Arquivo do mês: março 2012

duas receitas prometidas

Eis que há uns 2 ou 3 meses, quando Enzo começou a comer papinhas, eu prometi que socializaria as receitinhas aprovadas pelo meu minimenininho. Contei que estava com dificuldades para encontrar dicas de alimentação e que, tão logo achasse alguma coisa bacana que valesse para Enzo e para mim, postaria por aqui.

Dia vai, dia vem, e essa moça atarefada -e ligeiramente atrasada- que vos escreve acabou não postando receita nenhuma. Falta de tempo para organizar tudo, já que a maioria das papinhas que dão certo saíram da minha cabeça. Daí que hoje, finalmente, estou com duas receitinhas prontas, escritas, anotadinhas, devidamente registradas no Livro de Receitas do Minimenininho. Voilà, espero que sejam úteis:

PAPINHA VEGETARIANA

1/2 xícara das de chá de ervilha seca

1/2 maço de brócolis ninja

2 mandioquinhas médias picadas e sem casca

2 cenouras médias picadas e sem casca

2 abobrinhas médias picadas, sem casca nem sementes

1/2 cebola média

1 colher das de chá de azeite extra-virgem

O preparo é simples: Colocar o azeite a cebola numa panela, deixar dourar um pouco. Depois, acrescentar as ervilhas (lavadas) e os demais ingredientes, com exceção do brócolis. Acrescentar água suficiente para cobrir os vegetais e ainda sobrar um dedo. Deixar em fogo alto até levantar fervura, depois colocar em fogo baixo e cozinhar até que os ingredientes estejam macios. Acrescentar o brócolis e deixar no fogo até o brócolis ficar macio e cozido. Amasse com o garfo até atingir a consistência recomendada pelo seu pediatra (ou aquela com a qual seu filho esteja habituado).

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FRANGO COM LENTILHA

1/2 xícara das de chá de lentilhas

2 filés bem frescos de peito de frango

2 chuchus médios picados e sem casca

1/2 abóbora tipo paulista média picada, sem casca e sem sementes

2 xícaras das de chá de escarola picada (aproximadamente)

1/2 cebola média picada

Salsinha a gosto (eu uso quase uma xícara)

1/2 colher das de chá de azeite extra-virgem

Preparo: Em uma panela, colocar a cebola, 1 colher de azeite, a lentilha e os legumes. Deixar dourar rapidamente e cobrir com água, colocando o suficiente para cobrir os alimentos e ainda sobrar um dedo, aproximadamente. Deixar em fogo alto até ferver e depois reduzir para fogo baixo. Colocar os filés de frango juntamente com meia colher de azeite em outra panela, deixar em fogo baixo e tampar para que o frango cozinhe em sua própria água. Se for preciso, acrescente um pouco de água (mas bem pouco). Quando a carne estiver cozida (eu sempre corto em vários pedaços para me certificar de que o interior está pronto), tirar a tampa da panela e deixar o frango dourar por mais alguns minutos. Em seguida, desfie o frango utilizando dois garfos (um segura a carne, o outro desfia).  Reserve.

Quando os legumes e a lentilha estiverem macios, acrescente a escarola bem picada e a salsinha e espere por mais cinco ou dez minutos, até que a escarola mude de cor. Aí acrescente o frango desfiado e deixe mais uns cinco minutos em fogo baixo. Antes de servir, amasse com o garfo até atingir a consistência recomendada pelo seu pediatra (ou aquela com a qual seu filho esteja habituado).

As receitas são sugestões, baseadas na orientação da pediatra do Enzo, na Cartilha do Ministério da Saúde, e no conhecimento popular que diz que uma dieta balanceada é aquela “colorida” (com vegetais de cores diferentes, pois cada cor evidencia um certo tipo de componente ou vitamina contido no alimento).

Procuro sempre colocar ao menos um carboidrato, uma leguminosa (ervilha, lentilha, feijões etc), um legume e uma verdura. A papinha pode ser servida com arroz, e os vegetais podem ser oferecidos separadamente ao bebê, ao invés de tudo junto, como eu sugiro na receita. E, claro, o ideal é sempre conversar com o pediatra para se certificar de que seu filho pode comer esses alimentos, feitos dessa forma.

Uma preocupação que eu tenho é sempre que possível oferecer alimentos orgânicos. Apesar de aumento da oferta de orgânicos, eu confesso que não tenho encontrado legumes desse tipo com muita facilidade. Há sempre orgânicos nos supermercados que frequento, mas em geral são sempre os mesmos; há pouca variedade. De qualquer forma, a dica é procurar orgânicos e sempre, sempre os alimentos mais frescos possíveis. E ouvir as informações dos funcionários dos supermercados. Eles sempre sabem quais são os vegetais mais novos, os que estão “na época”, os que são mais macios… Informações valiosas, portanto, especialmente se você, como eu, é 100% urbana e demorou horrores para descobrir a diferença entre escarola e catalonia.

