de como duas newcastle arruinaram uma ninfomaníaca

Foi assim: rolou um dia de folga. Marido assumiu sozinho filho, gata, casa, comida, roupa e faxina no banheiro e me mandou passear, literalmente. Botei um livro na bolsa e saí. No caminho, que percorri a pé (ida e volta em todas as paradas, o que me rendeu uns sem-número de bolhas nos dois pés formadas já às 11h da manhã), tracei o roteiro mínimo do dia. Saca fazer com calma aquelas coisas todas que eu sempre faço correndo ou que eu nem faço mais? Então.

Primeiro, livraria. Olhar tudo, ver a parte de artes (nunca chego lá), folhear os livros, sentar, tomar um café, ler. Ler na livraria. Nem lembrava mais como isso era bom. Duas horas sentadinha lendo e bebericando. O paraíso. Depois um passeio pelas gravuras lá na área das artes, um namorico com as coisas lindas da Isabelle Tuchband, xeretadas mil nos livros de culinária (eu não era, mas estou ficando desse tipo, dessas que compram livro de culinária, como “Ferran Adrià e a cozinha do dia a dia” ou coisa do gênero)*.

como eu quero uma isabelle lá em casa. lindo, né? (*²)

como eu quero uma isabelle lá em casa. lindo, né? (*²)

Da livraria, o passo seguinte seria almoçar. Tinha planejado um almoço sossegado e delícia num restaurante que adoro, mas que é meio caro. Nada espetacularmente caro, mas caro o suficiente pra eu ter de desistir da ideia, já que, na livraria, não resisti e comprei livros, marcadores de páginas e mimos pro filho.

Gosto de andar. Então fomos –as infinitas bolhas nos pés e eu– caminhando sem lenço nem documento em busca de uma opção pagável de alimentação. Quatro ou cinco quadras adiante, dei numa cafeteria (dessas gringas) e resolvi comprar um suco e um pão de queijo, porque, sinceramente, não dava mais pra seguir andando. As bolhas latejavam no meu corpo inteiro. E a cafeteria era mesmo perto das outras duas paradas planejadas.

Santo Ócio, farei um altar em sua homenagem. Mais uma horinha lendo, pernas mais ou menos pra cima, outro suquinho de laranja, outro pão de queijo e o ar condicionado no talo na cafeteria (concordo tanto quando marido diz que ar condicionado é a segunda melhor invenção do homem…).

Já eram duas da tarde quando criei coragem pra levantar da poltrona, sair do ar condicionado, encarar os 34ºC que fazia lá fora e ir buscar um band-aid. No caminho, aproveitei para checar a quantas andava a aberturo do bar ali pertinho, meu preferido, que também fazia parte do passeio mínimo programado. Porque sentar num bar e beber à vontade também é coisa rara. Estava fechado ainda. Comprei os curativos e fui pra uma outra livraria, mais próxima do que a primeira.

Enrolei o quanto deu, e nada do bar abrir. No roteiro mental traçado pela manhã, eu tomaria umas cervejas naquela tarde maravilhosamente ensolarada, no boteco do coração, e, perto das 19h, pegaria um cinema, logo ali na frente, atravessando a avenida (desnecessário dizer que não vou ao cinema há quase três anos, confere?).

Pois com o estabelecimento fechado e o pé latejando horrores (apesar da caixa da band-aid que eu gastei nele), me deu uma comichão (aquela coisa meio paulistana, que deve pegar no ar, no ar poluído) de fazer alguma coisa. Pois note que, mesmo num dia de ócio planejado e completamente sem compromisso ou culpa, o sangue paulistano ferve de ficar parado. Corra, Lola, corra. Faça alguma coisa!

Desculpe, São Ócio, eu pequei.

Na porta do bar mezzo aberto, mezzo fechado (“abre mesmo daqui a uma hora”, me disse o gerente, erguendo as portas), resolvi deixar pra lá a cerveja e ir direto pro cinema pra não “perder” tempo. Eram 15h30.

Queria assistir a “Azul é a cor mais quente“, mas confesso que não olhei em lugar nenhum pra checar horário de sessão com antecedência (talvez eu não seja tão paulistana assim, São Ócio, e minha alma ainda não esteja perdida). Resultado é que, na fila, quase pra comprar o ingresso, fiquei sabendo que a próxima apresentação do filme seria só às 21h. Sem chance de esperar.

