não gosto de manha, a palavra

Não gosto da palavra manha. Não acredito nela, não uso. Meu problema com a palavra começa em seu pressuposto: o bebê só precisa de alguns tipos de cuidados. Portanto, se chorar querendo qualquer outra coisa, é “manha”, é um “choro sem motivo”.

No senso comum, em se tratando de bebês, manha equivale a manipulação, a chorar à toa com intenção de manipular os pais para obter deles algum benefício a que o bebê não tem direito -ou que não é “bom” para ele. Significa exagerar uma emoção com o objetivo deliberado de enganar mamãe e papai, sensibilizá-los a dar algo que não deveriam dar ou que simplesmente não dariam, pois não é necessário.

Não faz muito tempo, numa consulta com a pediatra do Enzo, levei uma bronca por “perder” muito tempo com Enzo e ficar à disposição dele o dia todo. Para eu saber se estava “exagerando” ou não nos cuidados, a dra. Ped me deu a seguinte receita: põe a cria em algum lugar seguro (carrinho, cercadinho, tapetinhos etc). Se chorar, faça um check list mental: ele está alimentado? Está limpo? Está com alguma dor ou incômodo? Se a resposta for “sim” para as duas primeiras e “não” para a última, então o choro é “manha”, ele não precisa de nada.

Aí eu pergunto:

1) Quem disse que o bebê só precisa de cuidados físicos? Quer dizer que se estiver de barriga cheia, limpo e sem dor o resto é frescura? Necessidades psicológicas, emocionais, curiosidade tudo isso é ignorável? É desejável que seja ignorado? Nem pode ser considerado uma necessidade?

O que leva à segunda pergunta.

2) Quem disse que só queremos -ou que só devemos querer- o estritamente necessário? O que não garante a nossa sobrevivência imediata é supérfluo e desejar isso é errado? E se fosse um adulto? É assim que funciona também? Só precisamos garantir alimentos, higiene e alívio pra enxaqueca? Todo o resto é dispensável? Amor? Carinho? Amigos? Uma cervejinha gelada? Um livro? Um disco? Querer essas coisas é frescura e manha?

Ou 0s adultos têm mais valor que os bebês? Podem querer mais coisas? Bebês não sentem? Não desejam? Não podem desejar sei-lá-o-quê? Só gente grande pode ter vontades esquisitas (tipo ficar milionário antes dos 30)?

O pior é que tachar os pequenos como manhosos a priori não quer dizer apenas que as crianças não têm direito a nada que não seja necessidade básica -e física ainda por cima. Quer dizer que elas não têm nem o direito de pedir por coisas que não sejam comida, bumbum limpo e, eventualmente, um remedinho para dor de ouvido.

Dizer “isso é manha” desqualifica, de uma só tocada, o pedido (o ato de pedir, reivindicar, expressar desejo e frustração) e o desejo em si, já que, senso comum, manha é “chorar à toa”. Para muitos, psicólogos inclusive, alguns dos quais li recentemente, dar o que a criança pede é igual a contentar todos os seus “caprichos”. E reduzir os quereres e necessidades das crianças a “caprichos” não é de uma soberba imensa? Para mim, é.

Se meu desejo, adulta que sou, é um desejo digno; se nós, “gente grande”, somos estimulados (até demais) e super premiados por “lutar” pelo que queremos, porque o querer das crianças deve ser menosprezado?

O pediatra espanhol Carlos Gonzalez diz, em seu ótimo Besame Mucho, que nos acostumamos a tratar os pequenos de forma desrespeitosa, de maneiras que não trataríamos adulto nenhum. E provoca: ué, não somos todos iguais, afinal? Ou, como dizia o poeta, uns são mais iguais que os outros? Ele desafia: antes de fazer qualquer coisa a um bebê ou a uma criança, imagine o que faria na mesma situação se fosse um adulto.

Isso significa atender a todos os desejos dos bebês? Claro que não. Concordo com quem diz que é nosso papel de pais ensinar e ajudar os filhos a lidar com a frustração. E nem todos os desejos podem mesmo ser realizados, na bebezice e na vida.

Mas discordo muito da pediatra sobre:

1) A atenção que Enzo merece: não acho que eu não deva estar disponível, que eu deva ensiná-lo a “não precisar de mim”. Como eu já escrevi outras vezes, ele precisa, eu quero que precise, é bom e natural que precise, pois ele é um BEBÊ. E acho que é natural que qualquer coisa de que ele precise ou que ele queira o faça procurar por mim ou pelo pai, do jeito que ele sabe e pode fazer: chorando. Se vamos dar o que ele quer é outra coisa, mas não quero tachá-lo de manhoso só porque ele pede, nem vou ignorá-lo.

2) O que é necessário: acho colo necessário, acho beijo necessário, acho afago necessário, acho sentir-se amado necessário, acho sentir-se seguro necessário, acho sentir-se acalentado necessário, acho toque necessário, acho alegria necessária, acho riso necessário, acho brincadeirinhas necessárias. Não acho limpar a bunda e encher a barriga as únicas necessidades.

