Arquivo do mês: abril 2013

renascimento do parto # 2 – a boa notícia

Depois de custear a produção do documentário “O Renascimento do Parto” com recursos próprios, o casal Érica de Paula e Eduardo Chauvet, co-autores do longa, finalizado em 2012, estavam sem grana para lançar a película em circuito nacional.

Decidiram passar o chapéu pelas redes sociais e, via crowdfunding, arrecadaram perto de R$ 100 mil em alguns dias.  Segundo li aqui, o valor é suficiente para lançar o filme tanto nos cinemas quanto em DVD.

Ainda não há data para o lançamento, mas agora já é certo que o filme será distribuído. O canal de croudfunding continua aberto, até porque quanto mais recursos arrecadados, mais ampla será a distribuição do longa. Quem quiser ajudar pode doar indo por aqui.

Recentemente, li duas entrevistas bem bacanas sobre o documentário, ambas com a Érica, que é psicóloga e ativista do parto humanizado. Uma do Mamatraca (veja aqui) e outra da TPM (nesse link). Valem a pena.

Deixo dois trechos, um de cada bate-papo:

Do Mamatraca:

“As mulheres precisam entender que, acima de qualquer escolha, está uma questão de saúde pública. O alto índice de cesarianas desnecessárias está colocando mulheres e bebês em riscos igualmente desnecessários, e os privando de benefícios importantes que irão repercutir em curto, médio e longo prazo.”

Da TPM:

“O documentário possui como objetivo conscientizar toda a população (não apenas as mulheres grávidas) da importância e do impacto da forma como nascemos em toda a nossa vida”

Dá para assistir ao vídeo promocional do documentário –bem bacana também– aqui. Agora é torcer para que o longa saia o mais rápido possível e que, de fato, entre em circuito nacional. Passou da hora desse debate envolver não apenas meia dúzia de “iniciadas”, mas a sociedade.

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o renascimento do parto

"Maternite" (1963), de ninguém menos que Picasso (*)

“Maternite” (1963), de ninguém menos que Picasso (*)

A OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda que as cesáreas representem, no máximo, 15% dos partos. No Brasil, no entanto, já atingimos o alarmante número médio de 50% de cesáreas. Isso botando na conta a população parturiente como um todo. Quando se levanta os mesmos números computando apenas as mulheres atendidas por hospitais particulares, a quantidade de cesáreas passa dos 80%, chegando aos 90% em alguns casos. Ou seja, o contrário do que a OMS define como ideal para resguardar a saúde da mãe e do bebê.

O Brasil é, hoje, o país mais “cesarista” de que se tem conhecimento. Na Europa, para uma comparação rápida, as cesáreas somam 25% dos partos. Eu faço parte das estatísticas, fiz uma cesárea (relatos aqui e aqui). E, por tudo o que li sobre isso depois do parto, também me incluo no grupo das que sofreram uma cirurgia desse porte desnecessariamente. Somos maioria, infelizmente, como mostram os números.

Penso que tem muita coisa que explica porque, em questão de duas gerações, as mulheres simplesmente deixaram de parir. Mas duas delas me chamam mais a atenção.

1) O medo: é assustador (e muito) ter outra pessoa crescendo dentro da sua barriga. É muito assustador imaginar como essa pessoa vai sair de lá, especialmente quando você é mãe de primeira viagem e não tem muita ideia de como serão as coisas e do que esperar, de fato, na hora do parto. Por mais que outras pessoas compartilhem suas experiências, só no momento do seu bebê nascer é que você vai saber como um parto funciona para você.

E esse medo vem sendo usado habilmente pela indústria da cesárea para convencer as mães de que, no seu caso, cesárea é fundamental. Indiscutível que cesáreas bem recomendadas salvam e salvaram muitas vidas. Mas acho meio impossível que, de repente, quase todas as mulheres tenham gravidezes de risco ou partos de risco. Desculpe, mas a conta não fecha.

2) O mito: Nada melhor que um bom mito para assustar definitivamente quem já estava com medo. Pois hoje a gente, coletivamente, passou a acreditar que as mulheres não têm condições de parir, que é preciso todo um preparo e um investimento em ginástica, terapias variadas, natação etc etc etc (que nem todas podem pagar) para parir um bebê por vias naturais.

