bebês vivem em simbiose, não se opõem, se complementam. Esse incentiva o colo, a amamentação em livre demanda, cama compartilhada, calor humano, satisfação dos prazeres e desejos do bebê, amor em manifestação livre, dependência, muita DEPENDÊNCIA. Eu faço parte, seguramente, desse grupo.

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Arquivado em Maternidade, parentagem por apego, reflexões

jukebox materna

Eu já nem sei mais onde-quando-como isso começou, mas acontece que é só eu pegar Enzo no colo que começo a cantarolar alguma coisa. A cria é louca por colo, de modo que passo o dia cantando. Parece que tem um botão secreto que o filho liga logo que encosta em mim. Não que eu planeje isso. Pelo contrário, nem me dou conta. Na maioria das vezes, quando vejo, já estou no meio da música, empolgadaça, dançado com Enzo pela sala. Será que isso Freud também explica?

Daí que tem para todos os gostos: ópera, erudita, samba, mpb, bossa-nova, rock clássico, Beatles, Lennon, Arnaldo Antunes, Legião, Palavra Cantada, Pequeno Cidadão, Cartola… Tem até A Banda Mais Bonita da Cidade (porque o coração não é tão simples quanto pensa) e (céus! desculpaê, filho) sertanejo.

Tem um boteco aqui em SP, daqueles pé-sujo, bem pé-sujo mesmo, pra onde nós sempre íamos nas madrugadas insones, depois que os barzinhos-bonitinhos já tinham fechado, sabe como? Lá, nesse boteco, não tinha nada. A não ser cerveja (boa!), água, refri (que ninguém pedia, claro) e uma jukebox velha, caindo aos pedaços, que tocava de Queen à Bruno e Marrone. Pois bem, acho que, de tanto beber com a Juke (apelido carinhoso), acabei incorporando algumas “qualidades” dela.

Porque ser mãe significa desenvolver habilidades nunca antes imaginadas, né? Não basta parir, afinal, tem de deixar a cria feliz, alegre e satisfeita, ainda que seja por estar rindo da SUA cara cantando, desafinada, “Desafinado“.

E eis que, como hoje é sexta, em homenagem a todos os boêmios e boêmias, e já deixando registrado que Dri e eu estamos nos esforçando muito para transmitir ao Enzo os valores da boemia, resolvi fazer um “Top 10” da minha Juke particular, a Juke que mora em mim e que liga, não-sei-como, assim que Enzito vem se aconchegar no colinho da mamãe.

1) Boa Pessoa, A Banda Mais Bonita da Cidade. Essa é especial. Foi uma das primeiras que cantei para ele, tentando fazer dormir. Mas ele acabava despertando mais, para prestar atenção. De qualquer forma, ele ADORA essa. Para tudo para ouvir, para até de chorar.

2) Beatiful Boy, John Lennon. Quem tem filhO não resiste a cantar essa música, né? É tão fofa, tão linda, tão cheia de emoção e tão “paternidade-real”. Um clássico e a primeira que fez o filho dormir.

3) Leãozinho, Caetano Veloso. Sei-lá-porque sempre chamei Enzo de Leãozinho (ou de Bolinho de Limão). Coisas de mãe com uns parafusos a menos. Vai saber. Mas é gostosa de cantar e de embalar a cria, e é isso que importa.

4) Chega de Saudade, Tom Jobim e Vinicius de Moraes (na voz de João Gilberto): O balanço é gostoso, dá pra cantar baixinho, dá uma animadinha no final, é boa demais de cantar chacoalhando pela casa com o bebê no colo.

5) Tiro ao Álvaro, Adoniram Barbosa (na voz de Elis Regina): Um “crááássico”, divertidinha, animadinha, boa pra quando Enzo acorda cheio de gás, louco pra rir de alguma palhaçada da mamãe.

6) Eduardo e Mônica, Legião Urbana: Essa eu comecei a cantar porque um dia o Dri me pediu, queria ouvir a letra, entender a música (ele, que nunca foi muito fã dos moços de Brasília). Enzo gostou, eu também, virou hit.

