amamentação: faria tudo diferente

Quanto mais eu leio sobre amamentação, mais tenho certeza de que fiz tudo errado com Enzo. Claro que não foi intencional, errei tentando acertar, mas, infelizmente, os erros forem se sucedendo de tal forma que a cria desmamou completamente aos seis meses, mas desde os cinco já mamava raramente e, a partir da primeira semana de vida, começou a tomar LA.

Lá no Pergunte ao Pediatra de hoje, do Peripécias de Cecília e Fofices de Clarice, uma leitora relata exatamente o que aconteceu comigo e com Enzo. Só que, no nosso caso, a orientação foi oposta à dada pelo dr. José Martins, especialista que responde as perguntas no blog da Paloma. Já contei aqui essa história, mas, resumidamente, Enzo mamava com frequência, não queria sair do peito e engordou pouco para a primeira semana (cerca de 20 gramas). Daí que o primeiro pediatra do bebê, super indicado pela minha GO, recomendou, de cara, LA, e me convenceu de que meu filho seria prejudicado se eu tentasse levar a lactação materna exclusiva por mais tempo. Daí, de um engano a outros, foi um pulo.

O que eu faria diferente? Praticamente tudo. Às vezes, fico imaginando como teria sido a amamentação do Enzo se eu tivesse dado de ombros para as ameaças do primeiro ped. Só não me sinto mais culpada, porque eu precisaria ser uma outra pessoa para ter tomado uma decisão diferente. O médico me assustou mesmo, eu sou meio neurótica-hipocondríaca-medrosa-nível-10, suscetível, portanto. E não dispunha de todas as informações de que disponho hoje. Li muito sobre amamentação, fiz cursos de pais, mas acho que li as coisas erradas. Em nenhuma literatura que eu consultei ANTES do parto estava escrito que não desgrudar do peito pode ser normal, que amamentar em intervalos menores que três horas pode ser normal. Enfim, se eu pudesse voltar no tempo, faria o seguinte:

Desencanaria totalmente dessa coisa de mamar de “x” horas em “x” horas. Porque hoje eu sei que os bebês, nos primeiros dias/semanas, ainda estão se adaptando a uma série de coisas, inclusive a horários, rotinas, fome. Na barriga, fome não existe. Além disso, é saudável que o bebê fique “pendurado” no peito nos primeiros dias, para: a-) estimular a produção de leite e b-) dar a medida certa da fome dele. No começo, claro, a mãe pode produzir pouco leite, pois o corpo dela não sabe de quanto o bebê precisará. Só com o tempo -e com o filho mamando em livre demanda- é possível acertar necessidade do RN com produção da mãe. “Ah, mas ele está mamando vezes demais”. Quem disse? O pediatra, sua mãe, o papa. Sério? Mas eles já viram algum mamífero não-humano negar o peito ao filhote? E te deram um bom motivo -do ponto de vista do RN- para você negar peito ao seu filhote? Não e não, né? Pois é. Se eu soubesse disso antes…

Não teria tantas expectativas, nem tudo precisa ser “certinho” para estar certo. O desconhecimento gera ansiedade que gera uma tentativa tosca de padronização que gera expectativas inatingíveis. Daí que você vai ficar preocupada com o que não deve e vai achar que alguma coisa está errada com o bebê quando, na verdade, está tudo mais que certo. A natureza é sábia, nossa tentativa de racionalizar e esquematizar tudo é meio doente, e eu só me dei conta disso tarde demais.

Relaxaria mais, racionalizaria menos, deixaria as coisas acontecerem no seu tempo. Isso teria permitido não apenas amamentar em livre demanda desde o início, sem culpas ou crises, mas, principalmente, me daria tempo para procurar outro pediatra, ouvir outra opinião, esperar um pouco mais antes de me apavorar e dar LA para o Enzo.

Não acreditaria em mitos, tipo “você não tem leite”. Apenas mulheres com problemas físicos são incapazes de produzir leite. Pode demorar um tantinho a mais para produzir a quantidade “ideal”, pode dar trabalho acertar a sintonia com as necessidades do bebê, mas isso é outra coisa. E o leite virá e dará conta do recado. Essa história de não ter leite é tão ridícula quanto dizer a uma pessoa saudável, que tem as duas pernas, que ela não pode andar. Ué, como assim?

-E, mais importante, teria fé em mim e no meu corpo. Engraçado como a gente acredita num monte de bobagens que ouve, mas não acredita no nosso próprio corpo, que foi feito para isso. Daí que, como eu já temia o fantasma, quando o pediatra sentenciou, me resignei.