Ou, se você não for masoquista a ponto de fazer questão de sofrer, e tiver grana, pode pagar pelas “maravilhas” da ciência num hospital de ponta. Garantia de cesárea.

Esse é o discurso explícito ou implícito tanto nas rodinhas de mulheres quanto na mídia ou nos consultórios de obstetras por aí. Quem pode ou paga para se preparar para o parto (como se realmente fosse preciso) ou paga para não ter de fazê-lo. E não falo só de quem opta por uma eletiva de cara, não. Falo de quem, como eu, ficou morrendo de medo a gravidez inteira e não teve coragem de bancar, de fato, o próprio parto normal.

É por tudo isso que o documentário “O Renascimento do Parto” está chegando em boa hora. Era para ter sido lançado no ano passado, não foi. Há um mês, mais ou menos, houve uma sessão especial para convidados, e o trailer está rolando pelas redes sociais e madresfera. 

Não assisti à projeção para convidados, mas o promocional me fisgou. Tem Michel Odent, por exemplo, questionando o que vai ser de uma sociedade que não produz mais o “hormônio do amor”, a ocitocina. Nunca tinha pensado nisso. Que mudanças veremos no mundo quando mulher nenhuma parir seu próprio filho?

Pra refletir –e muito.

(*) A bela imagem do gênio espanhol eu peguei daqui ó.

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a vergonha alheia e o respeito pelos sentimentos dos bebês

Sabe o que de mais importante eu tenho aprendido com meu filho? Que “nós”, os adultos, e “eles”, os bebês e crianças, não somos assim tão diferentes quanto o metro e meio de altura a mais (no nosso caso) nos faz crer.

"Mother and Child", obra da Susan Stockdale (*)

“Mother and Child”, obra da Susan Stockdale (*)

A “descoberta” começou num inocente passeio de domingo, há umas três semanas. Enzo estava correndo numa arquibancada, segurando minha mão. Mesmo assim, tropeçou e levou um tombinho bem leve. Reagiu super mal, chorou horrores, gritou, saiu correndo, não aceitou conforto, afago, palavras amigáveis, nada, nada, nada. Qualquer tentativa de aproximação, preocupação ou acolhimento era recebida com gritos, choros e palavras de ordem: “Não! Não! Não! Não!”

No meio dos protestos, ele começou a dizer que estava “bavo”, “bavo”, “bavo” e, sem querer-querendo, deu a deixa de que eu precisava para tentar um diálogo. “Bravo por que, filho?” O pequeno começou a apontar em direção às pessoas que estavam na quadra. Olhava para as crianças –com as quais estivera brincando até pouco antes do tombinho–, apontava para elas, gesticulava com a testa franzida, olhos cheios de lágrima e, em seguida, mostrava o local onde tinha caído. E recomeçava a chorar. “Bavo, bavo, bavo”.

Fiquei confusa com aquela gesticulação toda, os balbucios, o choro, a “baveza”. Demorou um pouco, confesso, mas a ficha caiu. E quando caiu, não tive dúvidas, mas perguntei: “Você ficou com vergonha, filho?”.

-Aaaaah! Gonha, gonha, gonha!

Pronto, o filho voltou a sorrir. Eu tinha entendido, finalmente, o que ele estava tentando me dizer. E aí se acalmou imediatamente, veio se sentar no meu colo e conversamos longamente sobre o tombo, a raiva (que ele traduziu como “bavo”), a vergonha. Perguntei se ele tinha ficado envergonhado por cair simplesmente ou por cair na frente das pessoas. E descobri que a frustração foi por ambas as coisas, mas mais por ser num local público, cheio de gente.

Descobri que Enzo, apesar da pouca idade, é muito exigente consigo, não gosta de errar. Pior ainda se o erro for cometido com testemunhas. Expliquei que todo mundo cai, que todo mundo já caiu. Dri e eu mostramos a ele algumas cicatrizes e sinais, contamos como e quando nos machucamos daquele jeito. E isso tranquilizou o pequeno, pelo menos em relação àquele tombo.

