Arquivo do mês: dezembro 2013

a (falta de) TV e o “computador” do filho

Faz 15 dias que estamos sem TV. Quer dizer, o aparelho continua firme e forte, funcionando (até onde eu sei), no mesmo lugar onde está desde que tiramos da caixa. A diferença é que, faz duas semanas, ele permanece desligado durante o dia todo, pelo menos até a hora do filho ir para a cama.

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A princípio, eu queria apenas diminuir o tempo de exposição do Enzo às telas. Observando o comportamento recente dele, havia percebido um aumento muito grande de interesse pelos programas televisivos e, na mesma proporção, a diminuição (ou perda completa) de interesse por atividades lúdicas quaisquer.

Sempre fui favorável a estimular uma infância com pouca TV porque sempre acreditei que TV distrai do que é importante. Ligar o aparelho muitas vezes é desligar-se, especialmente no caso das crianças, em que a relação delas com o mundo pode ser tão intensa e frutífera e que a criação e a descoberta ainda estão tão potentes (ainda não desaprenderam a inventar). Criança não bloqueia a criação nem a percepção racionalizando e tentando explicar/entender logicamente o mundo, como a gente faz. Criança primeiro sente, cria, primeiro ousa, experimenta. Depois apreende o sentido lógico, que é só uma das faces de qualquer coisa. A Ana Thomaz diz que as crianças têm os sentidos ainda muito abertos e usam muito mais do que a parte racional do cérebro (os famosos 5%) que os adultos usamos. Concordo.

Para os pequenos, um objeto é muito mais do que a função utilitária que ele tem. É também forma, cor, textura, cheiro, som, gosto e zilhões de possibilidades de percepção e aplicação. Ou, de outra forma, uma tampa de panela jamais viraria uma direção de carro, confere? E isso não é “só” brincadeira. Quem disse que alguém começa a aprender a dirigir quando senta no carro da autoescola? Para mim, criança começa a aprender tudo sobre tudo não apenas quando faz as perguntas racionais e lógicas aos adultos sobre o que é isso ou o que é aquilo, mas principalmente quando (e porque) se permite experimentar todas as coisas, observar, testar, imaginar, inventar e reinventar usos reais e imaginários e absorver das coisas tudo o que elas têm para dar, sem limites. Elas acham as próprias respostas antes de fazer as perguntas.

Só que esse percurso de criação e experimentação pode ser atrapalhado, entre outras coisas, por tecnologia e brinquedos prontos (ou “ultraprontos”, tipo a boneca que come, faz xixi e fala). Aliás, isso explica porque criança pequena não gosta muito de brinquedo, prefere embalagem. Para criar, é preciso algum vazio; alguma coisa por fazer, certo? E para mim fez muito sentido na prática, como disse, pela observação do meu filho. Quanto mais ele preenchia seu tempo com entretenimento, menos criava. Resolvi ampliar as possibilidades de criação dele pelo modo mais óbvio: diminuindo a distração.

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No primeiro dia em que fiz isso, recorri a um expediente muito conhecido entre as mães: a mentira. Não me orgulho, mas… menti descaradamente. Como de costume, ele começou a pedir para ligar a TV assim que acordou, antes mesmo do café. Desconversei. Não deu certo. Então apelei: “filho, sinto muito, mas a TV quebrou”. Esperto que só, não acreditou muito. Retrucou com um “a mamãe ti mosta que quebou“. Improvisei um teatro, dei uma disfarçada com o controle remoto e, bem na hora em que o desenho que ele pediu ia começar, desliguei. “Está vendo, filho, quebrou”. Se convenceu.

Tinha planejado ligar mais à tarde e deixá-lo ver o desenho que quisesse. Mas, para minha surpresa e admiração total (ou não, porque no fundo eu esperava que isso acontecesse), ele simplesmente esqueceu que a TV existia. E foi brincar. Brincou com guache, depois com os carimbos (lavou as almofadas de tinta dentro do copo de água, de modo que saiu toda a tintura e as ditas cujas foram pro lixo), desenhou com giz de cera e lápis de cor, tirou tudo para fora da caixa de brinquedos e voltou a usar muitos que fazia tempo nem ligava, encaixou e desencaixou inúmeras pecinhas, conversou com os bichos de pelúcia, pegou o edredom do meu quarto e fez uma cama para a Branca e para o Pimpão (a coelha e o urso, respectivamente, com quem ele dorme todos os dias), “telefonou” para um monte de gente, correu. Nem um minuto parado. Dormiu cedo, exausto.

