Arquivo do mês: junho 2012

Pedro Bandeira


Hoje estou lá no MMqD entrevistando ninguém menos que Pedro Bandeira. O autor de “O Fantástico Mistério de Feiurinha” e “A Droga da Obediência” já se tornou um clássico e é muito querido por quem, como eu, cresceu lendo nos anos 80.

Foi uma delícia fazer a entrevista com ele (por e-mail, respondida lindamente), escrever o texto, editar. Enfim, revivi muitas histórias marcantes da minha infância e adolescência no processo, tirei os livros do armário, reli trechos. Agradeço mega o Pedro, pela disponibilidade e paciência; e as meninas do MMqD (especialmente a gatona da Mari), pelo espaço.

Falando em espaço, orgulho em anunciar que, com essa entrevista, estreio uma série mensal lá no portal, entrevistando outros autores de literatura infantojuvenil, um por mês. Bacana né? E diz aí: não dava para ter primeiro entrevistado melhor que Pedro Bandeira, né?

Pra dar água na boca, só um trechinho do Pedro aqui:

MMqDQual a importância, na sua opinião, dos pais participarem da leitura dos filhos? E quais os limites? Um pai de adolescente deve participar da leitura do filho tanto quanto um pai de criança na primeira infância?

Pedro Bandeira: A Arte deve ser apresentada às crianças pelos seus pais. Educação é um problema da família, não da escola. A escola entra tarde demais na vida da criança. Eis porque surgem tantas dificuldades para se trabalhar com crianças que, em casa, já não tenham sido previamente apresentadas às delícias da Literatura, da Música, do Teatro. Nos países adiantados, os professores não adotam livros de literatura para seus alunos, pois eles já os leem em casa, oferecidos por seus pais. No Brasil, como isso historicamente não acontece, nossos pobres professores são obrigados a complementar tudo aquilo que as famílias de seus alunos deixaram de fazer… Isso tem de mudar, se quisermos que o Brasil melhore.

Para ler tudim, corre lá, ou melhor, aqui.

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30 melhores livros da “Crescer”

Correria, correria, correria. Prazo pra cumprir, festa pra organizar, um bebê insone, uma mãe cansada, com dor de garganta e olheiras mais evidentes que o usual. Como se vê, o fim de semana foi de trabalho e tentativas de descanso em casa. Daí que só passei rapidamente pra recomendar uma visitinha a este link aqui, que lista os 30 melhores livros de 2012 segundo a revista “Crescer“.

Vou confessar que nunca confiei muito nesse tipo de listas. A ideia de alguém definir o que é um livro “melhor” ou “pior”, de cara, já me desagrada. Vai saber com qual critério o cara escolheu esse ou aquele… E se meu filtro for outro? Além disso, sempre tendo a achar que as listas vão ser recheadas de livros tipos best sellers, como são, por exemplo, as listas de textos sobre gravidez.

Mas resolvi dar uma olhada e me surpreendi muito e positivamente. Muitos títulos bacanas, diversos entre si, nada comerciais (no sentido de literatura industrial, feita pra ser consumida em larga escala, sem muita qualidade), com argumentos que me estimularam a dar um pulo na livraria mais próxima e conferir. E, mais legal de tudo, alguns recomendados para bebês a partir de 1 ano, o que não é muito usual (difícil fazer literatura pra essa faixa etária), mas é super valorizado aqui em casa, tendo em vista a idade do Enzo.

Conferi ao vivo e aprovei, por exemplo, o “Ops“, de Marilda Castanha. Acabei trazendo pra casa, rá! Também vi e não resisti ao “Adivinha o quanto eu te amo – o livro fofinho“, também indicado para bebês. O recomendado pela “Crescer” é a versão integral, não a fofinha, mas acho que, mesmo assim, vale.

Outro super interessante é o “Na floresta do bicho-preguiça“, de Anouck Boisrobert e Louis Rigaud. As lindas ilustrações (do tipo pop-up) vão mostrando, página por página,  a devastação da floresta do título. Lírico, de fazer pensar. Só que esse é pra crianças um pouquinho maiores.

Prometo um post só com livros para bebês. Tenho outras dicas além desses dois aí de cima, e a Luciana Conti, do Gato de Sofá (blog que eu super recomendo, aliás), indicou dois títulos bem bacanas que vou compartilhar. Mas faço isso quando tiver um pouquinho mais de tempo. Por agora, sugiro a olhadela básica lá no site da revista. Sei que as mães mais experientes -ou com filhos maiores- já devem conhecer a lista. Mas pras outras, que chegaram agora na maternidade, como eu, #ficadica.

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a rotina

Imagine uma menina. Imagine uma menina de 4 anos. Imagine que essa menina, como a maioria das meninas de 4 anos, adora chocolate, doces da mãe, bolos e tortas da avó, cocada, pé-de-moleque, paçoca e bolo de fubá cremoso. Agora imagine que ela também adora dormir tarde, dormir ATÉ MAIS tarde, almoçar no horário errado, não tomar banho às cinco, como manda a mãe, e convencer o pai a sair para dar voltas na vizinhança às 10 da noite. Imagine que ela trocaria boa parte dos doces por uma boa enganada na rotina.

Imagine que essa menina cresceu e virou jornalista. Imagine que ser jornalista tem lá sua rotina, mas menos rígida que a maioria das outras profissões: imagine que jornalista não bate cartão; não tem muita hora pra chegar e menos ainda pra sair; cada dia fala com gente diferente, sobre assuntos e temas diferentes; pode ficar na redação, mas pode ser escalado pra ir pra rua cobrir um evento que só será conhecido na hora em que o chefe chamar; pode começar a carreira escrevendo sobre um tema e depois mudar pra outro e outro e outro; pode ter de ir trabalhar em outra cidade, em outro país, em outro continente.

