Arquivo do mês: maio 2013

as mulheres que existem são melhores

Visitando, hoje cedo, o blog da Flavia Fiorillo –o Mamãe sabe tudo–, descobri essa história incrível aqui.

Daí que a filha de uma fotógrafa fez cinco anos. Daí que a mãe resolveu botar a cabeça para pensar em como poderia homenagear a filha aniversariante. Daí que ela se deparou com uma infinidade de meninas vestidas de barbie ou de princesas disney. Daí que ela resolveu ir pelo caminho inverso.

Escolheu cinco mulheres reais e admiráveis e fotografou a pequena caracterizada de cada uma delas. O resultado: sensacional, lindo e delicado, que você pode conferir aqui. As entrelinhas, nem tão entrelinhas assim: “deixe de lado as barbies e as princesas disney só por um momento e vamos mostrar às nossas garotas mulheres reais que elas podem ser”.

E quer saber? As mulheres reais, que todas as nossas garotas podem ser, são bem (mas bem mesmo) mais interessantes que qualquer princesa disney. Isso fica bem evidente dando só uma olhadinha nas mulheres que Jamie C. Moore, a fotógrafa-mãe, escolheu para a homenagem da filha Emma:

Susan Anthony, feminista que conquistou o direito de voto às americanas

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Coco Chanel, estilista, empresária, inventou o tailler e a calça feminina

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Amelia Earhart, aviadora e primeira mulher a atravessar o Atlântico num voo solo

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Helen Keller, romancista, pensadora e ativista; cega e surda desde criança

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Jane Goodall, primatóloga e antropóloga britânica que estuda a vida dos chimpanzés na Tanzânia há 40 anos; foi o primeiro pesquisador a descobrir que esses animais fabricam e usam ferramentas rudimentares

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Não acho que todas as escolhidas são os melhores modelos femininos ever (eu tiraria algumas, botaria outras), mas tenho certeza de que qualquer uma delas é um exemplo mais saudável para meninas e para meninos do que a princesa Aurora, a “bela adormecida”.

Oferecer esses modelos à filha pequena e, mais que isso, estimulá-la se enxergar na figura dessas mulheres admiráveis é, desculpe o clichê, o melhor presente que a menina poderia ter recebido da mãe. A ação da fotógrafa é também uma proposta de reflexão dupla para nós, mães e pais:

1) temos de nos perguntar constantemente quais são os modelos de mulheres e homens que queremos mostrar a nossos filhos.

2) é possível “pensar fora da caixa” e, mesmo em meio à superexposição de princesas e afins, transmitir outros valores aos pequenos.

O post da Flavia Fiorillo e o trabalho da Jamie C. Moore estão aí pra dar o chacoalhão inicial.

(*) As fotos são daqui, daqui, daqui, dali e dali, respectivamente.

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Arquivado em Maternidade, reflexões

“os pássaros” e a primeira resenha do blog

Prometi aqui pelo menos duas resenhas. Uma sobre “Besame Mucho” e outra sobre “A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra“. E faz tempo. Mas quis o “destino” (a.k.a a autora deste post) que eu “estreasse” resenhando um livro infantil, que me arrebatou desde que li sobre ele neste post aqui, da revista Garatujas Fantásticas (não conhece as garatujas? Corre , que é uma revista independente muy bacana e muy linda sobre o universo infantil).

Os Pássaros” é, antes de qualquer coisa, uma sucessão de imagens lindas, carregadas de força poética e lirismo. Ainda que, juntos, não contassem a história que contam, cada desenho de cada página já seria uma narrativa visual intensa, completa e hipnotizante. É difícil deixar de olhar o livro e igualmente difícil é resistir à tentação de arrancar suas páginas, enquadrá-las todas e colocá-las na parede.

divulgação/editora 34

divulgação/editora 34

Sou fascinada por imagens bonitas. E penso que, para um bebê ou uma criança que ainda não lê, a força artística de um livro é a ilustração, é nas ilustras que eles travam o primeiro contato com a arte, tanto a literatura, a narrativa em si, quanto as artes visuais propriamente. A qualidade visual é, hoje, meu primeiro critério para escolher uma obra e oferecê-la ao meu filho. E Albertine, a artista plástica suíça que desenhou lindamente “Os Pássaros”, facilitou enormemente minha escolha.

