maternidade real

A mãe tem um prazo apertadíssimo, que está dando o maior trabalho: não acha fontes; ninguém sabe do assunto; os que sabem não querem falar; há pouca informação disponível em locais confiáveis; o tema é compleeeeexo; ela nunca escreveu sobre isso, de modo que também está aprendendo; muitos interesses em conflito, daí que são zentas versões diferentes e uma jornalista vendida na situação, que precisa escrever uma capa em 3 dias.

O que acontece então? Acontece que a tal maternidade real fica mais real ainda:

1) Mamãe, essa coleira convicta que acha mesmo que lugar de filho é no colimdimamãe, começa a tentar convencer Enzo de que, talvez, colimdimamãe não seja assim tão bom. Filho chora lá no sofá, depois de uns minutos distraído. Mamãe ainda está no começo daquele e-mail importantão que pode definir muito da bagunça em que a apuração se encontra. E aí a cria continua chorando, enquanto mamãe faz força pra ignorar, tentando se concentrar pra terminar a p… do e-mail. Filho chora mais, mamãe tenta dialogar, depois de dar uma espichada de olho e ver que está tudo ok. “Mamãe já vai, espera só mais um pouquinho”. Mais choro. Mais “calma, filho”. Mais mãe tentando se concentrar pra terminar mais rápido. Finito! Mãe termina o e-mail. Olha pro filho, feliz, pra dar a boa notícia. Silêncio. Filho deitadinho no sofá, segurando a naninha, dormiu. Na prática, mamãe fez o que, na teoria, as moças que pensam como ela não deveriam fazer: deixar bebê chorando, sem resposta, até adormecer. Mamãe suspira, triste, ajeita Enzo no sofá pra ele dormir melhor e corre pro notebook aproveitar o tempo, que o tempo “ruge”.

2) Mamãe vai ao freezer pegar papinhas para dar almocinho ao recém-acordado minimenininho, que brinca feliz e contente no carrinho (coisa rara, minhagente, beeeeem rara). Descongela a papinha, dando graças aos céus por ter tido a brilhante ideia de deixar várias prontas congeladas, e começa a servir o bebê. Mas acontece que Enzitolino está muito mais interessado em continuar brincando do que em comer.  Mamãe, em condições normais de temperatura e pressão, não insistiria. Guardaria a papinha por mais alguns minutos e ofereceria depois. Respeitaria a inclinação do guri. Aliás, não teria nem oferecido, já ciente de que a cria estava dando de ombros pra essas necessidades da natureza. Aproveitaria, pois, a tranquilidade para deixar pronta a frutinha da sobremesa. O que a mamãe faz de fato? Insiste. “Ah, Enzo, só mais essa colheradinha, vai”. “Filho, come mais essa”. “Não cospe tudo, está tão gostosa”. “Isso, gargalha mesmo que a mamãe aproveita e bota mais uma colher na sua boca”. Resultado: muxoxo, chororô, 20 minutos de queda de braço, com Enzitolino derrotando mamãe e sua colher cheia de ervilhas-e-beterrabas-e-abóboras-e-espinafres de lavada. Nem metade do potinho foi consumido, Enzo agora está irritado e mamãe, frustrada e atrasada.

3) Todo mundo sabe que não se deve dar mamadeira aos bebês quando eles não querem comida. Mamãe também sabe. Só que mamãe tem pressa. Lembra que Enzo não comeu direito? Pois é, então agora Enzo está com fome. Só que mamãe está atrasada e não pode ficar outros 20 minutos dando comida de novo (lembra que ela, contrariando suas mais sábias determinações, insistiu à beça com o bebê?). Pois eis que ela tem a brilhante ideia de dar a mamadeira. Mamãe prepara em dois minutos, bebê mama em outros cinco minutos. Almoço resolvido. Resolvido? Será? Mamadeira não é almoço, mamãe sabe. E suspira, arrependida. Mas o que está feito, está feito. E mamãe corre pro notebook que o tempo, ah, esse “ruge”.

