Arquivo do mês: outubro 2012

precisamos mesmo de tanto antibiótico?

Faz quase um mês, Enzo teve uma gripe forte, com muita tosse, falta de apetite, conjuntivite um pouquinho de febre. Como a temperatura febril se repetiu por dois dias seguidos, a pediatra dele sugeriu uma passadinha no Pronto Socorro, só para descartarmos infecções ou qualquer probleminha pulmonar. Fomos. Examina daqui, examina dali, o plantonista concluiu que meu filho estava com um princípio de inflamação no ouvido direito. Nada grave. Ok, mãe tranquila, senta um pouco, espera a receita, recebe a receita do médico e… susto!

Além de um antibiótico forte, ele tinha receitado um remédio à base de cortisona para o pequeno. MEODEOS, mas se é só um princípio de uma inflamação leve, para que isso? Perguntei, médico rosnou, enrolou, não respondeu e ameaçou: “melhor tratar para não piorar, né?”. Sim, sim, dr…

Sim, sim, dr my ass! Saí da sala e, na hora, liguei para a pediatra do Enzo, que super estranhou a recomendação da cortisona. O estranhamento com a cortisona foi tamanho que, mesmo 1000% alopática e super “enquadradinha” na medicina mais tradicional possível, a ped pediu o CRM do colega para questionar o moço. Mas manteve o antibiótico. E eu continuei achando um exagero, tendo em vista o quadro.

Pulga-atrás-da-orelha mode “on”, liguei para o homeopata que cuida do Enzo e que me atende desde que eu tinha 4 anos. Levei Enzo lá e, claro, ele cancelou inclusive o antibiótico. Realmente não era nada necessário. Fez uma fórmula, explicou como eu deveria ministrar e, tranquilo como sempre, me disse: “em dois dias ele não tem mais nada”.

Pois é, ele errou. Com a fórmula homeopática, Enzo estava ótimo no dia seguinte! Sem febre, sem vermelhidão nos ouvidos, sem dor. E melhor: sem antibiótico, sem cortisona. E se eu tivesse dado esse monte de drogas comprovadamente desnecessárias para o meu filho? Além dos prejuízos por tomar a medicação em si, ainda teria privado o organismo do Enzo de reagir sozinho e fortalecer seu sistema imune ao lidar com um problema inofensivo.

Quando eu era pequena, esses ciclos normais de inflamação e gripe, pelos quais também passei, foram tratados com muito antibiótico, injeções e remédios, muitos remédios (daqueles com gosto horrível, mas que o fabricante tem a cara de pau de colocar na embalagem que tem sabor de banana. Ah vá… O cara nunca deve ter comido uma banana na vida, mon dieu!).

Aos 4, já tinha tido muitos episódios graves de estomatite e um episódio de paralisação renal. Sim, sim, antibióticos podem causar paralisação dos rins. Ninguém lê bula não? Tudo isso por causa de dores de garganta e febrezinhas inofensivas. Compensa? Faz sentido? Isso é medicina? Isso é “curar” alguém?

Sacou qual é o problema? Remédio mal ministrado vira veneno, confere produção?

Não sou médica, não estudei biológicas, meus conhecimentos nesse campo se limitam ao que eu aprendi no Ensino Médio, plus o que eu li por aqui “googlando”.  Mas tenho algum raciocínio lógico e sei que: 1) antibiótico não é para se tomar à toa, há contraindicações e reações adversas graves; 2) cortisona, em bebê, só mesmo em caso de precisão precisada. Cortisona faz mal para adultos… mesmo para aqueles que realmente têm de tomar. Imagine para bebês.

Não estou fazendo apologia da homeopatia não. Para mim, sempre funcionou (aliás, esse médico que hoje consulta Enzo foi o cara que salvou –literalmente– minha vida aos 4). Mas conheço muita gente para quem a homeopatia é inócua. E sabe? Tanto faz se você vai num homeopata, alopata ou qualquer outro “pata”. Porque o problema é enxergar o sintoma como algo que precisa ser combatido A QUALQUER PREÇO e o mais rápido possível. Sabe matar barata com fuzil? Eu até toleraria esse raciociniozinho raso  de um ignorante em medicina –tipo eu assim– que, assustado, com medo de agravar uma doença, tascasse cortisona num bebê febrilzinho.