Imagine que essa menina foi morar com o namorado. E aí a vida deles poderia ser resumida assim: exceto o trabalho, não tinham hora nem regras pra nada. Jantar durante a semana? Quando dava vontade. Tomar umas depois do trabalho? Sempre que era possível. Sair com os amigos? A toda hora. Fazer refeições nos finais de semana? Raramente. Acordar aos sábados? Depois das 14h. Café-da-manhã? Sempre à tarde. Dormir? Só no dia seguinte, depois de várias cervejas e muito papo de boteco. Chegar atrasados em compromissos de família? Sempre. Geladeira? Nem sabiam o que era isso. Fogão? Menos ainda. Pegar estrada quando dava na telha? Sempre. Programas de última hora? Idem. Decidir e “desdecidir” ao sabor das vontades do momento? Uma constante.

Pois bem, amiga que chegou até aqui: imagine, agora, que essa dupla é, neste momento, responsável por organizar a ROTINA (sim, isso mesmo, a rotina) de um bebê. Responda sinceramente: como você acha que eles dois estão se saindo? a) Muito bem; b) Marromenu; c) Dando pro gasto; d) De forma sofrível.

Acertou quem apostou na letra “d”. Sofrível, sofrível, sofrível.

Juro que nós até tentamos. Funciona assim: decidimos horários, atividades, tarefas, cardápios semanais, lazer, limpeza e manutenção da casa, sono pro Enzo. No papel, fica tudo lindo, perfeito. Mas na vida real, quem disse que conseguimos implementar o planejamento?

Ou acordamos tarde porque Enzo dormiu tarde, ou decidimos deixar “só isso” pra depois por impulsos hedonistas urgentes, ou ficamos com preguiça de lavar o banheiro, ou o sol está tão lindo lá fora, vamos pra rua com Enzo, ou o bebê está com sono agora, vamos deixá-lo dormir fora de hora mesmo, ou ou ou… Não temos habilidade nenhuma para cumprir rotinas. Fato.

Percebo que, em algum nível, isso ajuda a atrapalhar os horários do Enzo. Mas confesso, novamente, que tenho muita dificuldade também em disciplinar esses horários, em dizer “não” pra cria, em ajudá-lo a dormir mais cedo, por exemplo. Só faço isso sem peso na consciência quando ele está mesmo com sono, irritadiço, e não consegue dormir. Aí fico firme, apago luz, guardo brinquedos, não deixo sair do colo, nino até ele se entregar e adormecer. Mas quando ele ainda está curtindo visivelmente a bagunça, deixo que curta, seja 23h, meia-noite ou 1 da manhã.

Claro que há algumas regras e horários por aqui. Não abro mãe de que Enzo coma ao menos três frutas por dia, de preferência diferentes entre si. Em termos de alimentação, seguimos bem à risca as regras, tanto no que diz respeito à quantidade de refeições (entre cinco e seis por dia) quanto em relação à qualidade. Com isso, sou bem rígida.

Porém, em relação ao resto… toda semana decidimos, Dri e eu, começar a regrar mais as coisas por aqui, ainda que seja bem aos poucos. Fato é que nosso passado nos condena e nós mesmos sempre optamos por uma vida de “não-regras”. Pra regrar agora comofaz?

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dúvidas maternas

-A que horas você faz xixi?

-Quando consegue lavar os cabelos?

-Consegue fazer as unhas (em casa mesmo que seja)?

-Quando foi que cortou os cabelos?

-Dá tempo de comer sentada?

-Quantas horas dorme por noite?

-Passa o dia de pijamas?

-Quantas vezes -sei lá, no ano- assistiu um DVD com o marido?

-Com que frequência come bobagens escondida na cozinha?

-De quanto em quanto tempo se olha no espelho?

-Já decifrou a lógica do sono do pequeno? Ou ainda segue no “põe ele no berço e torce pra dormir a noite toda”?

-Quantas músicas de ninar já decorou?

-As olheiras já fazem parte do seu rosto?

-Seu sonho de consumo já é tomar um banho de 10 minutos?

-Quanto tempo faz que não consegue ler duas páginas seguidas do mesmo livro?

-Quer entrar pro meu clube?

Respostas na caixa de comentários. Grata!

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working mom

Este post é candidato ao concurso “O melhor post do mundo da Limetree” 

Mãe está ao telefone. Ela é jornalista, trabalha de casa, está de pijamas e cabelo preso em coque por um… lápis. Enquanto ouve atentamente o sujeito do outro lado da linha -sua fonte para uma matéria especial que tem de entregar no dia seguinte-, percebe uns ruidinhos vindos do quarto.

Em dois (sim, eu disse dois) segundos, os ruidinhos viram uma sucessão de “ilééé ilééé ilééé” em volume crescente. Ok, filho acordou e já no limite da fome, o glutãozinho. O que fazer com bebê, fonte, entrevista?

– Hã, o sr. me dá licença por um segundinho?

– Claro.

Ufa! Corre pro quarto, doida, e pega seu filho!

Bebê no colo, razoavelmente mais calmo, mamãe volta pra sala, pega o telefone e tenta, tenta, continuar a entrevista enquanto desabotoa o soutien para amamentar o pequeno, que começa a resmungar alto de novo.

– Então, o sr. falava sobre…

E a fonte retoma o raciocínio, não sem um tico de constrangimento.

