personalidade em formação

Acho maravilhoso assistir, com ingresso VIP, à formação de uma personalidade. É um dos privilégios que temos por ser mães. Nossos bebezicos, aquelas coisicas pequenas, confusas, que não tinham a menor ideia do que eram e de onde estavam, poucos meses depois já têm um admirável domínio de si mesmos. Tanto que, muito além de ter desejos, preferências, quereres, brigam por eles.

De repente, a cria quer ficar só de pé; de repente, se joga na direção de um cômodo ou de outro e escolhe onde quer brincar; de repente, não quer mais vestir as calças, nem as blusas, nem roupa nenhuma; de repente, nega uma comida, mas aceita outra, evidenciando as preferências; de repente, se move em busca de um brinquedo específico, mesmo que a gente ofereça outros; de repente, se movimenta freneticamente até nos fazer entender que quer que levantemos com ele no colo; de repente, solta gritinhos de alegria quando acertamos que ele quer pegar o celular; de repente, reclama se o colocamos sentado de um jeito, mas ri quando o mudamos para outro; de repente, aceita uma coisa, mas não aceita outra de jeito nenhum; de repente, está observando, escolhendo, optando, se expressando com destreza e conduzindo boa parte do próprio dia.

Sim porque suas escolhas nos levam a dar a ele o acesso a boa parte do que ele pede, de modo que ele decide onde, quando e com o que brincar; onde, quando e o que comer; onde e quando dormir; onde, quando e por quanto tempo passear e assim por diante.

Fico admirada, pois acho que fazer tudo isso envolve uma série de habilidades novas e complexas. É preciso o bebê ter consciência do mundo que o cerca -de sua rotina, das ações dos pais etc-, de si próprio, conseguir avaliar o impacto desse mundo sobre si e distinguir entre o que será “agradável” ou “desagradável” de acordo com as preferências anteriormente reconhecidas. E, além de tudo, ter habilidades para expressar-se a contento.

E Enzitolino tem colocado em prática todas essas habilidades. Hoje cedo, por exemplo, ele acordou e, como de costume, levei o pequeno até o papai, que estava no escritório. Bom dia, bom dia, beijinhos, abracinhos, carinhos, saímos pra deixar o Dri à vontade e ficamos na sala, Enzito cercado de brinquedos. Mas eis que o bebê estava impaciente e, sentado no sofá ou no meu colo, só queria saber de ficar de pé. Gesticulava muito, balbuciava num tom de desaprovação e ansiedade e se jogava na direção do escritório. Levei ele até o pai e…bingo! Bebê calmo novamente.

Há poucas semanas, Enzo não estava assim tão fluente em relação a suas próprias escolhas. Mostrava um pouco da personalidade aqui e acolá, mostrava preferências, mas timidamente, hesitante. Agora já não noto quase hesitação nenhuma. Meu minimenininho sabe o que quer e expressa isso, outra coisa que chama a atenção, pois a comunicação evolui rapidamente. O choro já não é mais a principal forma de expressão, pelo contrário. Enzo só chora quando esgotou todas as outras possibilidades ou quando está cansado ou com fome (e mesmo assim, só quando não percebemos sinais iniciais de sono/fome e demoramos muito para dar a ele acesso à comida e caminha).

Em comunicação “verbal”, por assim dizer, Enzitolino usa principalmente duas habilidades: ele protesta, emitindo sons de desagrado, ou endossa nossas atitudes dando sonoras gargalhadinhas ou gritinhos empolgados. Mas ele “fala” muito com o corpo também: faz caretas engraçadíssimas -que nos fazem rir, mesmo quando ele está meio bravo-, ri bastante, se movimenta de forma bem típica quando está alegre ou aprovando algo e nos “dirige” para onde quer ir, jogando todo o corpo, incluindo braços e pernas, na direção em que deseja ir. Ou se põe de pé e ralha com a gente quando não está satisfeito com alguma coisa.

Começar a conhecer o mundo, começar a conhecer a si mesmo e -essencial- começar a compreender a relação que existe entre “eu” e o “mundo”, para mim, é a base de toda a liberdade possível, pois é liberdade de informação, de análise/avaliação/pensamento e, consequentemente, liberdade -genuína- de ação. Não é fascinante que o pequeno esteja começando a dominar tudo isso com tanta desenvoltura? E não é fascinante poder acompanhar de camarote e ir vendo, aos poucos, a personalidade deles ganhando corpo, espaço, se fazendo notar e materializar em ações? Não é bacana ver a autoestima dos bebês se construindo? Pra mim, é, sem dúvida, mais uma faceta sensacional da maternidade.

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Arquivado em bebezices, Maternidade, paternidade

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