7) La Boheme, Giacomo Puccini (trechos): Ok, ok, só cantarolo uns trechos da melodia. Na maioria das vezes, tentando acalmar neném com fome enquanto eu faço a mamadeira. É linda, linda, linda.

8) Concerto para clarinete, Mozart: Também só cantarolo uns trechos, modestamente e erradamente. Mas é gostosinha demais de dançar com o bebê no colo, como se fosse uma valsa. E é alegre.

9) Dorme*, Arnaldo Antunes. Uma das top top para fazer Enzo dormir. É só colocar/cantar que ele já vai se aconchegando. E é linda, poética, infantil, genial. Ouço mesmo quando Enzo JÁ dormiu. E quase durmo também. Bacana observar como Arnaldo dá o ritmo da música, sempre com a primeira palavra com 4 sílabas e a segunda com 3.

10) Lá vai Alguém*, Paulo Tatit e José Miguel Wisnik (na voz de Virginia Rosa) . Poética. É poesia cantada. Ponto. E um gênio colocou num CD para crianças. Amo.

* As duas são do CD Canções de Ninar, do Palavra Cantada.

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ser mãe (também) é…

…você acordar de um sono bem gostoso, olhar em  volta, não reconhecer o lugar. Olhar de novo, com mais vagar, e se perguntar:

-Que que esse notebook está fazendo aqui? Que que essa mesa está fazendo aqui? Que que essa cadeira está fazendo aqui? Que que eu estou fazendo sentada nessa cadeira? Aliás, que que eu estou fazendo AQUI??

E aí você se dá conta de que o “aqui” não é seu quarto, mas o escritório.  E aí você olha no relógio e são 4 da manhã. E aí você se lembra de que eram 2h30 quando viu as horas pela última vez. E aí você nota que está com as mãos no teclado, com a cabeça meio pendida, mas com o pescoço duro (o que explica a dor chatinha na região). E aí cai a ficha de que você estava trabalhando. E aí você liga os pontos que faltavam e…bingo! Tem aquele prazo para amanhã (hoje?), às 7 da matina, sabe como? Com toda a matéria prontinha, revisada e os dados checados (aí você se lembra de que a checagem é a última coisa de que você se lembra antes do apagão).

E aí você se “loga” novamente no computador. E aí você puxa aquele bloquinho de anotações que estava meio jogado ali no canto da mesa, entre a pilha de livros do marido e sua xícara de chá (sem chá, by the way, que você já deu aquela espiadinha torcendo pra ter sobrado ao menos um gole). E aí, apertando os olhos, franzindo a testa, você acha exatamente o ponto em que parou.  E aí você segue na labuta que, afinal, agora tem só três horas pra terminar tudo.

Quem nunca?

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Enzo vai invadir nossa praia

"Nossa" praia, refúgio coletivo nosso e dos amigos mais queridos

Enzo foi à praia pela primeira vez nesse feriado. Passamos um dia e meio com amigos queridos no litoral. Confesso que eu tinha muitos receios e dúvidas e, por isso, demorei um bocado para decidir ir ou não. Eu não sabia, por exemplo, como Enzo se comportaria numa casa estranha, num ambiente mais agitado; se gostaria ou não do mar, da areia; se ficaria na praia ou se seria preciso ficar com ele em casa; se se adaptaria bem à mudança de horários e rotinas; de que forma o protegeríamos dos pernilongos, mosquitos e afins.

Pois ainda bem que lidamos com os receios e, mesmo meio assustados (cê jura? eu, como medo? ah, vá!), botamos as mochilas (e todas as trocentas e zentas mil coisas do bebê) no carro e pegamos a estrada. Porque, para começar, a cria adorou a “casa estranha”. Olhinhos curiosos e atentos percorreram cada cantinho novo, exploraram cada detalhe, mantiveram Enzo entretido, ocupado e feliz da vida com as novidades. A janela diferente, o batente de madeira, o ventilador de teto… Ah, o ventilador de teto foi amor à primeira vista. Era alguém ligar a geringonça que o pequeno, às gargalhadas, erguia as mãozinhas tentando pegar.

