Arquivo do mês: março 2012

duas receitas prometidas

Eis que há uns 2 ou 3 meses, quando Enzo começou a comer papinhas, eu prometi que socializaria as receitinhas aprovadas pelo meu minimenininho. Contei que estava com dificuldades para encontrar dicas de alimentação e que, tão logo achasse alguma coisa bacana que valesse para Enzo e para mim, postaria por aqui.

Dia vai, dia vem, e essa moça atarefada -e ligeiramente atrasada- que vos escreve acabou não postando receita nenhuma. Falta de tempo para organizar tudo, já que a maioria das papinhas que dão certo saíram da minha cabeça. Daí que hoje, finalmente, estou com duas receitinhas prontas, escritas, anotadinhas, devidamente registradas no Livro de Receitas do Minimenininho. Voilà, espero que sejam úteis:

PAPINHA VEGETARIANA

1/2 xícara das de chá de ervilha seca

1/2 maço de brócolis ninja

2 mandioquinhas médias picadas e sem casca

2 cenouras médias picadas e sem casca

2 abobrinhas médias picadas, sem casca nem sementes

1/2 cebola média

1 colher das de chá de azeite extra-virgem

O preparo é simples: Colocar o azeite a cebola numa panela, deixar dourar um pouco. Depois, acrescentar as ervilhas (lavadas) e os demais ingredientes, com exceção do brócolis. Acrescentar água suficiente para cobrir os vegetais e ainda sobrar um dedo. Deixar em fogo alto até levantar fervura, depois colocar em fogo baixo e cozinhar até que os ingredientes estejam macios. Acrescentar o brócolis e deixar no fogo até o brócolis ficar macio e cozido. Amasse com o garfo até atingir a consistência recomendada pelo seu pediatra (ou aquela com a qual seu filho esteja habituado).

*********************************************

FRANGO COM LENTILHA

1/2 xícara das de chá de lentilhas

2 filés bem frescos de peito de frango

2 chuchus médios picados e sem casca

1/2 abóbora tipo paulista média picada, sem casca e sem sementes

2 xícaras das de chá de escarola picada (aproximadamente)

1/2 cebola média picada

Salsinha a gosto (eu uso quase uma xícara)

1/2 colher das de chá de azeite extra-virgem

Preparo: Em uma panela, colocar a cebola, 1 colher de azeite, a lentilha e os legumes. Deixar dourar rapidamente e cobrir com água, colocando o suficiente para cobrir os alimentos e ainda sobrar um dedo, aproximadamente. Deixar em fogo alto até ferver e depois reduzir para fogo baixo. Colocar os filés de frango juntamente com meia colher de azeite em outra panela, deixar em fogo baixo e tampar para que o frango cozinhe em sua própria água. Se for preciso, acrescente um pouco de água (mas bem pouco). Quando a carne estiver cozida (eu sempre corto em vários pedaços para me certificar de que o interior está pronto), tirar a tampa da panela e deixar o frango dourar por mais alguns minutos. Em seguida, desfie o frango utilizando dois garfos (um segura a carne, o outro desfia).  Reserve.

Quando os legumes e a lentilha estiverem macios, acrescente a escarola bem picada e a salsinha e espere por mais cinco ou dez minutos, até que a escarola mude de cor. Aí acrescente o frango desfiado e deixe mais uns cinco minutos em fogo baixo. Antes de servir, amasse com o garfo até atingir a consistência recomendada pelo seu pediatra (ou aquela com a qual seu filho esteja habituado).

As receitas são sugestões, baseadas na orientação da pediatra do Enzo, na Cartilha do Ministério da Saúde, e no conhecimento popular que diz que uma dieta balanceada é aquela “colorida” (com vegetais de cores diferentes, pois cada cor evidencia um certo tipo de componente ou vitamina contido no alimento).

Procuro sempre colocar ao menos um carboidrato, uma leguminosa (ervilha, lentilha, feijões etc), um legume e uma verdura. A papinha pode ser servida com arroz, e os vegetais podem ser oferecidos separadamente ao bebê, ao invés de tudo junto, como eu sugiro na receita. E, claro, o ideal é sempre conversar com o pediatra para se certificar de que seu filho pode comer esses alimentos, feitos dessa forma.

Uma preocupação que eu tenho é sempre que possível oferecer alimentos orgânicos. Apesar de aumento da oferta de orgânicos, eu confesso que não tenho encontrado legumes desse tipo com muita facilidade. Há sempre orgânicos nos supermercados que frequento, mas em geral são sempre os mesmos; há pouca variedade. De qualquer forma, a dica é procurar orgânicos e sempre, sempre os alimentos mais frescos possíveis. E ouvir as informações dos funcionários dos supermercados. Eles sempre sabem quais são os vegetais mais novos, os que estão “na época”, os que são mais macios… Informações valiosas, portanto, especialmente se você, como eu, é 100% urbana e demorou horrores para descobrir a diferença entre escarola e catalonia.

Deixe um comentário

Arquivado em livro de receitas do minimenininho

por que sou contra propaganda para crianças

Sou leiga. Não tenho argumentos acadêmicos nem conhecimento para fazer um debate em profundidade. Mesmo assim, como mãe e como cidadã, sou contra a publicidade dirigida ao público infantil, pelo menos da forma como é hoje. Tenho lido manifestações sobre isso aqui, ali e acolá, muitas mães, ONGs e interessados estão debatendo o assunto há pelo menos uma década e, recentemente, a ABAP, que é a associação dos publicitários, resolveu defender os interesses da categoria jogando toda a responsabilidade nas costas dos pais e das escolas (vou falar sobre isso mais pra frente), o que esquentou a discussão e os ânimos. Senti, pois, que era hora de me manifestar também.

Como leiga, mãe e alvo de publicidades a vida inteira, sou contra a propaganda para crianças especialmente pelo seguinte:

1) Desrespeito à infância: o consumismo é contrário à inocência da infância. Trata-se de um grupo de valores essencialmente do mundo adulto e que promove “valores” como o ter pra ser, o que já é questionável entre adultos, que dirá para crianças. Quando falo em inocência, não me refiro à sexualidade. Para mim, a inocência infantil é olhar o mundo sem cinismo, sem competições, sem cisão. Criança é gregária. Nós, adultos, é que “ensinamos” a eles como repelir o diferente. E a publicidade e a mídia, disseminando o consumismo, estimulam as crianças a abrirem mão da infância, a apegarem-se a valores adultos para “sentirem-se alguém”, já que, reza a cartilha do consumo desenfreado, ser alguém virou sinônimo de ter alguma coisa. Às favas, portanto, com o respeito próprio pelo que se é, ao respeito ao outro pelo que ele é.

A publicidade e o consumismo disseminam, além do mais, valores estereotipados sobre sexualidade, classe social, comportamento de gênero, raça, religião. Outro desrespeito à infância e à liberdade de pensamento, experimentação e ao lúdico, característicos dessa fase. Hoje é muito comum -movimento que penso que começou quando eu era criança, nos anos 80- os pequenos preocupados com salário dos pais, com os carros dos pais, com a posição social dos pais e com outros indicadores de status familiar na sociedade.

Também vejo com frequência crianças culpando os pais por não terem dinheiro para lhes dar esse ou aquele modelo de celular, roupas da marca X ou acesso a salões de cabeleireiros com a mesma frequência que os pais das amigas oferecem às filhas. Vejo com tristeza meninas de 10 anos ou menos alisando seus cabelos, pintando os cabelos, pintando as unhas. Eu também fiz isso e é natural que as meninas copiem as mães e mulheres mais velhas, mas quando acontece ocasionalmente e quando é lúdico. Tornar esses comportamentos como padrão é encurtar a infância, coisa estimulada pela mídia em geral, incluindo aí as propagandas para crianças.