No fundo, no fundo, a gente é tão treinada para racionalizar as mínimas coisas que esquece que somos biologicamente programadas para um mundão de outras coisas e que, nesse caso, o melhor a fazer é não fazer nada e deixar a natureza achar seu modo de fazer dar certo. Tentando ajudar, atrapalhamos um bocado. Foi isso que fiz.

Recomendo vivamente, especialmente para as futuras mamães, que leiam muito sobre amamentação. Na internet tem ótimos sites, especialmente Matrice, Amigas do PeitoAleitamento, Leite Materno. Aprendi muito em blogs de mães, como o Viciados em Colo, o Pequeno Guia Prático e o Buena Leche. Coloquei o link da inicial dos blogs, vai ser preciso dar uma pesquisada por lá para achar os posts específicos sobre amamentação, mas vai valer a pena.

Ah, e também recomendo a leitura de artigos, textos, livros, depoimentos, qualquer coisa do pediatra espanhol Carlos Gonzalez. Ele é ótimo, entusiasta da amamentação, fundador da Associación Catalana Pro Lactancia Materna (dica do blog Familia Nesguinha) e, além de tudo, didático. E, claro, é bom dar uma boa olhada na seção Pergunte ao Pediatra, do blog da Paloma, que gerou esse post.

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15 Comentários

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15 Respostas para “amamentação: faria tudo diferente

  1. Como alguém pode escrever exatamente o que pensamos, da mesma forma que gostaríamos de expressar, inclusive, com os mesmos argumentos?????

    Pois bem, querida Nat, você acertou em cheio todas as minhas frustrações, as minhas expectativas furadas, os desencontros de informações e o mundo de informações corretas que tive acesso após ter dado errado a amamentação da Laura. Só após.

    Eu adorei o seu texto, adorei. Se um dia escrever sobre este assunto, linkarei o seu texto, nem vou escrever, pra ser honesta. Vou falar “vai ali e leia aquele texto, é o que eu sinto”.

    Adorei!

    Conheci o seu blog pelo MMqD, vou fuçar mais!

    Beijos!

    Dani

    http://viagensdeprimeiraviagem.blogspot.com

    • Nat

      Obrigada pela visita Dani! E pelos elogios! É ótima a sensação quando a gente se identifica com os perrengues de outras mães, né? Ficamos menos sozinhas. Porque às vezes parece que só a gente erra, que só a gente tem medos, que só a gente “comeu bola” numa situação ou noutra (como eu “comi” nesse caso da amamentação). Enfim, é bom ver que somos humanas, que mais mães pensam como nós, que não somos um exército de uma mulher só fazendo bobagens por aí, hehehe.
      Vou lá no seu blog agora conhecer.
      bjos

  2. pohan, um dos melhores textos que já li sobre obstáculos à amamentação, especialmente porque você se implicou no problema e descreveu a cronologia básica do erro.

    não sou melhor do que ninguém e só consegui me manter firme porque: 1) a ped de alice é radical em relação às recomendações da OMS e está super atualizada sobre as evidências científicas e nos apoiou integralmente para mantermos a amamentação exclusiva; 2) arthur era/é maníaco por peito, nem o LA, nem a mamadeira com LM, nem a chupeta o distraiu do que realmente importa: a teta! 3) no caso de arthur ouvi os conselhos da mommysfera e não insisti na chupeta quando ele largou e não ligo que não toma leite – se ele come tudo de tudo e não engorda, não poso fazer nada – o que importa é a saúde, o bem-estar e o desenvolvimento mais do que normal…

    beijoca e vamos lá que as próximas fases tem um monte de desafios e estar por aqui é fundamental

    • Nat

      Poxa, Mari, suuuper obrigada, querida! Essa história da amamentação do Enzo ainda está meio entalada na garganta. Escrevo para expurgar os fantasmas e para ver se, de repente, alguma mãe se dá conta desses erros a tempo.
      Ainda bem que vc encontrou essa ped. A que Enzo está indo agora também é super entusiasta da amamentação, mas só começamos a consultar Enzo com ela quando ele tinha 4 meses já.
      Outra coisa que eu deveria ter feito -e que pode até valer um adendo no post- é procurar ped ANTES do bebê nascer, né? Isso facilita muito as coisas, pois dá tempo de procurar com calma peds que sejam afinados com a gente.
      Enfim, a gente ouve e lê tanta bobagem, né? E o pior é achamos que estamos fazendo “o certo”, afinal, é o que todo mundo diz, é o que todo “especialista” recomenda. Fueda.
      E eu só não cai no mesmo conto com a coisa do colo (não pode pegar, tem que deixar chorando, bebê faz manha e blá blá blá) porque achei o seu blog, de modo que Enzo e eu te devemos essa (e muitas outras, né?).
      bjos