E o mato, então, fez sucesso. Aqui, em SP, quando passeio com ele pela rua, uma das diversões é observar árvores. Lá, como a casa tem um jardim bacana, plantas nas paredes, flores e folhas à vontade, o bebê deu vazão ao pequeno botânico que mora nele, pôs tudo na mãe e (quase tudo) na boca.

Ficou oficializado que Enzo é baladeiro-bagunceiro-arroz-de-festa-nível-máximo. Quis participar de todas as conversinhas, colinhos, sorrisinhos, palhaçadinhas dirigidas -OU NÃO- a ele. Fez amizade com novos amigos que papai e mamãe conheceram como se fossem velhos habituais aqui de casa. E com os mais próximos, só faltou pedir pra morar junto.

Acho que é papel dos pais socializar o bebê, apresentá-lo às pessoas com quem a família mantém relações próximas, facilitar a construção de outros laços afetivos, também muito importantes para um desenvolvimento emocional saudável. Nem só de pais vivem os pequenos, afinal. E isso tudo é especialmente fácil para nós, porque Enzo adora pessoas, adora carinho, adora fazer amizades.

Finalmente, a praia: Enzo adorou a paisagem, o clima, a espuminha das ondas, passear na orla no colinho do papai, fazer bagunça e rir das conversas dos amigos… Relaxou tanto que dormiu numa caminha improvisada na esteira da mamãe com a toalha dele. Mamou quando teve fome/sede e, no restante do tempo, aproveitou para conhecer tudo o que atraiu seu olhar, incluindo a fauna local: viu caranguejinhos pequeninos se escondendo na areia, viu gaivotas, viu diversos pássaros, gargalhou de tudo.

E tem como não gostar dessa praia?

Tem mesmo como não gostar dessa praia?

Só não se apegou muito à água. Nas diversas vezes em que tentamos molhar seus pezinhos, houve choro. Na primeira, se assustou com a onda; nas outras, não gostou mesmo foi da temperatura do mar.

Mas, no cômputo geral, consideramos muito bem sucedida sua primeira incursão litorânea. E nós, tendo em vista o sossego/alegria do rapaz, também pudemos aproveitar. Antes de ir, achamos que talvez nem conseguíssemos ficar na areia efetivamente, já que não sabíamos como seria a reação de Enzo, se ele conseguiria levar vida normal na praia (leia-se: brincar, comer, dormir, brincar, comer, dormir) ou se ficaria incomodado com alguma coisa. Acabou que ficamos bem mais do imaginávamos e com muita tranquilidade.

Resultado: volta programada para a Páscoa -ou talvez, além do feriado, algum fim de semana de sol que nos der na telha.

Agora, é preciso dizer que passamos alguns perrengues pela falta de experiência em viajar com bebês. O primeiro deles foi o tempo. Decidimos em cima da hora e, portanto, tivemos de resolver TUDO no sábado à tarde. Por tudo, entenda-se: comprar um berço portátil de camping (como esse aqui), comprar protetor solar, repelente, fraldinhas para banho e arrumar as zentas coisas do Enzo (incluindo panelinhas, colherinhas, pratinhos, mamadeiras, esterilizador, roupinha de cama, trocentas fraldas, sabonete, creminhos, frutinhas frescas já lavadas/esterilizadas, fazer papinhas, congelar papinhas, não esquecer papinhas no freezer…).

E ainda levar suprimentos para nós, pelo menos para os almoços…

Outro perrengue foi a escolha do repelente. O ideal seria não precisar dele, eu sei. Mas acontece que a praia para onde sempre vamos é bem natureba e, portanto, cheia de mosquitos. Sem chance de deixar Enzito sem proteção. Optei pelo mais natural possível, seguindo indicação do dr. Homeopata. Mas eis que não encontrei o recomendado -repelente fitoterápico da Weleda– em lugar nenhum. E comprar pelo site não era uma opção nessa altura dos acontecimentos.