2) Convencimento: publicidade é, basicamente, tentar convencer você a comprar algo de que não precisa. Se precisasse, você mesmo já teria comprado, sem “ajuda” de ninguém. E esse convencimento não é feito na base do argumento racional. Até tem informações realmente importantes em comerciais de TV, revistas, jornais. Mas o principal conteúdo publicitário é aquele que fala aos desejos e aspirações e dá uma banana à  alegada racionalidade.

Uma coisa é fazer isso com adultos, teoricamente mais capacitados para separar o joio (apelo às emoções) do trigo (as informações que realmente valem a pena e ajudam a tomar uma decisão racional de compra), teoricamente mais seguros de si e menos vulneráveis às imagens publicitárias sobre o que é “bom”, o que é “belo”, o que é ser “legal”, o que é ser “bem sucedido”.

Outra bem diferente é usar as crianças para obter lucros. O mesmo jogo manipulatório que se instala com os adultos (inflamar desejos latentes e fazer crer que o produto “y” vai proporcionar determinada coisa -que não é bem o produto em si) é reproduzido com os pequenos. Só que os pequenos são…pequenos, estão em formação, são mais vulneráveis, pois.

Acho moralmente questionável usar esses métodos com crianças, para dizer o mínimo. Acho moralmente questionável, para dizer o mínimo, que as empresas falem diretamente às crianças e usem os pequenos para ganhar dinheiro. Por quê?

3) Tratar desiguais como iguais é violência: Por isso. Porque tratar crianças como se fossem iguais aos adultos, ali no limite entre a malandragem e a falta completa de ética, é uma violência. É manipulação pura e simples em busca de lucros. É saber que as crianças não estão prontas para “dialogar” com os conteúdos publicitários e aproveitar isso em benefício próprio para vender mais.

Dito isso, não sei qual seria o modelo ideal, se proibir totalmente ou regular-se limites, por exemplo, por faixa etária (crianças de 2 anos são diferentes de crianças de 8 que são diferentes de pré-adolescentes de 12). Mas é fato, pra mim, que como está não pode ficar. Acho um desrespeito à infância. E se isso tudo já não fosse motivo suficiente, tem mais:

O modelo atual é falho, na minha opinião, também por causa da tal autorregulamentação. Não acredito nela. Não quando há tantos interesses e tanto dinheiro em jogo. O mercado publicitário no Brasil (no mundo?) é bilionário. É só dar uma olhada aqui e aqui para comprovar. Faturou R$ 28,45 bilhões em 2011, segundo dados do Projeto Inter-Meios, do jornal Meio & Mensagem. Acha mesmo que eles vão contrariar os próprios interesses e arriscar ganhar menos?

Daí quando todo mundo achava que, de repente, fosse possível estabelecer algum diálogo civilizado com a turma da publicidade e com as empresas que eles representam, eles me aparecem com essa campanha aqui, que diz que “somos todos responsáveis” querendo dizer “vocês, pais, mães e educadores, que se virem com os seus filhos”.

Eles defendem, por exemplo, na página que criaram para a tal campanha, que pedir brinquedos é saudável, pois isso ensina as crianças a almejar coisas. Que argumento mais ridículo, com todo o respeito. Querer coisas é inerente ao ser humano. Nós já queríamos coisas bem antes de inventarmos as fábricas de brinquedos. A evolução do homem não começou quando as fábricas de brinquedos nasceram. E há coisas e coisas a serem almejadas -uma boa discussão, aliás. Há quem queira ensinar aos filhos que é possível desejar SER alguma coisa. Os publicitários querem que os nossos filhos só desejem TER alguma coisa.

É mesmo diálogo que os publicitários querem quando tentam empurrar goela abaixo argumentos desses? Dá mesmo para confiar no bom senso de quem argumenta uma bobagem dessas para decidir os limites da propaganda infantil? Eu acho que não.

E penso que é sim papel nosso -de pais e mães- orientar nossos filhos em relação ao mundo em que vivem, o que inclui publicidade, consumismo, desejos, modelos de vida, estereótipos etc. Mas não podemos ser os únicos responsáveis por isso, como se não houvesse responsabilidade nenhuma no ato deliberado de se tentar manipular um desejo infantil para lucrar mais com ele…

Também precisamos ser realistas e perceber que, com a publicidade como está, o embate entre pais x mídia é desigual, com larga vantagem para o conteúdo da propaganda, baseado em pesquisas sofisticadas, psicologia, manipulação de desejos inconscientes e por aí vai. Por mais que sejamos presentes, que nosso maternar/paternar seja ativo, vamos sempre usar a racionalidade para mostrar aos nossos filhos o mundo que nos cerca. Os publicitários, não.

Para os publicitários, eu digo o seguinte: se é para vender -e as empresas têm todo o direito de tentar comercializar seus produtos- como bem lembrou a Mari, que vendam para mim. Aí sim o jogo será mais equilibrado. E, claro, aceitem a responsabilidade integral quando forçarem a barra, aceitem que sermos “todos” responsáveis inclui vocês aí, das agências, das indústrias, do marketing, do desenvolvimento de produtos para crianças. Aí sim a gente pode começar a achar que vocês querem dialogar de verdade, pensando no interesse coletivo. Aí sim quem sabe eu acredite no CONAR.

Porque é fácil encher a cabecinha dos pequenos de informações manipuladas e dizer que responsáveis somos os pais, né? Então os publicitários se responsabilizam pelo quê mesmo?

Quanto à regulamentação, penso que o Estado que, em tese, somos todos nós representados, esteja aí para isso também, mesmo sendo o Brasil um país capitalista. O Estado deve regular as relações comerciais e as relações entre desiguais. Do contrário, vira um “quem pode mais, chora menos”. A Constituição Federal e o ECA deixam bem claro, falando especificamente de infância, que é dever do Estado proteger as crianças. Não vejo nenhum problema em regulamentar, portanto, a publicidade infantil que, bem ao contrário do que pode parecer, não é uma simples disseminação de conteúdo. É tentativa de arrancar uns trocos a mais de crianças inocentes colocando em risco a infância delas, sua visão de mundo e seu respeito próprio.

Recomendo a leitura, para quem quer saber mais, de alguns posts bacanas, que fazem refletir:

http://www.viciadosemcolo.blogspot.com.br/2012/03/infancia-livre-de-consumismo.html

http://www.viciadosemcolo.blogspot.com.br/2012/03/neide-teve-e-propaganda.html

http://www.whatmommyneeds.net/2012/03/por-que-eu-nao-sou-favor-da-proibicao.html

http://blogdodesabafodemae.blogspot.com/2012/03/somos-todos-responsaveis-mesmo.html

http://publicidadeinfantilnao.org.br/

4 Comentários

Arquivado em Maternidade, paternidade, reflexões

o bebê, o e-mail e a mãe

Mãe precisa mandar um e-mail. Bebê está sentado ao lado dela, brincando com um telefone quebrado, distraído e eufórico. Mãe pensa que pode ser o momento de sacar o notebook, propositalmente depositado ali do lado, e tentar, finalmente, escrever o dito-cujo.

Já disse que as mães são muito inocentes? Pois é, elas são, tadinhas.

Daí que é só a mãe entrar no gmail e clicar em “escrever” que o bebê, de repente, se desinteressa totalmente no telefone quebrado e volta seus olhinhos brilhantes, sua atenção e suas mãozinhas ágeis e ávidas para o teclado do computador.

Então mãe para de digitar, desvia o note do pequeno, mostra, de longe, uma coisa ou outra no computador para saciar a curiosidade do pequeno explorador e entrega outro brinquedinho para o bebê, que se distrai.

