eu sei o que vocês fizeram no verão passado

Já escrevi por aqui sobre os problemas que eu tive durante a amamentação de Enzo, que culminaram no desmame precoce do meu filho, aos seis meses. Fui mais uma que caiu no “conto do vigário” do “você não tem leite”. Não culpo apenas o pediatra (que, ainda bem, dispensamos). Nem a minha obstetra (que me fez sair da maternidade com LA “prescrito”, e que nunca -nunca mesmo- quis conversar comigo sobre amamentação durante a gravidez, mesmo eu tendo feito zilhares de perguntas). Nem nenhuma das zentas pessoas que me deram “conselhos” errados sobre amamentação, ou que reforçaram o mito do “não tive leite”, “meu leite secou”, “dá só um pouquinho de LA que o leite materno é fraco” e blá blá blá.

Tenho meu quinhão de culpa -ou de responsabilidade, pra gente fugir dessa coisa autoflagelante religiosa- e o assumo. Escrevi sobre isso, me impliquei no problema, sei que errei, sei que fui medrosa, ansiosa, precipitada e pouco madura. Estava menos informada do que deveria, com medo, suscetível, pois, a qualquer bobagem e foi em bobagens que acreditei.

Tudo isso pra dizer que, depois dessa minha experiência e de tudo o que aprendi -especialmente na blogosfera- sobre amamentação, virei entusiasta não apenas de amamentar, mas de disseminar informações sobre isso, de forma a ajudar outras mães em situação parecida com a minha para que elas tomem as decisões certas que eu não tomei.

E eis que, nessa mesma blogosfera, descobri, dia desses, o blog “a mãe que quero ser“. O que me levou a ele foi justamente um post sobre amamentação, que mostrava que a SPB (Sociedade Brasileira de Pediatria) recebe patrocínio da Nestlé, uma das grandes produtoras de LA (é a dona do NAN, por exemplo). Bacana, não? (ironia mode on). Alô, doutores, será que não há um conflito de interesses aí?

Clarissa, a autora do blog, destrincha muito bem essa ligação nesse post aqui. E vai mais longe, no segundo post da série, aqui ó. Ela mostra, por exemplo, que as empresas fabricantes de LA colocavam representantes vestidas de enfermeiras, em hospitais, para propagandear as “qualidades” do produto. E, pior, diz que essas empresas financiam pesquisas e dados que servem de subsídio para o trabalho dos pediatras, entre eles uma tabela de “desenvolvimento” ideal de bebês que, claro, diz que mais saudável é o bebê que engorda na proporção que engordam os bebês alimentados por LA, não por LM (que geralmente engordam um pouco menos, pois LM é menos gorduroso e menos calórico).

Entre outras qualidades, acho que os posts põem a nu o que as corporações “fizeram no verão passado” (sabe como?) e que, no mínimo, ajudou a sociedade a chegar nesse estado de coisas que vemos hoje, em que quase ninguém consegue amamentar até os seis meses (mínimos), que dirá até os 2 anos, como recomenda a OMS (da qual o ex-pediatra do Enzo fazia pouco caso, sério mesmo).

Acho tão importante o esclarecimento que Clarissa está fazendo que passei por aqui hoje só pra recomendar os dois posts dela:

SBP, Nestlé e como essa aliança afeta você (parte 1)

SBP, Nestlé e como essa aliança afeta você (parte 2)

Já a minha experiência com amamentação eu relato, principalmente, em:

O pediatra nem sempre está certo

Amamentação: faria tudo diferente

ADENDO

A Nívea, do “Que Seja Doce“, fez um comentário bem pertinente. Ela contou que, no seu caso, realmente não teve leite. Mesmo com apoio na maternidade, curso, mesmo o bebê tendo acertado pega e mamada logo de cara, mesmo com o bebê mandando bem, não rolou. O filho mamava, mas chorava de fome. A mãe ficava horas tentando extrair o leite com a bombinha e só saía 20 ml. Daí que foi necessário da LA, claro.

E, em casos assim, é ótimo que exista o LA, é ótimo que as mães deem mesmo LA, sem culpa, sem cobranças. É para isso que o LA serve -ou deveria servir: situações em que realmente não há condições de amamentar com LM. E é claro que existem situações como essa aos montes por aí, não vamos criar o mito ao contrário.

Esse post é para todos os outros casos, que infelizmente são a maioria, de mulheres que poderiam ter amamentado e que foram mal orientadas, que estavam mal informadas que, por uma série de informações desencontradas, acabaram no LA, mesmo estando tudo ok pra seguirem com LM (apesar das dificuldades, como foi meu caso, como parece ter sido o caso da Adriana, do “Fora do Casulo“, que também comentou).