4) Todo mundo sabe que os bebês devem comer ao menos três porções de frutas por dia. Mamãe também sabe. Acontece que ela não teve tempo de ir comprar frutinhas fresquinhas. Acontece que ela olha na geladeira, esperando pela redenção, e só encontra uma (sim, UMA) ameixa, madura demais. Mamãe analisa a fruta, vira, desvira, cheira, chacoalha, parece boa, parece estragada, deixa pra lá que eu não vou ter coragem de dar isso ao Enzo. Gosto amargo da frustração combinado com o gosto azedo de que p. de mãe eu sou, sabe como? “Ah, não, filho, não tem nem fruta!”, a mãe desabafa, com a cara mais feia do mundo, porque Enzitolino para tudo o que está fazendo e encara a mãe, sério. E mãe devolve o pequeno no sofá e volta pro note, um tanto aliviada de não ter dado nada, porque demoraria ainda mais amassar fruta, botar bebê no cadeirão, botar babador, dar fruta, brincar com Enzo brincando com a fruta, tirar babador, tirar bebê do cadeirão. E aí a mãe se dá conta de que, secretamente, comemora não ter alimentado direito seu filho, deosdoceu! E aí fica triste de novo, mas pega o telefone e liga pro próximo de sua looooonga lista de fontes.

E passa o dia se sentindo a mãe mais porcaria de todas as mães, de todos os mundos, de todos os planetas, de todos os tempos, de todas as galáxias. E quase liga pro marido pra encher o saco dele desabafar. E quase liga pra própria mãe pra encher o saco dela desabafar. E, atrasada, liga pra fonte pra encher o saco dela entrevistar.

Balanço do dia: culpa-materna-nível-máximo MODE ON convicto.

Conclusão inconteste: maternidade real sucks!

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7 Comentários

Arquivado em lado B, Maternidade

7 Respostas para “maternidade real

  1. #maternidaderealsucks!

    há seis meses atrás a madresfera teria um adjetivo pra você: #maedemerda!!! mas #quemnunca teve um dia de mãe de merda que jogue a primeira pedra! não mata, não! #prontofalei

    “quer um bom conselho que te dou de graça”: ligue pra sua mãe mesmo e peça para ela dar um passeio com enzo, fará bem para todos os três, especialmente para enzitobonitico! aliás, ligue pra qualquer um que possa distrair ele por uma hora ou duas e faça o que precisa ser feito… peça ajuda, baby! se eu morasse aí, ele viria brincar com arthur, alice e lea, viu!

    beijoca

    “*” chico, claro: http://letras.terra.com.br/chico-buarque/85939/

  2. Faz parte da natureza feminina querer ser perfeita em tudo, em todos os momentos…mas como escreveu Mari, quem nunca pisou na bola que atire a primeira pedra! Todas nós já tivemos um dia de “atalhos”.

  3. Paula

    Fica assim não, Nat! Essa culpa que persegue as mães desde os primórdios, por diferentes motivos, vai fazer parte da nossa rotina para todo o sempre…
    Será que a gente se acostuma com ela?!?
    Acho que não, hein… rsrs
    #tamoferrada

    P.S.: descobri seu blog recentemente e estou amando! Meu filhote está com quase 8 meses, idade parecida com a do Enzo, imagino 🙂

  4. Já me senti assim várias vezes, Nat. Não tem como fugir, mesmo a gente querendo sempre dar o melhor, haverá dias que vamos bater de frente com nossos princípios e depois sentir toda culpa a que temos direito. Faz parte da maternidade real.
    Beijos

  5. Nat

    Mari,
    queridona, adorei o #maedemerda! e adorei o madresfera.
    posso adotar? 🙂
    Já adotei sua sugestão de incluir as avós. Minha mãe passou parte da tarde com ele hj (brincaram, passearam, Enzito comeu mamãozinho com a vovó, dilícia). Amanhã, minha sogra vem! 🙂

    PS: amo Chico (todas amA, né?)

    bjos

    **************************************
    Adriana,

    Quem nos convenceu que era legal ser multi-tarefas fez o trabalho direitinho, né? Como a gente se cobra essa perfeição, menina! Que coisa! Ahah ahah. “Atalhos”… E olha que tomei um monte deles ontem! 🙂

    bjos

    **************************************
    Paula,
    fato: culpa = mãe. ahah ahah
    obrigada! apareça sempre, palpite sempre, adooooro conhecer mães bacanas! 🙂
    Enzo tem exatamente 8 meses. Como se chama seu filho?

    bjos

    **************************************
    Dayane,
    putz, nem me fale. Bati de frente com váááários princípios! Se tivesse sido um só…. Mas é como vc disse, faz parte, né? Só que a culpa, bom, essa fica. Ô danadina…

    bjos

  6. Pingback: o papel do pai | mãederna

  7. Pingback: já quebrei a testa | mãederna

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