Arquivo do mês: agosto 2012

madrugada é dia útil

“Enquanto o caos segue em frente / com toda a calma do mundo”

Sereníssima” – Legião Urbana 

Trabalhar em casa tem várias vantagens. A mais óbvia delas, naturalmente, é estar perto do filho. Mas tem outras, como não perder tempo com deslocamentos, conseguir almoçar direito e sem gastar horrores por aí, comer maçã ao invés de porcaria no lanche da tarde, ligar o som e cantar loucamente enquanto se faz algum trabalho mais “braçal” (tipo baixar, salvar e organizar nas pastas zentas planilhas do Caged para se obter a variação do estoque de empregos formais no interior).

Só que tem sempre um porém, né? E, nesse caso, o porém é o seguinte: quando se é uma pessoa desorganizada como eu, home office pode ser muito, muito, muito caótico. Em todos os sentidos, mas principalmente em relação ao horário. Por mais que na redação ninguém tenha hora pra chegar nem hora pra sair, por mais que frequentemente os repórteres estendam seu expediente até bem tarde da noite (até pra esperar os colegas redatores/fechadores ficarem livres e ir com eles tomar umas no bar pé-sujo ali da esquina), o horário de trabalho acaba.

Em casa, não.

Na semana passada, por exemplo, trabalhei até perto das 4h todas as madrugadas e, de quinta para sexta, virei sem dormir. O saldo, entre outras coisas, foi pressão 7 x 5, dor de cabeça e muuuuita dor de garganta.

Ter muita coisa para fazer -meu caso- ajuda a explicar o horário nada ortodoxo. Estava apurando uma capa bem bacana, mas bem complexa também, com muitas variáveis a serem esmiuçadas, muitas informações de segunda mão para serem checadas, muitas fontes para ouvir (sei lá, acho que falei com mais de 50 pessoas, fácil, fácil) e, consequentemente, muito trabalho, terminada a apuração, para organizar, escrever e editar isso tudo.

Plus: também estava apurando, ao mesmo tempo, outras duas matérias, que entrego agora no começo da semana (a capa era para sexta), e, para uma delas, tive de ir a uma coletiva na quinta. Marcada para às 10h30, a entrevista com a fonte acabou acontecendo só às 13h. Cheguei em casa às 15h, o que atrapalhou bastante o andamento das outras pendências.

Acontece que, reconheço, se eu fosse um tantinho mais organizada, as coisas renderiam mais. E não falo de organização no trabalho, pois para isso sou organizada até demais. Tenho uns métodos de apuração que são quase manias. Quando não consigo, por alguma razão, por exemplo, atualizar a lista que faço com todos os contatos de todas as fontes e o status de como estão as conversações, fico tão incomodada que parece que não trabalhei naquele dia.

A desorganização a que me refiro -e que suga bastante o tempo- é das outras coisas: é a desorganização de não guardar nada no lugar certo e aí não conseguir achar aquela blusinha pra jogar em cima da camiseta quando está frio; é a desorganização de não tirar pratinhos e canequinhas e potinhos de dentro da geladeira e aí “perder” a comida; é a desorganização de nunca saber ao certo onde está mesmo a ração da gata; é a desorganização de comer-falar-com-fonte-atualizar-apuração-tomar-remédio-ler-release-tudo-ao-mesmo-tempo-agora; é a desorganização de nunca lembrar de deixar separadas as frutas que Enzo vai comer naquele dia e ter de interromper o trabalho para separá-las quando as mães pedem; é a desorganização de decidir ler só mais um pouquinho antes de dormir e aí notar que, putz, o “mais um pouquinho” durou quase uma hora e meia que eu não tinha; é a desorganização de não respeitar rotinas e horários (como hora para almoçar, para tomar um café, para descansar, para dormir)…

E, por último, mas não menos importante, é A desorganização de se acostumar a avançar noite e madrugada trabalhando e CONTAR com isso como se fosse, de fato, dia útil, hora útil de trabalho. Aí, a pessoa (no caso, eu) planeja seu dia incluindo como regra o que deveria ser exceção. E, a cada vez que eu faço isso, fica mais difícil quebrar o círculo e reduzir um pouco a jornada.

Comecei essa semana acordando bem cedo. Estou saindo da cama às 6h30, junto com o Dri. Espero que esse novo horário me “derrube” à noite e me ajude a conseguir limitar um pouco as coisas aqui no escritório. Sei que preciso disso. Mas, por enquanto, sem querer ser pessimista, são 22h30 e estou #semsono, avançando no trabalho, #semhorapraparar.