Agradeço mega a Nívea por ter contado a experiência dela, até pra gente não esquecer de mencionar que há, sim, situações em que realmente não rola manter a amamentação. Ponto.

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4 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões

4 Respostas para “eu sei o que vocês fizeram no verão passado

  1. Ótimo Nat! Boa informação tem mesmo que ser propagada, não posso olhar todos os links agora, mas tenho certeza que está cheio de informações valiosas. A coisa da amamentação é muito de confiar no próprio taco, ou, no próprio leite. Mas são tantas as causas que levam as estatísticas de hoje, da minoria dos bebês serem amamentados exclusivamente. É falta de muita coisa, falta de informação, falta de confiança na própria natureza, falta de profissionais que apoiem o aleitamento, e essa visão da sociedade de que se o bebê não é “estilo buldogue”, o leite da mãe é fraco. É uma triste realidade, principalmente quando se tem alguma dificuldade, a mulher não tem apoio nem quando o peito vaza de tanto leite e o bebê mama feito um carneirinho, imagina quanto se tem dificuldade então, LA é a solução. Informação é a chave, problema é informar que o pediatra não é a única fonte de informação, muito menos a mais confiável…
    Beijinhos

  2. Ai meninas, esse assunto ainda é complicado pra mim. Me sinto tão culpada por não ter confiado e ter caído nesse erro também. Mas ainda não conseguí escrever sobre o tema. A culpa é tão grande que não tenho coragem de por para fora tudo que sinto a esse respeito. Mas de uma coisa tenho certeza, se eu resolver ter o segundinho, farei beeemmm diferente. Não pesquisei muito sobre o tema, mas sei que existem grupos que ajudam as mães que não conseguem amamentar. Vão à sua casa, te orientam.
    Bjo

  3. Nat,
    Não quero discutir essa coisa da falta de suporte para quem quer amamentar no Brasil. Só queria contar bem rapidamente a minha experiência.
    Eu quis amamentar, fiz o curso da maternidade (aqui você tem todo o apoio e é encorajada a amamentar), li tudo a respeito. Meu bebe mamou assim que nasceu, e da segunda tentativa eu já não precisava da ajuda da enfermeira para posiciona-lo. Saimos do hospital desse jeito, ele mamando a cada 2 horas no meu peito, todos felizes. No terceiro dia ele chorou de fome. Dia e noite, e nós não sabíamos o que estava acontecendo. Ele mamava, mamava e continuava a chorar. Descobri que eu não tinha leite. Não tinha! Ninguém me falou. Eu tirava com a bombinha, por horas e só tirava 20ml. Tive que complementar com formula (sem nenhuma culpa) e continuei insistindo por quase um mês. Bebe no seio por 20 minutos, no outro seio por mais 20 e depois mamadeira. Tive mastite, muita dor. Mas não tinha leite suficiente!
    Passamos para a mamadeira somente porque eu não tinha a menor condição de amamentar no peito e fazer mamadeiras, sem dormir, sem ajuda de ninguem, praticamente sozinha.
    E fomos felizes para sempre.
    Um beijo

  4. Nat

    Dayane,

    Vc definiu muito bem: é confiar no próprio taco e esquecer o bebê-buldogue (ahah adorei!). Mas, infelizmente, é só uma minoria que consegue isso. E irrita muito que sejam justamente os pediatras, aqueles em quem, supostamente, a gente tem que confiar, os que propaguem as informações distorcidas.

    bjos

    **************************

    Adri,

    já me culpei muito também. Mas cheguei a conclusão de que fiz o que pude fazer, com as limitações que eu tinha. Eu teria de ser uma outra pessoa pra ter reagido de outra forma. Continuo lamentando? Sinceramente, todos os dias! Especialmente quando acontece, por exemplo, o que aconteceu na semana passada, de o Enzo estar no limite de chegar ao sobrepeso por mamar LA. Agora, acho que o melhor que posso fazer é cuidar da alimentação dele e contribuir, de alguma forma, pra outras mães evitarem meus erros.

    bjos

    **************************
    Nívea,

    excelente relato! Obrigada! Virou um adendo no post. Vc tem toda a razão, não vamos criar mitos ao contrário: há casos em que não se tem leite, em que a amamentação não rola mesmo. Daí, dar LA é tudo de bom, e é ótimo que LA exista, afinal, os bebês precisam mamar! 🙂
    Não quero parecer a xiita da amamentação, que passa por cima da realidade pra justificar fundamentalismos. Obrigada por ter feito esse relato e me ajudado a fazer a ressalva necessária ao texto.

    bjos

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