sem ajuda

Já faz mais de um mês que estamos sem ajuda nenhuma aqui em casa. Até dezembro, vinham minha mãe e minha sogra para dar uma força com o pequeno, de modo que eu pudesse continuar a trabalhar. Ambas quiseram parar no final do ano passado, e Dri e eu começamos a buscar outras alternativas para o Enzo, como escolinha e babá (relatos aqui, ali e acolá).

Chegamos a matriculá-lo numa escola. Ele frequentou três dias, e eu desisti. Estou devendo um post sobre isso, mas ainda não tive tempo para escrever com o cuidado e as informações que merece. A sogra acompanhou de perto a tentativa de escolarização e me apoiou quando eu disse que não manteria o pequeno por lá. Ofereceu ficar mais um tempo, o que foi ótimo, e eis que o tempo acabou no comecinho de junho.

Dessa vez, mais coerente com o que eu sinto, com o que penso, com o que desejo para o Enzo e com o que sei que meu filho quer e precisa, sequer perdi tempo procurando alternativas. A alternativa soy yo! Decidi ficar com ele sem ajuda nenhuma e ponto. Parei de trabalhar? Não! Estou sambando miudinho? Estou! Estou cansada com a rotina dupla? Não! Coração está livre, leve, feliz e aliviado? Sim! Está sendo divertido? Muito! Em muitos sentidos. Planejei um post teórico-filosófico para dividir os nossos motivos para bancar esse arranjo, porém, vou deixar a parte chata pra depois. Começo só contando um pouco sobre como está nossa nova rotina.

  • As horas avançam em velocidade diferente por aqui. Estou quase achando que operamos um fuso-horário próprio, que não condiz com o do restante do mundo. Porque Enzo tem almoçado às 15h! Porque tem dias (e são vários) em que acorda às 11h! Isso mesmo levando em conta que eu havia decidido –e tenho me esforçado um bocado nesse sentido– ajeitar nossa rotina inclusive em relação –advinha?– aos horários. Não sei explicar ainda o que acontece, mas eu pisco e já é meio-dia; pisco de novo e são três da tarde; se piscar outra vez marido já está em casa e o pequeno nem tomou banho. Vou parar de piscar. Será que ajuda?
  • Todos os dias saímos pela manhã. Frequentemente perco a hora de voltar para dar almoço. Enzo não dorme mais à tarde.
  • Ainda não sei bem como resolver a alimentação do Enzo.  Minha mãe estava cozinhando para a gente uma vez por semana para congelarmos os pratos. Acontece que o horário dela no trabalho mudou e, para facilitar, ela voltou a estudar à noite. Não tem mais conseguido ajudar com isso. Por enquanto, estamos fazendo as coisas triviais e que praticamente se cozinham sozinhas, tipo arroz e carne moída, pois ainda há comida congelada. Tem funcionado bem também comprar peitos de frango, temperar e congelar. Na hora do sufoco, é só descongelar e grelhar. Outra: cozinho brócolis, couve-flor, espinafre e congelo. Depois, ao longo da semana, é rápido e fácil simplesmente dourar na manteiga ou no azeite. Mas a comida ainda é uma incógnita. Ainda não tive de cozinhar propriamente, não sei como vou encaixar isso nas tarefas diárias.
  • Não foram nem uma nem duas vezes em que eu terminei o dia tendo derrubado diversas coisas no chão, de sopa pela cozinha toda até leite na sala e restos de comida no quarto. Sou bem mais desastrada do que imaginei. Vocação zero para manter tudo arrumado, organizado, no lugar.
  • Descobri que é ótimo só limpar a casa quando realmente der vontade. Tenho feito assim aqui. E tudo está mais limpo do que antes, porque dá mais vontade do que eu achei que daria e porque o filho adora “me ajudar” na limpeza. Ele tem um rodinho e uma vassourinha de brinquedo e se diverte muito “varrendo” comigo. Já organizamos até o quarto dele e o meu guarda-roupas juntos, coisa que eu jurava ser impossível de fazer com ele acordado. Claro que isso vale pra mim, que nunca liguei muito pra limpeza de casa. Tem gente que precisa que tudo esteja limpíssimo e organizadíssimo. Aí esse meu exemplo não vale. Mas, no meu caso, simplesmente priorizo estar com Enzo, como já contei aqui. Sobre esse tema em especial, recomendo também esse post aqui, da Anne Rammi.
  • Arrumar a cama, coisa rápida normalmente, tem levado mais de meia hora. Porque Enzo adora “umar” comigo, é fã de “niguizar” as coisas, de modo que não rola simplesmente esticar os lençois com ele olhando. O moço quer participar. É preciso brincar com o filho antes, durante e, não raras vezes, depois. E daí começar tudo de novo. Ou desistir e deixar desarrumado mesmo, minha opção predileta.
  • Às 18h estou tão exausta, mas tão exausta, que já cochilei diversas vezes no sofá nesse horário, enquanto Enzo brincava na sala.
  • Tenho usado muito o celular para responder e-mails, ler textos, pesquisar na internet, ler notícias. É mais prático que ligar o note e não chama tanto a atenção do pequeno. Dá pra adiantar um pouco o trabalho dessa forma. Também tenho lido livros pelo aparelhinho. Sim, senhores, estou lendo muito no celular. Baixei quatro leitores diferentes, comprei alguns e-books que me interessavam e estou testando. Facilita muito a vida, é verdade. De outro modo, não teria lido três livros em um mês. Mas as obras de que estou gostando vou comprar impressas. Ainda sou do tipo que só consegue chamar de livro o objeto de papel em si. Adoro o cheiro, adoro pegar, adoro o formato, adoro ver as capas, a diagramação, a arte. De todo o modo,o celular funciona horrores para aquelas horas em que você está perto do filho, mas ele não demanda de fato sua participação (e também não te deixa trabalhar).
  • Eu só estou conseguindo mesmo trabalhar à noite, o que significa que meu expediente começa depois das 20h30, 21h, quando marido já chegou, se instalou e pode assumir de vez o pequeno. Mesmo assim, arrisquei fazer algumas entrevistas ao londo do dia, porque não tem como falar com fonte de madrugada. Deu tudo certo, mas foi difícil, bem difícil. O que ajudou: colocar o microfone do telefone no “mute”. Assim, eu ouço o entrevistado, mas ele é poupado de saber que meu filho pequeno está chorando loucamente, pedindo que eu desligue (“dá tchau pa ele, mamãe!”). E eu também me poupo do constrangimento (dá vergonha, embora não devesse dar. Mas isso é assunto pra outra conversa).
  • Não tive problemas com prazo, pelo contrário, estou entregando antes da hora. Mas isso se deve ao fato de eu ter apurado as duas matérias que estou tocando antes da sogra parar de vir. Ou seja, com poucas exceções, o que sobrou para fazer nesses textos foram algumas entrevistas e escrever propriamente. Mesmo assim, demorei bem mais do demoraria para bater os textos.