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por que sou contra propaganda para crianças

Sou leiga. Não tenho argumentos acadêmicos nem conhecimento para fazer um debate em profundidade. Mesmo assim, como mãe e como cidadã, sou contra a publicidade dirigida ao público infantil, pelo menos da forma como é hoje. Tenho lido manifestações sobre isso aqui, ali e acolá, muitas mães, ONGs e interessados estão debatendo o assunto há pelo menos uma década e, recentemente, a ABAP, que é a associação dos publicitários, resolveu defender os interesses da categoria jogando toda a responsabilidade nas costas dos pais e das escolas (vou falar sobre isso mais pra frente), o que esquentou a discussão e os ânimos. Senti, pois, que era hora de me manifestar também.

Como leiga, mãe e alvo de publicidades a vida inteira, sou contra a propaganda para crianças especialmente pelo seguinte:

1) Desrespeito à infância: o consumismo é contrário à inocência da infância. Trata-se de um grupo de valores essencialmente do mundo adulto e que promove “valores” como o ter pra ser, o que já é questionável entre adultos, que dirá para crianças. Quando falo em inocência, não me refiro à sexualidade. Para mim, a inocência infantil é olhar o mundo sem cinismo, sem competições, sem cisão. Criança é gregária. Nós, adultos, é que “ensinamos” a eles como repelir o diferente. E a publicidade e a mídia, disseminando o consumismo, estimulam as crianças a abrirem mão da infância, a apegarem-se a valores adultos para “sentirem-se alguém”, já que, reza a cartilha do consumo desenfreado, ser alguém virou sinônimo de ter alguma coisa. Às favas, portanto, com o respeito próprio pelo que se é, ao respeito ao outro pelo que ele é.

A publicidade e o consumismo disseminam, além do mais, valores estereotipados sobre sexualidade, classe social, comportamento de gênero, raça, religião. Outro desrespeito à infância e à liberdade de pensamento, experimentação e ao lúdico, característicos dessa fase. Hoje é muito comum -movimento que penso que começou quando eu era criança, nos anos 80- os pequenos preocupados com salário dos pais, com os carros dos pais, com a posição social dos pais e com outros indicadores de status familiar na sociedade.

Também vejo com frequência crianças culpando os pais por não terem dinheiro para lhes dar esse ou aquele modelo de celular, roupas da marca X ou acesso a salões de cabeleireiros com a mesma frequência que os pais das amigas oferecem às filhas. Vejo com tristeza meninas de 10 anos ou menos alisando seus cabelos, pintando os cabelos, pintando as unhas. Eu também fiz isso e é natural que as meninas copiem as mães e mulheres mais velhas, mas quando acontece ocasionalmente e quando é lúdico. Tornar esses comportamentos como padrão é encurtar a infância, coisa estimulada pela mídia em geral, incluindo aí as propagandas para crianças.

2) Convencimento: publicidade é, basicamente, tentar convencer você a comprar algo de que não precisa. Se precisasse, você mesmo já teria comprado, sem “ajuda” de ninguém. E esse convencimento não é feito na base do argumento racional. Até tem informações realmente importantes em comerciais de TV, revistas, jornais. Mas o principal conteúdo publicitário é aquele que fala aos desejos e aspirações e dá uma banana à  alegada racionalidade.

Uma coisa é fazer isso com adultos, teoricamente mais capacitados para separar o joio (apelo às emoções) do trigo (as informações que realmente valem a pena e ajudam a tomar uma decisão racional de compra), teoricamente mais seguros de si e menos vulneráveis às imagens publicitárias sobre o que é “bom”, o que é “belo”, o que é ser “legal”, o que é ser “bem sucedido”.

Outra bem diferente é usar as crianças para obter lucros. O mesmo jogo manipulatório que se instala com os adultos (inflamar desejos latentes e fazer crer que o produto “y” vai proporcionar determinada coisa -que não é bem o produto em si) é reproduzido com os pequenos. Só que os pequenos são…pequenos, estão em formação, são mais vulneráveis, pois.

Acho moralmente questionável usar esses métodos com crianças, para dizer o mínimo. Acho moralmente questionável, para dizer o mínimo, que as empresas falem diretamente às crianças e usem os pequenos para ganhar dinheiro. Por quê?