Ela espera uns segundos, confirma a distração da cria e volta a escrever. Digita MEIA palavra e…pumba! Dedinhos ágeis, que não são os seus, apertam centas teclas ao mesmo tempo.

Mãe ri, orgulhosa, da esperteza do neném e trata logo de tirar o note do alcance da cria. Insiste em tentar chamar sua atenção para outra coisa e acha uma orelhinha plástica de cachorro plástico que, no dia anterior, fez tremendo sucesso com o pequeno. De posse do novo objeto, bebê olha, analisa, leva à boca e vira-se de costas pra mãe e computador.

Respirando aliviada e pensando um inocente “agora vai” (já disse que mãe é tudo inocente?), ela retoma o princípio de e-mail, termina de escrever a metade da palavra e…oops! Eis que o minimenininho já jogou a tal orelha longe e está todo em cima do teclado, que está no colo da mãe. Duas dedadas bebezísticas e a área de trabalho vira de ponta cabeça, sabe como?

ABRE PARÊNTESE PARA QUESTIONAR A MICROSOFT: Alguém, plis, me explica: pra que a Microsoft libera teclas de atalho pra virar a tela de ponta cabeça? Já acho difícil acreditar que alguém vá usar um computador com tudo ao contrário. Imagine, então, usar tanto que precise de uma tecla de atalho! Microsoft, querida, que tal pensar nas mães com bebês xeretas? Hein, hein? FECHA PARÊNTESE.

Daí que mãe, que antes só queria escrever um e-mail rapidinho, agora precisa segurar o filho que segue avançando sobre o computador, arrumar a tela (coisa que ela não lembra mais #comofaz) e, antes,  ligar pra alguém pedindo socorro pra arrumar a tela.

Com bebê pendurado no colo, ralhando à beça com a mãe porque quer mexer no note, que ficou lá no sofá, mãe levanta, acha o celular no meio da bagunça que está a mesa da sala, liga pro marido. Ele há de saber, pensa.

-Sua chamada será encaminhada para a caixa de mensagens e estará sujeita à cobrança depois do sinal.

Daí mãe tenta seu próprio pai. Celular de novo. Enzo começa a chorar, porque quer porque quer brincar com o celular, que está, nesse momento, grudado na orelha da mãe. Bebê é insistente. Puxa o rosto da mãe, puxa pelos cabelos, tenta escalar a tadinha até alcançar o aparelho. Não alcança, se retorce, vê a Jóh passar (a gata salvadora da pátria) e gargalha, distraído.

Chama, chama, chama. Finalmente, o avô atende, a mãe conta o causo. Depois de loooongos segundos de risada desabrida do vô (todo mundo acha engraçada a inocência da mãe…Mandar e-mail com o bebê acordado… ahaha ahah ahah hahaha. Tadinha), a resposta:

-É só dar control, alt e seta pra cima que volta pro lugar.

Esse “é só” atestando a burrice falta de conhecimento materno é um pequeno soco no estômago. Mas ok, ok, obrigada. Mãe volta ao sofá, abre o note, dá control, alt, seta pra cima, tela volta ao normal. Bebê estica, estica, estica pra alcançar o teclado, mãe faz ginástica pra mantê-lo longe do note. O embate dura alguns segundos. Ambos estão suados. Mãe desiste do e-mail, finalmente (alôou! tem alguém aí, mamãe?). Fecha o note. Coloca de lado. Senta com Enzo no chão. Escolhe um brinquedo.

E, encafifada, pensa:

-Mas como c#%*lhos você conseguiu dar control, alt e seta pra baixo, filho? Vai ter muita coisa pra me ensinar, esse menino.

Deixe um comentário

Arquivado em bebezices, brincar

personalidade em formação

Acho maravilhoso assistir, com ingresso VIP, à formação de uma personalidade. É um dos privilégios que temos por ser mães. Nossos bebezicos, aquelas coisicas pequenas, confusas, que não tinham a menor ideia do que eram e de onde estavam, poucos meses depois já têm um admirável domínio de si mesmos. Tanto que, muito além de ter desejos, preferências, quereres, brigam por eles.

De repente, a cria quer ficar só de pé; de repente, se joga na direção de um cômodo ou de outro e escolhe onde quer brincar; de repente, não quer mais vestir as calças, nem as blusas, nem roupa nenhuma; de repente, nega uma comida, mas aceita outra, evidenciando as preferências; de repente, se move em busca de um brinquedo específico, mesmo que a gente ofereça outros; de repente, se movimenta freneticamente até nos fazer entender que quer que levantemos com ele no colo; de repente, solta gritinhos de alegria quando acertamos que ele quer pegar o celular; de repente, reclama se o colocamos sentado de um jeito, mas ri quando o mudamos para outro; de repente, aceita uma coisa, mas não aceita outra de jeito nenhum; de repente, está observando, escolhendo, optando, se expressando com destreza e conduzindo boa parte do próprio dia.

Sim porque suas escolhas nos levam a dar a ele o acesso a boa parte do que ele pede, de modo que ele decide onde, quando e com o que brincar; onde, quando e o que comer; onde e quando dormir; onde, quando e por quanto tempo passear e assim por diante.

Fico admirada, pois acho que fazer tudo isso envolve uma série de habilidades novas e complexas. É preciso o bebê ter consciência do mundo que o cerca -de sua rotina, das ações dos pais etc-, de si próprio, conseguir avaliar o impacto desse mundo sobre si e distinguir entre o que será “agradável” ou “desagradável” de acordo com as preferências anteriormente reconhecidas. E, além de tudo, ter habilidades para expressar-se a contento.

E Enzitolino tem colocado em prática todas essas habilidades. Hoje cedo, por exemplo, ele acordou e, como de costume, levei o pequeno até o papai, que estava no escritório. Bom dia, bom dia, beijinhos, abracinhos, carinhos, saímos pra deixar o Dri à vontade e ficamos na sala, Enzito cercado de brinquedos. Mas eis que o bebê estava impaciente e, sentado no sofá ou no meu colo, só queria saber de ficar de pé. Gesticulava muito, balbuciava num tom de desaprovação e ansiedade e se jogava na direção do escritório. Levei ele até o pai e…bingo! Bebê calmo novamente.

Há poucas semanas, Enzo não estava assim tão fluente em relação a suas próprias escolhas. Mostrava um pouco da personalidade aqui e acolá, mostrava preferências, mas timidamente, hesitante. Agora já não noto quase hesitação nenhuma. Meu minimenininho sabe o que quer e expressa isso, outra coisa que chama a atenção, pois a comunicação evolui rapidamente. O choro já não é mais a principal forma de expressão, pelo contrário. Enzo só chora quando esgotou todas as outras possibilidades ou quando está cansado ou com fome (e mesmo assim, só quando não percebemos sinais iniciais de sono/fome e demoramos muito para dar a ele acesso à comida e caminha).

Em comunicação “verbal”, por assim dizer, Enzitolino usa principalmente duas habilidades: ele protesta, emitindo sons de desagrado, ou endossa nossas atitudes dando sonoras gargalhadinhas ou gritinhos empolgados. Mas ele “fala” muito com o corpo também: faz caretas engraçadíssimas -que nos fazem rir, mesmo quando ele está meio bravo-, ri bastante, se movimenta de forma bem típica quando está alegre ou aprovando algo e nos “dirige” para onde quer ir, jogando todo o corpo, incluindo braços e pernas, na direção em que deseja ir. Ou se põe de pé e ralha com a gente quando não está satisfeito com alguma coisa.

