uma cama para cinco

Daí que filho está gripado. Daí que o pequeno ainda não sabe ao certo como funciona esse treco complexo que os adultos chamamos “assoar o nariz”. Daí que o problema não é apenas ter de respirar pela boca na maior parte do tempo. Mais complicado é que o catarro não expelido adequadamente se assenta na garganta e gera tosses, muitas tosses.

Daí que essas crises de tosses, às vezes, vêm fortes, bravas, irrompem sem aviso prévio e só param quando Enzo vomita. Vomita de tanto tossir. Daí que, para dormir à noite, fica um tanto mais complicado. Enzo acorda diversas vezes por causa das tosses e os pais mal dormem preocupados com o pequeno. Solução: pai sugere trazer o filho pra cama do casal, já ocupada pelos dois e pela gata (*). Mãe topa e, com o a chegada da criança e do Pimpão (o urso de pelúcia), os cinco se espremem para caber no (pequeno) espaço que lhes compete embaixo do edredom.

Enzo já dormiu na nossa cama antes, claro. Mas nunca desde o início da noite. As vezes em que o bebê divide o colchão com a gente acontecem no finzinho da madrugada, começo da manhã, quando ele acorda me chamando. Em geral, eu costumava levantar e niná-lo até dormir. Depois, berço de novo. Acontece que ele pesa, hoje, 14 kilos e é filho de uma mulher que teve escoliose na infância. Não posso com peso e estava sendo muito, mas muito difícil ninar Enzo por 20, 30 ou até 40 minutos. Foi aí que, coisa de uns dois meses atrás, Dri teve um bela conversa com nosso filho numa dessas madrugadas em que ele queria passar tempo no meu colo antes de dormir de novo. Propôs dormirmos juntos na cama e, daí em diante, eu nem levanto mais para pegá-lo. Dri vai lá e traz Enzo pra deitar do meu lado. Coluna agradeceu horrores.

Mas foi a gripe, por essas vias meio tortas, que botou o pequeno entre a gente desde o comecinho da noite, oficialmente, não como um arremedo de madrugada, mas como o lugar certo para se dormir desde que se deita. E quer saber? Adoramos. Porque é muito bom dormir apertadinho com quem se ama, ué. Porque é divertido. Porque dá uma sensação de aconchego e acolhimento sem igual. Porque sentir filho botando a mãozinha no seu rosto pra ver se você está mesmo ali é de uma ternura difícil de descrever. Porque numa dessas noites, acordei (eu também estou gripada, o que dificulta dormir bem) e vi Enzo enroladinho no papai, cabecinha no ombro, agarrado ao braço do Dri, coisa mais linda. Porque é gostoso e ponto final.

Adotamos a cama compartilhada de vez? Não. Mas mais por causa do Enzo do que nossa. Na terceira noite dormindo com a gente, ele mesmo pediu pra voltar para o berço, creia. Não se acostumou muito com a confusão de gente se virando para lá e para cá a toda hora. E ele é bem espaçoso para dormir, gosta de ficar atravessado, braços e pernas abertas, o que fica meio impossível quando se bota dois adultos, um menino, uma gata e um urso de pelúcia em apenas 1,3o metro de largura.

Mas, depois dessas experiências, me arrependo horrores de não ter compartilhado cama com o pequeno desde sempre. Se tiver um segundo filho, certeza que farei diferente. É como aconteceu com uma amiga minha: primeiro filho, seguiu à risca as indicações e “conselhos” dos “especialistas” de sempre, esses que aparecem em todas as revistas, sites e livros de maternidade. Botou o bebê para dormir em quarto separado logo que voltaram da maternidade. Com a segundinha, o oposto. Botou marido pra dormir com o mais velho e levou a nenê pra cama de casal. Resultado: noites melhores dormidas para todos os envolvidos, amamentação exclusiva sem a menor dificuldade (primogênito complementou), livre-demanda, bebéia tranquila, apegadinha, mas bem mais independente que o irmão mais velho na mesma idade.