Em pé, a mãe segura o telefone com a orelha e o bebê com uma das mãos, tentado encaixar o peito na boca dele. Com a outra, vai digitando como dá o que o entrevistado fala -e o que ela consegue entender do que ele fala.

– Crescimento de dois dígitos (…) novas indústrias no segmento (…) exposição depois dos itens de maior giro (…) mais vendas no canal (…) consumo das classes emergentes (…)

– O sr. pode repetir esse número, por favor?

E ele repete. E ela não anota de novo.

Guarda na memória, guarda na memória, guarda na memória. E segura o Enzo direito, pelamor!

Bebê está se contorcendo, fazendo caretas, reclamando e mamando nada, desconfortável. Primeiro que a mãe mal consegue segurá-lo. Segundo que ela ainda não botou o peito direito na boca da criança.

– Então, o importante é a exposição dos itens.

Calma, filho! Mamãe já vai terminar aqui. Não, não, não ainda, não. Ainda tenho que perguntar sobre a margem. E o f… é que está interessante pra c… Shhhh! Não pensa palavrão perto do menino!

Ilééé ilééé ilééé em alto e bom som de novo. Mãe torce pro moço entrevistado ser meio surdo e tenta trocar o bebê de peito. Quem sabe do outro lado fica mais fácil? Não fica. E o fio do telefone está pendurado no rosto do pequeno. Deu certo não, volta tudo ao arranjo anterior.

– O sr. citou as margens brutas, eu gostaria de saber…

Tu é corajosa mesmo de lançar uma pergunta dessas nessa situação!

Mãe chacoalha a si mesma tentando chacoalhar o filho.

Calma, filho! Calma, mãe!

Bebê chora de novo. Meio torta, em cima de um pé só, se equilibrando com o outro sobre a cadeira pra melhorar a posição do filho, a mãe acerta o peito e a boca.

– Temos de ponderar isso com…

Anota isso que importaaaante! Digita errado mesmo, desde que não perca o número!

Enzo começa a mamar finalmente. Mãe respira aliviada por mais dois segundos. E a vida segue.

PS 1: post originalmente publicado em 18/8/2011

PS2: Vote aqui para ajudar este post a ser escolhido o melhor do mundo! 🙂

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#festa do Enzo: brigadeiro 70% cacau (parte 3)

No post anterior sobre os preparativos para a festa do Enzo, eu contei sobre umas receitinhas alternativas de brigadeiro, especialmente a de brigadeiro 70% cacau, que são mais saudáveis que o tradicional (que leva achocolatado e margarina, abolida aqui de casa, diga-se).

Ontem, finalmente, conseguimos testar uma das receitas. E a conclusão é que é muito fácil e rápida de fazer. Não levou nem 10 minutos pra ficar pronta, e o ponto certo é bem óbvio, o que não gera aquelas dúvidas todas em quem não está acostumado -como nós- com a receita.

Os ingredientes são:

-1 lata de leite condensado

-1 colher das de sopa de cacau em pó (não vale achocolatado nem aqueles chocolates em pó; tem que ser cacau mesmo. O consolo é que já está bem mais fácil de achar; eu comprei num supermercado)

-20 gramas de manteiga sem sal

-50 gramas de chocolate 70% cacau (em geral, as barras desse tipo têm 100 gramas. Pode ser de qualquer marca, mas quanto melhor for a qualidade do chocolate, melhor o sabor do brigadeiro e mais saudável será o doce, pois chocolates melhores costumam ter menos gordura e menos açúcar na composição).

-Confeitos para decorar (pode ser qualquer um, mas sugiro esses aqui, que são os tipo “split”. Se puder ser de marca boa, chocolate meio amargo, tanto melhor).

Daí é só jogar tudo na panela (menos os confeitos, claro), nem precisa derreter o chocolate à parte. Em alguns minutos, cerca de 6 ou 7, o creme já estará bem homogêneo. Mais um pouquinho e começa a desgrudar bem do fundo da panela.Não espere ferver, ok? Daí já pode desligar o fogo, esperar esfriar, enrolar e confeitar.

Na pressa ontem, não enrolamos tudo. Mas já deu pra ter uma ideia de rendimento, o que, pra mim, foi um dos poucos pontos negativos da receita. Vai render, no máximo, mas no máximo mesmo, uns 30 docinhos, o que é relativamente pouco para festa de criança. Claro que não estava esperando fazer uma receita só, mas estou acostumadas com as que rendem entre 45 e 50 unidades. Enfim, conto depois se rendeu mais que isso ou não.

O sabor ficou bem gostoso, descontado nosso grande deslize: esquecemos de comprar manteiga sem sal, usamos a com sal mesmo e, claro, o brigadeiro, bem delicado, acabou ficando meio salgado. Não prejudicou muito, deu pra perceber que vai ficar muito saboroso, mas está meio brochante, confesso.

Já deu pra perceber que sou ótema na cozinha, né?

Ainda falta testar a receita de brigadeiro branco e uma de 70% cacau com creme de leite fresco. Conto e posto as respectivas receitas testadas.

Ah, aqui vai o link de onde tirei a receita de hoje.

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curtinhas (ou nem tanto) do fim de semana

Conseguimos emendar o feriadão, o que foi ótimo, pois aproveitamos bastante para descansar, curtir uns dias de preguiça em família, conversar (na correria do dia a dia, até uma simples e prosaica conversa entre Dri e eu acaba sempre sendo adiada), adiantar pendências domésticas (sempre elas) e passear bastante, apesar do friozinho que fez aqui em SP.