Mas não de um profissional formado, que sabe avaliar a gravidade do quadro e que, inclusive, me diz que NÃO É NADA GRAVE. Como assim então dar cortisona? Como assim dar o antibiótico mais forte?

Claro que também não estou propondo que as mães e pais ignorem recomendações dos médicos sempre que eles receitarem antibióticos. Pelamor, nada de cura milagrosa com chá de sei-lá-eu-o-quê! Notem que abri mão da medicação recomendada pelo primeiro médico depois de consultar outros DOIS PROFISSIONAIS DE CONFIANÇA. O homeopata, inclusive, já me prescreveu muita ALOPATIA quando foi necessário. Sei, portanto, que ele tem plena consciência das limitações das medicações homeopáticas e que, se fosse necessário, endossaria o antibiótico mantido pela ped.

Portanto, a reflexão aqui é  tão somente sobre se é mesmo necessário dar antibiótico SEMPRE que as crianças têm uma inflamaçãozinha benigna  qualquer. No meu caso (tanto minha experiência quanto a do Enzo),  a resposta é não.

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é proibido ser criança

Não corra!, não grite!, não mexa aí!, não veja com as mãos!, não ria alto!, não entre!, não saia!, não derrube no chão!, não toque!, não é assim que se faz!, não coloque na boca!, não brinque com isso!, agora não é hora para brincadeiras!, tome banho!, não molhe o banheiro!, escove os dentes!, não coma de boca aberta!, vá dormir!, acorde!, termine a lição!, não pule!, não suba aí em cima!, não se suje!, não brinque no chão!, não deixe o cachorro te lamber!, não ponha a mão aí!, não me desobedeça!, não pergunte!, não tente descobrir sozinho!, não seja imaturo!, fique quieto!, coma sentado!, durma sozinho!, não coma isso!, não responda sua tia!, obedeça todo mundo!, estude!, não falte às aulas!, não cante essa música! não leia isso! leia isso!, seja responsável!, não ande pelo restaurante!, não rabisque a parede!, não rabisque!, não abra essa caixa!, não desmonte o controle remoto!, não fuce aí!, não perca a aula de inglês!, não coloque as mãos na tinta!, não fale sozinho!, de novo com essa boneca?!, não sente no chão!, não brinque no chão!, tire a mão da terra!, não fale alto!, agora não!, já disse que não!, quantas vezes eu tenho de falar não para você?!, você não entende o que significa não?!, não pode entrar aí!, não pode sair daí!, não pode passear pela escola!, agora não é hora de fazer xixi!, não pode sair da sala!, não pode mexer no microscópio sem a ajuda do professor!, não me enfrente!, não fale assim comigo!, não brinque assim!, não aperte esse botão!, não coma isso!, não coma com as mãos!, não coloque os pés no sofá!, não brinque com minha maquiagem!, não brinque com a minha gravata!, não ligue o carro!, não pise no tapete com esses pés sujos!, não suba em cima dos bancos do carro!, não toque a buzina!, não coma biscoito na sala! não coma biscoito no carro!, não brinque na sala!, não brinque com esse vaso!, não vá ao escritório!, não atenda o telefone!, não derrube no chão!, não use a colher sozinho!, faça cocô no penico!, não faça xixi na cama!, não use essa roupa!, não escreva nos livros!, não desenhe no livro! não use esse caderno!, não ria que estou falando sério!, NÃO SEJA CRIANÇA!

 

 

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reflexões sobre educação e limites depois de uma manhã no “play”

E daí que ainda estou tentando entender alguns códigos de conduta, digamos assim, dos “plays”, pracinhas e afins. Eu não tinha a menor ideia de como as crianças são violentas umas com as outras, especialmente com as pequenas, mais indefesas. E de como isso é super tolerado por mães, pais, babás e similares. Nem imaginava que, para os pais, as “pracinhas” não são locais para CURTIR os filhos, mas para se LIVRAR deles.