Esperei para ver como seria no dia seguinte. Pediria ou não para ver “Charlie e Lola”? Não pediu. Tomou café e foi brincar de novo. Como ele não pedia para ligar a TV, eu simplesmente ia deixando desligada. E assim estamos. Ele não pede, eu não sugiro. Os personagens de que ele gostava, que antes eram parâmetros para todas as (poucas) brincadeiras, surgem esporadicamente nas fabulações dele, que agora são muito mais criativas e reveladoras do que ele realmente observa, pensa e sente. E isso tem sido um aprendizado para mim também, porque vejo nossa dinâmica refletida e consigo perceber, por exemplo, quando ele se chateou com alguma coisa ou quando ficou impressionado com algo que eu (ou as pessoas próximas) fiz (fizeram). Brincadeira (assim como a arte) também é comunicação.

Dia desses ele pegou meu edredom, colocou no sofá, “guardou” sob ele a Branca e o Pimpão, cobriu metade das pernas (sob um calor de 35º C) e me chamou. Sentei onde ele indicou (bem ao lado dele) e então começou a brincadeira: “Agola não é mais o Enzo, é a majetade. E eu estou levando a mamãe de tem pro paque“. Majestade é uma personagem de um livro que ele adora (e que nem temos em casa; a gente lia numa biblioteca pública). Trem é o veículo utilizado num dos episódios de que ele mais gosta do “Backyardigans”. E o parque é a praça onde vamos com ele com frequência nos finais de semana. Bem mais rica e imaginativa essa brincadeira do que simplesmente reproduzir falas do “Mr. Maker”… E isso é só um exemplo. Porque uma criança que brinca o dia inteiro sem parar (pausas esporádicas para me ajudar a lavar o tomate cereja e preparar o almoço ou arrumar a casa…) diz muito sobre o bom estado da sua criatividade, confere?

Mas eu soube mesmo que está dando certo e que estamos no bom caminho sem a TV anteontem. Da mesa da sala, onde trabalho às vezes, vi e ouvi o pequeno brincando (porque a gente trabalha em casa sempre com um olho no peixe e outro no gato, né?). E eis que Enzo pegou um livro fininho, mas de capa dura, colocou deitado em cima do móvel da TV e abriu a capa, levantando-a apoiando-a no aparelho. Começou a “digitar” no livro aberto como se fosse o notebook. Tirou uma das mãos do livro, levou ao ouvido, e então ficou um bom tempo “conversando” e fazendo “perguntas” sobre valejo (varejo, área que eu cubro como jornalista). Aí se despediu (“xau, xau, bigadu“), colocou o “telefone” de volta na mesa da TV, baixou a capa do livro e, satisfeito, disse para si mesmo: “Ponto, posso fechar o compodoi que eu já acabei minha entevita“.

(*) Mafalda veio daqui e (**) o Calvin eu achei nesse endereço ó.

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Arquivado em Maternidade, reflexões

mais licença, menos creches

“É preciso uma aldeia para criar uma criança”

provérbio africano

Então a questão carreira x maternidade tem aparecido com força nas minhas relações novamente, seja nas mesas de bar, seja nos meus estudos/inquietações filosóficas, seja nas minhas avaliações sobre convicções pessoais, nos blogs que leio e nas redes sociais. Já abordei o tema várias vezes (aqui, por exemplo; mas também aqui e aqui) e entre ontem e hoje participei de um bate-papo virtual sobre o tema (e outras coisinhas) com algumas queridas no facebook.

Daí encontro esse vídeo, do pediatra José Martins Filho, sobre a importância do vínculo, dos cuidados e do afeto no início da vida da criança, principalmente no período que compreende a gestação e vai até os dois ou três anos.

E, entre muitos pontos essenciais, ele toca no assunto da licença maternidade de fato, não essa aí que temos hoje, que, cá entre nós, não serve para muita coisa. É precisamente a licença maternidade –e outros arranjos trabalhistas que possibilitem à mãe cuidar dos filhos e trabalhar ao mesmo tempo— o que precisa ser colocado em questão quando se fala em carreira (*) x maternidade.

Já contei que, para mim, não existe esse negócio de carreira versus maternidade. O versus entrou na equação apenas porque nossa sociedade (da qual fazemos parte, vale lembrar) não está nem aí para mulheres e crianças (assim como para muitos outros grupos), sejamos sinceros. As necessidades consideradas exclusivamente femininas e as necessidades consideradas exclusivamente infantis são ignoradas solenemente.