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as 10 frases que eu mais falo pro Enzo…

…e que ele ignora solenemente. Não necessariamente nessa ordem:

1) Na boca não.

2) Cospe isso que você colocou na boca, filho.

3) Não morde a mamãe!

4) Chega de comer pão, Enzo.

5) Não puxa o rabo da Jóh!

6) Deixe a gata em paz!

7) Só mais essa colherzinha, vai?

8) Assim você vai quebrar o micro-ondas (ou a TV ou meu celular ou o computador ou qualquer coisa tecnológica com botões que ele aperta em looping no repeat).

9) Não pode colocar a mão dentro do lixo, filho!

10) Vamos dormir agora?

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dilema revisitado # 3: as reflexões sobre maternagem

Contei aqui e aqui que estou com muito trabalho, precisando arranjar ainda mais trabalho e com pouco tempo para dar conta das responsabilidades de jornalista e das tarefas de mãe. Daí que,  mesmo querendo que Enzo fique só comigo até ter pelo menos dois anos, acabamos cogitando, Dri e eu, colocá-lo numa escolinha. Estivemos em algumas, conversamos muito a respeito, ouvimos as nossas mães, assuntamos por aí com quem já tem babás (o que pode ser uma opção para o pequeno ficar comigo e, ao mesmo tempo, eu ter mais tempo), e a pesquisa toda, embora não tenha rendido uma decisão, deu frutos: muita reflexão e algumas auto-repreensões, que eu compartilho.

A primeira delas: Enzo cresceu, tem outras necessidades, não tolera mais ficar só dentro de casa e, por mais que eu tente oferecer a ele um ambiente estimulante, nada substitui o aprendizado que ele tem quando sai de casa, quando vai para a rua, anda por aí, se encontra com outras crianças, conhece novos ambientes.

Exemplo: o pequeno está no auge daquela fase em que eles querem subir e descer qualquer coisa. Moramos em apartamento, aqui não há degraus ou desníveis. Tento improvisar degrauzinhos com caixotes, por exemplo, mas Enzo só se diverte mesmo quando sobe e desce (ad infinitum, diga-se) escadarias reais. Ou seja, fora de casa.

Até aí, tudo bem. O problema -que justifica a repreensão de mim para mim mesma- é que demorei horrores para notar isso e, consequentemente, para começar a oferecer uma rotina de passeios e atividades extra-lar para o Enzo. Foi só quando visitamos a primeira escola, e eu pude ver como ele estava afoito por um contato maior e mais livre em outros ambientes, que comecei a levá-lo diariamente para brincar fora do apartamento.

A segunda repreensão explica a primeira: mesmo trabalhando em casa, ao lado do pequeno, fui ausente e me afastei do Enzo. Prova disso é que nem percebi que meu minimenininho estava crescendo, tendo outras necessidades. Na correria, na tentativa de dar conta de tudo, perdi a mão. E, sem desculpa nem autoindulgência, confesso que perdi a paciência também. É bem mais fácil trabalhar profissionalmente que cuidar (de) e educar filho. Daí que a saída mais agradável para o impasse trabalho x filho acabou sendo privilegiar um pouco mais o trabalho. Não na prática, que com o bebê acordado praticamente não dá para trabalhar. Mas na intenção, sabe como? Estava com Enzo querendo estar trabalhando. Claro que não era uma opção consciente, mas não deixava de ser um tipo de escolha. Resultado: nem trabalhava nem me dedicava a contento ao Enzo e ainda ficava irritadíssima e distante emocionalmente do pequeno.

De modo que, como resposta, meu filho, que era um doce de menino, foi ficando cada vez mais irritadiço, impaciente, exigente, mal criado. Ao meu afastamento emocional, ele reagiu da única forma que conhece.

E eu, que esperava enfrentar as “birras” (odeio essa palavra pela carga negativa em relação aos pequenos, mas na falta de outra melhor…) só quando Enzo tivesse chegado aos 2, tive de lidar com isso um ano antes.

E como eu lidei com isso? Pois é, essa é a repreensão número 3. Ao invés de me implicar na situação para entender o que efetivamente estava acontecendo para justificar tanta mudança -e tão repentina- no pequeno, passei um bom tempo perguntando: “o que está acontecendo com ELE?”.  A pergunta mais adequada, claro, teria sido: “O que está acontecendo COMIGO? E COM A GENTE?”. Cheguei a levar Enzo à pediatra, na tentativa de obter uma “luz” dela sobre razões que explicassem a inquietação tão grande num menino tão pequeno.