Quando Enzo nasceu, eu era ainda mais ignorante sobre a bebezice do que sou hoje. Já tinha descoberto alguns blogs maternos, mas, apesar de interessada em várias ideias novas apresentadas por aqui, o desconhecimento e a insegurança me faziam pender um pouco  mais para o lado “mainstream” da maternidade, aquele que sai mensalmente na “Crescer” e na “Pais & Filhos”, aquele representado lindamente (só que não) na TV pela “Supernanny” e suas ideias autoritárias, desrespeitosas e inócuas de disciplina.

Eu era tão carente de conhecimento e de amadurecimento que projetava um ideal de maternidade –que espelhava, claro, minhas necessidades infantis de ser “perfeita” e “ganhar uma estrelinha no caderno” da sociedade, da família, dos amigos no final do ano–  no qual eu seria melhor mãe tanto mais quieto, educado e obediente fosse meu filho. Quanto mais Enzo se parece com uma boneca, tanto melhor mãe eu seria.

Daí que, para isso, nada “melhor” que meter as caras nesses livretinhos de auto-ajuda materna aos montes por aí e ouvir os “conselhos” da pitaqueirada de plantão de sempre (o que inclui familiares de todos os graus, médicos, estranhos e até enfermeiras da maternidade. Porque qualquer um, qualquer um mesmo, sempre se sente no direito de te dizer como educar seu filho. Para mim, essa é, sem dúvida, a coisa mais irritante da maternidade). E eu acabei fazendo um pouco isso no começo mesmo.

E os conselhos em geral diziam (e dizem) o seguinte, basicamente (vou exagerar, mas é bem pouco): 1) Filho bom é filho absolutamente submisso e treinadinho pra só chorar quando tiver fome; 2) Mãe que é mãe tem mais o que fazer na vida do que dar peito, dar colo, dar atenção, dar amor etc. Então bote logo esse nenê no lugar dele, que é naturalmente o carrinho, o berço, outro quarto (quanto mais longe do seu, melhor); 3) A vida é dura aí fora, portanto, nada de tratar esse nenê como se ele fosse…er… um… nenê. Ele tem que aprender a se virar, né não? 4) Jamais, em hipótese alguma, coloque seu filho no mesmo quarto que vocês. Isso dá em divórcio por falta de sexo (porque, né?, só é permitido transar na cama e à noite. Se o bebê estiver lá…) e porque o seu marido vai sentir ciúme do filho (lógico, todo homem tem o desenvolvimento emocional de uma criança de quatro anos e vai rivalizar com a própria cria). Além do mais: cama compartilhada gera dependência (bebê tem que nascer adulto já, minha gente!). Pode até ser agradável, delícia mesmo, mas, mãezinha, agora que você tem um filho, tem deixar de lado essas coisinhas à toa, sabe? Maternidade não é gostoso, maternidade é padecer no paraíso, mãezinha, lembra? Maternidade é disciplina. É ensinar seu filho a lidar com esse mundo cruel. Não seja boazinha com ele, não facilite a vida desse bebê, não acostume essa criança no colo, não crie um filhinho-de-mamãe. Supernanny nele! Cantinho do pensamento nele! Deixe chorar no escurinho do quarto, sozinho, no berço, até dormir!

Não comprei toda essa baboseira aí de cima, mas uma parte, infelizmente, sim. Eu achava mesmo que seria uma boa mãe se disciplinasse meu filho desde pitiquinho, se ele “aprendesse” a dormir sozinho desde sempre, se tivesse horários rígidos e mamadas de três em três horas.

Sorte nossa é que mãe tem instinto. Forte. Imperativo. Acho que foi isso que me fez começar a dar mais ouvidos às outras mães da madresfera que aos especialistas de sempre. Foi isso que me fez decidir por botar Enzo dormindo no nosso quarto desde que chegamos do hospital. Não na nossa cama (que pena!), porque eu tinha medo de machucá-lo. Mas no quarto. Ficou dormindo com a gente por quase um ano. E foi ótimo. Mas teria sido ainda melhor se fosse na cama. Calor humano, sabe? E era isso que eu queria, que nosso instinto –o meu e o dele– pedia. Frustramos um desejo bem genuíno. Lamento. E lamento ainda mais agora, que experimentei de fato. Putz, é bom, é o “certo”. Não o certo universal que não acredito nisso. Mas o certo pra mim, entende? Eu já tinha virado, depois de tudo que aprendi na madresfera com tantas mães maravilhosas que encontrei por aqui –e também com González, com Gutman, com Gerhardt, com Odent, com Uplinger–, uma entusiasta teórica da cama compartilhada. Agora, apesar da pouca experiência, virei uma entusiasta prática.