A alternativa? Ver “Ninfomaníaca“. “Acabou de começar”, disse a mocinha do caixa. Outra sessão só às 17h05. Ok, vamos lá. Comprei. Desembolsei 28 dinheiros. E fui sentar lá na espera do cinema pra pensar na vida. Tinha uma hora e meia praticamente pra não fazer nada. Justo eu, a paulistana que desistiu da cerveja pra não perder tempo. Castigo?

Ia ler, mas não estava concentrada o suficiente, e o livro pede entrega. O arranjo todo do cinema-no-lugar-da-cerveja-mas-esperando-hora-e-meia me deixou inquieta. Resolvi folhear uma revista que tinha comprado momentos antes na livraria número 2. Várias fotos bonitas, pouco texto, um monte de coisa bacaninha, mas meio irrelevante (é revista de decoração, sabe?), bem adequada pr’aquele momento.

E tinha o calor. E tinha o sol espetacular lá fora (sim, de onde eu estava dava pra ver a rua). E tinha a vontade da cerveja. E tinha a paulistana impaciente que não aguenta fazer nada. E tinha a paulistana arrependida também. Em meia hora folheando revista, ingresso guardado na carteira, tive a ideia que mudou o curso do meu encontro com o Lars von Trier. “Vou ali no boteco, tomo uma cervejinha, só pra matar a vontade, e volto a tempo de ver o filme”. Genial!

Fui, claro. Não estava exatamente aberto o bar; mas já tinha um grupo ali na rua, na primeira mesa, outro dentro do bar, de modo que me deixaram ficar. Tem essa cerveja, que está entre as minhas preferidas pra dias quentes e que não encontro com facilidade. Se chama Newcastle, uma inglesa, brown ale. Estava fora da carta desse bar havia um bom tempo, mas nesse dia tinha (sinal de que São Ócio me perdoou?). Pedi.

delícia. garanto. (*³)

delícia. garanto. (*³)

Bebi. Li. E pedi outra. E bebi. E li. E daí deu vontade de uma Heineken. Pedi. Bebi. E li. E daí deu fome (lembra que eu almocei dois mini pães de queijo com suco?). Comi uma porcaria qualquer. E li. E daí deu sede de novo. Outra Heineken. Li. E daí minha mãe me ligou (ela estava num curso, sairia às 18h30 e iria me encontrar pra um café), bem no meio da segunda Heineken. “Está livre mais cedo, mãe?” “Que nada. Atrasou. São sete”.

Taquepariu, perdi o filme!

Passado o susto, segundos depois, a conclusão: Desculpaê Lars. Desculpaê Charlotte. Desculpaê Uma. Desculpaê Willem. Nada contra vocês, mas, sabe?, esses foram os 28 dinheiros melhor rasgados ever. Nunca fiquei tão feliz em comprar e não levar uma coisa. “Ninfomaníaca” fica pra quando o moço da locadora aqui perto de casa me avisar que já tem (eu sou dessas que ainda aluga filme…). Porque, descobri depois, do que eu estava precisando mesmo pra descansar eram essas cervejinhas geladas e um boteco amigo numa tarde de sol.

(*) Não, eu não ganhei nada nem da Isabelle Tuchband nem do Ferran Adrià tampouco da Newcastle. Elogiei de grátis mesmo, porque gosto mesmo. Publieditorial? Não trabalhamos. Gradicida. A gerência.

(*²) A lindeza da Isabelle Tchband é da própria galeria virtual da artista plástica. Aqui ó.

(*³) Foto da Newcastle veio deste site.

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7 Comentários

Arquivado em lado B, Maternidade

7 Respostas para “de como duas newcastle arruinaram uma ninfomaníaca

  1. Ana

    Engraçado mesmo como a gente não se permite ficar ocioso, né? Eu terminei meu mestrado e estou procurando emprego. Agora que tenho todo tempo livre que quero e que não quero, não consigo fazer aquelas coisas que eu sempre disse que ia fazer quando tivesse tempo. Parece até que bate uma culpa de ficar de bobeira. Freud explica. Que bom que você curtiu seu dia de folga! 🙂

  2. Menina, não se permite mesmo. É uma das coisas que estou tentando melhorar em mim. Viver mais o presente. Esse dia mesmo já foi um avanço e tanto, viu? Curti muuuito. Voltei com muito mais energia pra casa.