E –mais importante– descobri que, embora ainda um bebê, meu filho já tem noção de si mesmo, sentimentos complexos  e uma vida emocional que, em geral, gostamos de atribuir apenas aos adultos. Quando uma criança cai e chora, na maioria das vezes, nos esforçamos ao máximo para sufocar o choro, minimizar os sentimentos dela, diminuir a importância do que essa criança está sentindo. A resposta padrão é sempre “não foi nada”, ou “logo passa” ou ainda o infame “antes de casar, sara” (eu detestava ouvir isso!).

Costumamos menosprezar os sentimentos das crianças. Dizemos que, se choram “demais” porque caíram, são “manhosas”, “birrentas”, “carentes”, “querem chamar a atenção”. Não somos empáticos com elas, não nos colocamos em seus lugares, não procurarmos enxergar o mundo pelos olhos delas e aí perdemos a oportunidade de perceber que elas somos nós. Que elas sentem como nós, só que com mais intensidade (ainda não têm o arcabouço racional, fisicamente falando inclusive, que nos permite organizar emoções e lidar melhor com as questões emocionais).

Carlos González (de novo ele, eu sei, mas fazer o que se o cara é bom?) foi o primeiro que me alertou, em seu ótimo “Besame Mucho“, para esse, digamos, fenômeno. Ele sustenta, e eu concordo, que tratamos as crianças como quase-pessoas, não como pessoas propriamente. Não respeitamos –e sequer admitimos– os sentimentos delas, não imaginamos que também se envergonham, que também se irritam, que se assustam, que se frustram e que todo esse emaranhado de emoções precisa ser expressado.

Quando um filho expressa o que sente, tratamos logo de dizer que “passa” ou que aquilo é “manha” e, portanto, o melhor a fazer é ignorar.

Por que fazemos isso? “Sei lá” seria a resposta mais honesta. Mas vou chutar outras alternativas. Uma delas é que somos ignorantes mesmo. Ponto. Sabemos pouquíssimo sobre a psicologia e o desenvolvimento emocional dos bebês e das crianças muito pequenas, dito por uma das mais reputadas especialistas no assunto, a britânica Sue Gerhardt.

(((Ela é psicoterapeuta e estudiosa da neurologia de bebês e crianças ainda na primeira infância. Escreveu o altamente recomendável “Why Love Matters” (infelizmente ainda sem edição em português), que evidencia como o amor e o tratamento carinhoso e respeitoso nos primeiros três anos de vida modificam para melhor a estrutura física do cérebro.)))

Nós não sabemos porque os bebês agem como agem e tendemos, então, a avaliar suas ações pelo conhecimento que temos do mundo emocional adulto. Logo, um bebê que ignora um “não” está “testando limites” ou simplesmente testando a paciência dos pais, desafiando. Se chora por alguma coisa que não compreendemos ou que, para nós, não tem importância, então são “manhosos”, “choram para chamar a atenção”. Se ficam irritadiços “à toa”, são “mimados” ou “não tem limites”.

São poucas as vozes discordantes. Duas delas já citadas. Tanto Gonzalez quanto Gerhardt defendem que, assim como os adultos, crianças têm mau humor, dias ruins, se impacientam e estressam com coisas aparentemente banais, mas que podem ser, na verdade, “gotas d’água” em processos emocionais desgastantes que ficam alheios aos adultos. Afinal, bebês não falam ou não falam bem e –plus– entendem muito pouco do que acontece consigo mesmos para expressar com exatidão o que sentem e porque sentem.

Também dizem claramente o seguinte: suportamos adultos “dando chiliques”, sendo grosseiros, se comportando mal. Ninguém vê um adulto nervoso e diz: “ah, seu manhoso, está bravo por quê? Quer um motivo real para ficar bravo? Vem cá!”. Nosso esforço, ao contrário, é sempre no sentido de tentar: a) entender o motivo da explosão e 2) acalmar o dito cujo. Por que não fazer o mesmo com nossos filhos, tão mais frágeis, inconstantes e realmente necessitados desse tipo de apoio?

Até os especialistas mais “mainstream”, que reproduzem o senso comum e esta postura desconfiada em relação às boas intenções das crianças, como o pediatra norteamericano Harvey Karp (autor, entre outros, de “O bebê mais feliz do pedaço” e “A criança mais feliz do pedaço“), reconhecem que é preciso muito mais de empatia que de desconfiança na hora de educar filhos. Karp diz em várias passagens de seus livros que acredita que os bebês sintam de forma muito parecida com a nossa, com o agravante de que entendem ainda menos do que “a gente grande”  sobre o que estão sentindo, o que, claro, aumenta a reação.