Começar a conhecer o mundo, começar a conhecer a si mesmo e -essencial- começar a compreender a relação que existe entre “eu” e o “mundo”, para mim, é a base de toda a liberdade possível, pois é liberdade de informação, de análise/avaliação/pensamento e, consequentemente, liberdade -genuína- de ação. Não é fascinante que o pequeno esteja começando a dominar tudo isso com tanta desenvoltura? E não é fascinante poder acompanhar de camarote e ir vendo, aos poucos, a personalidade deles ganhando corpo, espaço, se fazendo notar e materializar em ações? Não é bacana ver a autoestima dos bebês se construindo? Pra mim, é, sem dúvida, mais uma faceta sensacional da maternidade.

Deixe um comentário

Arquivado em bebezices, Maternidade, paternidade

o papel do pai

Aqui em casa não há uma divisão formal de tarefas entre marido e eu, tipo mamãe faz isso e papai faz aquilo. Qualquer um de nós faz o que tiver de ser feito, o que for possível ser feito, seja lavar roupa, lavar banheiro, fazer o jantar, passar pano na casa ou cuidar do Enzo. E muitas dessas tarefas domésticas são cumpridas à noite e aos finais de semana.

Anteontem, por exemplo, Dri chegou exausto do trabalho, mas foi faxinar a casa, lavar a louça, preparar nosso lanche. Enquanto isso, eu dava jantinha pro Enzo, banho, colocava pra dormir. Hoje, é possível que ele tenha de me ajudar a lavar a cozinha. Sim, a jornada tripla aqui não conhece diferença de gêneros, é da mãe, mas também do pai.

E daí que pode parecer que não, mas isso tem tudo a ver com maternagem. Com a maternagem possível. Pra mim, caiu a ficha ao ler um texto com um depoimento de uma mãe que dizia que não conseguia dar colo ao filho na medida do que gostaria por ter as tarefas de casa todas para fazer ao longo do dia. Ao bebê, restava tempo apenas para cuidar das necessidades físicas básicas de sempre, aquelas que não podem ser adiadas.

Esse arranjo (mãe-dona-de-casa-sobrecarregada) não é novidade. Minha mãe viveu isso comigo e com meu irmão. Nunca que ela poderia parar de fazer o que fosse em casa para brincar comigo ou para me dar colo. Até porque, se ela deixasse de fazer, ninguém faria por ela. E eu tinha um irmão que precisava comer, um pai que chegava para jantar, enfim, a vida era outra e era necessário que a prioridade filhos X casa fosse compartilhada.

Percebi, portanto, que a minha opção de maternagem, que inclui apego, colo em livre demanda, brincadeiras, atenção integral às necessidades físicas e emocionais do Enzo e disponibilidade total para ele, depende muito -quase exclusivamente- do acordo tácito que tenho com o marido em relação às responsabilidades da casa.

Durante o dia, minha prioridade absoluta é o Enzo. Quando ele dorme ou se distrai sozinho, sem necessidade da minha companhia, é o tempo que tenho para trabalhar, para dar conta do prazo, afinal (já contei aqui e ali minhas aventuras trabalhando em casa com um bebezico delícia que adora atenção). Geralmente, antes mesmo de eu terminar minhas tarefas jornalísticas, Enzo já acordou de novo ou já notou que eu dei uma fugidinha até a mesa -e já está protestando por isso, claro.

De modo que limpar a casa, fazer comida ou lavar as roupas são coisas que não cabem na minha rotina diária. Quando dá, eu faço. Ninguém quer, às 22h30, cansadaça, louca pra ler um livro ou assistir um DVD com o marido, começar a faxinar o banheiro, né? Pois é, nem eu. Mas lidamos com o possível e o possível é feito de escolhas.

Quando aproveitei meu home office para ficar com Enzo, a decisão foi FICAR COM ENZO. Não com a casa. Não com a faxina. Não com a roupa para lavar. Não com o jantar/almoço. Daí que priorizo Enzo. Do contrário, não haveria razão para não colocá-lo num berçário e ir logo trabalhar fora.

No fundo, acho que o papel de pai que Dri representa inclui -mas claro que não se limita a- permitir que eu seja a mãe que quero ser pro Enzo, a mãe que acredito que devo ser, a mãe que acho que Enzo merece, da qual precisa, pela qual espera. Respeitaria meu filho se ele fosse diferente, mas a cria é um bebê que precisa de mãe, que adora colo, que adora companhia, que quer aprovação e afeto o tempo inteiro. É um bebê dependente.

Por meu lado, sou uma mãe que acha ótimo que o filho seja dependente nessa fase da vida, pois é nisso que acredito: bebezicos dependentes são iguais a crianças, adolescentes e adultos seguros, confiantes, com autoestima saudável. De modo que Enzo e eu combinamos bem. E o Dri, que compartilha comigo essa ideia sobre criação dos filhos, nos dá esse espaço porque não se furta às obrigações domésticas só por ser homem ou só por trabalhar fora.

ABRE PARÊNTESE: Preciso dizer que essa postura do marido não é de hoje, não é do nascimento do Enzo. Sempre foi assim. Dri nunca achou que limpar a casa fosse minha tarefa, nem nunca fez muxoxo para arregaçar as mangas, comigo, e dar conta das chatíssimas tarefas de casa. FECHA PARÊNTESE.

É comum, navegando por sites de jornais e revistas, encontrar especialistas questionando o papel do homem no mundo de hoje, o papel do pai na família etc etc etc. Pode ser que o papel que Dri assumiu não interesse a todos os homens desempenhar, nem mesmo a todas as mulheres. E, de verdade, respeito isso. Acho todo arranjo familiar válido; o que importa é fazer sentido para aquela família.

Mas aqui em casa, é justamente essa postura do marido que me dá o tempo de que preciso para por em prática aquilo no que acredito, como mãe.

5 Comentários

Arquivado em Maternidade, parentagem por apego, paternidade

mais uma sobre partos

Essa blogagem coletiva sobre violência obstétrica me deu muito o que refletir. Nesses dias, li coisas interessantíssimas na madresfera (posso emprestar o termo, Mari?) e dois textos em particular me chamaram mais atenção, pois falaram mais claramente coisas que eu andava matutando, mas que não tinha ainda conseguido colocar em palavras, elaborar racionalmente.

Vou pela ordem de leitura, então. Esse aqui, da Mari, do Viciados em Colo, foi de uma clareza e de uma sobriedade arrebatadoras. E foi doído também, uma vez que botou em evidência sentimentos com os quais a maioria de nós lida ou tem lidado. Ela mostra todos as etapas pelas quais passamos quando descobrimos que sofremos uma cesárea desnecessária, quando entramos em contato, ainda que virtual, com a possibilidade de outros partos. Vale muito a pena ser lido.

Comentei com ela, lá no Viciados, algumas coisas que acho que complementam bem o post que fiz sobre violência obstétrica. Para começar, a responsabilidade por ter feito uma cesárea foi, em larga medida, minha mesmo. Queria um normal, mas não me preparei para ele nem física nem psicologicamente.

Fisicamente faltou um monte de coisas: atividades físicas adequadas -e recomendadas- para gestantes, atenção com a pressão, diminuição efetiva do sal nos alimentos, uma dieta mais equilibrada e uma longa lista de etc.

Psicologicamente faltou calma, tranquilidade e, portanto, atenção ao que realmente importava. Faltou também confiança em mim e no meu corpo, faltou entrega à gestação, entrega à natureza, ao ancestral, ao feminino ancestral em nós, ao arquétipo de mãe, aos antigos mitos fundadores da maternidade. Faltou encarar o parto com a naturalidade necessária para deixar de temê-lo e, assim, passar por ele.

Reconheço também que toda a informação de que disponho hoje já estava por aí, na madresfera. Fui em quem não busquei ou não busquei adequadamente, nos lugares certos. Ignorância pode até ser justificativa, mas não desculpa.