A resposta dela foi a mais desestimulante possível: brigue mais com ele.

Eu sabia que não tinha nada a ver com falta de limites. Conheço meu filho. Mas ainda não tinha percebido que minha atitude displicente e impaciente é que estava causando a reação irritadiça e a ansiedade no Enzo. Foi só a ida à escola e o tempo que levamos refletindo sobre essas alternativas que, por caminhos paralelos, me fizeram enxergar o quadro todo.

De prático, portanto, nada relativo a escolas e babás, mas ao meu comportamento e à minha dedicação ao meu filho.

1) Estamos saindo diariamente para passear, às vezes uma, às vezes duas vezes. Vamos a locais diferentes, alternados, e estou procurando relaxar quanto a antigas encucações para deixar Enzo brincar no chão, pegar folhinhas, mexer na terra…

2) No quesito trabalho, recorri à ajuda das mães (como já contei). Não é a solução ideal, mas como paliativo vem funcionando bem, até que Dri e eu decidamos a melhor alternativa. Mesmo nos dias em que as mães não podem vir, me policio muito para estar mesmo 100% com Enzo, relaxada. Isso tem me custado alguns atrasos, é verdade, mas não se pode ter tudo, e, conscientemente dessa vez, optei pelo meu filho.

3) Sempre que noto o pequeno mais nervoso ou impaciente, o que tem acontecido cada vez mais raramente, pergunto primeiro a mim mesma se EU estou nervosa ou impaciente, se EU estou agindo de modo diferente, se EU estou sendo menos carinhosa ou menos presente.

Tem dado muito certo, mesmo com as falhas todas a que todas nós estamos sujeitas, e tenho ganhado muitos sorrisos, abraços, beijinhos babados e gargalhadinhas, daquelas que valem o dia.

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bebê decide

São 4h da manhã, e bebê decide que é hora de acordar.

Não satisfeito com acordar às 4h, bebê decide que madrugada é hora de chorar.

Não satisfeito com chorar, bebê decide que madrugada é hora de mamar.

Não satisfeito com mamar, bebê decide que madrugada é hora de mamãe, não de papai.

Não satisfeito com mamãe, bebê decide que madrugada é hora de montar suas pecinhas de encaixar.

Não satisfeito com as pecinhas, bebê decide que madrugada é hora de correr pela casa.

Não satisfeito com a corrida, bebê decide que madrugada é hora de brincar com a gata.

Não satisfeito com a gata, bebê decide que madrugada é hora de guardar e desguardar objetos.

Não satisfeito com o guarda-desguarda, bebê decide que madrugada é hora de encaixar o outro jogo de pecinhas.

Não satisfeito com o segundo jogo, bebê decide que madrugada é hora de colinho.

Não satisfeito com o colinho, bebê decide que madrugada é hora de chão.

Não satisfeito com o chão, bebê decide que madrugada é hora de mais colinho para tentar dormir.

Não satisfeito com a tentativa, bebê decide que madrugada é hora de andar na cozinha.

Não satisfeito com a cozinha, bebê decide que madrugada é hora de mamar de novo.

Não satisfeito com a mamadeira, bebê decide que madrugada é hora de ninar.

Não satisfeito com as ninadas, bebê decide que madrugada é hora de dormir no colinho da mamãe.

E aí já são 7h da manhã.

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sobre o cremerj

Estou para escrever um post decente sobre aquela  palhaçada decisão do Cremerj, o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro, faz um tempo. Mas como tempo tem sido artigo raro por aqui, decidi ao menos linkar para esse texto, publicado há pouco no “a mãe que eu quero ser”, que traz a questão à tona e toca nos pontos principais.

Também passei para registrar uma boa notícia: o juiz federal Gustavo Arruda de Macedo, da 2ª Vara do Rio, suspendeu hoje as duas decisões absurdas do conselho (uma que proibia médicos de acompanharem partos domiciliares e outra que punia os que deixassem doulas, parteiras, obstetrizes  acompanharem partos hospitalares).

Cabem recursos, claro, mas convenhamos que a suspensão já é um avanço no mar de corporativismo, péssimas informações e alguma má-fé que cerca essa questão.

Se o Cremerj quisesse mesmo “proteger” as mulheres como tem alardeado por aí, poderia começar divulgando que cesáreas eletivas são 3,5 vezes mais perigosas que o parto normal.

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