Além disso, o escritor Germano Zullo (igualmente suíço), que assina o poético texto da obra e que é responsável pela história que as imagens de Albertine contam, desenvolveu uma narrativa singela, simples, mas carregada de múltiplas nuances e diversos significados. É lírica, é forte, é profunda, mas, ao mesmo tempo, é simples e acessível às crianças de qualquer idade. Tenho a impressão de que “Os Pássaros”, por isso mesmo, é aquele tipo de livro que pode ser lido e relido muitas vezes ao longo da vida, pois vai amadurecendo junto com o leitor. A cada releitura, novas perspectivas e novos sentidos.

Já valeria a compra só por essas razões, mas melhora. Quando sentei com Enzo para ler “Os Pássaros” para ele, ontem, fiquei muito surpresa. Ele mesmo foi “adivinhando” o que aconteceria a seguir com o personagem principal, seu caminhão vermelho e o pequeno e solitário pássaro que fica para trás quando a passarada com a qual ele estava alça voo. Primeira vez que isso acontece. Enzo dialoga com seus livros, brinca com eles, cria histórias próprias para cada desenho, “alimenta” e nina os personagens, mas ainda não tinha costurado uma narrativa que fizesse sentido para a obra toda, como fez dessa vez.

Ficou tão envolvido pelas figuras pintadas com guache, em cores vivas e primárias, que até deu nome ao motorista e ao passarinho: Joaquim e Pêto.

divulgação/editora 34

divulgação/editora 34

Para mim, que já havia aprovado “Os Pássaros” desde a resenha da Garatujas e que fiquei ainda mais arrebata quando o vi ao vivo (tanto que trouxe na mesma hora), o prazer e a interação do Enzo com a obra foi o que animou meu dia. Germano Zullo e Albertine fizeram uma mãe duplamente feliz. E alegraram o coração e a imaginação de mais um menininho.

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Serviço:

“Os Pássaros”, de Germano Zullo e Albertine

72 páginas

Editora 34

1ª impressão 2013

R$ 39

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Arquivado em artes, literatura infantojuvenil

por que a gente é assim?

Cazuza já se perguntava, com sua vozinha rouca, a língua presa, sua poesia e aquele seu rock and roll bem brasileiro, bem anos 80,  “por que a gente é assim“? Claro que ele não se referia às mães, pelo contrário, mas eu me concedo a licença poética de aplicar essa pergunta à minha categoria também. Por que, afinal, nós, mães, somos assim?

Assim como? Assim boêmias, geniais e desencanadinhas como o Cazuza? Não! Assim culpadas! É a moral judaico-cristã? É a síndrome de Eva (a coitada que só queria um pedaço de maçã e acabou sendo acusada de jogar a humanidade na merda)? É alguma mudança hormonal que acontece depois do parto? É um microchip que os filhos instalam na cabeça da gente quando nascem? São os pitacos? É a mudança climática? É um avião? É o super-homem?

O fato inconteste é um só, embora eu desconheça os porquês (ou esteja com preguiça de investigar a fundo): nasce um filho, nasce uma mãe, nasce a culpa permanente.

Filho comeu demais? Culpa! Filho não comeu? Culpa! Filho passou frio? Culpa! Filho passou calor? Culpa! Mãe deu antibiótico? Culpa! Não deu remédio nenhum e tentou uma saída hipponga? Culpa! Mãe foi beber com o marido e uns amigos e deixou filho com a sogra? Culpa! Mãe não foi beber e ficou puta da vida? Culpa! Mãe comeu pipoca de micro-ondas escondida do filho? Culpa! Mãe deixou filho ver a pipoca e não deu? Culpa! Mãe deu uma pipoquinha só pro moleque experimentar? Culpa! Mãe colocou Balão Mágico pra cria ouvir, e o bebê amou? Culpa! (ok, essa aqui não tem desculpar mesmo, hein, mãe?).

E daí que eu sempre achei que não sentia assim tanta culpa. Conheço mães bem piores do que eu nesse quesito. Costumo lidar bem com os ataques da danada, quando ela vem, de modo que me achava assim meio imune à maldição da mãe-sinônimo-de-culpa.

Mas eis que ontem fiz uma coisa. Fiz uma coisa que deixou claro que minha vacina não funciona tão bem quanto eu imaginava. Acompanhe: não sou nem nunca fui o estereótipo da mulher vaidosa. Não tenho paciência para comprar roupa. Não uso maquiagem (só rímel e, quando estou inspirada, mas inspirada mesmo, um gloss incolor). Não curto nem uso salto alto. Gosto de estar confortável, o que geralmente me leva a vestir calça jeans, tênis e camiseta. Não encho a cara de corretivos. Não vou à manicure/cabeleireiro toda a semana e, francamente, acho salão um saco. Não sei até hoje pra que serve um iluminador. Não aliso o cabelo. Não tenho chapinha. Não tenho a menor ideia de quantas calorias tem um pedaço de pizza, um copo de cerveja, uma taça de vinho ou uma banana.