De modo que, respondendo à pergunta que a Mari fez no final do post dela, não, eu ainda não me perdoei. Estou no caminho, pois compreendo que fiz o que pude, que o que dei de mim era o que eu tinha pro momento, mas sigo culpada, sigo doída, especialmente pelo que privei Enzo de viver (um parto propriamente, no qual ele participasse, fosse ativo, não fosse surpreendido por mãos apressadas “nascendo-o” à força) e pelo que obriguei Enzo a viver (meu filho bebezico e confuso saiu de mim e foi direto ser mexido e remexido por braços estranhos, num universo estranho, frio. E foi sozinho, sem nem carinho, sem nem conhecer a voz que o acompanhou na estadia do útero. Foi prum berço aquecido, mas sem toque, sem colo, sem vozes ou sons conhecidos, sem referências, sem cheiro familiar, sem afago, sem carinho, sem aconchego, sem ninguém que lhe dissesse “está tudo bem, não se assuste”.

Eu só toquei meu filho, só pude colocar meu filho no colo, sentir seu cheiro, falar com ele, olhar pra ele 4 horas depois do parto. Entre uma coisa e outra, ficamos, eu e ele, separados pela frieza institucional das regras da maternidade, da equipe médica, do staff de enfermeiros, de sei-lá-mais-quem que, por sei-lá-que-motivo inventou normas que atendem a sei-lá-quais-interesses (mas não aos do meu filho, nem aos meus).

Então dói ainda, dói muito. E, talvez por essa razão, terminei de ler o texto da Mari com os olhos rasos d’água.

O que me leva ao segundo texto que li (por indicação da Mari lá no post dela) e que ficou martelando aqui na cabeça. A Anne, do Super Duper, diferenciou muito bem as vias de nascimento. Uma coisa é parto, outra é nascimento. Quem teve uma cesárea, como eu, na verdade não teve um parto. Clic! Isso nunca tinha ficado tão claro antes.

Eu não participei do nascimento do Enzo, fui mera coadjuvante. Sabe como descobri que meu filho já tinha nascido? Ouvindo a obstetra dizer “bem vindo”. Ela falou isso uma vez, falou duas, achei estranho e, meio grogue, perguntei: “Já nasceu?”. Sim, tinha sido nascido. Nem me dei conta. Nem me dei conta do momento mais importante das nossas vidas -minha e do Enzo. Aconteceu e eu mal estava lá. Qualquer pessoa que esteve naquela sala de cirurgia vai saber contar melhor como foi o nascimento do meu filho que eu.

Sinto por mim e por Enzo, mas pelas pessoas de um modo geral. As histórias, os marcos fundamentais da vida, estão perdendo valor para uma supervalorização de uma pseudo-ciência vendida a preço de ouro. Adorava ouvir a história de como eu nasci. Isso é essencial, faz parte da nossa identidade, toda criança quer saber. E quanto mais emoção, melhor.

Minha mãe sempre contava com detalhes como foram as contrações, que ela achou que não era nada, que quase nem vai para o hospital, e que -veja só- chegando lá eu já estava quase nascendo. Lembrava dos detalhes, do médico que não chegava, da enfermeira que a tranquilizava, de não ter sentido muita dor (“é uma cólica menstrual um tanto mais forte”, me dizia, pra eu não ficar com medo), de eu ter nascido rápido, da emoção de me ver pela primeira vez, do primeiro choro (meu e dela, como mãe), do primeiro colo, da primeira mamada. E eu ouvia, satisfeita com minha origem.

Isso faz de nós menos mães? Claro que não, nem acredito que exista isso. Mas não posso deixar de lamentar que, ao invés de um relato de parto, a origem das nossas crias -e a narrativa fundadora da vida dos nossos filhos- será algo como: “Mamãe marcou na agenda, fomos lá, tomei uma injeção e você nasceu”.

Sei que o post está enorme, mas ainda preciso dizer que o convencimento da indústria da cesárea foi tão potente, tão manipulador e tão certeiro que tem (muita) gente que associa PN à pobreza, à gente desassistida, à gente que não tem acesso às “maravilhas” da ciência. Muita mocinha classe média por aí que adora elogiar as maravilhas da vida “civilizada” fora do Brasil, esquece que lá fora, entre os civilizados, a regra é PN. Pra todo mundo.

Aqui, virou “privilégio” ter sua barriga cortada desnecessariamente, passar por um procedimento cirúrgico arriscado desnecessariamente, ser privada de um momento de comunhão maravilhoso desnecessariamente.

Uma mistura de preconceito de classes com violência disfarçada de ciência.

Sou pela livre escolha da mulher, da parturiente, mas que livre escolha há, que livre escolha é possível, sem informação verdadeira e adequada? Como já disse no post anterior, manipulação é, com certeza, uma forma de violência.

8 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões

ó só como o banho acalma

Daí que todo mundo sempre me disse que banhos acalmavam os bebês. Daí que acreditei. E comecei a dar banhos em Enzo sempre por volta das 21h, antes de dormir, pra já ir relaxando. Daí que Enzo chegou mesmo a dormir na água morninha da banheira.

Mas daí que ninguém contava com a astúcia do meu minimenininho, que resolveu questionar os paradigmas do banho e transformar os minutos na água -e os minutos DEPOIS da água- em pura diversão.

Daí que acalmar que nada! Banho, pro Enzo, é sinônimo de tocar o terrorzinho, da bagunça, de jogar água pelo banheiro, de perseguir bolinhas de sabão, de dar muitas gargalhadinhas, de explorar o próprio corpo (ele descobriu que tem pinto!), e de fazer um “esquenta” para mais travessuras antes de dormir. Claro que isso inclui não deixar mamãe colocar a fralda, porque é muito melhor MORDER a fralda que vesti-lá, né?

Ó só do que eu estou falando, ó:

Ai, gentes, vejam como estou calminho depois do banho, vejam!

2 Comentários

Arquivado em bebezices, brincar

teste de violência obstétrica – dia internacional da mulher – blogagem coletiva

Será que blogagem coletiva com um dia de atraso vale? Tomara que sim, pois ontem não deu tempo de terminar o post, e é um tema sobre o qual venho querendo escrever faz tempo. Quem chamou a blogagem foram os blogs Cientista Que Virou Mãe, Parto do Princípio e Mamíferas e, entre os objetivos, a ideia é debater o assunto e divulgar o teste de violência obstétrica, que pode ser respondido anonimamente aqui.

Vou começar contando minha experiência. Acho que o que eu vivi pode jogar luz sobre um aspecto da violência obstétrica que fica, por vezes, esquecido, que é a violência sofrida não no parto em si, mas ao longo do pré-natal e da gestação. Em geral, é também uma violência mais difícil de combater, pois mais sutil, concretizada por palavras, conceitos e manipulação.

Minha GO é cesarista. Ponto. Notei isso mais ou menos na metade da gestação, conforme ia lendo e aprendendo coisas -aqui na blogosfera, principalmente. As informações que eu encontrava, inclusive em sites da OMS e da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) não batiam com “diagnósticos” feitos pela GO. Tive a confirmação da preferência dela pela cesárea quando li isso aqui, ótimo texto do Parto do Princípio mostrando mitos e fatos sobre PN.

E o que faz um GO cesarista, além de tentar forçar uma cesárea na “hora H”? Passa toda a gestação da paciente tentando convencê-la de que a cesárea é melhor, muito melhor, que um parto normal, especialmente se for uma cesárea eletiva.

ABRE PARÊNTESE: Não sou melhor do que ninguém, nem estou aqui para vomitar minhas verdades. Cada um é dono de si e sabe o que faz. Portanto, sem julgamentos -mesmo- e com todo o respeito a quem faz eletiva, digo que cesárea marcada sempre esteve completamente fora de cogitação para mim. Acho um desrespeito profundo ao bebê “nascê-lo” com data e hora marcada, quando ele obviamente ainda não está pronto para isso. Se estivesse, teria nascido. Ponto. De todas as ideias relativas a parto e maternidade que “viraram moda” nos últimos anos, acho que essa é a mais nociva e fútil de todas. É uma violência fazer um bebê nascer à força, é começar a vida nesse mundo de meodeos sendo desrespeitado em seu direito mais básico. FECHA PARÊNTESE.