3) O que fazer quando Enzo quer algo de que não precisa: é ótimo que pessoas, incluindo crianças, queiram o que não precisam. Se a gente só quisesse aquilo de que precisasse, seríamos todos nômades, coletores de frutos, caçadores de pequenos animais, viveríamos em cavernas e usaríamos desenhos toscos para nos comunicar. Nem os bichos limitam seus desejos às necessidades. Minha gata não precisa de colo, mas adora esse tipo de afago; não precisa da nossa cama, mas prefere dormir com a gente que sozinha. Podendo atender a esses desejos (dos filhos, dos gatos, dos amigos, nossos mesmos) -e eles sendo saudáveis- não vejo razão para negar.

4) Como e quando ensinar a lidar com frustração: não acho que a gente precise marcar na agenda: esses ensinamentos serão naturais, se estivermos atentos aos filhos e a nós mesmos, porque temos limitações, limites que também limitam os filhos.Exemplo bobo? Eu me canso de ficar com Enzo no colo (ele pesa 9,6 kg, afinal). E aí eu o coloco no carrinho, no sofá, no tapete, mesmo que ele ralhe um pouco. E eu converso com ele e explico que estou cansada e mostro que, naquele momento, é isso que dá pra ser feito. E ele entende, a seu modo, e lida com sua impossibilidade.

E há situações em que o que a cria deseja é impossível. Não precisamos inventar um “não” só pra o menino não ficar “manhoso”. Enzo ama facas. É claro que ele não pode brincar com elas, é claro que eu não dou, é claro que ele chora. E ok. Ele chora o tempo necessário para, justamente, lidar com a frustração. E depois passa. Que mãe eu seria se o achasse manhoso simplesmente porque ele está tentando lidar com sua frustração, com o limite? O grande barato -todo mundo diz por aí- não ensinar justamente o tal limite? Pois é, pra isso, é preciso não reprimir o choro, nem partir do pressuposto de que se trata de “manha”.

Pois eu acredito que ensinar a lidar com frustração é muito mais fácil e efetivo quando não brigamos com os filhos por eles estarem chorando (porque querem algo ou porque não podem ter algo), quando não rotulamos nossos filhos só porque, bem, eles não se comportam como se fossem bonecos. E isso foi um clic gigantesco que eu tive lendo a série sobre “birras” (outra palavra que eu detesto; outro post no forno) do O Astronauta.

5) Razões pelas quais “devo combater a manha”: para a dra. Ped, eu “perco” muito tempo fazendo as “vontades” de Enzo. Para mim eu GANHO muito tempo CONVIVENDO com meu filho.

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5 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões

5 Respostas para “não gosto de manha, a palavra

  1. Texto muito perfeito, Natalie! Tenho tanta raiva de pediatras que dão essas recomendações, porque a mulherada segue, mesmo com o coração partido, porque o que o “dotô” fala é lei, afinal ele estudou pra isso…
    Acho tão absurdo isso de bebê manhoso, bebê birrento, bebê manipulador… é só um bebê gente! Apenas um bebê querendo suas necessidades atendidas, e colo é necessidade básica pros bebês. Uma criança que compreende bem, que é possível dialogar, pode sim rolar uma manha, mas de bebês que ainda nem sabem que não são uma extensão da mãe… a faz favor.
    Teu blog devia ser um jornal materno, impresso e distribuído pra todas as mamães. Hehe

  2. tambem dei uma passada por esse assunto no meu blog ontem…
    odeio quando me dizem que tenho que deixar chorar porque faz bem ou pra acostumar… se pudesse dava um beliscao ‘a moda seu Madruga ou um soco no nariz da pessoa -entao chora aí!
    Só me faltava ter um filho pra “ensinar a sofrer” …
    Se pedir colo,carinho, risada e beijo é manha, quero que ele seja o bebe mais “manhoso” do mundo!

    • Nat

      dei uma olhada lá!
      e fucei no blog e adorei!
      essa coisa do deixar chorar é clássica, né? ai meus sais, precisa ter paciência, muita paciência. não com o filho que chora, mas com os pitaqueiros…

      bjos

  3. Paula

    Tá faltando bom senso ultimamente, é o que me parece… As mães querem filhos cada vez mais precoces, inclusive no que diz respeito à independência e maturidade. Como se deixar um bebê chorando trouxesse algum tipo de aprendizado válido. Inacreditável, né?

    P.S.: Nat, o nome do meu filhote é Felipe (vc tinha perguntado alguns posts atrás)
    P.S.2: Virei fã do blog!

    • Nat

      olha, estou com um post no forno sobre isso, sobre essa necessidade de os filhos serem primeiros em tudo, sobre a síndrome da precocidade… parece epidemia, menina!
      obrigada pela visita, Paula! venha sempre.

      bjos

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