3) Tratar desiguais como iguais é violência: Por isso. Porque tratar crianças como se fossem iguais aos adultos, ali no limite entre a malandragem e a falta completa de ética, é uma violência. É manipulação pura e simples em busca de lucros. É saber que as crianças não estão prontas para “dialogar” com os conteúdos publicitários e aproveitar isso em benefício próprio para vender mais.

Dito isso, não sei qual seria o modelo ideal, se proibir totalmente ou regular-se limites, por exemplo, por faixa etária (crianças de 2 anos são diferentes de crianças de 8 que são diferentes de pré-adolescentes de 12). Mas é fato, pra mim, que como está não pode ficar. Acho um desrespeito à infância. E se isso tudo já não fosse motivo suficiente, tem mais:

O modelo atual é falho, na minha opinião, também por causa da tal autorregulamentação. Não acredito nela. Não quando há tantos interesses e tanto dinheiro em jogo. O mercado publicitário no Brasil (no mundo?) é bilionário. É só dar uma olhada aqui e aqui para comprovar. Faturou R$ 28,45 bilhões em 2011, segundo dados do Projeto Inter-Meios, do jornal Meio & Mensagem. Acha mesmo que eles vão contrariar os próprios interesses e arriscar ganhar menos?

Daí quando todo mundo achava que, de repente, fosse possível estabelecer algum diálogo civilizado com a turma da publicidade e com as empresas que eles representam, eles me aparecem com essa campanha aqui, que diz que “somos todos responsáveis” querendo dizer “vocês, pais, mães e educadores, que se virem com os seus filhos”.

Eles defendem, por exemplo, na página que criaram para a tal campanha, que pedir brinquedos é saudável, pois isso ensina as crianças a almejar coisas. Que argumento mais ridículo, com todo o respeito. Querer coisas é inerente ao ser humano. Nós já queríamos coisas bem antes de inventarmos as fábricas de brinquedos. A evolução do homem não começou quando as fábricas de brinquedos nasceram. E há coisas e coisas a serem almejadas -uma boa discussão, aliás. Há quem queira ensinar aos filhos que é possível desejar SER alguma coisa. Os publicitários querem que os nossos filhos só desejem TER alguma coisa.

É mesmo diálogo que os publicitários querem quando tentam empurrar goela abaixo argumentos desses? Dá mesmo para confiar no bom senso de quem argumenta uma bobagem dessas para decidir os limites da propaganda infantil? Eu acho que não.

E penso que é sim papel nosso -de pais e mães- orientar nossos filhos em relação ao mundo em que vivem, o que inclui publicidade, consumismo, desejos, modelos de vida, estereótipos etc. Mas não podemos ser os únicos responsáveis por isso, como se não houvesse responsabilidade nenhuma no ato deliberado de se tentar manipular um desejo infantil para lucrar mais com ele…

Também precisamos ser realistas e perceber que, com a publicidade como está, o embate entre pais x mídia é desigual, com larga vantagem para o conteúdo da propaganda, baseado em pesquisas sofisticadas, psicologia, manipulação de desejos inconscientes e por aí vai. Por mais que sejamos presentes, que nosso maternar/paternar seja ativo, vamos sempre usar a racionalidade para mostrar aos nossos filhos o mundo que nos cerca. Os publicitários, não.

Para os publicitários, eu digo o seguinte: se é para vender -e as empresas têm todo o direito de tentar comercializar seus produtos- como bem lembrou a Mari, que vendam para mim. Aí sim o jogo será mais equilibrado. E, claro, aceitem a responsabilidade integral quando forçarem a barra, aceitem que sermos “todos” responsáveis inclui vocês aí, das agências, das indústrias, do marketing, do desenvolvimento de produtos para crianças. Aí sim a gente pode começar a achar que vocês querem dialogar de verdade, pensando no interesse coletivo. Aí sim quem sabe eu acredite no CONAR.

Porque é fácil encher a cabecinha dos pequenos de informações manipuladas e dizer que responsáveis somos os pais, né? Então os publicitários se responsabilizam pelo quê mesmo?

Quanto à regulamentação, penso que o Estado que, em tese, somos todos nós representados, esteja aí para isso também, mesmo sendo o Brasil um país capitalista. O Estado deve regular as relações comerciais e as relações entre desiguais. Do contrário, vira um “quem pode mais, chora menos”. A Constituição Federal e o ECA deixam bem claro, falando especificamente de infância, que é dever do Estado proteger as crianças. Não vejo nenhum problema em regulamentar, portanto, a publicidade infantil que, bem ao contrário do que pode parecer, não é uma simples disseminação de conteúdo. É tentativa de arrancar uns trocos a mais de crianças inocentes colocando em risco a infância delas, sua visão de mundo e seu respeito próprio.