Voltando às tentativas de convencimento, foi exatamente o que minha GO fez comigo, ao longo das 36 semanas de gestação (sim, Enzo nasceu pré-termo). Desde o começo, deixei claro que queria PN. Nunca duvidei da minha capacidade de parir meu filho, minha mãe teve PN, minha avó teve PN, cresci ouvindo relatos de PN e sempre achei PN a coisa mais natural do mundo quando se pensa em parir um bebê (e acontece que é, né?, a coisa mais natural do mundo…). E as cesáreas que presenciei de perto sempre me pareceram dolorosas, recuperação difícil, aquela coisa de cirurgia. De modo que disse à GO na primeira consulta que queria PN, sem discussão.

Acontece que, na 14ª semana, o ultrassom indicou que minha placenta estava “baixa”. A ultrassonografista, médica, não se preocupou, explicou que até a 20ª semana ainda tinha tempo para “subir”, que não era nada preocupante. Mas a GO cesarista já me “diagnosticou” com placenta prévia (que só é diagnosticada assim depois de 20 ou 25 semanas) e tascou um “ó, não vai dar pra ser normal, porque você TEM placenta prévia”.

Para azar dela -e sorte minha-, no ultrassom seguinte, com 18 para 19 semanas, a placenta já estava normal. Só que ela continuou tratando a coisa como se eu fosse ter cesárea. Tive de lembrá-la de que meu parto seria normal algumas vezes durante a consulta.

Pensa que ela desistiu? Nada! Passado um tempo, ela “encontrou” outro “problema”: Enzo ainda não teria virado, nem se encaixado na posição de nascer. Que que ela me sugere, com calendário na mão? “Vamos marcar a cesárea, já que não vai rolar normal”? Agora me pergunta quantas semanas de gravidez: 22, 23. Que bebê PRECISA ter virado e estar encaixado para nascer com 22 semanas?? Devolvi essa pergunta para ela e reforcei: será normal, nada de marcar coisa nenhuma.

A terceira tentativa veio quando, às 30 semanas, eu me autodiagnostiquei com colestase gestacional. Sim, porque por ela eu estava só com alergia por ter comido três rodelas de abacaxi uns 15 dias antes dos sintomas (coceiras pelo corpo) começarem. A colestase é uma doença que pode surgir na gravidez, ninguém sabe ao certo porque, e consiste numa deficiência do fígado de excretar corretamente a bile, que se acumula no sangue gerando uma coceira dos infernos pelo corpo inteiro. Eu simplesmente não conseguia dormir e, mesmo no inverno, tomava banho frio na madrugada.

Em geral, a colestase é benigna, mas pode diminuir a concentração de vitamina K no sangue, que ajuda na coagulação. Grávidas com essa doença precisam acompanhar direitinho a evolução dela, pois, a partir de um determinado ponto, pode levar à hemorragia no parto. Para as que chegam nesse estágio, antes de parir é preciso tomar injeções de vitamina K, que serão reforçadas logo após o nascimento do bebê.

Enfim, achei estranho o diagnóstico de alergia, pesquise e encontrei essa doença no google. Sintomas batiam com os meus e por minha conta procurei um gastro; por minha conta pedi a ele os exames que medem as taxas de bile no sangue e por minha conta levei a ela, que DESCONHECIA a tal colestase (ok, é rara. Zero vírgula zero nada de mulheres têm, mas se eu achei…). Daí que quando ela soube do diagnóstico, tascou um “vai ter que ser cesárea”. Mas até dois segundos antes, ela NEM SABIA que isso existia, deosdoceu! Como é que no segundo seguinte já sabia que impediria o PN? Claro que não impede, só para registrar.

E, dali em diante, em toda consulta, ela fazia questão de tentar me convencer a agendar a data da cesárea, mesmo eu dizendo que queria normal. E ela: “mas escolhe, só pro caso”. Só pro caso de quê? A verdade é que ela ficou morrendo de medo da “doença desconhecida” e queria adiantar o parto do Enzo, numa cesárea eletiva, claro. A pressão era tamanha que eu cheguei a procurar outras GOs, já quase parindo. O problema é que não achei nenhuma em quem confiasse para trocar naquela altura dos acontecimentos. E por pior que fosse o jeito da minha GO de conduzir a situação, eu confiava nela tecnicamente, ela é minha gineco desde os 14 anos, enfim… Fiquei com medo de mudar e me arrepender.

Eu já estava suficientemente estressada por estar lidando com uma doença raríssima, que eu desconhecia, que me dava um incômodo horrível e ainda atrapalhava meu sono (só coça à noite, a porcaria da colestase). Tive medo, claro, de evoluir a ponto de prejudicar minha absorção de vitamina K, tive muito medo do parto. E a GO, para me “tranquilizar”, depois que leu sobre a doença, toda hora fazia questão de dizer que o fígado é órgão mais importante do corpo segundo a medicina chinesa, que eu tomasse cuidado, que era sério o que eu tinha, que era melhor fazer o parto logo e blá blá blá.

Claro que a responsabilidade não é só da GO e de sua pressão dos infernos, mas não tenho dúvidas de que ela contribuiu e muito para o resultado: minha pressão arterial começou a subir consistentemente a partir da 32ª semana. Eu, que sempre tive pressão 11 x 8, 10 x 7, não conseguia mais abaixar de 14 x 10.  No dia em que pari, minha pressão estava a 22 x 18, não tinha mais nada de líquido amniótico, havia risco de sofrimento fetal e risco de eclâmpsia (para mim). Eu entrei em trabalho de parto, o que foi ótimo, tive até dilatação de 8 centímetros, mas não pudemos esperar a natureza agir por causa das condições gerais apontadas acima. A cesárea, afinal, foi necessária. E é ótimo que exista a cesárea quando há necessidade dela. Não sou contra cesáreas a priori, elas salvam vidas. Mas só quando são NECESSÁRIAS.

Mas me pergunto: a minha teria mesmo sido necessária se a GO não pressionasse tanto desde o começo? Se não me assustasse tanto quando soube da colestase? Se não fosse cesarista? Se fosse entusiasta do parto normal? Porque risco por risco, há bem menos no normal, inclusive de hemorragias. Ali, na hora, foi necessária, mas teríamos chegado a esse estado de coisas se a condução do pré-natal tivesse sido diferente?

Claro que o que aconteceu comigo é um nada perto da violência obstétrica pela qual passam diversas mulheres, é nada perto de relatos sofridos de maus tratos, de abandono, de imperícia e de cesáreas totalmente desnece(s)áres, feitas totalmente contra a vontade das mães. Mas achei que valia relatar, pois sei que isso acontece em diversos consultórios por aí, sei que muitas mães são manipuladas para “escolher” cesáreas ao invés de PNs, são estimuladas a agendar cesáreas, sob o argumento (que eu ouvi várias vezes) de que depois das 38 semanas “tudo bem nascer a qualquer hora”.

No curso de pais que Dri e eu fizemos, só eu e mais umas três ou quatro mães -de uma sala lotada- queriam parto normal. Por que será? A que tipo de informações erradas as gestantes são submetidas para temerem o PN e acharem a cesárea melhor? Mentir, manipular, submeter não são formas de violência? Acho que sim, e são sutis, difíceis de serem percebidas. E é a esse tipo de violência que várias mães da nossa geração são submetidas antes e durante a gravidez, culminando nesses números ridículos de cesáreas no Brasil.