Hoje mesmo, Enzo veio pra nossa cama às 5h45 da matina. E apesar de só ter voltado a dormir às 7h50, foi bom, foi ótimo, foi gostoso, foi natural. Hoje, e cada vez mais, acho mesmo que o lugar das crianças pequenas é com os pais. Fisicamente com os pais. No colo, na cama, grudadinho no sofá. Contato, calor, pele-com-pele, carinho, toque delicado. Isso diz muito, muito mais que qualquer  “eu te amo”.

Fica cada vez mais fica evidente pra mim, como já dizia Montessori há duzentos anos, que as crianças são naturalmente impulsionadas para a independência. É natural, a gente não precisa fazer nada, só estar ali do lado, dando condições para que os filhos deem os próprios passos quando for a hora. E esse é o ponto: quando for a hora. Quando o filho está pronto, ele se vira sozinho sem precisar ser “ensinado”. Ninguém precisa ensinar bebê a dormir sozinho. Se ele ainda não faz isso, é porque precisa de colo, ué! Porque isso é o natural para ele naquele momento de seu desenvolvimento. Não se precisa treinar uma criança a usar o penico. Quando ela estiver pronta, vai partir dela a iniciativa para o desfralde. Não precisa tirar filho da cama dos pais. Quando ele estiver pronto, ele vai pro quarto dele sozinho, como fez Enzo e como fez a Clara, filha da Lígia Moreira Sena, aos 3 anos.

Então fica aqui meu relato e minha sugestão: se você tem vontade de oferecer cama aos filhos, vai fundo. Porque pode dar muito certo. E porque é bom, bom demais. Aqui tem um post muito bom e muito completo sobre cama compartilhada, com um viés científico, escrito pela Lígia e pela Andrea Mortensen, duas cientistas que pesquisam o tema há tempos. Super recomendo.

(*) Pela verdade dos fatos: a cama é da gata desde sempre. Ela é quem chega primeiro, se espalha e, depois, permite que Dri e eu deitemos no canto que sobra. Não sei se ela tem curtido muito a ideia de dividir seu espaço com Enzo e Pimpão, mas até agora ainda não reclamou…

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2 Comentários

Arquivado em Maternidade, parentagem por apego, paternidade, reflexões

2 Respostas para “uma cama para cinco

  1. Nine

    Mesma coisa aqui…com a Ísis eu meio que já tinha lido alguns blogs legais, mas ainda estava muito insegura nos primeiros 6 meses…a insegurança melhorou um pouco mas foi só lá pelos 18 meses dela que eu finquei pé em muitas decisões, que iniciaram com a saúda dela da creche. Com Pedro não cometo os mesmos erros e aqui rolou cama compartilhada desde o início. Esta semana ele voltou para o quarto da irmã, numa tentativa de fazê-lo dormir lá, mas ele não quis…resultado, volta para nosso quarto com berço e tudo (a primeira metade da noite ele dorme no berço, a segunda dorme conosco, mas quando era menor já começava a dormir ali mesmo).
    Beijos!
    Nine

  2. Ana

    Minha mais nova ficou no meu quarto até uns 6 meses, quando mudei o berço dela pro quarto da irmã. As duas já dormiram várias vezes na nossa cama também, principalmente quando ficam doentinhas, com febre, mas algumas vezes só por chamego também. Eu durmo mal quando tem criança na minha cama, confesso. Ainda mais que as duas são super espaçosas. Mas não encrenco. É gostoso sim, e a gente sabe que eles não vão querer dormir na nossa cama pra sempre, né?

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