Recomendo a leitura, para quem quer saber mais, de alguns posts bacanas, que fazem refletir:

http://www.viciadosemcolo.blogspot.com.br/2012/03/infancia-livre-de-consumismo.html

http://www.viciadosemcolo.blogspot.com.br/2012/03/neide-teve-e-propaganda.html

http://www.whatmommyneeds.net/2012/03/por-que-eu-nao-sou-favor-da-proibicao.html

http://blogdodesabafodemae.blogspot.com/2012/03/somos-todos-responsaveis-mesmo.html

http://publicidadeinfantilnao.org.br/

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o bebê, o e-mail e a mãe

Mãe precisa mandar um e-mail. Bebê está sentado ao lado dela, brincando com um telefone quebrado, distraído e eufórico. Mãe pensa que pode ser o momento de sacar o notebook, propositalmente depositado ali do lado, e tentar, finalmente, escrever o dito-cujo.

Já disse que as mães são muito inocentes? Pois é, elas são, tadinhas.

Daí que é só a mãe entrar no gmail e clicar em “escrever” que o bebê, de repente, se desinteressa totalmente no telefone quebrado e volta seus olhinhos brilhantes, sua atenção e suas mãozinhas ágeis e ávidas para o teclado do computador.

Então mãe para de digitar, desvia o note do pequeno, mostra, de longe, uma coisa ou outra no computador para saciar a curiosidade do pequeno explorador e entrega outro brinquedinho para o bebê, que se distrai.

Ela espera uns segundos, confirma a distração da cria e volta a escrever. Digita MEIA palavra e…pumba! Dedinhos ágeis, que não são os seus, apertam centas teclas ao mesmo tempo.

Mãe ri, orgulhosa, da esperteza do neném e trata logo de tirar o note do alcance da cria. Insiste em tentar chamar sua atenção para outra coisa e acha uma orelhinha plástica de cachorro plástico que, no dia anterior, fez tremendo sucesso com o pequeno. De posse do novo objeto, bebê olha, analisa, leva à boca e vira-se de costas pra mãe e computador.

Respirando aliviada e pensando um inocente “agora vai” (já disse que mãe é tudo inocente?), ela retoma o princípio de e-mail, termina de escrever a metade da palavra e…oops! Eis que o minimenininho já jogou a tal orelha longe e está todo em cima do teclado, que está no colo da mãe. Duas dedadas bebezísticas e a área de trabalho vira de ponta cabeça, sabe como?

ABRE PARÊNTESE PARA QUESTIONAR A MICROSOFT: Alguém, plis, me explica: pra que a Microsoft libera teclas de atalho pra virar a tela de ponta cabeça? Já acho difícil acreditar que alguém vá usar um computador com tudo ao contrário. Imagine, então, usar tanto que precise de uma tecla de atalho! Microsoft, querida, que tal pensar nas mães com bebês xeretas? Hein, hein? FECHA PARÊNTESE.

Daí que mãe, que antes só queria escrever um e-mail rapidinho, agora precisa segurar o filho que segue avançando sobre o computador, arrumar a tela (coisa que ela não lembra mais #comofaz) e, antes,  ligar pra alguém pedindo socorro pra arrumar a tela.

Com bebê pendurado no colo, ralhando à beça com a mãe porque quer mexer no note, que ficou lá no sofá, mãe levanta, acha o celular no meio da bagunça que está a mesa da sala, liga pro marido. Ele há de saber, pensa.

-Sua chamada será encaminhada para a caixa de mensagens e estará sujeita à cobrança depois do sinal.

Daí mãe tenta seu próprio pai. Celular de novo. Enzo começa a chorar, porque quer porque quer brincar com o celular, que está, nesse momento, grudado na orelha da mãe. Bebê é insistente. Puxa o rosto da mãe, puxa pelos cabelos, tenta escalar a tadinha até alcançar o aparelho. Não alcança, se retorce, vê a Jóh passar (a gata salvadora da pátria) e gargalha, distraído.

Chama, chama, chama. Finalmente, o avô atende, a mãe conta o causo. Depois de loooongos segundos de risada desabrida do vô (todo mundo acha engraçada a inocência da mãe…Mandar e-mail com o bebê acordado… ahaha ahah ahah hahaha. Tadinha), a resposta:

-É só dar control, alt e seta pra cima que volta pro lugar.

