mais uma sobre partos

Essa blogagem coletiva sobre violência obstétrica me deu muito o que refletir. Nesses dias, li coisas interessantíssimas na madresfera (posso emprestar o termo, Mari?) e dois textos em particular me chamaram mais atenção, pois falaram mais claramente coisas que eu andava matutando, mas que não tinha ainda conseguido colocar em palavras, elaborar racionalmente.

Vou pela ordem de leitura, então. Esse aqui, da Mari, do Viciados em Colo, foi de uma clareza e de uma sobriedade arrebatadoras. E foi doído também, uma vez que botou em evidência sentimentos com os quais a maioria de nós lida ou tem lidado. Ela mostra todos as etapas pelas quais passamos quando descobrimos que sofremos uma cesárea desnecessária, quando entramos em contato, ainda que virtual, com a possibilidade de outros partos. Vale muito a pena ser lido.

Comentei com ela, lá no Viciados, algumas coisas que acho que complementam bem o post que fiz sobre violência obstétrica. Para começar, a responsabilidade por ter feito uma cesárea foi, em larga medida, minha mesmo. Queria um normal, mas não me preparei para ele nem física nem psicologicamente.

Fisicamente faltou um monte de coisas: atividades físicas adequadas -e recomendadas- para gestantes, atenção com a pressão, diminuição efetiva do sal nos alimentos, uma dieta mais equilibrada e uma longa lista de etc.

Psicologicamente faltou calma, tranquilidade e, portanto, atenção ao que realmente importava. Faltou também confiança em mim e no meu corpo, faltou entrega à gestação, entrega à natureza, ao ancestral, ao feminino ancestral em nós, ao arquétipo de mãe, aos antigos mitos fundadores da maternidade. Faltou encarar o parto com a naturalidade necessária para deixar de temê-lo e, assim, passar por ele.

Reconheço também que toda a informação de que disponho hoje já estava por aí, na madresfera. Fui em quem não busquei ou não busquei adequadamente, nos lugares certos. Ignorância pode até ser justificativa, mas não desculpa.

De modo que, respondendo à pergunta que a Mari fez no final do post dela, não, eu ainda não me perdoei. Estou no caminho, pois compreendo que fiz o que pude, que o que dei de mim era o que eu tinha pro momento, mas sigo culpada, sigo doída, especialmente pelo que privei Enzo de viver (um parto propriamente, no qual ele participasse, fosse ativo, não fosse surpreendido por mãos apressadas “nascendo-o” à força) e pelo que obriguei Enzo a viver (meu filho bebezico e confuso saiu de mim e foi direto ser mexido e remexido por braços estranhos, num universo estranho, frio. E foi sozinho, sem nem carinho, sem nem conhecer a voz que o acompanhou na estadia do útero. Foi prum berço aquecido, mas sem toque, sem colo, sem vozes ou sons conhecidos, sem referências, sem cheiro familiar, sem afago, sem carinho, sem aconchego, sem ninguém que lhe dissesse “está tudo bem, não se assuste”.

Eu só toquei meu filho, só pude colocar meu filho no colo, sentir seu cheiro, falar com ele, olhar pra ele 4 horas depois do parto. Entre uma coisa e outra, ficamos, eu e ele, separados pela frieza institucional das regras da maternidade, da equipe médica, do staff de enfermeiros, de sei-lá-mais-quem que, por sei-lá-que-motivo inventou normas que atendem a sei-lá-quais-interesses (mas não aos do meu filho, nem aos meus).

Então dói ainda, dói muito. E, talvez por essa razão, terminei de ler o texto da Mari com os olhos rasos d’água.

O que me leva ao segundo texto que li (por indicação da Mari lá no post dela) e que ficou martelando aqui na cabeça. A Anne, do Super Duper, diferenciou muito bem as vias de nascimento. Uma coisa é parto, outra é nascimento. Quem teve uma cesárea, como eu, na verdade não teve um parto. Clic! Isso nunca tinha ficado tão claro antes.

Eu não participei do nascimento do Enzo, fui mera coadjuvante. Sabe como descobri que meu filho já tinha nascido? Ouvindo a obstetra dizer “bem vindo”. Ela falou isso uma vez, falou duas, achei estranho e, meio grogue, perguntei: “Já nasceu?”. Sim, tinha sido nascido. Nem me dei conta. Nem me dei conta do momento mais importante das nossas vidas -minha e do Enzo. Aconteceu e eu mal estava lá. Qualquer pessoa que esteve naquela sala de cirurgia vai saber contar melhor como foi o nascimento do meu filho que eu.

Sinto por mim e por Enzo, mas pelas pessoas de um modo geral. As histórias, os marcos fundamentais da vida, estão perdendo valor para uma supervalorização de uma pseudo-ciência vendida a preço de ouro. Adorava ouvir a história de como eu nasci. Isso é essencial, faz parte da nossa identidade, toda criança quer saber. E quanto mais emoção, melhor.