Na quinta, fomos numa livraria que eu adoro. Olha um livro aqui, vê a orelha de outro ali, leva Enzo brincar na seção para crianças acolá e o bebê começa a chorar. Ok, eu amo a livraria; o Enzo tolera. O marido tinha ficado com o pequeno enquanto eu passeava pelas prateleiras. Quando ele quis dar a olhadinha dele, peguei Enzo e fui pra fora; a inquietação do neném deixava claro que seu prazo de validade para ambientes internos tinha vencido.

Acontece que lá fora a coisa não melhorou muito. Tentei colocá-lo no carrinho, o que piorou a situação. Pega no colo de novo, Enzo acalma por dois segundos e resolve que tem que mexer em tudo o que não pode, como extintores de incêndio, adesivos de promoção das vitrines, cartazes de lojas. Pergunto: como distrair um bebê impacientíssimo, que está estrilando loucamente no seu colo?

Repondo: começando a cantar feito uma louca, chacoalhando a cria, abaixando e levantando com a cria no colo, fazendo de conta que vai derrubá-la no chão (Enzo ri que só quando faço isso), correndo, rodopiando pelos corredores do shopping enquanto todo mundo olha para você com cara de espanto, atravessando a rua fazendo o maior barulho só pro filho rir… Ou seja, dando uma banana para o bom senso, a auto-imagem e a vergonha própria.

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Já li por aí (ou melhor, por aqui, pela madresfera) que bebê tem uma espécie de sensor: é só pai/mãe botar o garfo na boca, encostar a cabeça no travesseiro, ajeitar o bumbum na cadeira, começar a molhar o cabelo no banho que o bebê apita (leia-se: acorda).

Pois eis que o Dri provou e ampliou essa teoria no feriado. Enzo brincou sozinho, alegre, bem disposto, risonho como ele só, nenhum pitizinho, nenhuma lagriminha. Isso até começarem na TV os programas preferidos do pai, por exemplo. Porque foi só o árbitro apitar o começo do jogo Alemanha x Portugal que o pequeno abriu o berreiro.

E fora de casa a regra também se aplica. Foi só o pai chegar na porta da livraria que o pequeno acordou chorando loucamente. Foi só o pai começar a saborear o almoço de domingo que o neném resolveu que era hora de reclamar. Foi só o pai decidir dar uma passadinha naquela loja de que ele tanto gosta que a avó teve de intervir, pois filho estava inconsolável no carrinho.

Daí que Dri concluiu que bebês são à prova de diversão paterna.

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Antes do Enzo nascer, eu achava minha gata pesada. Brincava com ela, reclamando, que estava meio gordinha. Imagina, pelo contrário, a Jóh sempre foi esbelta e bem mignon. Mas, pra mim, 4,5 kgs era um peso e tanto. E como virava e mexia eu tinha de pegar a moçoilinha no colo (ela sempre estava e está aprontando várias), os quilinhos me pareciam multiplicados por 10.

Mas aí, meu bem, eu virei mãe. E aí eu descobri o que é peso de verdade. Pois o meu minimenininho pesa nada desprezíveis 11,5 kgs e AMA colo. Carrinho, pro Enzo, é castigo. Daí que passei 4 horas com ele no shopping no sábado e daí que foram 4 horas com ele no colo.

De volta em casa, precisei ir buscar a Jóh, que tinha fugido até a porta do apê vizinho (explico: sei-lá-porque ela é apaixonada pelo tapete do casal). E descobri que ela é LEVE FEITO PLUMA. Ou ela emagreceu ou eu fiquei mais forte. Tudo na vida é uma questão de referência.

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Estava com Enzo numa outra livraria, seção infantil, e lá um pai, com cara de cansado, escuta o filho, de uns 6 anos, ler um livro pra ele. Página vai, página vem, o menino termina. Pai comemora:

-Ótimo, Joãozinho*, vamos embora agora?

-Peraí, pai, ainda falta ler aquele ali.

-Joãozinho, já disse que seria só mais esse.

-Mas pai, aquele outro ali é ainda mais legal!

-Tá bom, mas só mais esse e depois a gente vai embora sem discussão. Promete?

-Prometo, pai.

Página vai, página vem, o menino acaba a leitura.

-Joãozinho, coloca no lugar e vamos embora.

-Pai, deixa só eu ler de novo aquele outro que eu li antes desse?

-Mas você tinha prometido ir embora agora. Estou cansado. Já deixei você ler muito. Vamos para casa.

-Mas pai, eu achei que esse fosse mais legal. Mas agora acho que mais legal era o outro. Deixa eu ler o outro de novo só mais essa vez, vai?

-Joãozinho, você já leu aquele três vezes hoje!

-Mas na quarta eu vou tirar a dúvida de qual é mais legal! E aí vou acertar aquele trecho que eu sempre erro e que você sempre me corrige! Treino, pai, treino!

-Tá bom. Mas depois EU vou embora.

Pai desiste, sai batendo os pés e deixa o filho lendo para o irmão mais velho. Os dois ainda brincam um pouco depois que a leitura termina e só aí vão procurar o pai, que estava com cara de poucos amigos, sentadinho, esperando perto dos caixas.

Dois pensamentos: 1) nunca confie na promessa de uma criança em loja de brinquedos (ou de livros).

2) Lembrei, com muuuita inveja desse pai, desse comercial aqui, lembra? Eu juro que quero que Enzo peça pra não sair da livraria e que faça “birra” pra eu comprar brócolis! 🙂

* O nome do menino não era exatamente Joãozinho, mas confesso que não lembro…

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literatura infantojuvenil latinoamericana e formação de leitores

Sorry pelos palavrões (literalmente) do título, mas, em tempos em que estou procurando ter mais contato com a literatura infantojuvenil para começar a montar uma biblioteca decente pro Enzo (que, até agora, só tem livros de banho, tadinho), acabei encontrando essa entrevista bem bacana com a escritora argentina María Teresa Andruetto, autora recém-traduzida no Brasil e ganhadora -veja só- do prêmio Hans Christian Andersen 2012, considerado por aí o Nobel da escrita para crianças.