Esse “é só” atestando a burrice falta de conhecimento materno é um pequeno soco no estômago. Mas ok, ok, obrigada. Mãe volta ao sofá, abre o note, dá control, alt, seta pra cima, tela volta ao normal. Bebê estica, estica, estica pra alcançar o teclado, mãe faz ginástica pra mantê-lo longe do note. O embate dura alguns segundos. Ambos estão suados. Mãe desiste do e-mail, finalmente (alôou! tem alguém aí, mamãe?). Fecha o note. Coloca de lado. Senta com Enzo no chão. Escolhe um brinquedo.

E, encafifada, pensa:

-Mas como c#%*lhos você conseguiu dar control, alt e seta pra baixo, filho? Vai ter muita coisa pra me ensinar, esse menino.

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personalidade em formação

Acho maravilhoso assistir, com ingresso VIP, à formação de uma personalidade. É um dos privilégios que temos por ser mães. Nossos bebezicos, aquelas coisicas pequenas, confusas, que não tinham a menor ideia do que eram e de onde estavam, poucos meses depois já têm um admirável domínio de si mesmos. Tanto que, muito além de ter desejos, preferências, quereres, brigam por eles.

De repente, a cria quer ficar só de pé; de repente, se joga na direção de um cômodo ou de outro e escolhe onde quer brincar; de repente, não quer mais vestir as calças, nem as blusas, nem roupa nenhuma; de repente, nega uma comida, mas aceita outra, evidenciando as preferências; de repente, se move em busca de um brinquedo específico, mesmo que a gente ofereça outros; de repente, se movimenta freneticamente até nos fazer entender que quer que levantemos com ele no colo; de repente, solta gritinhos de alegria quando acertamos que ele quer pegar o celular; de repente, reclama se o colocamos sentado de um jeito, mas ri quando o mudamos para outro; de repente, aceita uma coisa, mas não aceita outra de jeito nenhum; de repente, está observando, escolhendo, optando, se expressando com destreza e conduzindo boa parte do próprio dia.

Sim porque suas escolhas nos levam a dar a ele o acesso a boa parte do que ele pede, de modo que ele decide onde, quando e com o que brincar; onde, quando e o que comer; onde e quando dormir; onde, quando e por quanto tempo passear e assim por diante.

Fico admirada, pois acho que fazer tudo isso envolve uma série de habilidades novas e complexas. É preciso o bebê ter consciência do mundo que o cerca -de sua rotina, das ações dos pais etc-, de si próprio, conseguir avaliar o impacto desse mundo sobre si e distinguir entre o que será “agradável” ou “desagradável” de acordo com as preferências anteriormente reconhecidas. E, além de tudo, ter habilidades para expressar-se a contento.

E Enzitolino tem colocado em prática todas essas habilidades. Hoje cedo, por exemplo, ele acordou e, como de costume, levei o pequeno até o papai, que estava no escritório. Bom dia, bom dia, beijinhos, abracinhos, carinhos, saímos pra deixar o Dri à vontade e ficamos na sala, Enzito cercado de brinquedos. Mas eis que o bebê estava impaciente e, sentado no sofá ou no meu colo, só queria saber de ficar de pé. Gesticulava muito, balbuciava num tom de desaprovação e ansiedade e se jogava na direção do escritório. Levei ele até o pai e…bingo! Bebê calmo novamente.

Há poucas semanas, Enzo não estava assim tão fluente em relação a suas próprias escolhas. Mostrava um pouco da personalidade aqui e acolá, mostrava preferências, mas timidamente, hesitante. Agora já não noto quase hesitação nenhuma. Meu minimenininho sabe o que quer e expressa isso, outra coisa que chama a atenção, pois a comunicação evolui rapidamente. O choro já não é mais a principal forma de expressão, pelo contrário. Enzo só chora quando esgotou todas as outras possibilidades ou quando está cansado ou com fome (e mesmo assim, só quando não percebemos sinais iniciais de sono/fome e demoramos muito para dar a ele acesso à comida e caminha).

Em comunicação “verbal”, por assim dizer, Enzitolino usa principalmente duas habilidades: ele protesta, emitindo sons de desagrado, ou endossa nossas atitudes dando sonoras gargalhadinhas ou gritinhos empolgados. Mas ele “fala” muito com o corpo também: faz caretas engraçadíssimas -que nos fazem rir, mesmo quando ele está meio bravo-, ri bastante, se movimenta de forma bem típica quando está alegre ou aprovando algo e nos “dirige” para onde quer ir, jogando todo o corpo, incluindo braços e pernas, na direção em que deseja ir. Ou se põe de pé e ralha com a gente quando não está satisfeito com alguma coisa.