Sou vaidosa do meu jeito. E daí que aplico meu dinheiro e minha (pouca) paciência com “rituais de beleza” em hidratantes (tenho pele seca) e bons shampoos. Desde uns 20 e poucos, comecei a usar cremes anti-idade. Nenhuma neura com envelhecimento, pelo contrário. Adoro o visual “beleza real”, sabe? Gosto muito de gente que assume as rugas, os cabelos brancos, os sulcos e as papadas embaixo dos olhos. Admiro o visual da Maria Bethânia, sem firulas para parecer o que não é. Mas o envelhecimento tem que acontecer no tempo certo. É  uma questão de saúde, de pele saudável e de corpo saudável. Radicais livres também causam doenças. De modo que uso cremes de verdade (não cosméticos) e me alimento bem pra ter pele boa, sim, mas pra ter, antes de qualquer coisa, pele saudável, órgãos saudáveis.

Acontece que, com a gravidez, precisei suspender o uso de certos produtos. Mantive a suspensão durante a amamentação. E fui mantendo, mesmo sem precisar, por falta de vontade de pensar nisso, por falta de tempo, por preguiça e porque passar creme todos os dias é chato, bem chato. Como mantive a alimentação equilibrada, estava de bom tamanho.

Daí, esses dias, senti vontade de voltar à rotina de hidratação. Comparei preços e opções, tirei dúvidas com mocinhas simpáticas em algumas lojas, pesquisei composições na internet, chequei bem o saldo da conta corrente e, ontem, fui às compras. Tudo muito rápido, já sabia o que queria. Escolhi, paguei, levei, fiquei feliz. Bem feliz.

Isso até eu passar em frente a uma loja de brinquedos educativos. Isso até eu passar em frente à dita cuja da loja e ver, na vitrine, o cavalinho de madeira que quero dar pro Enzo. Isso até eu ver quanto custa o cavalinho. Isso até eu constatar que a p&#@%# do cavalinho custa um terço (isso mesmo, eu disse UM TERÇO) do que eu gastei em cremes sem nem lembrar que cavalos existem.

Daí, claro, foi uma reação em cadeia de contas, comparações, frações e proporções. O DVD que ensaio comprar pro Enzo faz uns meses (e pro qual nunca tenho dinheiro) custa menos que o sabonete líquido para o rosto, o mais barato dos produtos que comprei ontem. Já tem uns bons meses que não compro um livro novo pro pequeno (e ele adora livros). Quis comprar uma jaqueta lindona pra ele no domingo, mas desisti porque achei cara. Bom, a jaqueta custava menos que o creme para a área dos olhos.

Onde foi parar a minha racionalidade, meodeos? Cadê prioridade? Cadê meu senso de proporção? E como é que eu fui gastar TANTO com cremes quando sou tão econômica justamente com… o filho?

Desnecessário dizer que culpa virou meu segundo nome, né? Quis devolver os produtos. Quis pedir desculpas para o filho. Quis compensar, entrar na loja de brinquedos e comprar o cavalo, uma égua, um elefante, uma girafa, um xilofone, uma barraca, duas bonecas de pano, uma caixa de giz de cera, todo o estoque de aquarela, por favor. Quis doar os produtos para minha mãe, para uma amiga, para as Casas André Luiz.

Me olhei bem no espelho (mesmo sem ter espelho de fato na frente) e vi uma pessoa egoísta, vi uma pessoa que, diante de meia dúzia de melecas importadas pra passar na cara e, supostamente, tratar da pele, esqueceu a lista de coisas bacanas que poderia -e queria- fazer com o filho. Vi uma pessoa que, momentaneamente, ali naquela farmácia, comprando cremes, esqueceu que também era mãe. E esquecer disso, ainda que por apenas alguns segundos, é algo que não passa assim, despercebido, pelo radar da culpa materna.

Piiii, soou o alarme.

Chacoalhei a cabeça negativamente algumas vezes, reprovando minha atitude. E segui pra casa inconsolável, desgostosa, arrependida. Dez a zero pra culpa. Vitória por finalização.

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