dúvidas do papai noel

Fuso-horário certo por aqui, esse é um daqueles posts que eu comentei que ficaram paradinhos na “fila” do final de ano para entrar aqui no blog. Foi escrito dia 7/12, minutos depois de eu mandar um e-mail angustiado fazendo trocentas perguntas sobre isso pro maridão. 

As grávidas têm um monte de dúvidas, especialmente se forem mães de prima: nome do bebê, como vai ser o parto, quanto vai doer, como garantir que a pega correta na amamentação, se o bico vai rachar, como trocar fraldas, para que serve um cueiro etc etc etc.

Mas eu, ainda grávida, tinha uma outra dúvida existencial a me atormentar: mentir ou não mentir para o Enzo sobre o papai noel. Eu tive uma experiência bem bacana com o velhinho capitalista na infância, apesar da decepção quando descobri a verdade.

Quando eu era criança, funcionava mais ou menos assim: na tarde do dia 24, estimulados pelos meus pais, meu irmão e eu deixávamos bombons, sucos e guloseimas para o velhinho nos nossos respectivos criados-mudos. Também colocávamos capim e água no chão do quarto para as renas. E íamos dormir, tirar aquela sonequinha diurna. Quando acordávamos, além de encontrar nossos presentes sobre a cama, víamos, maravilhados, que as guloseimas tinham sumido, bem como o suco, a água e as folhagens (cujos restos, às vezes, estavam displicentemente “esquecidos” na janela do quarto). Não era apenas a “prova” de que papai noel existia, mas, principalmente, um orgulho imenso saber que o “bom velhinho” tinha comido nosso bombom de agradecimento.

ABRE PARÊNTESE: Tudo isso rolava no dia 24, porque sempre passávamos a ceia e o almoço de Natal na casa da minha avó materna (a Vó Mimi, que já citei aqui). Lá, seria mais complicado todo o teatro. Então, meus pais diziam que, já que sabia que iríamos sair, papai noel adiantava nossos presentes. Muito inventivos, esses meus pais. FECHA PARÊNTESE.

Digo isso para deixar claro que minhas dúvidas papainoelísticas não são baseadas em nenhum trauma de infância. Mas, mesmo com toda essa experiência que, vou confessar, fizeram um bem danado e renderam memórias beeeem bacanas da meninice, ainda não sei como vamos conduzir essa coisa toda com Enzo.

Daí que essa dúvida me acompanhou durante a gravidez, foi compartilhada com um monte de gente, inclusive, claro, com o Dri, mas nós dois não chegamos a, rigorosamente, conclusão nenhuma. Até que hoje li umas coisinhas na internet (aquelas matérias de sempre sobre compras e vendas de Natal), que me fizeram mandar um e-mail angustiando pro marido, no meio do nosso expediente, com um monte de indagações sem respostas. Em síntese, questionava o seguinte:

Se dissermos que papai noel existe, automaticamente vamos começar a disseminar valores e ideias com os quais a gente não concorda. Por exemplo: vamos contar uma mentira; supervalorizar os presentes; ensinar que o bacana é ser consumista; que basta ser “bonzinho” para ser “recompensado materialmente”; que Enzo tem que se encaixar num padrão x ou y para ser valorizado; que recompensa é sempre algo material. Enfim, não é à toa que o velhinho capitalista é símbolo, justamente, do que há de mais básico no capitalismo norte-americano. O cara é a síntese do “self made men” e do behaviorismo idiotizante dos EUA.
Por outro lado, a fantasia do papai noel (ou qualquer outra) é positiva e importante para estimular a capacidade de abstração; é um primeiro contato com o “místico”; trata-se de um história lúdica “universal”, que gera certa sensação de pertencimento; é bacana para caramba a expectativa/emoção da chegada do presente; o papai noel é a figura “sagrada” e “profana”: está perto, se comunica, está ao alcance, pois recebe a carta, dá o presente, pode ser importante para “dessacralizar” um pouco os deuses.
Vamos proporcionar essa fantasia lúdica, apesar da ideologia que vem “de brinde”?
Se dissermos que papai noel não existe, poupamos Enzo de toda uma historinha homogeneizante, cheia de uma moral que não é a nossa; podemos ensiná-lo que presente é legal, mas não é o objetivo das celebrações; vamos estimulá-lo a valorizar a “mágica” da vida real, das pessoas reais. Mas também vamos tirar dele uma parte da mágica da infância; transformá-lo no chato da escola que conta pra todas as crianças que papai noel não existe; no único que não fica com frio na barriga pra saber se papai noel veio ou não.
Eu poderia me basear na minha própria experiência: fui super estimulada a acreditar em papai noel, mas nem por isso virei uma louca consumista. É fato. Mas também é fato que os paradigmas mudam de uma geração para outra, que cada pessoa é de um jeito, que o que funciona comigo pode não funcionar com meu filho. E eu nunca fui mesmo muito adepta de reproduzir, sem refletir, a educação que nos foi dada no passado. Ouço muita gente justificar atitudes às vezes condenáveis com o velho bordão “meus pais fizeram isso comigo e deu certo”. Não quero ser esse tipo de mãe. Portanto, a reflexão está posta.
Alguém se habilita numa sugestão?
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