dormir é para os fracos

Daí que a mãe acabou de colocar o bebê no berço. Não é cedo. São mais de 23h, mas o filho dorme tarde mesmo, e os pais meio que agradecem, pois preferem dormir um tantinho “depois da hora” que acordar às 6h, notívagos que sempre foram. Bebê dormindo, quentinho, coberto. Check.

Aí a mãe vai até a cozinha, pega uma maçã, vai pra sala, pega uma revista, aquela que ela comprou no fim de semana anterior, depois de fuçar zentas bancas de jornal e não achar, aquela que ela estava louca pra ler; senta, estica as pernas no sofá e, finalmente, abre o periódico. Uma lida aqui, uma mordida ali, maçã acaba, são 23h30, marido lembra que é bom aproveitar pra descansar enquanto a cria dorme, mãe avalia que marido está certo, faz mais de 15 dias que ambos não descansam direito, pois filho resolveu acordar de hora em hora de novo (coisa que não fazia desde mês e meio).

Mãe levanta, escova os dentes, põe pijamas e, quase se deitando, lembra que esqueceu de trocar a água da Jóh, a gata. Volta pra cozinha, lava o potinho, seca, coloca água fresca, pega a bichana no colo, leva pra cama, deitam ambas.

1, 2, 3, 4, 5, 6 e…Enzo acorda! Nem 40 minutos depois de adormecer, cansadíssimo. #comassim? Mãe, incrédula, levanta. Mãe, irritadíssima, levanta. Mãe, com sono, levanta. E respira fundo antes de entrar no quarto. E, quando vê o filho todo fofo, em pé no berço, coçando os olhos e rindo pra ela, dá um sorriso sincero misturado a um suspiro igualmente sincero e aprende uma nova acepção para a palavra “contradição”.

Toca mãe e filho irem pra sala. No colo, bebê apoia o rostinho nos ombros da mãe, fecha os olhos. “Oba, acho que foi alarme falso, ele vai voltar a dormir, só queria ser ninado”, pensa a mãe, cheia de culpa e remorso por ter ficado tão irritada. E aí, entre um beijinho e outro nos cabelos cheirosos do rebento (todo bebê é assim tão cheiroso ou isso é coisa de mãe hormonalmente descompensada?), mãe cumpre à risca todas as orientações para fazer-cria-dormir-no-meio-da-madrugada: Não acende luz nenhuma. Caminha de um lado pro outro, corredor afora, corredor adentro, vai-e-volta na mais absoluta escuridão. Não abre nem a cortina da sala, que é pra não deixar a claridade da rua entrar pela janela e colocar a perder o sono do pequeno.

Anda compassadamente, igual tartaruga. Passinhos curtos, ritmados, bem vagarosos, sabe como? E ainda via jogando o corpo levemente de um lado pro outro, dando aquela gingada de nana-nenê. Não abre a boca, não fala nada, só sussurra canções de ninar. Não dá muito certo, pois o filho, curioso, quer saber de onde vem o som sussurrado.  Como está enxergando neca naquele escuro todo, começa a procurar a boca da mãe com as mãozinhas, se agita, desencosta a cabecinha e…NÃO!… começa a falar.

Opa, opa, opa, sinal de alerta. Mãe se cala de vez, esquece a canção de ninar, abaixa de leve a cabecinha do filho até encostar no ombro materno de novo e se concentra só nos passinhos ritmados. Vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta… Ok, deu pra entender, né? Vai-e-volta no repeat por, sei lá, 30 minutos.

Nesse meio tempo, bebê levanta e abaixa a cabecinha do ombro da mãe várias vezes, balbucia alguma coisa, recosta novamente, num exercício constante de dar esperanças à mãe sonada e tirá-las sem dó nem piedade. O fato é que a mãe é otimista incorrigível -ou está precisando desesperadamente de cama- para ainda acreditar que, àquela altura, o filho vai voltar a dormir rapidinho. Se fosse, já teria dormido, o que não é o caso.

Mãe tenta voltar a cantar baixinho. E aí o sono do bebê some de vez. Animado (ainda que a mãe esteja cantarolando canções de ninar que derrubariam qualquer brutamontes), bebê recomeça a balbuciar, só que dessa vez em alto e bom som, dirigindo-se aos quadros, móveis e objetos que ele encontra pelo caminho e consegue reconhecer na penumbra.

-Abufff….guuuu…éééééé…pápápápápápápápá.

Putz, pensa a mãe, “abuf” e “pápápá” ele só fala quando está ligado no 220.

Conformada, ela acende uma luz fraquinha no canto da sala, senta-se com o filho no chão, espalha os brinquedos e se rende à realidade: a cria despertou e quer fazer bagunça na madrugada, de novo. Entre bocejos, “pescadas” discretas e tentativas aguerridas de se manter desperta (o que não parece ser dificuldade alguma para o filho), mãe participa dos exercícios bebezísticos da cria insone.