Explico minha surpresa: o que mais tenho visto é o seguinte arranjo: pai ou mãe com filho um pouquinho maior (3 pra cima), que já brinca sozinho, deixa a cria lá no meio da molecada, arranja um local confortável para sentar (longe ou perto, tanto faz), liga o note, o tablet, abre um livro, o jornal e ESQUECE que pariu a criatura que, nesse momento, já está lá no parquinho fazendo uma das seguintes coisas (ou ambas ao mesmo tempo):

a) importunando os menores, seja tentando roubar-lhes os brinquedos, seja tentando impedir-lhes de brincar, seja ameaçando bater mesmo; b) subindo ou descendo perigosamente de algum equipamento, arremessando alguma coisa violentamente e gritando loucamente: “mamãããããe, papaaaaai, olha o que eu consigo fazer”. E sendo ignorado, claro.

No feriado, com Enzo num SESC, tive de –literalmente– fugir sala de brincadeiras afora porque um tal de João resolveu que meu filho –e outros pequenos que ousaram ir brincar também– não poderia tocar nada que ele visse. Vê só: estávamos agachados no tapete de atividades, no nosso canto, brincando com duas almofadas de encaixar. O tal João chegou, olhou a gente de longe, veio em nossa direção. Achei que quisesse brincar, ofereci uma das almofadas. A reação dele: pegou as duas e começou a gritar: “é meu, é meu, é meu”. Saiu correndo.

Ok, deixei para lá, crianças nessa fase (pela qual deduzi que o João está passando) são assim mesmo, tudo é deles. V’ambora com Enzo até o outro canto, onde ele achou outros brinquedos. Eis que o mocinho “é meu, é meu” nos vê e corre para o nosso lado novamente, tentando levar embora o brinquedo pela segunda vez. Não deixei. Gentilmente, disse que estávamos brincando agora, que ele se juntasse a nós. Desistiu por um tempo, foi para longe.

Aí eis que ele viu Enzo escorregando. Veio na nossa direção novamente e tentou impedi-lo. Simples assim, entrando na frente, dizendo “não”. Abri espaço para ele passar, sugeri que ele passasse antes e logo, pois estávamos usando aquele brinquedo, ele entrou na frente, parou, não subia nem saia de lá. Suspendi Enzo no colo, pulei a “subida” no escorrega e desci Enzo, normalmente.

E aí procurei, com os olhos, a mãe do guri. Pohan, não vou pro “play” para ficar cuidando de filho dos outros. Nem para voltar à quarta série e ficar me acotovelando com crianças no parquinho, como se tivesse a idade deles. Quando Enzo “atravessa” a diversão de outras crianças, tenta brincar com o que já tem “dono” ou participar de brincadeiras nas quais não é bem vindo, sou eu mesma que intervenho e mostro a ele que as outras crianças têm limites. É meu papel inseri-lo em certas normas de convivência pacífica com os demais.

Mas cadê a mãe do tal João? Procurei, procurei e então achei uma mulher sentada, láááá longe, lendo o Estadão, sem nem levantar os olhos ocasionalmente para ver onde o filho estava. “Rá, aí está a mãe do João”, pensei. E era mesmo.

Ela só se comunicou com o filho ou interveio na brincadeira dele quando ele levou para o tapete de atividades um brinquedo particular (*). Claro que as outras crianças se interessaram, e o João perdeu a compostura. Se já gritava “é meu, é meu” para o que era de todos, imagine para o que era, de fato, dele. Depois do décimo grito e de  muita choradeira, lá do alto do seu “tô-nem-aí”, a mãe  do João berrou de volta: “brigando de novo, João?”. Por que será, né? E a moça só foi até onde estava o filho longos minutos depois para recolher o tal brinquedo. Seca, quase pisando nas outras crianças, mandou: “Me dá isso que eu vou guardar!”. Pegou, saiu, batendo os pés, sem nem olhar para trás. Sentou, reabriu o jornal e esqueceu do João.

Não é um caso isolado. Já vi acontecer outras vezes coisas parecidas, com Enzo ou com outras crianças menores que o “brincalhão” metido a violento. Parece que o barato da brincadeira não é brincar em si, mas impedir os mais “fracos” de se divertirem, mostrar “força”, “poder”. E o denominador comum desses casos todos são os pais aparentemente ausentes. Não posso falar como é a relação dessas crianças com seus pais em casa, mas nos ambientes coletivos asseguro que é uma lástima.