[Parêntese: estou falando em maternidade, necessidades femininas, mas não quero excluir a paternidade e os homens da equação. Uso esses termos por duas razões, basicamente: 1) as mulheres ainda são as que assumem a maior parte da responsabilidade na criação dos filhos; ainda é dela que se cobra deixar a carreira para ficar com os filhos ou vice-versa; ainda é a mulher que se coloca em questão em relação à carreira quando vira mãe. 2) algumas funções biológicas só mesmo a mãe pode cumprir (ou cumprir bem), como parir e amamentar. Mas acho os pais fundamentais, acho que há espaço para eles atuarem muito mais e volto a isso daqui a pouco.]

Então, na prática, expomos mulheres à situação dolorosa (torturante, eu diria) e absurda (sob todos os pontos de vista, mas especialmente sob o biológico, orgânico, natural) de ter de escolher entre se sustentar ou ficar com os filhos; de ter de deixar seus filhos muito pequenos com estranhos enquanto se remoem nas firmas para pagar as contas no fim do mês; de ter de se humilhar (como se tivesse pedindo favor) e aceitar pressões psicológicas e até financeiras (ganhar menos do que um colega homem, por exemplo) porque precisa ajustar alguns horários a necessidades do filho (amamentação, saídas para pediatras etc); de ter de abandonar qualquer possibilidade de trabalho remunerado e depender inteiramente de outra pessoa.

É um absurdo obrigar uma mãe a voltar ao trabalho com quatro meses de parida. Assim como é um absurdo obrigá-la a não voltar ao trabalho.

Isso sem falar do ponto de vista da criança, que o vídeo do José Martins aborda bem.

O que mais me incomoda nisso tudo é o pressuposto. Quando discutimos a questão social e publicamente, circulamos (como disco riscado) apenas em dois pontos: creche e maternidade. Partimos, portanto, da ideia de que o ideal é oferecer mais vagas em creches, afastar as crianças de casa, deixá-las mesmo com estranhos e “liberar” a mãe para o trabalho. Uma intervenção cada vez mais precoce do mundo considerado masculino (competição, conquista, poder, obejetivo, busca), socialmente valorizado, no mundo considerado feminino (da conexão, do cuidado, das relações, do encontro), socialmente desvalorizado.  Fica claro porque isso acontece, certo? Se valorizamos mais o trabalho que as relações, o “melhor” é ter creches para as mães deixarem as crianças e cuidarem do que “importa”.

Segundo ponto que me incomoda é que a discussão raramente inclua os homens, os pais. Se fala em creches para as mães, em licença de seis meses para as mães e em mães que largam o trabalho na firma e empreendem, em apoio à mãe empreendedora etc.

Como eu comentei na conversa lá no facebook, para mim o foco está invertido nos dois casos: o dinheiro que o governo e (algumas poucas) empresas gastam com creches seria muito melhor empregado em licenças maternidade e paternidade decentes, um ano no mínimo, dois no ideal (a OMS recomenda amamentação por pelo menos dois anos, lembra?).

Os pais (homens) poderiam ter licenças de fato e assumir parte das tarefas e da troca de afeto com os filhos no dia a dia, liberando a mãe para o trabalho nesse período. E as crianças –com pais e mães ou pais ou mães por perto– cresceriam num ambiente bem mais adequado que numa escolinha abarrotada de crianças sendo “cuidadas” por três ou quatro cuidadoras.

Para mim, os pontos centrais do debate sobre carreira versus maternidade são justamente as licenças para quem trabalha em regime de oito horas diárias e o estímulo ao aumento de participação masculina na vida familiar, coisas que o José Martins cita no vídeo, e que não é comum de serem mencionadas, daí eu ter vindo aqui compartilhar.

Isso não resolve o “problema”, que é precisamente uma sociedade que desvaloriza o que há de mais importante, que é a vida, manifestada na criança e na mãe que a pariu. Uma sociedade que desrespeita crianças está fazendo alguma coisa muito errada. Sair fora da caixa é o caminho, o meu caminho. Cada vez mais eu vejo e entendo que posso criar a vida que quiser e que tanto faz como as empresas lidam com a maternidade, porque eu sei como eu vou lidar com a minha e cada pessoa pode lidar com a sua da forma que achar melhor. Mas como nem todo mundo pode –materialmente–ou quer fazer isso por conta própria, acho que a licença materpaterna decente já seria um bom começo, um passo na humanização e no reconhecimento real dos direitos das mães e das crianças.

(*) carreira aqui é mais sinônimo de trabalho remunerado e razoavelmente estável do que de construção de uma jornada profissional “ascendente” e “bem sucedida” no mundo corporativo

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