Minha mãe sempre contava com detalhes como foram as contrações, que ela achou que não era nada, que quase nem vai para o hospital, e que -veja só- chegando lá eu já estava quase nascendo. Lembrava dos detalhes, do médico que não chegava, da enfermeira que a tranquilizava, de não ter sentido muita dor (“é uma cólica menstrual um tanto mais forte”, me dizia, pra eu não ficar com medo), de eu ter nascido rápido, da emoção de me ver pela primeira vez, do primeiro choro (meu e dela, como mãe), do primeiro colo, da primeira mamada. E eu ouvia, satisfeita com minha origem.

Isso faz de nós menos mães? Claro que não, nem acredito que exista isso. Mas não posso deixar de lamentar que, ao invés de um relato de parto, a origem das nossas crias -e a narrativa fundadora da vida dos nossos filhos- será algo como: “Mamãe marcou na agenda, fomos lá, tomei uma injeção e você nasceu”.

Sei que o post está enorme, mas ainda preciso dizer que o convencimento da indústria da cesárea foi tão potente, tão manipulador e tão certeiro que tem (muita) gente que associa PN à pobreza, à gente desassistida, à gente que não tem acesso às “maravilhas” da ciência. Muita mocinha classe média por aí que adora elogiar as maravilhas da vida “civilizada” fora do Brasil, esquece que lá fora, entre os civilizados, a regra é PN. Pra todo mundo.

Aqui, virou “privilégio” ter sua barriga cortada desnecessariamente, passar por um procedimento cirúrgico arriscado desnecessariamente, ser privada de um momento de comunhão maravilhoso desnecessariamente.

Uma mistura de preconceito de classes com violência disfarçada de ciência.

Sou pela livre escolha da mulher, da parturiente, mas que livre escolha há, que livre escolha é possível, sem informação verdadeira e adequada? Como já disse no post anterior, manipulação é, com certeza, uma forma de violência.

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8 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões

8 Respostas para “mais uma sobre partos

  1. Acho que a parte mais difícil da cesárea deva ser essa separação quando nasce. A gente espera tanto por esse momento e deve ser angustiante saber que o bebê não está mais na sua barriga e nem nos seus braços. Muito se fala de humanização do parto normal, mas é preciso uma humanização no parto cesárea também. Como você bem disse, a indústria do parto cesárea. A realidade dos partos no Brasil é triste, vergonhosa e revoltante.

  2. lindo texto! olha essa troca é muito boa, viu?
    tem um texto, não vou achar… que diferencia culpa e responsabilidade. para a culpa só resta a punição e se martirizar é a única opção. só que a culpa e a martirização não nos conduzem a nenhuma melhoria.

    responsabilizar-se é diferente: assumimos nossos erros, nossos limites e partimos para o futuro, não para a punição, mas para a reparação.

    exemplo: dei todo o colo do mundo, fiz cama compartilhada, passei meses ordenhando para arthur, fiz diário de ordenha, tomei mais água que queria, dormia tarde pq o leite só descia meia noite, almoçava correndo para fazer meus 20 minutos de ordenha, voltei a trabalhar depois de quatro meses e consegui manter 90% exclusivo no LM até seis… dei pouco nan… fiz isso por mais dois meses!!! esta foi minha reparação: ele não teve o melhor parto, ficou oito dias internado longe de mim e – ou eu fazia isso, ou ia passar o resto da vida protegendo ele do mundo como forma de reparar meu erro. escolhi conscientemente terminar a reparação aos 24 meses, apesar de ainda não ter desmamado.

    mais duas coisas: leia o relato de parto de clarice e tenha acesso a uma cesárea humanizada: http://fotocecilia.blogspot.com/2010/08/relato-do-nascimento-da-clarice.html

    parto cesárea só devia ser feito por indicação médica autêntica e não dessas que alegam por aí, nunca por conveniência, medo, escolha nem da paciente, nem do médico… penso assim!

  3. lindo texto! olha essa troca é muito boa, viu?
    tem um texto, não vou achar… que diferencia culpa e responsabilidade. para a culpa só resta a punição e se martirizar é a única opção. só que a culpa e a martirização não nos conduzem a nenhuma melhoria.

    responsabilizar-se é diferente: assumimos nossos erros, nossos limites e partimos para o futuro, não para a punição, mas para a reparação.

    exemplo: dei todo o colo do mundo, fiz cama compartilhada, passei meses ordenhando para arthur, fiz diário de ordenha, tomei mais água que queria, dormia tarde pq o leite só descia meia noite, almoçava correndo para fazer meus 20 minutos de ordenha, voltei a trabalhar depois de quatro meses e consegui manter 90% exclusivo no LM até seis… dei pouco nan… fiz isso por mais dois meses!!! esta foi minha reparação: ele não teve o melhor parto, ficou oito dias internado longe de mim e – ou eu fazia isso, ou ia passar o resto da vida protegendo ele do mundo como forma de reparar meu erro. escolhi conscientemente terminar a reparação aos 24 meses, apesar de ainda não ter desmamado.

    mais duas coisas: leia o relato de parto de clarice e tenha acesso a uma cesárea humanizada: http://fotocecilia.blogspot.com/2010/08/relato-do-nascimento-da-clarice.html

    parto cesárea só devia ser feito por indicação médica autêntica e não dessas que alegam por aí, nunca por conveniência, medo, escolha nem da paciente, nem do médico… penso assim!