Numa das farmácias de manipulação que visitamos atrás do Weleda, havia um similar. Vi preço e deixei para comprar mais tarde, depois que tivesse feito uma pesquisinha no bairro para ver se essa era mesmo a melhor opção. Só que eu esqueci que era sábado de Carnaval (céus!). A loja fechou mais cedo e acabamos tendo de comprar um desses repelentes de mercado mesmo. Claro que levei a versão baby, para nenês acima de seis meses (tem a infantil, mas essa é só para crianças com mais de dois anos), mas, mesmo assim, usei contrariada. A eficiência é inquestionável: os mosquitos não picaram nem a gente, que segurava Enzo. Porém, a pele dele ressentiu um pouco, e eu mais ainda por ter passado um monte de porcarias no meu filho. Enfim, era o que eu tinha para o momento.

No fim do sábado, ainda tivemos de rodar atrás do protetor solar. Como não queríamos um protetor químico (cheio de parabenos, que desregulam o sistema endócrino), apesar de ser o recomendado pela dra. Ped, fomos atrás das opções de protetores físicos (por exemplo o Anthelios Dermo Pediatrics, da La Roche-Posay). Aliás, as dicas sobre protetores eu achei aqui, no Coisas Minhas, e vale a pena ler. Mas protetor também foi testado e aprovado, mesmo a gente tendo o cuidado de não expor Enzo ao sol entre 11h e 17h (horário de verão).

Para as próximas, a resolução # 1 é não deixar NADA para a última hora. Nem a decisão de ir, nem comprinhas, nem arrumar as malas. Muitas coisas que nos tomaram tempo, como algumas compras, não precisaremos fazer nas próximas vezes, mas, mesmo assim, vamos tomar o cuidado de bater o martelo com antecedência suficiente para não rolar correria que, no fim das contas, atrasou nossa saída e nos fez perder um dia (já que, pelo horário que saímos de casa, pegamos cinco horas de engarrafamento num trajeto feito em, no máximo, metade desse tempo).

A resolução # 2 diz respeito à organização. Antes, era só jogar meia dúzia de roupas, um biquíni/sunga, uma canga, shampoo-sabonete-desodorante-perfume-hidratante-protetor-solar-escova-e-pasta-de-dentes na mochila e se mandar pra praia. Agora precisamos organizar melhor essa bagunça para facilitar ( já que são bem mais itens a serem levados) e para caber no carro. Quilos de sacolinhas com um pouco de coisa em cada uma definitivamente não rola mais. Decidimos comprar malas maiores para as roupas de cama e umas pequenas para os artigos de higiene nossos e do Enzo. Mala ele já tem e Dri e eu seguimos cada qual com sua mochila, que ainda dá conta do recado.

Para levar para a praia, a resolução # 3 manda o seguinte: vamos deixar o bom, barato e velho isopor de lado e substituir por uma ou duas caixas térmicas, tipo essa aqui. Não por glamour, não, mas para possibilitar o transporte seguro de frutinhas e papinhas do Enzo, tanto de SP para o litoral (na sacola térmica que eu tenho, a comida dele quase descongelou) quanto da casa para a praia propriamente. Dessa vez, ele passou à base de mamadeira, mas isso está longe do ideal. Nas próximas, vamos levar todo o suprimento à tiracolo. Faltou ainda uma cadeirinha só para ele e uma toalha mais adequada à praia, maior, multi-uso.

ABRE PARÊNTESE: Só para constar, essa praia é muito especial para nós e foi muito bacana que Enzo tenha começado sua vida de turista justamente nela. Dri, quando criança, vivia por lá; tem muitas de suas melhores memórias da meninice ligadas à praia. Namorados, fugíamos até ela sempre que dava. E, de uns anos para cá, depois que descolamos essa casa bacaninha para alugar e, assim, evitamos de vez as (proibitivas) tarifas de (impessoais) pousadas, o local virou refúgio coletivo: não só do Dri e meu, mas de todos os nossos amigos mais queridos (incluindo meu irmão e meu primo). Vamos sempre, sempre juntos. Rareamos as idas no ano passado por causa da gravidez e, por isso, estava louca para retomar, com Enzo à bordo. FECHA PARÊNTESE.