Começar a conhecer o mundo, começar a conhecer a si mesmo e -essencial- começar a compreender a relação que existe entre “eu” e o “mundo”, para mim, é a base de toda a liberdade possível, pois é liberdade de informação, de análise/avaliação/pensamento e, consequentemente, liberdade -genuína- de ação. Não é fascinante que o pequeno esteja começando a dominar tudo isso com tanta desenvoltura? E não é fascinante poder acompanhar de camarote e ir vendo, aos poucos, a personalidade deles ganhando corpo, espaço, se fazendo notar e materializar em ações? Não é bacana ver a autoestima dos bebês se construindo? Pra mim, é, sem dúvida, mais uma faceta sensacional da maternidade.

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o papel do pai

Aqui em casa não há uma divisão formal de tarefas entre marido e eu, tipo mamãe faz isso e papai faz aquilo. Qualquer um de nós faz o que tiver de ser feito, o que for possível ser feito, seja lavar roupa, lavar banheiro, fazer o jantar, passar pano na casa ou cuidar do Enzo. E muitas dessas tarefas domésticas são cumpridas à noite e aos finais de semana.

Anteontem, por exemplo, Dri chegou exausto do trabalho, mas foi faxinar a casa, lavar a louça, preparar nosso lanche. Enquanto isso, eu dava jantinha pro Enzo, banho, colocava pra dormir. Hoje, é possível que ele tenha de me ajudar a lavar a cozinha. Sim, a jornada tripla aqui não conhece diferença de gêneros, é da mãe, mas também do pai.

E daí que pode parecer que não, mas isso tem tudo a ver com maternagem. Com a maternagem possível. Pra mim, caiu a ficha ao ler um texto com um depoimento de uma mãe que dizia que não conseguia dar colo ao filho na medida do que gostaria por ter as tarefas de casa todas para fazer ao longo do dia. Ao bebê, restava tempo apenas para cuidar das necessidades físicas básicas de sempre, aquelas que não podem ser adiadas.

Esse arranjo (mãe-dona-de-casa-sobrecarregada) não é novidade. Minha mãe viveu isso comigo e com meu irmão. Nunca que ela poderia parar de fazer o que fosse em casa para brincar comigo ou para me dar colo. Até porque, se ela deixasse de fazer, ninguém faria por ela. E eu tinha um irmão que precisava comer, um pai que chegava para jantar, enfim, a vida era outra e era necessário que a prioridade filhos X casa fosse compartilhada.

Percebi, portanto, que a minha opção de maternagem, que inclui apego, colo em livre demanda, brincadeiras, atenção integral às necessidades físicas e emocionais do Enzo e disponibilidade total para ele, depende muito -quase exclusivamente- do acordo tácito que tenho com o marido em relação às responsabilidades da casa.

Durante o dia, minha prioridade absoluta é o Enzo. Quando ele dorme ou se distrai sozinho, sem necessidade da minha companhia, é o tempo que tenho para trabalhar, para dar conta do prazo, afinal (já contei aqui e ali minhas aventuras trabalhando em casa com um bebezico delícia que adora atenção). Geralmente, antes mesmo de eu terminar minhas tarefas jornalísticas, Enzo já acordou de novo ou já notou que eu dei uma fugidinha até a mesa -e já está protestando por isso, claro.

De modo que limpar a casa, fazer comida ou lavar as roupas são coisas que não cabem na minha rotina diária. Quando dá, eu faço. Ninguém quer, às 22h30, cansadaça, louca pra ler um livro ou assistir um DVD com o marido, começar a faxinar o banheiro, né? Pois é, nem eu. Mas lidamos com o possível e o possível é feito de escolhas.

Quando aproveitei meu home office para ficar com Enzo, a decisão foi FICAR COM ENZO. Não com a casa. Não com a faxina. Não com a roupa para lavar. Não com o jantar/almoço. Daí que priorizo Enzo. Do contrário, não haveria razão para não colocá-lo num berçário e ir logo trabalhar fora.

No fundo, acho que o papel de pai que Dri representa inclui -mas claro que não se limita a- permitir que eu seja a mãe que quero ser pro Enzo, a mãe que acredito que devo ser, a mãe que acho que Enzo merece, da qual precisa, pela qual espera. Respeitaria meu filho se ele fosse diferente, mas a cria é um bebê que precisa de mãe, que adora colo, que adora companhia, que quer aprovação e afeto o tempo inteiro. É um bebê dependente.

