por que a gente é assim?

Cazuza já se perguntava, com sua vozinha rouca, a língua presa, sua poesia e aquele seu rock and roll bem brasileiro, bem anos 80,  “por que a gente é assim“? Claro que ele não se referia às mães, pelo contrário, mas eu me concedo a licença poética de aplicar essa pergunta à minha categoria também. Por que, afinal, nós, mães, somos assim?

Assim como? Assim boêmias, geniais e desencanadinhas como o Cazuza? Não! Assim culpadas! É a moral judaico-cristã? É a síndrome de Eva (a coitada que só queria um pedaço de maçã e acabou sendo acusada de jogar a humanidade na merda)? É alguma mudança hormonal que acontece depois do parto? É um microchip que os filhos instalam na cabeça da gente quando nascem? São os pitacos? É a mudança climática? É um avião? É o super-homem?

O fato inconteste é um só, embora eu desconheça os porquês (ou esteja com preguiça de investigar a fundo): nasce um filho, nasce uma mãe, nasce a culpa permanente.

Filho comeu demais? Culpa! Filho não comeu? Culpa! Filho passou frio? Culpa! Filho passou calor? Culpa! Mãe deu antibiótico? Culpa! Não deu remédio nenhum e tentou uma saída hipponga? Culpa! Mãe foi beber com o marido e uns amigos e deixou filho com a sogra? Culpa! Mãe não foi beber e ficou puta da vida? Culpa! Mãe comeu pipoca de micro-ondas escondida do filho? Culpa! Mãe deixou filho ver a pipoca e não deu? Culpa! Mãe deu uma pipoquinha só pro moleque experimentar? Culpa! Mãe colocou Balão Mágico pra cria ouvir, e o bebê amou? Culpa! (ok, essa aqui não tem desculpar mesmo, hein, mãe?).

E daí que eu sempre achei que não sentia assim tanta culpa. Conheço mães bem piores do que eu nesse quesito. Costumo lidar bem com os ataques da danada, quando ela vem, de modo que me achava assim meio imune à maldição da mãe-sinônimo-de-culpa.

Mas eis que ontem fiz uma coisa. Fiz uma coisa que deixou claro que minha vacina não funciona tão bem quanto eu imaginava. Acompanhe: não sou nem nunca fui o estereótipo da mulher vaidosa. Não tenho paciência para comprar roupa. Não uso maquiagem (só rímel e, quando estou inspirada, mas inspirada mesmo, um gloss incolor). Não curto nem uso salto alto. Gosto de estar confortável, o que geralmente me leva a vestir calça jeans, tênis e camiseta. Não encho a cara de corretivos. Não vou à manicure/cabeleireiro toda a semana e, francamente, acho salão um saco. Não sei até hoje pra que serve um iluminador. Não aliso o cabelo. Não tenho chapinha. Não tenho a menor ideia de quantas calorias tem um pedaço de pizza, um copo de cerveja, uma taça de vinho ou uma banana.

Sou vaidosa do meu jeito. E daí que aplico meu dinheiro e minha (pouca) paciência com “rituais de beleza” em hidratantes (tenho pele seca) e bons shampoos. Desde uns 20 e poucos, comecei a usar cremes anti-idade. Nenhuma neura com envelhecimento, pelo contrário. Adoro o visual “beleza real”, sabe? Gosto muito de gente que assume as rugas, os cabelos brancos, os sulcos e as papadas embaixo dos olhos. Admiro o visual da Maria Bethânia, sem firulas para parecer o que não é. Mas o envelhecimento tem que acontecer no tempo certo. É  uma questão de saúde, de pele saudável e de corpo saudável. Radicais livres também causam doenças. De modo que uso cremes de verdade (não cosméticos) e me alimento bem pra ter pele boa, sim, mas pra ter, antes de qualquer coisa, pele saudável, órgãos saudáveis.