Lançado em abril, o primeiro livro da María Teresa que chegou por aqui foi “A Menina, o Coração e a Casa” (Global Editora, 2012, tradução de Marina Colasanti, indicado para maiores de 10 anos). Eu ainda não li, mas a narrativa conta a história de Tina, uma menina que vive apenas com o pai. Embora veja a mãe aos domingos, a pequena sofre com a ausência e com a distância e, ao mesmo tempo, constrói laços fortes com o irmão Pedro, portador de síndrome de Down (mais sobre o livro aqui e aqui).

Na entrevista, concedida à revista “CartaCapital“, María Teresa fala sobre coisas bem importantes, como a difícil circulação da literatura latinoamericana na própria América Latina e o papel da escola na formação de leitores [“A escola é o lugar onde a brecha entre leitores e não leitores (reflexo de outras brechas sociais) pode ser minimizada“].

Achei que valia a pena compartilhar. O link, novamente, é esse aqui.

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Ainda sobre escritos literários, li recentemente -e por acaso- algumas entrevistas e textos sobre o futuro da literatura infantil e, consequentemente, da literatura como forma de expressão e arte. Na edição de junho da  “Revista E” (do SESC), por exemplo, o crítico literário Davi Arrigucci Jr. questiona a permanência do romance como gênero em um mundo cada vez mais complexo.

Nos comentários deste post aqui, no blog “A Biblioteca de Raquel“, um leitor escreveu algo que nunca tinha passado pela minha cabeça, mas que é óbvio: as pessoas letradas das gerações anteriores liam muito mais -e tinham uma formação cultural mais sólida-  porque os livros eram  uma das principais -senão única- forma de entretenimento num mundo em que não havia rádio, TV, internet, energia elétrica e todo mundo dormia às oito da noite.

Daí que, óbvio novamente, com tantas opções e com opções cada vez mais dinâmicas, é um desafio e tanto formar leitores hoje em dia, estimular os pequenos a baixar os níveis de atividade cerebral, ensiná-los a se concentrar numa coisa de cada vez, mostrar que é bacana puxar o freio de mão e contemplar as coisas com o vagar e a solidão que a literatura merece e exige. Isso sem contar os complicadores sociais e financeiros todos.

E é claro que é muito desejável -ou até imprescindível- que os pequenos tomem gosto de verdade pela leitura. Não apenas porque ler pode ser um prazer imenso, mas também pelo que disse María Teresa à revista:

“Uma sociedade leitora é, sem dúvida, mais crítica, mais reflexiva e pensante. Também está mais aberta a novas experiências, porque um livro é uma porta a outras vivências distintas da nossa, um modo de ver o mundo pelos olhos dos outros, como dizia Darcy Ribeiro”.

ABRE PARÊNTESE: Quando eu era mais nova, trabalhei numa ONG ligada à educação no litoral de SP. Fazia o jornal deles e, eventualmente, conversava com os alunos do Ensino Médio sobre profissões (no caso, sobre a minha). Numa dessas conversas, estava eu lá toda prosa “dando conselhos” para os meninos passarem no vestibular. Sugeri que pegassem os livros clássicos da literatura nacional na biblioteca das escolas e lessem, que isso ajudaria nisso, naquilo e blábláblá. Lindo, até que uma menina, que estava muito interessada por sinal, me interrompeu e disse: “Legal, mas não tem livros na biblioteca da minha escola”. E aí todo mundo, antes quieto, concordou e começou a contar como NÃO tinha LIVROS na BIBLIOTECA ou -pior- como NÃO TINHA BIBLIOTECA na escola. Clique! Caiu a ficha e, talvez pela primeira vez, saquei que o mundo não era minha vidinha classe média. FECHA PARÊNTESE.

Esse tema tem ocupado minhas caraminholas por esses dias. Será que vou ser capaz de despertar o interesse do Enzo por literatura? Será que a escola vai ser capaz de ajudar nisso? Será que ir com ele a livrarias e bibliotecas (coisa que começamos a fazer com mais frequência agora) será mesmo estimulante? Aposto nisso e estou francamente disposta a inserir Enzo no mundo das artes, que acho fundamental para suportarmos, entendermos, melhorarmos, alegrarmos e darmos sentido à vida.

Não se espante nem se canse se você começar a achar posts mais frequentes sobre artes por aqui 🙂

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#festa do Enzo: comidinhas saudáveis (parte 2)

Desde o começo do planejamento para a festa de primeiro aniversário do Enzo, um aspecto sempre ficou muito claro para mim: quero comidinhas e bebidinhas que meu filho possa ao menos experimentar. Claro que vai ter doces tradicionais, como brigadeiro, beijinho, cajuzinho. Claro que não dá para liberar geral para esses docinhos. Mas fazendo as guloseimas com alguns cuidados e modificações, é possível deixar Enzo comer um pouquinho.

Daí que o cardápio foi totalmente definido não apenas seguindo o critério do que é ou não saudável, mas do que é ou não saudável para um bebê de um ano. Então o bolo, por exemplo, cujos adultos convidados queriam que fosse de chocolate, vai ser um pão de ló simples com recheio de geleia caseira de frutas vermelhas e creme pâtissier (que leva apenas farinha, açúcar, ovos  e  fava de baunilha) com morangos.