Minha GO dizia que cesárea era mais segura. Uma ova. Cesárea é uma cirurgia abdominal de alta complexidade, 7 camadas são laceradas, há mais risco de hemorragia e a recuperação é um outro parto, de tão chatinha, arriscada e complicada. O grande “barato” da cesárea é que o médico leva 20 minutos numa, ao passo que levaria até 12 horas num parto normal. Faz as contas de quanto ele ganha (em dinheiro) e economiza (em tempo) fazendo a cirurgia ao invés do procedimento natural.

Meia hora depois da minha cesárea, a GO estava flanando por aí, ou atendendo alguém, ou fazendo outra cesárea. E Enzo estava num bercinho aquecido, chorando sozinho. Por quê? Porque eu estava sem meu filho, imóvel, dopada, cheia de coceiras, com a pressão a 17 x alguma coisa, largada numa sala sozinha esperando passar o efeito da analgesia. Quatro horas depois da minha cesárea, a GO já poderia ter feito, sei lá, outras 4 cirurgias. Mas eu continuava dopada, pressão alta, coceira, largada sozinha. E pior,  sem nem ter conhecido meu filho, que continuava chorando sozinho num bercinho aquecido, vendido pelas maternidades como luxo tecnológico.

Só que eles esquecem que levaram 5 mil anos de civilização para fazer uma droga dum bercinho aquecido para “regular” a temperatura do RN aqui fora. Mas o colo, que faz as mesmas funções e ainda é amor, afago, acalento, sossego, segurança, faz isso desde sempre. Foram 5 mil anos pra imitar mal e porcamente o colo humano, do qual Enzo foi privado nas suas primeiras horas. E foi privado de mamar logo de cara, foi privado da mãe. E  por quê? Por causa da porcaria da cesárea, por causa da porcaria da pressão (arterial, da GO, da doença).

Enfim, tudo pra dizer que considero a pressão por cesárea e essa epidemia de cesáreas uma violência -contra a mãe e contra o bebê-, especialmente cesáreas agendadas, que são ainda mais violentas com os bebês. E tudo pra dizer que ainda há muito o que conquistar para as mulheres, incluindo o direito de parir direito.

Sou feminista, de modo que tudo o que tenho pra dizer sobre direitos e mulheres rende vários posts (farei um dia), mas só desejo que as moças parem de lamentar que o feminismo “acabou” com a “feminilidade” (já ouvi de várias), ou que acabou com as “gentilezas” (tipo um sujeito abrir a porta pra você) e abram os olhos para quanta violência ainda existe. Obstétrica, doméstica, sexual. Violência física e psicológica. Violência da submissão física ao macho (como o estupro), mas também violência da submissão psicológica, intelectual, financeira que muitas vezes é imposta. Violência do controle do corpo da mulher por outrem (vide valorização da virgindade, valorização de um certo padrão de beleza, como se fôssemos todas um bando de bonecas infláveis), violência do controle de nossas escolhas. E tem gente que ainda acha que gentileza é abrir porta de carro. Não, obrigada, a porta eu mesma abro, sou capaz disso também. A gentileza que quero é respeito e igualdade de direitos e de deveres.

Para quem quiser, acho bem bacana o teste de violência obstétrica. Eu deveria ter pedido informações para a Ligia Sena, do Cientista Que Virou Mãe, para inserir o formulário por aqui, mas não fiz por absoluta falta de tempo, de modo que sugiro que o teste seja feito lá na página da Ligia por enquanto. Pois, de qualquer maneira, vou pedir pra ela e depois insiro aqui.

5 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões

complô das 6h

–Eu acho que eles dormem demais.

–Verdade, são dois preguiçosos. Onde já se viu pais dormindo tanto assim?

–Pois é, menina! Se deixar, eles vão até às 8h. E nem ficam envergonhados.

–Outro dia, ela dormiu até às 10h, lembra? A sorte é que ele acordou antes.

–Ah, mas não foi por acaso, não. Ele levantou mais cedo por minha causa.

–Fato. Do contrário, teria dormido o tanto que ela dormiu.

–Então! Já vimos que não podemos mais deixar por conta deles.

–E eu não sei? Mas já tenho um plano.

–Qual?… Ooops, psiuuuu, disfarça que eles estão vindo.

(…)

–Já passaram?

–Já, pode falar.

–Então, o negócio é o seguinte: o que você acha de a gente revezar e cada um de nós acordá-los num dia? Não fica pesado para ninguém, num dia que a gente quiser dormir um pouco a mais, o outro faz o serviço e a gente ainda garante que os preguiçosos acordem num bom horário.

–Ótima ideia. Começamos quando?

–Eu comecei hoje, na verdade. Miei uns 40 minutos seguidos até ele se levantar. Ela ainda ficou lá, acredita? Mas eu não desisto fácil, você sabe, né?

–E como sei!

–Bom, isso faz de você o moço que vai acordá-los amanhã, combinado.

–Fechou! A que horas? Umas 6h?

–Ontem eu acordei às 5h30, mas acho cedo, nem clareou o dia ainda. Podemos manter 6h.

–De acordo!

********************

Talvez a conversa acima seja fictícia, tendo em vista que nenhum dos dois envolvidos fala ainda (até onde sabemos, pelo menos). Mas é fato que faz uns dias que nos acordam pontualmente às 6h: ou a Jóh vem miando pro quarto e mia até alguém levantar e ir brincar com ela ou é Enzo que acordo cedinho assim e põe papai e mamãe de pé a essa hora da madrugada.

2 Comentários

Arquivado em bebezices, lado B, Uncategorized

home + baby + office

A semana passada foi punk: um prazo apertadíssimo, uma matéria complicada sobre um assunto do qual eu entendia pouco, um calor horrível que deixava Enzito praticamente insone ao longo do dia (o que empacava demais o trabalho), dentinhos e mais dentinhos nascendo e incomodando pacas a cria (o que também empacava demais o trabalho). Resumo da ópera: dormi 12 horas em cinco dias, sendo que de quinta pra sexta, foram duas horinhas de sono apenas, das 6h às 8h da matina.

Trabalho em casa, sou repórter frilancer e já levava essa vida bem antes de engravidar. Deixei a redação no final de 2009, um ano e meio antes, portanto, de parir meu filho. E, confesso, foi providencial. Porque não imagino como seria minha relação com Enzo se, aos 4 meses dele, eu tivesse de voltar à rotina que eu tinha na redação: entrar às 10h para não ter hora pra sair, chegando em casa frequentemente depois das 23h. Eu mal veria meu filho, não teria condições de cuidar dele nas mínimas coisas (nem mesmo dar um banho), não acompanharia nada do seu desenvolvimento, seríamos quase estranhos a dividir a mesma casa. E um dia eu levaria um susto: “putz, você já fala?”

Logo que ele nasceu, no entanto, a rotina do “home office” mudou radicalmente, o que é natural e esperado. Eu já sabia que não conseguiria trabalhar no mesmo ritmo de antes. E fui me ajeitando, trabalhando nos intervalos das mamadas, trabalhando quando ele dormia, quando se distraía, quando umas das avós vinha visitar a gente ou à noite, depois que Dri chegava do trabalho. E deu certo. Mesmo no primeiro mês eu trabalhei, pois Enzo adiantou 15 dias e nasceu bem no meio da conclusão de uma matéria, de modo que na maternidade eu tive de fazer entrevistas e, em casa, segui apurando e escrevendo, contando muito com o marido, que estava de férias.

Dei por garantido o sucesso do trabalho em casa com filho.