  3. Nossa! Coincidências…meu filho se chama Enzo também. Bom, enfrentei esse problema também. Filhote logo na maternidade não pegava meu peito, depois de 48hs sem se alimentar fizeram um teste de glicemia e resoleram dar o LA no copinho, só no quinto dia é que ele pegou o peito com bico de silicone. Mas não engordava e mesmo a pediatra tentando me ajudar com spray de ocitocina e comprimidos para produzir mais leite, ele não saia do peito e não engordava. Tivemos que inserir uma mamadeira com LA por dia, mas o negócio foi fugindo de controle, o leite foi secando e aos 4 meses ele já não mamava mais no peito. Até hoje me sinto culpada e faria diferente. Ao ouvir histórias de mamães que amamentam só no peito, me sinto incompetente e feliz por elas estarem conseguindo o que não consegui. Vou carregar isso pro resto da vida. Posso até estar exagerando, mas que mãe não é perfeccionista e quer que tudo seja 110% do que tem que ser. Bjo

    • Nat

      oi, Adriana, coincidência mesmo, hein, menina? Pois é, arrisco dizer que um montão de mães por aí passam/passaram/passarão pela mesma coisa. O pediatra espanhol/catalão Carlos Gonzalez diz, no livro Besame Mucho, que foi essa ideia tosca de mamadas de “x” em “x” horas, por “y” minutos em cada peito (altamente recomendadas por aí, inclusive nas maternidades), que está acabando com a amamentação. Concordo. Pra mim, foi o que definitivamente complicou a amamentação exclusiva do Enzo. É, entendo perfeitamente a frustração. Mas não se culpe, a gente faz o que pode com as ferramentas que têm.
      bj

  4. Paula

    Nat,
    Tenho que concordar com a Daniela e dizer que você exprimiu nesse post exatamente como me sinto em relação à amamentação do meu filho… Um misto de frustração e arrependimento por não ter me informado mais cedo, antes do desmame aos 5 meses.
    Que as futuras mamães tenham acesso a esse excelente texto!
    Bjs

    • Nat

      Obrigada, Paula. Pois é, uma sensação péssima, não? Aquela coisa de “ah se eu soubesse” só que com consequências pros nossos filhos. Dói, não? Como eu falei pra Mari, isso ainda está entalado na minha garganta. Lamento muito e lamento muito que essas orientações às avessas sejam mais comuns do que a gente pensa.
      Bjs

  5. Pingback: eu sei o que vocês fizeram no verão passado | mãederna

  6. Pingback: duas imagens sobre amamentação | mãederna

  7. Rosane

    Olá! Achei esse blog porque estou passando por uma situação bem parecida… ainda não introduzi o LA então me identifiquei com a mãe que vc disse que queria ser (a que tem a informação a tempo, antes de “comer bola”, como vc comentou…) Mas vou te dizer que mesmo tendo acesso a informação, não é fácil ser assim “empoderada”… a insegurança é grande… como vou manter LM em LD se minha filha não ganha peso? Ainda não sei se vou vencer a guerra contra a mamadeira… e contra a balança! Beijos e obrigada por compartilhar sua experiência com a gente…

    • Nat

      oi, Rosane, tudo bem?

      Quanto tempo tem sua filha? Sei como é difícil manter a confiança. Também passei por isso, a gente fica sem saber o que fazer. E como é sempre o pediatra que pode nos ajudar a avaliar como está o desenvolvimento e o ganho de peso, ficamos reféns, né?

      O que posso te dizer, depois de tudo o que pesquisei a respeito, é o seguinte: 1) Ganhar peso nem sempre é essencial. Se o desenvolvimento da sua filha está normal, adequado para a idade; se sua família é mais “mignon”, pode ser que sua filha vá ganhar menos peso mesmo e que isso seja o esperado.

      Veja o caso do Enzo: o primeiro ped pressionou tanto com essa coisa de ganhar peso e isso foi tão desnecessário que, em pouco tempo de LA, Enzo ficou com sobrepeso! Talvez o natural para ele era ganhar peso na toada que vinha ganhando mesmo, antes do LA. Ou seja, quase nada.

