Arquivo do mês: fevereiro 2014

um pouco de silêncio

Dia desses estávamos Enzo e eu no quarto dele. Ele havia pedido companhia para brincar com massinhas e também ajuda, pois uma delas fica guardada num pote plástico que o pequeno não estava conseguindo abrir sozinho (ainda me pergunto porque caracas brinquedos de criança vêm em embalagens que precisam de adultos para abrir/fechar…).

Quando o filho finalmente começou a manipular a massinha, ficou em silêncio. Fez menção de me perguntar alguma coisa, mas desistiu. Ficamos alguns segundos assim: ele mexendo num pedaço da massa, eu noutro. Então senti uma necessidade de falar alguma coisa, de perguntar, de sugerir, de interagir, de marcar presença. Como se simplesmente estar ali com ele não fosse interação suficiente. E como se o silêncio fosse insuportável. Fosse mais insuportável que os ruídos todos com os quais lidamos diariamente e com os quais nos acostumamos.

Cheguei a abrir a boca e puxar o ar para começar a falar. Cheguei a formar a frase na cabeça. “O que você quer fazer com essa massa? Precisa que eu te ajude a fazer uma bolinha?” (Notei que ele fazia movimentos como se quisesse formar uma bola, mas não estava conseguindo, segundo o que meus padrões escolarizados definem como “bola”, claro). Cheguei até a começar o gesto de estender a mão para oferecê-la, caso ele quisesse me de dar seu pedaço de massinha pra eu “consertar”.

E então, num segundo, antes de efetivamente fazer qualquer dessas coisas, concluir qualquer dessas ações, olhei para o meu filho. Olhei para o rosto dele, para suas mãos que não paravam, para seus olhos fixos na massinha. Foi estranho, porque parei de pensar. Simplesmente não pensei em nada por aqueles segundos. Só vi. Só enxerguei. Só senti. Como se houvesse uma interrupção no tempo/espaço e como se eu, suspensa, fora da cena, pudesse compreender completamente, para além do raciocínio, o que estava acontecendo ali entre o filho, a massinha e eu.

Senti o que ele estava sentindo. Senti como estava pleno, concentrando, entregue àquele momento, curtindo e sentindo prazer na manipulação daquele objeto. Percebi como estava numa espécie de espaço/tempo diferente do meu. Porque eu ficava elucubrando um monte de coisas na cabeça, ansiosa, tensa, tentando prever se ele precisaria de ajuda ou tentando preencher alguma coisa com a fala.

Enzo, no entanto, já estava preenchido; presente naquele contato com aquela massinha. Ele estava no presente, naquele quarto. Eu não: estava na minha cabeça, pensando, pensando, pensando.

Então, de repente, quando percebi tudo isso, não havia mais necessidade de falar nem de fazer nada nem de pensar nada. Parei tudo: a fala, o gesto, os pensamentos. E me entreguei como ele ao contato com a massinha que estava nas minhas mãos. Fiquei ali, só manipulando, sem intenção alguma, sem “construir” nada, só sentindo a sensação de mexer naquele material. Só sentindo a presença do meu filho; só estando. Ele e eu, estando juntos. No silêncio. Por uns 20 minutos, talvez mais. Ficamos ali, cada um do seu jeito, compreendendo e vivendo aquele momento, aquelas sensações.

Entendi –não racionalmente, pois não racionalizei essa nova compreensão naquele momento– que as palavras são muitas vezes desnecessárias. Mais que isso: atrapalham. Eu teria atrapalhado a entrega do Enzo àquele presente, àquele momento, se tivesse dito qualquer coisa.

Já tinha lido muitas vezes que criança, por natureza, se estiver sentindo-se bem e equilibrada, é do silêncio. Brinca em silêncio, trabalha em silêncio, aprecia o silêncio. Encontrei afirmações desse tipo em muitas fontes diferentes, de Maria Montessori e Ana Thomaz a Carlos González. Tem momentos para extravasar, óbvio, em que os pequenos gritam, cantam alto, riem abertamente. Mas há muitíssimos outros momentos, quando, segundo Montessori, acham o que querem fazer, em que o silêncio não só é suficiente como é necessário, absorvidos que estão pela atividade “ideal” para aquela situação.