Mas acontece que conforme Enzo cresce, mais e mais ele precisa de atenção, passa menos tempo dormindo, se distrai menos com bobagens e procura, cada vez mais, “emoções”: ficar sentadinho no sofá é pouco, mexer nos brinquedinhos de bebês é pouco; ele quer mesmo é escalar o armário, alcançar o lustre, abrir as portas das coisas, mastigar minha caneta, digitar no computador e atender o telefone. Resultado: cada vez menos tempo para eu efetivamente trabalhar.

Não que eu esteja reclamando. Esse arranjo é o melhor para nós, sigo tendo a certeza de que somos -Enzo e eu- privilegiados pela possibilidade de estarmos juntos o dia todo, de eu estar presente o dia todo, cuidando de tudo o que diz respeito a ele e, ainda assim, manter minha vida profissional razoavelmente em ordem.

Mas confesso que é preciso uma boa dose de esforça e boa vontade pra coisa andar. Estou tendo de reorganizar um monte de hábitos, por exemplo. E, com o teste da semana passada (sim, porque foi a primeira vez em que eu praticamente tive de trabalhar em ritmo de redação novamente desde que Enzo nasceu), aprendi um bocado de coisas, que podem ajudar quem pensa em optar por trabalhar em casa:

-Admitir que trabalhar em casa com um bebê pequeno é viver muito mais o home que o office: isso é importante para o planejamento, para ter ideia de quantas horas de fato sobram livres para me dedicar ao “office”. Mas, mais que isso, é essencial para diminuir a ansiedade e a cobrança. Quando se tem um prazo, um trabalho para entregar, alguma coisa para fazer, é complicado ficar passeando pela casa com o bebê sem se cobrar, sem pensar um “que-que-eu-tô-fazendo-meodeos”. E isso não ajuda nada, pois nem bem eu me dedico ao Enzo, nem bem me dedico ao trampo. Menos cobranças, pois, e melhor medida do tempo. O que me leva ao segundo aprendizado:

-O expediente não é mais o mesmo: antes, quando eu pensava em “x” dias para o fim do prazo, tinha uma ideia de quanto isso me renderia de trabalho, ainda que não precisasse fazer a conta em horas. Só que trabalhar com esse timing na cabeça é perder o prazo na certa, pois, na prática, a gente trabalha bem menos do que gostaria/deveria por dia, especialmente conforme os filhos crescem. A verdade é que, no sistema “home office”, o trabalho vira o lazer, sabe como? Você acaba cumprindo seus deveres nos INTERVALOS entre o almoço da cria e a mamadeira, entre trocar a milésima fralda e dar uma volta com o bebê no sol, entre entreter o bebê com uma tampa de panela e tentar embalá-lo pro próximo soninho. Além disso, estou tendo de me acostumar: trabalhar à noite ou na madrugada virou meu segundo nome.

-Foco, foco, foco: já disse que sou caótica? Pois é, sou caótica. E isso significa uma tendência a fazer zentas coisas ao mesmo tempo. Mas estou tendo de me curvar a esse tal foco, essa palavrinha amanda pelos autores de autoajuda, que eu tanto criticava. Porque é imprescindível aproveitar o (pouco) tempo livre para o trabalho apenas trabalhando. Daí que não leio mais jornal online, não tuito durante o dia (às vezes, no horário do almoço, mas bem às vezes), não navego na internet, nada. E é essencial que se esteja com o dia todo planejado para não se perder tempo de trabalho organizando ou decidindo, na hora, o que fazer.

-Pensar hoje o que se pode fazer amanhã: não dou o dia por encerrado antes de colocar na agenda direitinho o que terei de fazer no dia seguinte. É bom para ter um roteiro a seguir e, na hora em que baby dorme, ir direto ao ponto. E também ajuda a não botar coisas demais na agenda que não serão cumpridas. Comecei a planejar a semana, ao invés de só o dia, coisa que NUNCA fiz antes. Mas é importante para ver se  prazo será ou não factível.

-Não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje: procrastinação, essa coisa delícia da vida, na qual, confesso, era viciada, virou história. E esse conselho de pai, essa coisa chatinha de fazer tudo na hora, virou mantra. Se alguma coisa que eu deveria ter feito ontem sobrar pra hoje, putz, complica e muito a vida.

-Mães à mão: para quem tem esse privilégio, é sempre bom deixar as nossas mães de sobreaviso. Às vezes, não tão raramente quanto eu gostaria, é necessário pedir uma ajuda, nem que seja coisa de duas horinhas. Minha sogra mora longe, minha mãe trabalha, de modo que não é tão simples assim contar com elas, mas eu já precisei diversas vezes, e a ajuda delas foi essencial, inclusive, na semana passada. Para quem não tem parentes por perto e com disponibilidade de tempo, sugiro uma babá daquelas que cobram por hora e geralmente cobrem folga. Não é fácil de achar, a gente não tem tradição em baby sitter , mas é bom ter alguém de confiança na manga, pro caso das coisas não saírem como o esperado.

-Disciplina: não ia falar dela de novo. Odeio essa coisa autoajuda de “discipline-se”. Mas acontece que, na prática, ela é um pressuposto. Trabalhar em casa é depender 110% de si próprio e de suas escolhas em relação ao seu tempo. A tentação é grande, ainda mais com um bebezico fofo querendo abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim. E com uma rotina de mãe tão extenuante, fica fácil querer deixar pra lá alguma alguma tarefa que parece desimportante, mas que, no fim das contas, vai fazer falta.

Tem outras coisas úteis, que eu recomendo ter/checar/ponderar:

-Tecnologia: computador que funcione, internet que funcione, telefone que funcione. Se alguma dessas coisas der pau, não tem “mocinho da tecnologia” para resolver em cinco minutos e botar na conta da firma.

-Acessórios: para quem, como eu, precisa do telefone o dia todo, vale a pena pensar em comprar aqueles head sets de telefonistas, que deixam as mãos livres. Fios longos também ajudam, pois é preciso se movimentar muito, às vezes com bebê no colo, às vezes indo atrás do bebê. Notebook e internet sem fio dão mobilidade. Úteis, pois.

ABRE PARÊNTESE: Licença-maternidade decente já e licença-paternidade decente já. É assunto pra um outro post, que prometo pra breve, mas sempre gosto de lembrar que a imensa maioria das mães e dos pais não têm esse privilégio de optar por trabalhar em casa. Acho que temos -pais e mães- de pensar nisso coletivamente, não apenas nos arranjos possíveis pra nós, mas em como alcançar arranjos melhores para a maioria. E isso passa não apenas pelas licenças (4 meses é pouco, 5 dias é nada), mas por condições de trabalho adequadas, por creches nas firmas, por creches públicas decentes, por programas de trabalho especiais para pais e mães, por trabalho meio-período para pais e mães e pela extensão de benefícios a pais, de modo a diminuir preconceito contra mulheres em idade fértil e colaborar para equiparar nossos salários, uma vez que ainda ganhamos  menos que os meninos em igual cargo (entre 30% e 40% menos, dependendo da fonte). FECHA PARÊNTESE.

Por outro lado, ficar em casa pode parecer A maravilha das maravilhas, mas não é. Tem prós que pesam muito, como acompanhar o filho, especialmente nessa fase de bebê, em que os pais são essenciais até pra formação emocional saudável. É bacana também, por exemplo, poder sair pra dar uma volta com Enzo numa tarde de sol, quando as coisas estão tranquilas. Mas faz falta se arrumar pra trabalhar, encontrar gente, falar com gente, aquele tempinho gostoso lendo no metrô, conversas no cafezinho, sair pra beber umas depois do expediente, resolver as coisas com os chefes olho no olho (e-mail/telefone sucks), reunião de pauta olho no olho, olho no olho, enfim. Eu pesei bem tudo isso e fiz uma escolha que acho consciente, o que diminui a pressão da frustração, que acaba aparecendo aqui e ali.

1 comentário

Arquivado em Maternidade, profissão