Como a recomendação da OMS é que se evite o consumo de açúcar industrializado antes dos dois anos, o açúcar que será usado em todos os doces, incluindo bolo e creme, vai ser orgânico tipo demerara. O ideal ideal seria usar o mascavo, mas a boleira que está cuidando desse departamento não tem tanta afinidade com esse tipo de açúcar. Ela é muito boa e talentosa e está super disposta a fazer tudo de forma caseira e saudável. Portanto, avaliei que o demerara já estava de bom tamanho.

As receitas tradicionais de brigadeiro também sofreram certas adaptações, digamos. Eu mesma vou fazer usando chocolate de boa qualidade 70% cacau (tem menos açúcar), cacau em pó (açúcar nenhum) e creme de leite fresco no lugar do leite condensado. Tem mais gordura, mas é mais saudável (menos industrializado) e zero açúcar.

Estou avaliando se vamos fazer brigadeiro branco. A tentação insiste que “sim”. Achei uma receita muito apetitosa, com chocolate branco (claro), raspas de limão siciliano e pimenta rosa moída na hora. Curiosa, curiosa para saber como fica, mas aí, nesse caso, seria uma opção não tão saudável.

O beijinho e o cajuzinho também serão feitos com açúcar demerara, mas, nos dois casos, não terei como dispensar totalmente o leite condensado. No beijinho, consigo diminuir a quantidade e colocar um pouco do creme de leite fresco. Já no cajuzinho, não sei. De qualquer forma, se um docinho não for totalmente saudável, no balanço geral, ainda está valendo.

Minha mãe sugeriu hoje doce de abóbora. Achei ótima a ideia, pois Dri está com vontade do doce faz tempo, Enzo ama abóbora e, bem, mais saudável que isso só dando frutas pro bebê, ainda mais que a receita da avó dele é daquelas de antigamente, sabe como? Só vai abóbora, coco, açúcar (demeara, claro) e leite.

Os salgados, confesso, não estão 100% “certificados”. Vamos encomendar coxinhas (fritura!), todo mundo gosta, e calzones de calabresa (!) e queijo. Os calzones são assados, mas, mesmo assim, os recheios deixam a desejar no critério saudabilidade. Para nos redimir -e deixar Enzo comer- também vamos encomendar quiches (feitos pela boleira) e faremos, com a ajuda de uma amiga muito querida, sanduíches de metro com recheios bem gostosinhos e naturebas.

Ah, claro, as bebidas: cerveja (não pode faltar, todo mundo é cervejeiro por aqui), um ou outro vinho (meu pai gosta, a namorado do meu irmão também, eu até tomo, os tios tomam um pouco), e suco, muito suco natural. Vou comprar alguns, como os de uva (integral, orgânico, sem açúcar ou conservantes) e fazer outros (laranja, maracujá com gengibre, limão com couve, tangerina). Tudo sem açúcar para o Enzo poder beber livremente.

Falta eu testar algumas coisas, como as receitas novas de brigadeiro e alguns dos sucos. No caso do brigadeiro, preciso ver qual vai ser a consistência do doce e o rendimento. Já dos sucos, é bom eu descobrir com quanto tempo de antecedência vai ser necessário fazê-los para não perderem sabor ou ficarem ruins. Se for o caso, preparo os sucos algumas horas antes da festa. Do contrário, posso deixar alguns prontos na noite anterior, para facilitar.

Cardápio definido, preciso confessar, é um alívio. E olha que só conseguimos bater o martelo nisso tudo nesse fim de semana, depois que decidimos reduzir a lista de convidados (longa história que contei no post anterior, que sumiu. Estou dando uma olhada nisso, pois sumiu sumido mesmo, hoje à tarde). Em resumo, como o salão de festas do prédio da minha mãe, onde será a festa, tem lotação máxima de 40 pessoas, prevista no regulamento, acabamos decidindo chamar mesmo só os realmente mais chegados.

Fato é que estamos satisfeitos por poder oferecer ao Enzo comidinhas que ele realmente possa comer. Fiquei em dúvida quanto a isso, não sabia se conseguiria mesmo montar um “menu” que satisfizesse o meu filho, que ele pudesse comer e que também agradasse os convidados. Só resta o brigadeiro dar certo, o que, tendo em vista minha vasta experiência culinária e minha grande paciência para cozinhar -só que não-, é um desafio e tanto.

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nosso papel nos papéis de gênero

Numa loja de roupas para crianças, um pai, uma mãe e uma menina de três anos. A menina precisava de sapatos. Mas a mãe se encantou mesmo com uma tiara. Enquanto o pai calçava e descalçava os modelos na filha, que, indiferente, continuava brincando com seus livros de colorir, a mãe insistia em botar o acessório na cabeça da pequena.

Mãe colocava. Filha tirava. Mãe colocava de novo. Filha tirava de novo. Mãe trocava o modelo da tiara (“Esse vai servir melhor”). Filha nem deixava ela terminar de encaixar o objeto na cabecinha. Mãe insistia. Filha começava a chorar. Pai intervinha: “ela não gosta disso! Deixa ela”.

A mãe, ela própria, tinha uma dessas na cabeça. Depois da intervenção paterna, mãe ficava amuada, cara fechada, procurando novos modelos de tiara. Assim que dava uma brecha, tentava colocar na menina novamente. A cena se repetiu por três vezes, até que a menina não parou de chorar.