Acontece que, com a gravidez, precisei suspender o uso de certos produtos. Mantive a suspensão durante a amamentação. E fui mantendo, mesmo sem precisar, por falta de vontade de pensar nisso, por falta de tempo, por preguiça e porque passar creme todos os dias é chato, bem chato. Como mantive a alimentação equilibrada, estava de bom tamanho.

Daí, esses dias, senti vontade de voltar à rotina de hidratação. Comparei preços e opções, tirei dúvidas com mocinhas simpáticas em algumas lojas, pesquisei composições na internet, chequei bem o saldo da conta corrente e, ontem, fui às compras. Tudo muito rápido, já sabia o que queria. Escolhi, paguei, levei, fiquei feliz. Bem feliz.

Isso até eu passar em frente a uma loja de brinquedos educativos. Isso até eu passar em frente à dita cuja da loja e ver, na vitrine, o cavalinho de madeira que quero dar pro Enzo. Isso até eu ver quanto custa o cavalinho. Isso até eu constatar que a p&#@%# do cavalinho custa um terço (isso mesmo, eu disse UM TERÇO) do que eu gastei em cremes sem nem lembrar que cavalos existem.

Daí, claro, foi uma reação em cadeia de contas, comparações, frações e proporções. O DVD que ensaio comprar pro Enzo faz uns meses (e pro qual nunca tenho dinheiro) custa menos que o sabonete líquido para o rosto, o mais barato dos produtos que comprei ontem. Já tem uns bons meses que não compro um livro novo pro pequeno (e ele adora livros). Quis comprar uma jaqueta lindona pra ele no domingo, mas desisti porque achei cara. Bom, a jaqueta custava menos que o creme para a área dos olhos.

Onde foi parar a minha racionalidade, meodeos? Cadê prioridade? Cadê meu senso de proporção? E como é que eu fui gastar TANTO com cremes quando sou tão econômica justamente com… o filho?

Desnecessário dizer que culpa virou meu segundo nome, né? Quis devolver os produtos. Quis pedir desculpas para o filho. Quis compensar, entrar na loja de brinquedos e comprar o cavalo, uma égua, um elefante, uma girafa, um xilofone, uma barraca, duas bonecas de pano, uma caixa de giz de cera, todo o estoque de aquarela, por favor. Quis doar os produtos para minha mãe, para uma amiga, para as Casas André Luiz.

Me olhei bem no espelho (mesmo sem ter espelho de fato na frente) e vi uma pessoa egoísta, vi uma pessoa que, diante de meia dúzia de melecas importadas pra passar na cara e, supostamente, tratar da pele, esqueceu a lista de coisas bacanas que poderia -e queria- fazer com o filho. Vi uma pessoa que, momentaneamente, ali naquela farmácia, comprando cremes, esqueceu que também era mãe. E esquecer disso, ainda que por apenas alguns segundos, é algo que não passa assim, despercebido, pelo radar da culpa materna.

Piiii, soou o alarme.

Chacoalhei a cabeça negativamente algumas vezes, reprovando minha atitude. E segui pra casa inconsolável, desgostosa, arrependida. Dez a zero pra culpa. Vitória por finalização.

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2 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões

2 Respostas para “por que a gente é assim?

  1. Adriano

    “Vitória por finalização”…. ahahaha
    Vc está vendo muito UFC comigo!!! rsrsrs
    Você não É SÓ mãe…. você TAMBÉM É mãe….
    Tem e deve ter sua vida, seus gostos e vontades. E deve satisfaze-los.
    Filho nenhum pode te tirar isso.
    Se você não estiver bem com você, que mãe vai estar bem com ele?
    E mais, o Enzo não é relegado.
    Se culpe menos e relaxe mais….
    Se não, a vida passa e “nóis” fica.

  2. ahah ahah ahah ahah
    adorei você comentando por aqui.
    sabia que iria gostar da menção ao UFC 😉
    adorei seu comentário também. acho que as mães precisamos aprender a raciocinar desse jeito. Onde ensina, Dri?

    bjos, amo você!

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