Estou tateando aqui e ali ainda, é verdade. E está sendo bem complicado cumprir a agenda. Mas esse arranjo é bem mais coerente com a mulher que eu sou, com a mãe que eu sou, com os valores nos quais eu acredito que simplesmente botar Enzo na escolinha. Eu ouço o Carlos González, eu ouço a Ana Thomaz, eu leio a Montessori e eu não consigo achar uma única razão para escolarizar meu filho pequeno que não seja a minha conveniência.

Eles todos –e toda a minha convicção– gritam que não, não é bom escolarizar bebês. “A escola infantil não é necessária para as crianças”, diz o Gonzalez, neste vídeo. E não é mesmo. Ensinar coisas a gente também pode ensinar em casa (dá uma olhada nas ideias ótimas da Dayane, do Mama Mia!). Enzo conta até 20, sabe todas as cores, formas geométricas como quadrado, triângulo e até hexágono. Reconhece todas as letras do alfabeto. Nunca foi pra escolinha.

Mas isso nem é o mais importante. Não pressiono pra ele saber mais e mais coisas. Ele sabe o que sabe porque se interessa genuinamente e a gente só vai dando a ele o que pede. Ao contrário, é justamente também pra fugir dessa loucura por saber cada vez mais cedo, por aprender cada vez mais cedo que quero o pequeno em casa. Não temos pressa. Quero que as coisas aconteçam a seu tempo, não preciso de um filho gênio nem de um filho “carreirista”, desses treinados pra passar em vestibular e em processos de seleção de trainee de multinacional desde sempre (na busca por escolinhas, no ano passado, encontrei uma que tinha apostilas do Anglo pra bebês de 1 ano e meio! Cataploft! Caí pra trás! Não podia imaginar que a sandice chegasse a isso, juro!).