A mãe, entre irritada e decepcionada, quando viu que não teria jeito de convencer a cria a usar o troço na cabeça, ameaçou:

-Quando crescer, vai adorar uma dessas, você vai ver. Aí a mamãe ajuda a escolher umas bem bonitas, para você ir lindona para a escola, para as festas…

A filha interrompeu, ainda com lágrimas nos olhos:

-Não quéio!

-Ah, mas você vai querer! Espera só você ser maior.

**********

A cena, da qual participei involuntariamente (eu e o casal estávamos na mesma loja), me fez pensar em algumas coisas:

ESPELHO, ESPELHO MEU: Queremos tanto, mas tanto, que nossos filhos sejam nossa imagem e semelhança que mal dá para disfarçar. É difícil conceber que, de repente, a cria tem outras inclinações, outros sonhos, outros valores; que mesmo que tenhamos lutado à beça para sermos quem somos, pode ser que os nossos acertos, aos olhos dos filhos, simplesmente não sirvam. Ponto.

Acho, tirando por mim e pelas minhas conversas de travesseiro comigo mesma, que duas coisas doem muito nisso tudo: 1) Aceitar que os filhos podem ser nossos opostos, podem ser opostos inclusive de características nossas que amamos. Porque se o rebento for diferente de você naquele defeito que te aborrece horrores, você vai ficar super feliz. O problema é quando a cria resolve ser diversa em pontos dos quais você se orgulha em você mesmo.

Dá uma impressão de falha, de que você não foi um bom modelo, ou de que o filho está menosprezando aquilo que você é, respeita e admira. Fato é que a gente cria um modelo do que seria o filho ideal, mais ou menos baseado no ideal que fazemos de nós mesmos, e nos esforçamos para enquadrá-lo nisso.

2) Aceitar que não podemos melhorar a nós mesmos e consertar a nossa infância/adolescência/expectativas frustradas com a vida do herdeiro. No fundo, mesmo o item anterior, trata disso: tendemos a projetar nas crianças as nossas frustrações e desejos e dar a eles tudo o que julgamos que nos falta. E “ai” do filho, aquele ingrato que não sabe o valor das coisas, se ele não quiser o que a gente oferece assim, de mão beijada, mas que para nós foi custoso a vida inteira.

Já me peguei várias imaginando a escola ideal pro Enzo. E qual será? A que tem tudo o EU queria que meus colégios tivessem e eles não tinham. Ah, cê jura?

Tenho certeza absoluta de que não ficarei nem um pouco chateada, preocupada, frustrada, decepcionada etc etc etc se Enzo for, por exemplo, gay. Já achava isso antes de ter filho (quando todo preconceituoso me saía com essa pergunta infame “você ia querer um filho gay” em discussões em que eu defendia a orientação sexual). E fiquei mais convicta agora, que sou mãe. Mas se ele for um machista conservador… Aí vai doer. Como lidar com a possibilidade de os filhos não serem o que a gente espera deles, ou seja, uma versão (supostamente) melhorada de nós mesmos?

PAPÉIS DE GÊNERO: Nascemos livres de estereótipos, de papéis, de amarras limitantes, com todas as possibilidades do mundo para explorar. Daí as pessoas mais velhas logo se incumbem de nos mostrar que, bem, não é assim tão simples: se formos meninas, TEMOS de gostar disso, daquilo ou daquilo outro. Se formos meninos, TEMOS de brincar disso, daquilo, daquilo outro.

Daí que, depois da “guerra da tiara”, fiquei pensando o quanto ainda contribuímos, como pais, querendo ou sem querer, para manter um fosso gigantesco entre meninos e meninas, homens e mulheres. Se, por um lado, as crianças só querem saber de brincar livremente (de coisas “de menino” e de coisas “de menina”), por outro, fazemos questão a todo instante de marcar as diferenças de gênero estabelecidas.

Menino só ganha determinado tipo de brinquedo, só se veste com determinada roupa, só assiste a determinados desenhos e programas, é estimulado a ter determinadas atitudes, tudo para reforçar o que se espera deles: que sejam agressivos, exploradores, cheios de iniciativa, racionais, líderes.

Para as meninas, o contrário: estimula-se a passividade, uma visão “mágica” da vida, o romantismo. E, cada vez mais cedo, cobra-se delas que se preocupem com o que toda mulher tem que se preocupar, afinal: ser bonita, se vestir de forma sexy, atrair o homem certo, porque, sem isso, minha filha, sua vida não tem sentido. O único objetivo de vida de uma mulher é ser escolhida pelo cara certo. Então, mexam-se mocinhas, v’ambora colocar tiara, sapatinho de salto, roupinhas fashion que já evidenciem alguns de seus melhores atributos. Nada de se sujar, de correr e suar, de brincar no chão, de abrir os aparelhos eletrônicos pra ver o que tem dentro. Nada de subir em árvore, de andar de skate, de jogar bola. Nada de usar esses shorts feiosos, camisetas, tênis. Nada de se divertir. A beleza tem seu preço, acostumem-se que só piora (depilação, horas num salão fazendo a unha, cirurgias plásticas para corrigir os defeitos imperdoáveis, lipoaspiração que homem não escolhe as gordas etc etc etc).

É ou não é isso que estamos dizendo para as nossas meninas todos os dias? E parece que estamos fazendo isso cada vez mais cedo. Já vi menininhas que mal sabem andar se equilibrando em sapatinhos de salto. Eu me preocupo muito com isso. Até porque tive a sorte de não viver isso de forma tão explícita na minha infância, o que, julgo eu hoje, depois de seis anos de terapia, me fez um bem danado.

Fui livre, fiz tudo o que quis e, primeira neta/sobrinha do lado da minha mãe, cheguei ocupando espaços tanto nas aspirações femininas (da avó, da tia) quanto nas masculinas (avô, tio).