      2) É muito importante ter ao seu lado um ped 100% comprometido com o aleitamento materno. Só ele será confiável pra te dizer se e quando é necessário introduzir LA. Não sei se já é seu caso. Se for, ótimo. Se não for, tenho pelo menos duas peds pra te indicar, caso vc queira/precise. Me escreva (maedernablog@gmail.com) que eu te passo os telefones, nomes etc.

      3) Se for mesmo preciso introduzir LA, prefira o método da “relactação”. Não dê mamadeiras. A relactação é simples: vc compra um kit (tem um da Mamma Tuttyque custa R$ 25. Tem os mais caros, como da Medela, que chegam a R$ 250. Mas os baratinhos servem bem nesse caso) que vem com um potinho e algumas sondinhas de silicone. Você prepara o LA no pote, coloca um lado da sonda no pote e outro preso ao seio. Oferece o seio ao bebê e, ao mesmo tempo, a ponta da sonda. Com isso, ele mama seu leite e o LA juntos. Vantagens: além de beber LA em menor quantidade, mama seu leite e estimula seu peito a produzir mais.

      4) Relaxe. Quanto mais a gente fica tensa com a possibilidade de dar LA, menos LM a gente produz. Sei que não é fácil relaxar numa situação dessas. Mas se vc tiver alguma coisa que geralmente a tranquiliza, abuse disso.

      Boa sorte!

      bjos e obrigada pelo comentário

      • Gabriela

        Acabei de chegar da primeira consulta ao pediatra e ele sugeriu introduzir LA visto que meu filhote de 10 dias não recuperou o peso perdido…chorei feito louca e vim pra internet ver o que encontrava sobre o assunto. Estou muito, muito insegura sobre o que fazer. Desejo muito amamentar, mas tenho muito medo de colocar a saúde do meu filho em risco. O pediatra disse que eu não terei leite suficiente para amamentar apenas com leite materno, já que até agora não desceu, mas depois de ler algunas textos não estou muito convicta do comprometimento dele com o aleitamento materno. Minha cabeça está uma confusão nesse momento. A sugestão dele é dar 10 minutos de um seio, 5 minutos do outro, e depois 30ml de nan na mamadeira! totalmente inverso ao que eu gostaria. Fiquei tão chateada na hora da consulta, com tanta vontade de chorar, que não argumentei absolutamente nada. Saí de lá, comprei o nan e a mamadeira, cheguei em casa, tentei dar pra ele, que não aceitou, e só então parei pra pensar na possível burrada que eu estava cometendo! Vou ler mais, fazer o que né?!?

      • Nat

        Gabriela,

        foi exatamente a mesma coisa comigo. De tudo o que aprendi lendo, lendo muito, posso te dizer o seguinte: esqueça essa coisa de tantos minutos num peito, tantos no outro. deixe seu filho mamar à vontade nos dois seios, o dia inteiro se for preciso. qto mais ele sugar, mais leite será produzido. se ele ficar 5 minutos num peito, em algumas semanas vc não terá mesmo leite algum! se for mesmo preciso complementar (eu também fiquei com medo de prejudicar a saúde do meu filho, complementei), prefira a relactação (dê um google pra ter mais detalhes, mas, em geral, o método consiste em dar LA por uma sondinha, que vai presa ao seio. Enquanto mama NAN, seu filho estará também mamando LM e estimulando sua glândula mamária).

        Não estou sugerindo que vc faça isso sem consultar um pediatra, não, pelamor. Não sou médica, não posso avaliar o desenvolvimento do seu bebê. Mas dar LM em livre demanda não fará mal. Então, em resumo, se quer mesmo amamentar, procure ajuda: as meninas do Matrice são ótimas e suuuuper disponíveis (http://matrice.wordpress.com/como-e-onde-atuamos/), até celulares me deram. E procure OUTRO PEDIATRA JÁ! Pediatra que indica LA desse jeito não entende nada da amamentação. Sugiro a Dra. Nina (nunca levei meu filho nela, mas ela é suuuper conhecida na madresfera por ser pró-amamentação. Vi muitos vídeos dela. Ela vai te ajudar, inclusive, com a relactação). Os tels que eu tenho dela vou te passar por e-mail, ok?

        boa sorte e procure um ped pró-amamentação o quanto antes!

  8. jacqueline

    Olha o que vc disse sobre esse tema é o que eu sinto, ainda fico remoendo que se eu tivesse acreditado mais em mim as coisas teriam sido bem diferentes e menos sofridas.

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