Pais que dão de ombros pros próprios filhos em pleno fim de semana, normalmente o único momento em que adultos ocupados têm, em tese, tempo de conviver com as crias. Mas esses mesmos adultos (serão adultos mesmo?) estão sempre mais ocupados com seus próprios umbigos, e a insatisfação e raiva das crianças sem atenção acabam sobrando para outros pais e crianças que não têm nada a ver com isso.

Já tive de ler histórias para uma menino cujo nome nem sei, mesmo seus pais estando a menos de dez passos de onde eu estava com Enzo. Eu lia para o meu filho, e o pequeno desconhecido ficava trazendo livrinhos para mim, não para os próprios pais, que viam tudo e continuavam sentados, impassíveis, diante do evidente interesse do filho. Depois de várias historinhas compartilhadas, o menino começou a implicar com Enzo, queria subir no meu colo (!!!), onde Enzo estava, claro, e aí a coisa toda ficou tão estranha que agradeci horrores quando vi que estava na hora de ir almoçar.

Confesso que não sei o que fazer nessas situações. Fico preocupada com a criança largada, que busca chamar a atenção importunando os demais. Mas fico mais preocupada é com o meu filho e com os outros bebês importunados. E também confesso que não consigo sentir muita empatia pelas mães/pais que largam seus filhos como se o parquinho, o play ou o que quer que seja fosse passe livre para se verem livres das responsabilidades maternas/paternas.

Sabe? Desinteresse é uma violência, né? Especialmente quando os desinteressados são os pais justamente pelos filhos, que precisam tanto da atenção deles para crescer e se desenvolver emocionalmente. Natural que os pequenos reproduzam a violência que sofrem (ainda que de outras formas) com os menores que eles.

Daí que todo mundo fala o tempo todo em limites. “As crianças precisam de limites”. “Eles são malcriados porque não têm limites”. “Falta castigos, falta pulso”. Blá blá blá whiskas sachet, o que falta mesmo, pelo menos aos “valentões” mirins que ando encontrando por aí, é um pouco mais de amor, de presença, de carinho, de interesse GENUÍNO. Só isso já ajudaria muito.

(*) Também continuo tentado entender porque uma mãe ou pai leva a um local coletivo brinquedos que o filho não quer compartilhar com outras crianças. Se seu rebento está naquela fase do “é tudo meu”, melhor manter os brinquedos dele em casa, não? Porque se ele aparecer com as coisas no “play”, é lógico que as outras crianças vão querer brincar também. Ou é difícil demais imaginar isso?

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quem tem um olho é rei

[“Quando as situações injustas são correntes, perdemos a noção de liberdade” ]

Laura Gutman

Que nome você daria a uma situação em que uma pessoa usasse a força para submeter outras à vontade dela? E que nome você daria à mesma cena caso a primeira pessoa usasse não a força física, mas a manipulação psicológica? Eu chamaria de violência. Tanto quanto eu chamaria de violência um assalto, um sequestro, um tapa na cara, uma agressão qualquer.

E me espanto muito quando poucas pessoas acham violentos os nascimentos hoje em dia. Vou explicar. Li esse post da Anne Rammi e, coincidentemente, uma pessoa muito querida passou por situação semelhante a uma das narradas no texto dela: informações pela metade e omissão de informações que culminaram numa cesárea desnecessária (como são a imensa maioria das cesáreas).

Fico aqui pensando com meus botões: o corpo que vai parir é da parturiente; a carne que vai ser cortada é dela também; a cirurgia vai agredir o útero da grávida; é o filho dela que vai retirado do ventre à força, com violência (sim, sim, nascer sem TP é, em geral, uma violência para o bebê); é o filho dela que não vai poder usufruir do cordão umbilical até que pare de pulsar; é esse recém-nascido que não vai poder ser afagado pela mãe nas primeiras horas, que não vai começar a mamar quando seu impulso de sucção é maior, que poderá ter sua amamentação prejudicada…

Essa mulher não tem o direito de decidir o que quer fazer de seu corpo e que tipo de parto deseja dar ao filho? Ser cortada, manipulada, exposta a uma cirurgia não deveria ser uma decisão de quem vai sofrer esse procedimento? Minha vontade sobre meu próprio corpo não deveria ser soberana?