Ao mesmo tempo em que fazia vários programas “de menina” com a minha avó e minha tia (passeios em shoppings, comprinhas, comidinhas, tricô e crochê -a avó tentou ensinar, eu não aprendi-, vestir as roupas da tia, “roubar” a maquiagem dela, brincar de ser ela, ir ao cinema ver filmes “de menina”), tive uma relação bem mais próxima com meu avô e meu tio do que tiveram outras meninas da minha geração com os respectivos.

Meu avô fazia questão de conversar comigo sobre “coisas de menino”, como esportes (ele era fã de Fórmula 1) e independência financeira. Ele sempre me estimulava a estudar, adorava quando eu contava que estava “indo bem” na escola, incentivava que eu pensasse numa carreira e sempre me dizia que “primeiro tenha uma profissão, sua casa e seu carro. Depois pense em amor”. Prático, mas vamos combinar que são conselhos bem diferentes dos dados geralmente a uma menina. Nunca fui cobrada -nem por ele, nem por ninguém- a ter certas posturas de menina.

Já o meu tio me levava com ele para todos os lugares, inclusive para as quadras de futebol, para dar voltas de moto pela cidade (desde o 4 anos) e para os bares com os amigos (ah, os anos 80!). Foi ele quem me ensinou a dirigir (aos 14 anos, mas não conte para ninguém) e quem me deu de presente, quando eu tinha uns 10, um super mega master blaster carrinho de rolimã, com freios, encosto e carpete.

Então, sem cobranças para ser isso ou aquilo e com passe livre para efetivamente aproveitar a companhia dos familiares queridos, tive o melhor dos “dois” mundos, que, para mim, nunca foram dois, eram sempre o mesmo.

Sou mãe de menino. Sei que as coisas são mais injustas com as meninas, mas digo sem medo que os papéis são limitantes para os mocinhos também. E se Enzo não gostar de carros? E se Enzo quiser cozinhar, gostar de poesia, for mais romântico (não estou querendo dizer o homem que dá flores, essa bobagem, mas aquele que vê a vida sob o prisma das emoções)? E se Enzo curtir brincar de bonecas, cuidar, oferecer carinho? E se ele não se identificar com o estereótipo do “macho alfa”?

Há um tempo, uma colega cujo filho (uns 3 ou 4 anos) gostava de flores, fotografia e culinária, ouviu piadinhas maldosas sobre a sexualidade do garoto na redação da revista em que trabalhávamos. É, na redação, onde, supostamente, somos todos “mente aberta”. Ãhã. Somos sim, viu?

Sinceramente, se Enzo for tudo isso que descrevi, por mim, ótemo! Mas o que quero dizer, usando Enzo como exemplo, é que há inúmeras possibilidades diferentes da hegemônica para os meninos também. Poder tomar a iniciativa e ser mais ativo que passivo, ter uma dose de agressividade é uma coisa ótima, pela qual a gente -gênero feminino-, ainda luta. Mas ser OBRIGADO a fazer isso SEMPRE também não é legal. O machismo vitimiza os homens também.

Tento oferecer múltiplas oportunidades ao Enzo, de carrinhos (embora ele ainda não tenha nenhum com o qual brincar) a bonecas. Outro dia, numa loja de brinquedos educativos, vi um menininho todo feliz brincando com uma cozinha de madeira. Por que não? Se quiser, Enzo vai ter uma. E, para querer, a cozinha tem que ser oferecida a ele como opção.

Sempre me pergunto: será que faço mesmo isso? Que ofereço inúmeras possibilidades? Ou sem perceber limito meu filho e exijo dele que se encaixe em certos padrões sociais? A mãe da tiara tem tanta certeza de que a filha vai se adequar que até já anteviu isso: “quando crescer, você vai gostar”. Nada contra. Mas será que a menina vai gostar mesmo ou terá sido  induzida a gostar por ter aprendido que é assim que “as meninas fazem”?

Será que temos tido consciência do nosso papel na disseminação dos papéis de gênero? É isso mesmo que queremos? Uma filha princesinha e um filho guerreiro? Se for, ok. Mas e se não for e acabar sendo porque nem conseguimos nos questionar a respeito? Somos -todos nós- frutos da sociedade em que vivemos. E essa mãe da tiara -pegando a tiara como exemplo dessa limitação de papéis de gênero- também deve ter sido ensinada a gostar de tiaras. Mas será que precisamos mesmo reproduzir isso ad infinitum?

Veja, não estou dizendo que as mulheres só gostam das tiaras porque foram ensinadas assim. Tem gente que gosta mesmo. Tem mulher que gosta mesmo de ocupar e viver os papéis tradicionais. Tem gente que vive os papéis tradicionais em partes. As coisas não são só brancas e pretas, afinal, há nuances variadas. Mas nem falo disso, pois aí não há problemas.

O problema começa quando pensamos em todas as outras meninas e meninos que, bem, gostariam e poderiam ter ido além disso (sem juízo de valor nesse “além”) e não foram porque menino “é assim”, menina “é assado”.

Minha reflexão é sobre se, quando e como nós, pais, sem perceber, somos os principais responsáveis não por alargar os horizontes dos pequenos, apoiar os filhos e acolhê-los como são; mas por tolhê-los, limitá-los, cobrá-los e exigir deles que sejam algo que não são. Esse não é o tipo de mãe que eu quero ser. O mundo vai dar a “gaiola” para o Enzo. Eu quero dar as asas. Por isso, sinceramente, espero todos os dias refazer e refazer essa reflexão.

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