Por meu lado, sou uma mãe que acha ótimo que o filho seja dependente nessa fase da vida, pois é nisso que acredito: bebezicos dependentes são iguais a crianças, adolescentes e adultos seguros, confiantes, com autoestima saudável. De modo que Enzo e eu combinamos bem. E o Dri, que compartilha comigo essa ideia sobre criação dos filhos, nos dá esse espaço porque não se furta às obrigações domésticas só por ser homem ou só por trabalhar fora.

ABRE PARÊNTESE: Preciso dizer que essa postura do marido não é de hoje, não é do nascimento do Enzo. Sempre foi assim. Dri nunca achou que limpar a casa fosse minha tarefa, nem nunca fez muxoxo para arregaçar as mangas, comigo, e dar conta das chatíssimas tarefas de casa. FECHA PARÊNTESE.

É comum, navegando por sites de jornais e revistas, encontrar especialistas questionando o papel do homem no mundo de hoje, o papel do pai na família etc etc etc. Pode ser que o papel que Dri assumiu não interesse a todos os homens desempenhar, nem mesmo a todas as mulheres. E, de verdade, respeito isso. Acho todo arranjo familiar válido; o que importa é fazer sentido para aquela família.

Mas aqui em casa, é justamente essa postura do marido que me dá o tempo de que preciso para por em prática aquilo no que acredito, como mãe.

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mais uma sobre partos

Essa blogagem coletiva sobre violência obstétrica me deu muito o que refletir. Nesses dias, li coisas interessantíssimas na madresfera (posso emprestar o termo, Mari?) e dois textos em particular me chamaram mais atenção, pois falaram mais claramente coisas que eu andava matutando, mas que não tinha ainda conseguido colocar em palavras, elaborar racionalmente.

Vou pela ordem de leitura, então. Esse aqui, da Mari, do Viciados em Colo, foi de uma clareza e de uma sobriedade arrebatadoras. E foi doído também, uma vez que botou em evidência sentimentos com os quais a maioria de nós lida ou tem lidado. Ela mostra todos as etapas pelas quais passamos quando descobrimos que sofremos uma cesárea desnecessária, quando entramos em contato, ainda que virtual, com a possibilidade de outros partos. Vale muito a pena ser lido.

Comentei com ela, lá no Viciados, algumas coisas que acho que complementam bem o post que fiz sobre violência obstétrica. Para começar, a responsabilidade por ter feito uma cesárea foi, em larga medida, minha mesmo. Queria um normal, mas não me preparei para ele nem física nem psicologicamente.

Fisicamente faltou um monte de coisas: atividades físicas adequadas -e recomendadas- para gestantes, atenção com a pressão, diminuição efetiva do sal nos alimentos, uma dieta mais equilibrada e uma longa lista de etc.

Psicologicamente faltou calma, tranquilidade e, portanto, atenção ao que realmente importava. Faltou também confiança em mim e no meu corpo, faltou entrega à gestação, entrega à natureza, ao ancestral, ao feminino ancestral em nós, ao arquétipo de mãe, aos antigos mitos fundadores da maternidade. Faltou encarar o parto com a naturalidade necessária para deixar de temê-lo e, assim, passar por ele.

Reconheço também que toda a informação de que disponho hoje já estava por aí, na madresfera. Fui em quem não busquei ou não busquei adequadamente, nos lugares certos. Ignorância pode até ser justificativa, mas não desculpa.

De modo que, respondendo à pergunta que a Mari fez no final do post dela, não, eu ainda não me perdoei. Estou no caminho, pois compreendo que fiz o que pude, que o que dei de mim era o que eu tinha pro momento, mas sigo culpada, sigo doída, especialmente pelo que privei Enzo de viver (um parto propriamente, no qual ele participasse, fosse ativo, não fosse surpreendido por mãos apressadas “nascendo-o” à força) e pelo que obriguei Enzo a viver (meu filho bebezico e confuso saiu de mim e foi direto ser mexido e remexido por braços estranhos, num universo estranho, frio. E foi sozinho, sem nem carinho, sem nem conhecer a voz que o acompanhou na estadia do útero. Foi prum berço aquecido, mas sem toque, sem colo, sem vozes ou sons conhecidos, sem referências, sem cheiro familiar, sem afago, sem carinho, sem aconchego, sem ninguém que lhe dissesse “está tudo bem, não se assuste”.

Eu só toquei meu filho, só pude colocar meu filho no colo, sentir seu cheiro, falar com ele, olhar pra ele 4 horas depois do parto. Entre uma coisa e outra, ficamos, eu e ele, separados pela frieza institucional das regras da maternidade, da equipe médica, do staff de enfermeiros, de sei-lá-mais-quem que, por sei-lá-que-motivo inventou normas que atendem a sei-lá-quais-interesses (mas não aos do meu filho, nem aos meus).