    E como está sua rotina pós-mestrado? E o livro? Estou devendo uma resposta pra você, Ana. Juro que vai chegar em breve, ok?

    Bjos

  3. P

    Aqui, com o frio dos infernos que tá rolando (pq não há pessoa viva ou morta que me convença que o inferno não é frio pacas), eu me aconchego nas poltronas dos cafés, coloco os pés pra dentro e esqueço o resto. Não conheço muita coisas de Dublin, mas os cafés. Sei de cor rs. Eu mantenho altar pro São Ócio!

    • se o inferno é o frio, um café latte quente numa poltrona aconchegante é qualquer coisa bem próxima do paraíso, Paula. amo café! 😉 não vivo sem. não conheço Dublin (ainda, frise-se), mas lembro bem do frio de Londres e de um dos meus passeios prediletos enquanto ficamos por lá: ir tomar café no fim do dia num dos Royal Parks…

      estou me iniciando nessa coisa de venerar São Ócio. um dia eu chego lá.

      bjos

  4. Nine

    Ai, que passeio delícia! Não faço um desses há mais de ano, aiai. Que bom que foi bem aproveitado e que vc se permitiu aquela cervejinha tão desejada! Vou experimentar essa que vc sugeriu, se encontrar por aqui.Morando em Blumenau virei uma apreciadora de cervejas ainda mais nesse calor 40 graus daqui! Beijos! Bom final de semana!

    • Nine, querida, como estão as coisas por aí? Tenho pensado tanto em você… 😉 Tenho tido umas ideias e conversado um bocado com sua irmã gêmea paulista (a Anne Rammi –já disse que, quando eu não conhecia direito vocês e estava começando a jornada na madresfera, eu confundia vocês duas?) e agora estamos tendo umas ideias juntas. Vou te mandar um e-mail. Talvez você goste das nossas pirações também.

      Puxa, eu fiquei um tempão sem essa folguinha necessária também. Tive uma quase-folga nas férias do marido, mas eu estava tão atarantada com o trabalho e com um compromisso familiar que teríamos em poucos dias (presente pra comprar, essas coisas), que não consegui aproveitar. Dessa vez fui de corpo e alma, pra aproveitar mesmo, apesar dos acessos pontuais de “paulistanices”. Impossível vc combinar uma folguinha dessas por aí?

      Ó, SC tem ótimas cervejarias. Sou fãzona de quase tudo o que a Eisenbahn faz, por exemplo. Mas a Newcastle é bem gostosinha, viu? É leve, baixa gradação alcoólica, mas bem saborosa. Se achar por aí, depois me conta o que achou.

      bjos

  5. oi, Isabela,

    ainda bem que é uma fase ou um rito de passagem. Achei que estivesse ficando meio louca! 😉 Mas sabe o que é mais frustrante nessa coisa de livro de culinária? Com ou sem as receitas do Ferran Adrià, eu cozinho mal pacas. Sei lá, tenho paciência pra essa coisa não.

    Creio sim, a gente esquece mesmo. Estamos tão acostumadas a tantos limites, tão constantes, que a gente nem percebe mais o que queremos de fato. Essa folga foi a segunda. Teve outra em outubro, que eu nem aproveitei, pois fui resolver problemas, “aproveitar” o tempo, fazer coisas “úteis”. Loucura isso, né? Estou (re)aprendendo –as crianças já sabem disso, nós também sabíamos– que tempo não se aproveita, se frui. E que as coisas “úteis” não servem pra nada. O que importa mesmo, o que vai fazer alguma diferença na vida, é tudo aquilo que consideramos “inútil”.

    Cinema, livro, cerveja. Trio difícil de resistir. Cinema propriamente tem me escapado. O que mais rola por aqui é filminho alugado no colega da locadora (um cara simpático, interessado, cinéfilo, sempre me dá boas dicas e me mantém razoavelmente informada) ou netflix (vi ótimos títulos por aqui, alguns antigos, outros nem tanto). Mas livro e cerveja é todo dia! 🙂

    Muito feliz que você tenha gostado do texto! 😉 Benvinda! Volte sempre!

    PS: Também sou sua leitora.

    bjos

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