Como fazer tudo isso se sonegam informações? Se alguém mente e diz que a única saída é uma cesárea, e aí a parturiente consente com a cesárea, esse consentimento é válido? Ela consentiu mesmo? Ou foi manipulada  e enganada para consentir?

Como decidir sofrendo uma pressão psicológica desde antes de engravidar? Como optar por um parto normal com a segurança necessária se médicos, mídia e senso comum fazem de conta o tempo todo (com má fé ou não) que PN é mais inseguro que uma cesárea, que parto em casa é mais arriscado que parto hospitalar? Como não ter medo de parir e acabar, por isso, recorrendo a uma cirurgia, aceitando a cirurgia e naturalizando a cirurgia como se ela fosse a via usual, adequada, própria para o nascimento?

O que fazer se os médicos partem do pressuposto de que um bebê precisa nascer antes da 40ª semana quando, na própria literatura médica, nada comprova esse “procedimento padrão”, dito pelos próprios médicos? Na teoria, todo mundo sabe –e ouve dos GOs– que a gestação normal numa humana vai de 38 a 42 semanas. Quem espera chegar à 42ª? Por que não? Quem foi que convencionou um limite de 40 semanas? E mais importante: por quê?

Colo fechado, quadril estreito, pouca dilatação, bebê grande demais, bebê “velho” demais, placenta “velha”, cordão enrolado no pescoço… Quantos argumentos curtos e grossos são dados às pressas para convencer mães a evitarem o PN sem que ao menos os médicos se deem ao trabalho de explicar o que esse monte de coisa quer dizer? Não podem explicar o inexplicável? Não podem dizer que, salvo raríssimas exceções, todas as mulheres dilatam, por exemplo? Não podem dizer que, na verdade, o problema com a sua dilatação é que ela não está acontecendo no tempo que o médico quer e que é mais lucrativo pro hospital?

Eu sigo tendo certeza de que manipular alguém para submeter o corpo desse alguém à vontade de outrem é nada mais que violência. E é uma violência dissimulada, travestida de “milagre da medicina”. Se as cesáreas –muito válidas e necessárias para salvar vidas quando prescritas adequadamente– fossem mesmo necessárias na proporção que são usadas hoje nos hospitais particulares, então estaríamos admitindo que mais de 80% das grávidas estariam mortas não fosse a cirurgia, que mais de 80% das parturientes chegaram à maternidade correndo risco, a despeito de terem acesso ao pré-natal mais eficiente ever. Estranho, não?

Não quero dizer que quem pariu de PN é melhor que quem pariu via cesárea. Pelamor, mulherada, vamos superar essa coisa de mais e menos; melhor ou pior, ok? Quero dizer só o que disse: estamos sofrendo violência e nem nos damos conta. Sequestraram um dos últimos bastiões da liberdade e da sexualidade livre da mulher, que era o parto; um dos poucos espaços onde a patrulha machista (feminina ou masculina) não se metia. Lá ninguém julgava, não dava palpites, não dizia que era “feio”, “pecado”, “proibido”. Não era preciso refrear emoções, era permitido gritar feito bicho, bater, ficar de cócoras, sangrar, gemer, uivar. E tudo era permitido.

Era.

Porque agora podemos ser “higiênicas”, “limpas”, “rápidas”, “quietinhas”, “passivas”. A passividade, tão valorizada como “característica” feminina, chegou ao parto. Basta tomarmos uma anestesia, alguém nos amarra as mãos e participamos tão ativamente do nosso parto quanto querem que participemos: nada.

Vamos ficar quietas até quando? 

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De onde saiu isso? Daqui, daqui, daqui e daqui. E, claro, daqui e daqui. Recomenda as leituras. A mulherada da madresfera finalmente está tirando as garras pra fora, no ótimo sentido. Rumo ao maternismo.

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