Alguns estudiosos levantam boas hipóteses sobre o funcionamento, por assim dizer, dos bebês (lá vamos nós falar de novo do González, da Gerhardt, do Winicott). Parte deles chegou a provar teorias interessantes (caso dos citados e também de Melanie Klein, John Bowlby), mas essas teorias não repercutiram entre a maioria dos pediatras, profissionais de saúde (física e mental)  e das mães da nossa geração  (ou da geração das nossas mães).

Arrisco dizer que não repercutiram porque eram –e são– francamente contrárias (sob um ponto de vista bem limitado) ao “espírito do tempo” das nossas gerações. Quem ia querer saber de colo em tempo integral se o “bacana”, o “moderno” é mãe que tem carreira? Quem ia querer saber do prazer da amamentação se prazer mesmo a gente encontra é no shopping?

Estou exagerando na descrição só pra mostrar as contradições. Não acho que mulher não deva ter carreira (eu tenho uma e amo!), ou que não possa gastar com o que bem entender ou que seja culpada disso ou daquilo. Só usei esses exemplos pra dizer que a sociedade do consumo, que ganhou força incrível depois das duas guerras do século passado, nos fez crer em um monte de coisas, infantilizou toda uma geração, só pra vender mais. Nesse contexto, olhar o outro de frente, com maturidade e respeito, não faz sentido. Se for uma criança então, piorou. Soma-se a isso o fato de que a infância já não era mesmo muito respeitada mundo afora (a “invenção” da infância é bem recente) e pronto. O pouco de conhecimento que temos sobre a vida psíquica das crianças pequenas vem sendo ignorado de propósito há tempos.

Daí, voltando pro meu exemplo prosaico e singelo, meu filho, tão pequeno, me dá um bela de uma lição e traduz, em atos, o que esses caras todos aí de cima levaram anos estudando. Ele sente sim. “Tombinho”, pra mim, é coisa séria pra ele. E, sim, mamãe, é preciso respeitar e acolher, ajudar o pequeno a processar a vergonha, o medo, a frustração e a raiva, que são sentimentos humanos, tanto dos “grandes” quanto dos “pequenos”.

Dizem o próprio Karp e, com muito mais propriedade, a Laura Gutman (**) que somos nós, pais/mães e adultos, que precisamos nomear os sentimentos dos filhos para ajudá-los a entender o que se passa com eles e, dessa forma, aprender a lidar (um pouco melhor) com as emoções. E foi precisamente na medida em que eu nomeei a vergonha de Enzo que o sentimento passou a fazer sentido e o choro perdeu sua função primordial, a comunicação.

De lá pra cá Enzo fala muito, muito mesmo sobre sentimentos. Virou um “bavinho”, pois qualquer pequena frustração que tem, corre me contar anunciando que está “bavo”. Até faz graça com isso, é preciso dizer, e às vezes fica “bavo” de mentirinha. De todo o modo, também é preciso dizer, praticamente não faz “birra” no sentido clássico do termo e simplesmente não chora mais para expressar qualquer sentimento que tenha. Sempre fala o que está sentindo e isso resolve ou alivia o conflito, seja dele com ele mesmo seja dele com a gente (quando negamos alguma coisa, por exemplo).

Além do mais, as crises de frustração, que duravam bem mais, agora são rápidas e levam, em geral, o tempo de uma conversa. Também sinto que a ligação e a confiança mútuas aumentaram. Sei que essa confiança vai fazer a diferença no nosso relacionamento –e no relacionamento dele com outras pessoas– quando for maior e isso, por si só, já será muito.

****

(*) Susan Stockdale é uma artista norteamericana, ilustradora de livros infantis, que eu conheci fuçando no Etsy (loja virtual de arte, design e quinquilharias bonitinhas diversas). A imagem, aliás, é de lá mesmo, vá por aqui se quiser mais detalhes.

(**) Recomendo muito uma série de vídeos de uma palestra da Gutman sobre seu livro “El poder del discurso materno“. Aqui embaixo, o primeiro trecho de 7, que valem a pena.

Dá pra ir assistindo às outras partes pelo próprio navegador do You Tube (por aqui). Altamente recomendável.

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