Crianças de até três anos não precisam “socializar”, pelo contrário. Precisam de cuidado e atenção exclusivos. Estão na fase do “tudo é meu”, do começo da noção do “eu” como algo separado do “outro”. Não gostam da companhia de outros bebês. porque isso nem lhes serve de alguma coisa ainda.

Há quem diga o contrário? Há. E eu já li esses caras também. Mas não me convenceram.

Daí que essa mãe que eu sou hoje acredita em bebê em casa, nessas coisas que diz o González. E essa mãe, que acredita nessas coisas, não pode simplesmente pegar o filho pela mãe e estacionar numa escolinha, compreende? Daí que, apesar e por causa dessas coisas todas que eu contei aí em cima, estou muito feliz, muito mais do que estava há pouco, quando a rotina era mais leve, mas pairava sobre a cabeça a nuvem da dúvida, da pergunta “o que vou fazer quando a sogra não vier mais”? O que vou fazer? Nada. E tudo. Tudo o que importa.

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3 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões

3 Respostas para “sem ajuda

  1. Eu trabalho em casa e sou muito feliz com isso. A rotina é uma loucura, durmo pouco, trabalho no final de semana, mantenho a casa em ordem, faço mil coisas ao mesmo tempo. Mas não trocaria essa loucura por nada. Ter o meu pequeno sob os meus cuidados não tem preço. Também não quero colocar o Davi no colégio antes dos 3 anos. Ele fica tão bem com a gente que não quero cortar esse laço cedo.

    No entanto, com o volume de trabalho que tenho, seria impossível ficar sozinha de vez. Você não cogita colocar alguém uma vez por semana para pelo menos organizar tudo e preparar a comida da semana? Talvez seja um investimento…

    boa sorte!
    bjs!

  2. oi, Camilla,

    eu idem. a rotina é mesmo muito extenuante, mas compensa horrores. e é isso que você disse, eles ficam tão bem e tão melhores com a gente… nada justifica botar na escolinha. como diz o González, quando tiverem uns 4 anos, vão pra escolinha felizes da vida. antes disso, é aquela coisa horrível de “adaptação”, que já foi super naturalizada, como se fosse normal, mas é só a demonstração obvia ululante de que a criança não está pronta pra viver aquilo. quem não tem outra opção, paciência. mas eu tenho.

    olha, vamos trocar figurinhas sobre isso? eu sou muito desorganizada, menina! me conta, plis: como você dá conta de não perder os horários, de manter a rotina em dia?

    bjos

  3. Nine

    Menina! Que texto! Eu super sou desse time da não escolarização cedo, super sou do time de que colocar na escola assim cedo (e até mais tarde) é mais por conveniência social (afinal, com quem ficam as crianças enquanto os pais trabalham?) do que necessidade da criança mesmo. Sobre ficar com as crias em casa, eu estou tendo uma experiência de meio período há 3 meses quase, pq estava sem alguém para ficar com eles nesse período e meu trabalho não me permite fazer home office. Consegui um arrego com meu chefe atual mas que tem me custado caro, enfim, tive que voltar ao esquema anterior. Mas amei estar com meus filhos, amo, e surto! E canso! E amo! Tudo ao mesmo tempo! E vi o quanto a presença dos pais, mesmo que não fazendo nada de específico com as crias, só ali, entende? faz diferença. Agora consegui uma babá para daqui 3 semanas, que ficará o dia todo com eles e apesar de eu poder almoçar em casa por 2 horas, meu coração tá apertado…agora já sei como é bom estar com eles e cuidar da casa, da vida, sem muletas (tá eu tenho uma diarista 1x na semana). Mas terei que deixar tudo isso. E sofro. E minha porção profissional sofre pq gosto de trabalhar, e minha porção mãe sofre pq amo estar com meus filhos. Sobre a escola, Ísis vai meio período, tem 4 anos e ama, muito mais que eu, e concordo com vc que uma criança de menos de 3 anos, não precisa de escola. Na verdade, uma de 4 tb não, mas não sobra muito para ela fazer sem a escola nesse mundo de hj, ainda mais com os pais fora o dia todo… Tenho muitas ressalvas à escola…podes imaginar, né? E tenho mais umas tantas ressalvas a maneira como a nossa sociedade se organizou…aiaiai
    Beijão!
    Nine

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