Arquivo do mês: outubro 2013

conversa comigo, mamãe

Daí que o pequeno tem ficado meio irritado com a presença da minha mãe, mesmo nas poucas vezes em que encontramos com ela. Hoje à tarde, por exemplo, tomando um café, deu pitis homéricos por motivos que normalmente não o tirariam do sério daquele jeito. Comecei a reparar, não só de hoje, que ele parecia ficar incomodado com a atenção que eu dava às outras pessoas. Um indício: hoje, num dos momentos mais tensos, quando ele estava se acalmando, retomei assunto que tinha interrompido com minha mãe; imediatamente ele começou a chorar de novo e me disse: “não conversa com a vovó, conversa com o Enzo, mamãe!”

Resolvi falar com ele sobre isso. À noite, em casa, depois do banho, estávamos deitados no sofá brincando e vendo um dos desenhos prediletos dele, só esperando a hora de tomar o leitinho e ir pra cama. Achei um bom momento e comecei o diálogo:

–Por que você não gostou quando a mamãe conversou com a vovó à tarde?

–Porque é ruim.

–E por que é ruim?

–Por que não é bom.

{Ah, a simplicidade e a lógica das crianças… Fofo!}

—E por que não é bom?

–Porque Enzo sente falta.

–De quê? De conversar com a mamãe?, “chutei”.

–É, de conversar com a mamãe.

Pronto. Chegamos ao que realmente estava incomodando. Não era a colher de plástico que quebrou ou o suco que ele queria/não queria tomar. A “birra” não era nem com a avó. Enzo não estava fazendo “manha” (como muitos me disseram). Estava, na verdade, ressentindo a perda da atenção. Estava avisando, a seu modo, que sentia-se excluído naquele grupo que se formou, em que muitos adultos falavam, por muito tempo, coisas de adultos sem inclui-lo na conversa.

{Natural, não? Se alguns amigos se reúnem e a conversa fica restrita a apenas parte deles, os excluídos se ressentem. Em geral, com adultos, tentamos nem deixar as coisas chegarem a esse ponto. Já com as crianças… E depois ainda dizemos que elas é que são “não-civilizadas” por gritar no meio de um restaurante, por chorar “à toa”. Depois ainda brigamos com elas porque choram, gritam, esperneiam sobre a nossa óbvia falta de educação e civilidade.}

Sigo cada vez mais convencida de que manha não existe. O que existe são crianças aprendendo a lidar com sentimentos fortes e contraditórios, aprendendo a conviver com eles, aprendendo a expressá-los. E o que existe são adultos dispostos a ajudar ou a atrapalhar os pequenos nessa jornada.

Pedi desculpas ao Enzo pelo meu descuido, prometi que vou procurar não fazer mais isso, expliquei a ele que vejo pouco a vovó e que, quando isso acontece, são tantos assuntos pra por em dia que realmente falamos muito; reforcei, com ênfase, que gosto de conversar com ele e da companhia dele.

Ele sorriu, me abraçou, repetiu parte do que expliquei (como sempre faz), pulou no colo do papai, agradou a gata e pediu tetê “puquê Enzo qué dumi”.

Silenciosamente, agradeci meu filho pela paciência e por nunca desistir de me ensinar coisas, de me querer, de me chamar, de me mostrar o que significa respeito. Agradeci também Carlos González por ter me ensinado que uma criança merece tanto respeito quanto um adulto e muito mais cuidado do que um (óbvio, não?). E ainda a Laura Gutman porque foi ela que me mostrou que é preciso conversar com as crianças, sinceramente e sempre, não importa quantos anos elas tenham. Sempre vão entender um coração sincero, uma conversa sincera e sempre se farão entender se o ouvinte também tiver um coração aberto a isso.

As crianças são geniais!

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Arquivado em Maternidade, parentagem por apego, reflexões