dilema revisitado # 3: as reflexões sobre maternagem

Contei aqui e aqui que estou com muito trabalho, precisando arranjar ainda mais trabalho e com pouco tempo para dar conta das responsabilidades de jornalista e das tarefas de mãe. Daí que,  mesmo querendo que Enzo fique só comigo até ter pelo menos dois anos, acabamos cogitando, Dri e eu, colocá-lo numa escolinha. Estivemos em algumas, conversamos muito a respeito, ouvimos as nossas mães, assuntamos por aí com quem já tem babás (o que pode ser uma opção para o pequeno ficar comigo e, ao mesmo tempo, eu ter mais tempo), e a pesquisa toda, embora não tenha rendido uma decisão, deu frutos: muita reflexão e algumas auto-repreensões, que eu compartilho.

A primeira delas: Enzo cresceu, tem outras necessidades, não tolera mais ficar só dentro de casa e, por mais que eu tente oferecer a ele um ambiente estimulante, nada substitui o aprendizado que ele tem quando sai de casa, quando vai para a rua, anda por aí, se encontra com outras crianças, conhece novos ambientes.

Exemplo: o pequeno está no auge daquela fase em que eles querem subir e descer qualquer coisa. Moramos em apartamento, aqui não há degraus ou desníveis. Tento improvisar degrauzinhos com caixotes, por exemplo, mas Enzo só se diverte mesmo quando sobe e desce (ad infinitum, diga-se) escadarias reais. Ou seja, fora de casa.

Até aí, tudo bem. O problema -que justifica a repreensão de mim para mim mesma- é que demorei horrores para notar isso e, consequentemente, para começar a oferecer uma rotina de passeios e atividades extra-lar para o Enzo. Foi só quando visitamos a primeira escola, e eu pude ver como ele estava afoito por um contato maior e mais livre em outros ambientes, que comecei a levá-lo diariamente para brincar fora do apartamento.

A segunda repreensão explica a primeira: mesmo trabalhando em casa, ao lado do pequeno, fui ausente e me afastei do Enzo. Prova disso é que nem percebi que meu minimenininho estava crescendo, tendo outras necessidades. Na correria, na tentativa de dar conta de tudo, perdi a mão. E, sem desculpa nem autoindulgência, confesso que perdi a paciência também. É bem mais fácil trabalhar profissionalmente que cuidar (de) e educar filho. Daí que a saída mais agradável para o impasse trabalho x filho acabou sendo privilegiar um pouco mais o trabalho. Não na prática, que com o bebê acordado praticamente não dá para trabalhar. Mas na intenção, sabe como? Estava com Enzo querendo estar trabalhando. Claro que não era uma opção consciente, mas não deixava de ser um tipo de escolha. Resultado: nem trabalhava nem me dedicava a contento ao Enzo e ainda ficava irritadíssima e distante emocionalmente do pequeno.

De modo que, como resposta, meu filho, que era um doce de menino, foi ficando cada vez mais irritadiço, impaciente, exigente, mal criado. Ao meu afastamento emocional, ele reagiu da única forma que conhece.

E eu, que esperava enfrentar as “birras” (odeio essa palavra pela carga negativa em relação aos pequenos, mas na falta de outra melhor…) só quando Enzo tivesse chegado aos 2, tive de lidar com isso um ano antes.

E como eu lidei com isso? Pois é, essa é a repreensão número 3. Ao invés de me implicar na situação para entender o que efetivamente estava acontecendo para justificar tanta mudança -e tão repentina- no pequeno, passei um bom tempo perguntando: “o que está acontecendo com ELE?”.  A pergunta mais adequada, claro, teria sido: “O que está acontecendo COMIGO? E COM A GENTE?”. Cheguei a levar Enzo à pediatra, na tentativa de obter uma “luz” dela sobre razões que explicassem a inquietação tão grande num menino tão pequeno.

A resposta dela foi a mais desestimulante possível: brigue mais com ele.

Eu sabia que não tinha nada a ver com falta de limites. Conheço meu filho. Mas ainda não tinha percebido que minha atitude displicente e impaciente é que estava causando a reação irritadiça e a ansiedade no Enzo. Foi só a ida à escola e o tempo que levamos refletindo sobre essas alternativas que, por caminhos paralelos, me fizeram enxergar o quadro todo.

De prático, portanto, nada relativo a escolas e babás, mas ao meu comportamento e à minha dedicação ao meu filho.

1) Estamos saindo diariamente para passear, às vezes uma, às vezes duas vezes. Vamos a locais diferentes, alternados, e estou procurando relaxar quanto a antigas encucações para deixar Enzo brincar no chão, pegar folhinhas, mexer na terra…

2) No quesito trabalho, recorri à ajuda das mães (como já contei). Não é a solução ideal, mas como paliativo vem funcionando bem, até que Dri e eu decidamos a melhor alternativa. Mesmo nos dias em que as mães não podem vir, me policio muito para estar mesmo 100% com Enzo, relaxada. Isso tem me custado alguns atrasos, é verdade, mas não se pode ter tudo, e, conscientemente dessa vez, optei pelo meu filho.