Bebê sobe no sofá, pega brinquedo, caminha até a braceta da direita, joga o objeto lá de cima, olha para a mãe, espera a mãe pegar, joga de novo, olha para a mãe, espera a mãe pegar, segura o brinquedo, olha, analisa, morde, vira-se para o outro lado, anda até o braço esquerdo do sofá, joga brinquedo lá de cima, olha para a mãe, espera a mãe pegar, segura o brinquedo, joga longe, vê outro brinquedo no chão, pede para descer, caminha (com ajuda da mãe) até o novo objeto, senta, pega, chacoalha, olha, ameaça por na boca, “não põe na boca, filho!” três vezes, chora, engatinha um pouco para a esquerda, levanta apoiando-se na estante, caminha uns passos, quase cai, ri para a mãe que o segura, caminha até o fim do corredor três vezes, soltando uns gritinhos de emoção, senta de novo, pega outro brinquedo, solta uns abuuuufff, ri de si mesmo, engatinha correndo atrás da gata, chama a mãe para ajudá-lo a voltar andando, volta até o sofá, resolve subir. E…

…tudo de novo em looping, ou seja, por duas horas no repeat. Sem descanso, sem bocejo, sem quase nem piscar de olhos da cria. Quando finalmente vislumbra um coçar de olhos, uma piscadela mais demorada e um abrir de boca sinalizando que o soninho está querendo aportar, mãe pega o filho no colo, às pressas, e começa a chacoalhar.

Bebê reclama, ainda não era hora, mãe! Mãe devolve bebê no chão; ele sobe no sofá, pega brinquedo, caminha até a braceta da direita, joga o objeto lá de cima, olha para a mãe e…mais meia hora de exercícios bebezísticos. Até que filho dá outro bocejo, outro piscar demorado, outra coçadela no olho. E começa um chorinho irritado.

Achando que só vai dormir no dia seguinte (tecnicamente já é dia seguinte, mas para a mãe só é dia seguinte quando amanhece, herança dos tempos baladeiros), mãe pega a cria só para acalmar o filho. Inicia um chacoalhar suave, sussurrando de novo a música de ninar preferida do pequeno. Em 3, 2, 1-surpresa total- bebê adormece, suspira profundamente, daquele jeito gostoso que só os bebês conseguem suspirar.

Mãe sorri num misto de “ai que gracinha” com “ainda bem que ele dormiu, meodeos”. Caminha até o quarto quase em respirar, coloca filho no berço e vai saindo bem devagar.

Ufa, pensa, agora finalmente vou poder dormir, descansar, fechar os olhos, relaxar. Cava um espaço embaixo do edredom, felinamente ocupado pela gata e pelo marido, se arruma, puxa a blusa do pijama, que enrolou, apoia uma perna sobre a outra (está virada para o lado direito), coloca o travesseiro na posição ideal, encaixa melhor na curvinha no pescoço, respira fundo e fecha os olhos.

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9….Não está bom. Vira de barriga pra cima, ajeita os pés, desenrola o pijama que dessa vez tinha ficado preso nas costas, arruma novamente o travesseiro, puxa o edredom mais para perto do queixo, que está frio, procura, com o pé, o pé do marido, encosta a mão na mão do marido, fecha os olhos, respira fundo.

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9….Não está bom. Vira para o lado esquerdo, apoia uma perna sobre a outra, coça as costas, coça a orelha, dá uma viradinha a mais para acomodar melhor os ombros, afofa o travesseiro, afunda a cabeça nele, desafunda, pois ficou sem ar, estica um braço, desdobra uma perna, coça a cabeça, fecha os olhos, respira fundo.

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9….Não está bom.

Mãe, irritadíssima, levanta. Perdeu o sono.

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5 Comentários

Arquivado em lado B, Maternidade

5 Respostas para “dormir é para os fracos

  1. a gente não sabe se ri ou se chora!
    tenho pavor dos dias que o menino não quer imendar o sono!
    acordar de 2h em 2h ele sempre acordou, mas acordar de vez é só as vezes e é terrível!!!!!!

    não vejo a hora de passar essa fase!

  2. Hahah Ai Natalie!! Que dó de vc, ainda bem que eu não tenho esse problema em perder o sono. Já cheguei até a dar umas cochiladas enquanto brincava no chão com Leah, isso no meio do dia, imagina se fosse na madrugada.. haha Espero que vc tenha uma boa noite de sono hoje!

    • Nat

      ahah ahah ahaha.
      obrigada pela solidariedade, menina! 🙂
      então, eu também sou dessas que cochila fácil, fácil, mas nessa noite sei lá o que aconteceu. e o pior é que eu fico num péssimo humor qdo durmo mal. tem gente que leva numa boa, eu não consigo.

      bjocas

  3. Pingback: confissões hedonistas | mãederna

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