  4. Nat

    Mari,

    concordo com você! cesárea só por indicação médica mesmo, em casos em que o normal realmente não seja possível, ou que haja, de fato, risco para mãe e bebê.

    acabei de ler o relato da Paloma! emocionante, lindo! adoraria que, pelo menos, tivesse sido assim minha cesárea. entrei em TP, o que já é muito melhor que o desejo da minha GO -que era agendar uma cesárea. sabe que, qdo penso nisso, hj, ainda fico um tanto desorientada? como assim agendar cesárea?? ai, ai.

    enfim, ótima essa definição entre culpa e responsabilidade. estou nesse caminho da reparação de Enzo. acho que escolhi, inclusive, buscar formas mais naturais possíveis de maternar por causa disso. mas eu, que nunca tinha pensado muito nisso, virei uma defensora do PN e PD… eu que, quando ouvi falar em PD pela primeira vez, pensei: “essa mulherada só pode estar louca”. ahah ahaha

    bjos e obrigada, querida!

    Dayane,

    não poder ficar com o bebê assim que nasce acho que é uma das maiores violências. Nem tanto com a mãe, que é capaz de lidar com a ansiedade e os desejos e que sabe o que vai acontecer, mas com o bebê, que só tem de familiar, nesse novo mundo, é a mãe. e é justamente dela que o hospital o afasta por hoooooras. horas em que ele fica sendo mexido pra lá e pra cá por um tantão de gente, enfim, algo que só aumenta a angústia do recém-chegado.

    dói muito em mim que ninguém assuma o ponto de vista do bebê durante o nascimento, na maternidade. acho isso um contra-senso, assim como uma série de procedimentos para os quais não vejo utilidade. exemplo: o tal colírio: é pra prevenir gonorreia em caso de partos vaginais. eu não tive um parto vaginal e não tenho gonorreia (facilmente detectável em exames). pra que pingaram aquela porcaria em Enzo, então?

    a gente ouve falar muito sobre partos melhores fora daqui. vc teve a Leah aí nos EUA já? como foi?

    bjos

  5. Ingrid

    Nat, já se perdôou? Meu Nicolas nasceu por cesárea por não haver a menor possibilidade de ser normal, eu queria tanto, fiquei infinitamente triste quando o médico disse que ou era cesárea ou os dois poderiam morrer… minha placenta descolou, cheguei no hospital com hemorragia leve, mas perigosa, tendo as contrações mas sem sentir absolutamente nada… assim que ele foi tirado e teve os sinais vitais checados veio para o meu colo, e te digo: foram os 3 minutos mais cruciais do nosso relacionamento, ele parou de chorar, eu pude dar um beijo nele e ter a certeza de que apesar do susto que ele deve ter sentido, ficaria tudo bem. Não se culpe (tanto). Eu fiz quase tudo o que podia pra ser parto normal, exercício para ele virar certinho e encaixar, controlei alimentação e contei graças a Deus com uma genética privilegiada que me manteve com a pressão bem normal e mesmo assim quase perdi minha vida e meu filho. Tinha que ser do jeito que foi.

    • Nat

      agora estou mais tranquila em relação a isso, mas continua sendo uma feridinha, sabe como? no meu caso -como no seu- a cesárea foi necessária, mas, mesmo assim, sei que poderia ter feito mais do que fiz para evitá-la. e tenho muitas críticas à maneira como as coisas foram -e são, na maioria das maternidades, especialmente nas privadas- conduzidas depois do nascimento. ainda lamento não ter buscado informações suficientes, durante a gravidez, para saber, antes, que o tal bercinho aquecido é um engodo, por exemplo. bom mesmo é colo de mãe, mas eu não sabia disso -por minha responsabilidade 100%-, de modo que não pude EXIGIR -meu direito e direito do meu filho- um parto humanizado, ainda que cesáreo.
      bjocas e obrigada pelo apoio!

  6. Carmem Lígia

    Natalie, li o relato do nascimento de Enzo e agora eu que estou com os olhos cheios de lagrimas… foi exatamente o que passei e me culpo, acho que foi fraqueza minha. Quando completei 41 semanas, meu médico disse que teríamos que marcar a cirurgia pois o filho dele ia se formar(Equipe médica: O médico era o pai do formando, a pediatra a mãe e o anestesista padrinho…) e por isso toda a equipe dele iam se ausentar por 4 dias. E quando ele viu minha cara ele usou a expressão “vai arriscar?”… e marquei a cirurgia pra dois dias depois …e rezei, pedi por tudo pra entrar em trabalho de parto até lá, mas meu Pedro estava adorando o cantinho dele. E ai tive um parto cesário com o mesmo relato que o seu… me culpo até hj.

  7. Pingback: o renascimento do parto | mãederna

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