Então dói ainda, dói muito. E, talvez por essa razão, terminei de ler o texto da Mari com os olhos rasos d’água.

O que me leva ao segundo texto que li (por indicação da Mari lá no post dela) e que ficou martelando aqui na cabeça. A Anne, do Super Duper, diferenciou muito bem as vias de nascimento. Uma coisa é parto, outra é nascimento. Quem teve uma cesárea, como eu, na verdade não teve um parto. Clic! Isso nunca tinha ficado tão claro antes.

Eu não participei do nascimento do Enzo, fui mera coadjuvante. Sabe como descobri que meu filho já tinha nascido? Ouvindo a obstetra dizer “bem vindo”. Ela falou isso uma vez, falou duas, achei estranho e, meio grogue, perguntei: “Já nasceu?”. Sim, tinha sido nascido. Nem me dei conta. Nem me dei conta do momento mais importante das nossas vidas -minha e do Enzo. Aconteceu e eu mal estava lá. Qualquer pessoa que esteve naquela sala de cirurgia vai saber contar melhor como foi o nascimento do meu filho que eu.

Sinto por mim e por Enzo, mas pelas pessoas de um modo geral. As histórias, os marcos fundamentais da vida, estão perdendo valor para uma supervalorização de uma pseudo-ciência vendida a preço de ouro. Adorava ouvir a história de como eu nasci. Isso é essencial, faz parte da nossa identidade, toda criança quer saber. E quanto mais emoção, melhor.

Minha mãe sempre contava com detalhes como foram as contrações, que ela achou que não era nada, que quase nem vai para o hospital, e que -veja só- chegando lá eu já estava quase nascendo. Lembrava dos detalhes, do médico que não chegava, da enfermeira que a tranquilizava, de não ter sentido muita dor (“é uma cólica menstrual um tanto mais forte”, me dizia, pra eu não ficar com medo), de eu ter nascido rápido, da emoção de me ver pela primeira vez, do primeiro choro (meu e dela, como mãe), do primeiro colo, da primeira mamada. E eu ouvia, satisfeita com minha origem.

Isso faz de nós menos mães? Claro que não, nem acredito que exista isso. Mas não posso deixar de lamentar que, ao invés de um relato de parto, a origem das nossas crias -e a narrativa fundadora da vida dos nossos filhos- será algo como: “Mamãe marcou na agenda, fomos lá, tomei uma injeção e você nasceu”.

Sei que o post está enorme, mas ainda preciso dizer que o convencimento da indústria da cesárea foi tão potente, tão manipulador e tão certeiro que tem (muita) gente que associa PN à pobreza, à gente desassistida, à gente que não tem acesso às “maravilhas” da ciência. Muita mocinha classe média por aí que adora elogiar as maravilhas da vida “civilizada” fora do Brasil, esquece que lá fora, entre os civilizados, a regra é PN. Pra todo mundo.

Aqui, virou “privilégio” ter sua barriga cortada desnecessariamente, passar por um procedimento cirúrgico arriscado desnecessariamente, ser privada de um momento de comunhão maravilhoso desnecessariamente.

Uma mistura de preconceito de classes com violência disfarçada de ciência.

Sou pela livre escolha da mulher, da parturiente, mas que livre escolha há, que livre escolha é possível, sem informação verdadeira e adequada? Como já disse no post anterior, manipulação é, com certeza, uma forma de violência.

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ó só como o banho acalma

Daí que todo mundo sempre me disse que banhos acalmavam os bebês. Daí que acreditei. E comecei a dar banhos em Enzo sempre por volta das 21h, antes de dormir, pra já ir relaxando. Daí que Enzo chegou mesmo a dormir na água morninha da banheira.

Mas daí que ninguém contava com a astúcia do meu minimenininho, que resolveu questionar os paradigmas do banho e transformar os minutos na água -e os minutos DEPOIS da água- em pura diversão.

Daí que acalmar que nada! Banho, pro Enzo, é sinônimo de tocar o terrorzinho, da bagunça, de jogar água pelo banheiro, de perseguir bolinhas de sabão, de dar muitas gargalhadinhas, de explorar o próprio corpo (ele descobriu que tem pinto!), e de fazer um “esquenta” para mais travessuras antes de dormir. Claro que isso inclui não deixar mamãe colocar a fralda, porque é muito melhor MORDER a fralda que vesti-lá, né?

Ó só do que eu estou falando, ó:

Ai, gentes, vejam como estou calminho depois do banho, vejam!

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