a (falta de) TV e o “computador” do filho

Faz 15 dias que estamos sem TV. Quer dizer, o aparelho continua firme e forte, funcionando (até onde eu sei), no mesmo lugar onde está desde que tiramos da caixa. A diferença é que, faz duas semanas, ele permanece desligado durante o dia todo, pelo menos até a hora do filho ir para a cama.

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A princípio, eu queria apenas diminuir o tempo de exposição do Enzo às telas. Observando o comportamento recente dele, havia percebido um aumento muito grande de interesse pelos programas televisivos e, na mesma proporção, a diminuição (ou perda completa) de interesse por atividades lúdicas quaisquer.

Sempre fui favorável a estimular uma infância com pouca TV porque sempre acreditei que TV distrai do que é importante. Ligar o aparelho muitas vezes é desligar-se, especialmente no caso das crianças, em que a relação delas com o mundo pode ser tão intensa e frutífera e que a criação e a descoberta ainda estão tão potentes (ainda não desaprenderam a inventar). Criança não bloqueia a criação nem a percepção racionalizando e tentando explicar/entender logicamente o mundo, como a gente faz. Criança primeiro sente, cria, primeiro ousa, experimenta. Depois apreende o sentido lógico, que é só uma das faces de qualquer coisa. A Ana Thomaz diz que as crianças têm os sentidos ainda muito abertos e usam muito mais do que a parte racional do cérebro (os famosos 5%) que os adultos usamos. Concordo.

Para os pequenos, um objeto é muito mais do que a função utilitária que ele tem. É também forma, cor, textura, cheiro, som, gosto e zilhões de possibilidades de percepção e aplicação. Ou, de outra forma, uma tampa de panela jamais viraria uma direção de carro, confere? E isso não é “só” brincadeira. Quem disse que alguém começa a aprender a dirigir quando senta no carro da autoescola? Para mim, criança começa a aprender tudo sobre tudo não apenas quando faz as perguntas racionais e lógicas aos adultos sobre o que é isso ou o que é aquilo, mas principalmente quando (e porque) se permite experimentar todas as coisas, observar, testar, imaginar, inventar e reinventar usos reais e imaginários e absorver das coisas tudo o que elas têm para dar, sem limites. Elas acham as próprias respostas antes de fazer as perguntas.

Só que esse percurso de criação e experimentação pode ser atrapalhado, entre outras coisas, por tecnologia e brinquedos prontos (ou “ultraprontos”, tipo a boneca que come, faz xixi e fala). Aliás, isso explica porque criança pequena não gosta muito de brinquedo, prefere embalagem. Para criar, é preciso algum vazio; alguma coisa por fazer, certo? E para mim fez muito sentido na prática, como disse, pela observação do meu filho. Quanto mais ele preenchia seu tempo com entretenimento, menos criava. Resolvi ampliar as possibilidades de criação dele pelo modo mais óbvio: diminuindo a distração.

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No primeiro dia em que fiz isso, recorri a um expediente muito conhecido entre as mães: a mentira. Não me orgulho, mas… menti descaradamente. Como de costume, ele começou a pedir para ligar a TV assim que acordou, antes mesmo do café. Desconversei. Não deu certo. Então apelei: “filho, sinto muito, mas a TV quebrou”. Esperto que só, não acreditou muito. Retrucou com um “a mamãe ti mosta que quebou“. Improvisei um teatro, dei uma disfarçada com o controle remoto e, bem na hora em que o desenho que ele pediu ia começar, desliguei. “Está vendo, filho, quebrou”. Se convenceu.

Tinha planejado ligar mais à tarde e deixá-lo ver o desenho que quisesse. Mas, para minha surpresa e admiração total (ou não, porque no fundo eu esperava que isso acontecesse), ele simplesmente esqueceu que a TV existia. E foi brincar. Brincou com guache, depois com os carimbos (lavou as almofadas de tinta dentro do copo de água, de modo que saiu toda a tintura e as ditas cujas foram pro lixo), desenhou com giz de cera e lápis de cor, tirou tudo para fora da caixa de brinquedos e voltou a usar muitos que fazia tempo nem ligava, encaixou e desencaixou inúmeras pecinhas, conversou com os bichos de pelúcia, pegou o edredom do meu quarto e fez uma cama para a Branca e para o Pimpão (a coelha e o urso, respectivamente, com quem ele dorme todos os dias), “telefonou” para um monte de gente, correu. Nem um minuto parado. Dormiu cedo, exausto.

Esperei para ver como seria no dia seguinte. Pediria ou não para ver “Charlie e Lola”? Não pediu. Tomou café e foi brincar de novo. Como ele não pedia para ligar a TV, eu simplesmente ia deixando desligada. E assim estamos. Ele não pede, eu não sugiro. Os personagens de que ele gostava, que antes eram parâmetros para todas as (poucas) brincadeiras, surgem esporadicamente nas fabulações dele, que agora são muito mais criativas e reveladoras do que ele realmente observa, pensa e sente. E isso tem sido um aprendizado para mim também, porque vejo nossa dinâmica refletida e consigo perceber, por exemplo, quando ele se chateou com alguma coisa ou quando ficou impressionado com algo que eu (ou as pessoas próximas) fiz (fizeram). Brincadeira (assim como a arte) também é comunicação.

Dia desses ele pegou meu edredom, colocou no sofá, “guardou” sob ele a Branca e o Pimpão, cobriu metade das pernas (sob um calor de 35º C) e me chamou. Sentei onde ele indicou (bem ao lado dele) e então começou a brincadeira: “Agola não é mais o Enzo, é a majetade. E eu estou levando a mamãe de tem pro paque“. Majestade é uma personagem de um livro que ele adora (e que nem temos em casa; a gente lia numa biblioteca pública). Trem é o veículo utilizado num dos episódios de que ele mais gosta do “Backyardigans”. E o parque é a praça onde vamos com ele com frequência nos finais de semana. Bem mais rica e imaginativa essa brincadeira do que simplesmente reproduzir falas do “Mr. Maker”… E isso é só um exemplo. Porque uma criança que brinca o dia inteiro sem parar (pausas esporádicas para me ajudar a lavar o tomate cereja e preparar o almoço ou arrumar a casa…) diz muito sobre o bom estado da sua criatividade, confere?

Mas eu soube mesmo que está dando certo e que estamos no bom caminho sem a TV anteontem. Da mesa da sala, onde trabalho às vezes, vi e ouvi o pequeno brincando (porque a gente trabalha em casa sempre com um olho no peixe e outro no gato, né?). E eis que Enzo pegou um livro fininho, mas de capa dura, colocou deitado em cima do móvel da TV e abriu a capa, levantando-a apoiando-a no aparelho. Começou a “digitar” no livro aberto como se fosse o notebook. Tirou uma das mãos do livro, levou ao ouvido, e então ficou um bom tempo “conversando” e fazendo “perguntas” sobre valejo (varejo, área que eu cubro como jornalista). Aí se despediu (“xau, xau, bigadu“), colocou o “telefone” de volta na mesa da TV, baixou a capa do livro e, satisfeito, disse para si mesmo: “Ponto, posso fechar o compodoi que eu já acabei minha entevita“.

(*) Mafalda veio daqui e (**) o Calvin eu achei nesse endereço ó.

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