3) Sempre que noto o pequeno mais nervoso ou impaciente, o que tem acontecido cada vez mais raramente, pergunto primeiro a mim mesma se EU estou nervosa ou impaciente, se EU estou agindo de modo diferente, se EU estou sendo menos carinhosa ou menos presente.

Tem dado muito certo, mesmo com as falhas todas a que todas nós estamos sujeitas, e tenho ganhado muitos sorrisos, abraços, beijinhos babados e gargalhadinhas, daquelas que valem o dia.

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5 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões

5 Respostas para “dilema revisitado # 3: as reflexões sobre maternagem

  1. Denise

    adorei o fato de vc ter compartilhado essas reflexões. vida é aprendizagem contínuo, a cada minuto
    eu tb estou trabalhando em casa e caminhando para a maternidade (tomara que dê certo). com certeza, sua experiência vai me ajudar

    saudades…
    bjs

  2. Nat

    Denise,

    que surpresa boa encontrar você por aqui! 🙂 e que ótima notícia! torcendo aqui e certeza que vai dar certo. quando menos esperar, o bebê vai estar por aí…

    saudades mesmo! faz tempão, né? (aliás, essa é frase que eu mais tenho dito às pessoas, ahahah). quando a gente se encontrou na cobertura da Apas, eu estava grávida ainda. e vc está frilando pra onde?

    olha, não se assusta não, viu? maternidade não é mesmo fácil, ainda mais quando se é jornalista (trabalhe-se muito, ganha-se pouco, em geral sem licença, férias remuneradas, folgas…). mas é muito, muito, muito bom ser mãe! e olha que eu nunca fui daquelas que sonhava ser mãe, não. e, mesmo assim, curtindo demais. é delícia mesmo!

    e dá pra conciliar com o trabalho, apensar dos perrengues todos. se, por um lado, atraso o meu cronograma, como contei, por outro, trabalho na madrugada e entrego no prazo. e as gargalhadinhas compensam! 🙂

    se eu puder te dar uma dica: se jogue na “madresfera”. aí no blogroll do blog tem um monte de outros blogs de mães que eu super recomendo. experiências riquíssimas, muito conhecimento (essa mulherada é mega militante, conhece tudo de tudo, de amamentação à educação infantil e psicologia do desenvolvimento!), muito acolhimento. fiz muitas amizades na madresfera. amizades mesmo, gente de quem eu gosto muito, com quem tenho zilhões de afinidades, mesmo sem nunca ter visto (por enquanto) ao vivo.

    pra quem é mãe de primeira, essas experiências, além de diminuir aquela sensação de solidão e as dúvidas do tipo “será que só eu penso isso?”, ajudam a resolver problemas reais para os quais as revistas sobre maternidade e o senso comum têm respostas-padrão que só servem pra atrapalhar -quando têm respostas.

    há coisas, além de tudo, que não são intuitivas. se ninguém te falar -e ninguém vai-, você não tem como saber. exemplo: se você quiser amamentar seu filho, arranje um pediatra pró-amamentação ANTES, bem antes, do bebê nascer. é preciso tempo para você achar um bom ped, e o ideal é que ele e você já estejam afinadinhos quando o filho desembarcar por aqui.

    isso porque os primeiros dias são cruciais para a amamentação. qualquer probleminha, por menor que seja (como pouco leite ou bebê que dorme ao mamar e não mama o suficiente), demandará orientação de um especialista. se o ped não for 100% favorável à lactação exclusiva, ele vai te mandar dar leite artificial (os NANs da vida, popularmente conhecidos na madresfera como LA). e, uma vez introduzido o LA, a amamentação começa a correr sérios riscos.

    mas, e diga, quem é que, mão de prima, vai pensar nisso? então, se joga mesmo que as meninas têm muito o que ensinar e facilitar a vida das novas mães.

    e se você precisar de alguma coisa, qualquer coisa, estamos aí! 🙂

    bjos

  3. Ingrid

    Ah Nat, a palavra mãe deveria significar “aquela que se sente culpada”. Fico feliz de ver que vc conseguiu achar, pelo menos por enquanto, uma solução para o seu principal dilema. E não desista de seguir seus instintos… brigar mais com o Enzo pode ser bom para o pediatra que o vê uma vez por mês, mas pra vc que está ali com o seu minimenininho sabe muito bem como encontrar a resposta… mesmo que demore um pouco.

    Sempre te acompanhando, me inspirando e trocando idéias… ser mãe de primeira viagem é uma baita aventura.

    Bjs!!!!

  4. Nat, sair de casa é essencial, sim, para eles e para nós. Aqui, elas só ficam bem se saírem de manhã e à tarde. no dia em que não rola uma destas saídas, tudo fica ruim, até o sono. Criança entediada fica chatinha mesmo (quem não?), sair de casa é imperativo. Como eu sempre fui muito rueira, eu sou a primeira a querer sair de casa, tanto que ambas saem diariamente desde que têm poucos dias de vida. Meu marido é bem mais caseiro, mas eu pareço criança: se não saio para passear, fico chatinha (inha é eufemismo, óbvio). Acho que para quem trabalha em casa é um refesco necessário. E para a criança é como comer e dormir, não dá para ficar sem por longo período de tempo.
    Beijos

  5. Pingback: mais licença, menos creches | mãederna

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