PS: Vai ter foto do Enzo na praia, gentes! Falta só descarregar, ok?

PS 2: Depois de tudo isso, mamãe aqui acrescentou mais uma coisa essencial à sua lista de “eu quero”: um biquíni que ressalte os pontos fortes, esconda os defeitos, levante os peitos, levante a bunda, suma com as gordurinhas indesejadas nos quadris, transforme o abdome numa barriga chapada, deixe a pele do rosto mais viçosa, melhore o cabelo, esconda aquela unha que ficou mal pintada e ainda seja à prova de puxões de bebê. Onde eu compro um desses?

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mamma, relaxa che te fa bene

Uma das delícias absolutas da blogosfera é o tanto que a gente aprende. Escrevi sobre a alimentação do Enzo no post anterior e surgiram dicas muito bacanas nos comentários. Dicas que quero compartilhar e que me fizeram refletir e concluir e encontrar outras coisas, que também quero compartilhar. Então, esse é um post-adendo, pois.

A Mari, do Viciados em Colo, como sempre, certeira:

estes bebês são tão sábios… conhecem melhor o sistema deles do que nós conhecemos o nosso e sabem direitinho seguir os instintos. relaxe!

E ela ainda recomendou: 1-) Deixar o sal totalmente de lado; 2-) Oferecer novamente os alimentos recusados depois de um tempo; 3-) Abusar das ervas frescas, do alho e das cebolas (louca para experimentar as cebolas brancas, aliás); 4-) Ir engrossando, mês a mês, a consistência da papinha para Enzo treinar a musculatura do maxilar e evitar que o pequeno pare na fonoaudióloga (leia ).

A Adriana, do Fora do Casulo, passou pela mesma experiência que eu: filho que recusa alimentos ou come bem pouco, sabe como? E o que ela fez? 1-) Abriu mão da rigidez de horários e apostou no horário certo para ele, no horário dele; 2-) Abusou dos legumes mais adocicados, tipo mandioquinha, cenoura, abóbora; 3-) Teve paciência.

E também não fico insistindo, não acho que horário de comer deva ser horário de tortura.

Já a Nívea, do Que Seja Doce, vive a experiência oposta, que ela conta aqui (recomendo. E um dia vou ser tão organizada quanto ela). E se ofereceu para trocar receitas, o que eu super topo. Quem sabe assim não pago a promessa de compartilhar receitinhas que dão certo com Enzo?

Daí me dei conta de que essa pressão toda tem a ver com aquela famosa expressão mangia che te fa bene sabe? Porque a gente é criada pensando que quantidade é qualidade. Não é. Mas a gente foi tão treinadinha para achar que quanto mais, melhor, que fica difícil depois aliviar o coração na hora em que o bebê recusa meio potinho de almoço.

A lição que eu estou tirando dessa fase do Enzo é: vamos oferecer, vamos variar o cardápio, vamos ampliar a oferta inicialmente de frutas e legumes mais adequados ao paladar dos pequenos, mas vamos, sobretudo, respeitar a vontade deles, que expressa a necessidade alimentar deles. Se é para eles comerem bem, por que não ouvi-los?

Fato é que os nossos filhos sabem sim o que é melhor para eles. Um estudo recente, por exemplo, concluiu que bebês que se alimentam com as próprias mãos, escolhendo os alimentos, têm menos risco de sobrepeso e, no médio prazo, conseguem uma dieta mais equilibrada que aqueles cujas mães oferecem a alimentação na colherinha. Matérias sobre isso aqui e aqui.

Daí que minha vibe alimentícia da cria está numas de relaxa che te fa bene! E justo hoje o moçoilinho almoçou tudo, ainda comeu um monte de mamãe e, perto do soninho, encontrou espaço para mandar ver em 240 ml de leite! Como disse o Dri, será que ele colocou tudo isso nas bochechas?

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