conversa comigo, mamãe

Daí que o pequeno tem ficado meio irritado com a presença da minha mãe, mesmo nas poucas vezes em que encontramos com ela. Hoje à tarde, por exemplo, tomando um café, deu pitis homéricos por motivos que normalmente não o tirariam do sério daquele jeito. Comecei a reparar, não só de hoje, que ele parecia ficar incomodado com a atenção que eu dava às outras pessoas. Um indício: hoje, num dos momentos mais tensos, quando ele estava se acalmando, retomei assunto que tinha interrompido com minha mãe; imediatamente ele começou a chorar de novo e me disse: “não conversa com a vovó, conversa com o Enzo, mamãe!”

Resolvi falar com ele sobre isso. À noite, em casa, depois do banho, estávamos deitados no sofá brincando e vendo um dos desenhos prediletos dele, só esperando a hora de tomar o leitinho e ir pra cama. Achei um bom momento e comecei o diálogo:

–Por que você não gostou quando a mamãe conversou com a vovó à tarde?

–Porque é ruim.

–E por que é ruim?

–Por que não é bom.

{Ah, a simplicidade e a lógica das crianças… Fofo!}

—E por que não é bom?

–Porque Enzo sente falta.

–De quê? De conversar com a mamãe?, “chutei”.

–É, de conversar com a mamãe.

Pronto. Chegamos ao que realmente estava incomodando. Não era a colher de plástico que quebrou ou o suco que ele queria/não queria tomar. A “birra” não era nem com a avó. Enzo não estava fazendo “manha” (como muitos me disseram). Estava, na verdade, ressentindo a perda da atenção. Estava avisando, a seu modo, que sentia-se excluído naquele grupo que se formou, em que muitos adultos falavam, por muito tempo, coisas de adultos sem inclui-lo na conversa.

{Natural, não? Se alguns amigos se reúnem e a conversa fica restrita a apenas parte deles, os excluídos se ressentem. Em geral, com adultos, tentamos nem deixar as coisas chegarem a esse ponto. Já com as crianças… E depois ainda dizemos que elas é que são “não-civilizadas” por gritar no meio de um restaurante, por chorar “à toa”. Depois ainda brigamos com elas porque choram, gritam, esperneiam sobre a nossa óbvia falta de educação e civilidade.}

Sigo cada vez mais convencida de que manha não existe. O que existe são crianças aprendendo a lidar com sentimentos fortes e contraditórios, aprendendo a conviver com eles, aprendendo a expressá-los. E o que existe são adultos dispostos a ajudar ou a atrapalhar os pequenos nessa jornada.

Pedi desculpas ao Enzo pelo meu descuido, prometi que vou procurar não fazer mais isso, expliquei a ele que vejo pouco a vovó e que, quando isso acontece, são tantos assuntos pra por em dia que realmente falamos muito; reforcei, com ênfase, que gosto de conversar com ele e da companhia dele.

Ele sorriu, me abraçou, repetiu parte do que expliquei (como sempre faz), pulou no colo do papai, agradou a gata e pediu tetê “puquê Enzo qué dumi”.

Silenciosamente, agradeci meu filho pela paciência e por nunca desistir de me ensinar coisas, de me querer, de me chamar, de me mostrar o que significa respeito. Agradeci também Carlos González por ter me ensinado que uma criança merece tanto respeito quanto um adulto e muito mais cuidado do que um (óbvio, não?). E ainda a Laura Gutman porque foi ela que me mostrou que é preciso conversar com as crianças, sinceramente e sempre, não importa quantos anos elas tenham. Sempre vão entender um coração sincero, uma conversa sincera e sempre se farão entender se o ouvinte também tiver um coração aberto a isso.

As crianças são geniais!

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5 Comentários

Arquivado em Maternidade, parentagem por apego, reflexões

5 Respostas para “conversa comigo, mamãe

  1. Ana

    Que legal, Nat. A gente só precisa mesmo perceber essas reações das crianças, e tentar entender o ponto de vista delas, né? E você fala tanto de Gonzales e Gutman que eu vou ter que pegar algo deles pra ler, e logo. De repente eles têm a solução pra umas situações novas que estamos passando aqui em casa. Beijo!

    • Ana, tudo bem?

      Leia sim, os dois, assim que você puder. Foram muito úteis por aqui. Não sei se eles falam alguma coisa sobre crianças maiores. “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, da Gutman, com certeza não fala, pois é voltado para os dois primeiros anos de vida do bebê. Mas olha, acho que você pode encontrar ajuda nas teorias da Maria Montessori, na Margarita Valencia e num livro da Gutman que fala sobre como o discurso das mães influencia o olhar que os filhos terão sobre si próprios e das “personas” que criarão a partir desse olhar. Se chama “O poder do discurso materno”. Como está o livro? O seu?

      bjos

  2. Oi Natalie. Gostei muito desse relato, especialmente da questão de tratarmos os adultos de forma distintas de como tratamos as crianças. O Marshall Rosenberg da CNV, comenta em um dos seus livros sobre como ele inicia seus seminários, dividindo o grupo e dois e pedindo para eles irem para salas diferentes e escreverem como reagiriam à mesma situação. Quando os dois grupos voltam, eles apresentam suas reações e sempre um grupo tem reações muito mais violentas do que o outro. A única diferença na instrução é que ele pede para um grupo pensar que está respondendo para um adulto e o outro grupo pensar que está respondendo para uma criança. Ele diz que em 100% das vezes, os comentários agressivos vem do grupo que tinha a criança como interlocutor. É impressionante, né! Grande abraço, Marcelo.

    • Marcelo,

      Eu tenho reparado muito nisso, sabe? Em como nos sentimos no direito de ser no mínimo sem educação (e muitas vezes violentos) com as crianças só porque elas são crianças. Às vezes somos tão violentos que queremos negar a elas inclusive o direito de decidir com o que devem se importar, pelo que “vale a pena” elas chorarem (aquelas coisas de dizermos que “não foi nada” ou que não “precisa chorar SÓ por causa disso”). Acho muito violento retirar da criança o direito de escolher seus afetos e aquilo que as mobiliza. Nossos afetos são parte do que somos, né? É prepotente da nossa parte esse tipo de atitude e diz muito sobre nós. Essa situação relatada pelo Marshall Rosenberg condiz muito com a realidade que eu vejo à minha volta. Adultos educadíssimos parecem homens das cavernas quando estão tratando seus próprios filhos. E é uma coisa tão -infelizmente- normalizada (no sentido de ter sido tornada “normal” e aceita como pressuposto da vida em sociedade) que eu só me dei conta dessa imensa diferença de tratamento lendo “Besame Mucho”, do Carlos González. Num trecho, ele diz claramente: sempre antes de tratar uma criança, imagine que está falando com um adulto. E engraçado é que desrespeitamos os pequenos como regra e esperamos criar crianças respeitosas. Mas como??

      Obrigada pelo papo, aprendo um bocado com seu você no seu blog.

      Abraços,

  3. Muito legal seu texto. As crianças nos ensinam um bocado. Feliz do adulto que esta disposto a aprender com elas.
    Um abraco
    Gabriela
    http://www.madrinhapediatra.wordpress.com

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