Acontece que toda essa informação racional só fez sentido, só foi completamente compreendida, apreendida, percebida por mim quando todo o cognitivo aprendeu também. Só fez sentido quando eu senti o significado do silêncio para o Enzo. E, uma vez sentida a informação, aí sim foi lá ser “validada” pelo racional, que já tinha o argumento na ponta da língua.

A partir desse dia, desses minutos brincando em silêncio, mais presente do que nunca ao lado do Enzo, mesmo muda, mesmo “na minha”, mesmo sem “interagir” com ele no sentido mais objetivo do termo, comecei a reparar muito mais no que e quando falava com meu filho. E na atitude de outras pessoas com ele e até de outros pais com seus próprios filhos.

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 1)

Um menino, de uns 4 ou 5 anos, estava brincando de amarelinha. Feliz da vida, completamente alheio ao que acontecia ao redor. Do jeito dele, da forma que ele queria: pulando aleatoriamente os números, contando, andando por sobre os desenhos, dando saltinhos quando bem entendia, fingindo que caía e por aí vai. Até que o pai, quando se deu conta de como a criança brincava, resolveu “corrigir” o filho, que brincava “errado”. E começou, à princípio, sutilmente, com perguntas do tipo: “Você sabe que tem que pular desse e desse jeito?” ou “Por que você não faz assim ó? (demonstrando como “deve ser”).

Como a criança não estava dando muita bola para o pai e se limitava a fazer o que ele pedia no momento em que pedia para, logo em seguida, brincar como estava brincando antes, o adulto não se conteve e começou a efetivamente explicar e dirigir completamente a brincadeira. Pegou uma pedra ele mesmo, jogou a pedra num número ele mesmo, virou-se para o filho: “agora você tem que ir pulando assim e assim (demonstrando) até a pedra”. O menino, imóvel, olhava o pai. “Vai, vai, vai!”, o pai dizia, gesticulando.

O menino foi, visivelmente deslocado, sem muita convicção, sem entender porque cara@#&*  precisava parar de se divertir para ficar pulando pedrinhas. E o pai ainda assim não estava satisfeito. Continuava a “corrigir” o brincar do filho, cada vez mais impaciente, cada vez falando mais alto, dando mais ordens. Suspirava quando o menino não “acertava” o pulo –com um pé só ou dois.

Depois de tentar de tudo para agradar o pai, ainda que estivesse obviamente se desagradando, a criança simplesmente deixou de brincar e foi sentar-se num canto. Fosse um temperamento um pouco mais “forte”, o menino ao invés de se isolar talvez começasse a “incomodar” os adultos com comportamentos “ruins”. Aí diriam que ele é malcriado, que faz manha, birra, dá chilique. “Não sei o que tem esse menino. Não obedece nunca”. Superativo, precisa de ritalina. Sei…

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2)

Uma mulher e um garotinho brincavam juntos num Sesc. Não sei bem o parentesco entre eles, mas eram parentes. Ou ela era avó ou tia. Haviam pedido diversos brinquedos, alguns com números, outros de montar e ainda alguns jogos de adultos. O menino estava brincando fazia um bom tempo com um único deles, não me lembro bem qual.

Mas a acompanhante dele encasquetou que ele deveria parar o que fazia para brincar com o das peças de montar. “Olha, Fulano, vamos fazer um carrinho?”. E aí ela fazia, o menino assistia para, logo depois voltar ao brinquedo original. “Fulano, aqui tem esse ó, dá pra montar um monte de coisas legais”. Menino ainda na dele. A moça esperava um pouco e retomava a artilharia: “Que tal a gente brincar com esse de montar?”

Não interessa muito as razões dela. O menino estava seguro com o brinquedo que queria. As escolhas dele deveriam ter sido respeitadas. E estava óbvio que ele não queria brincar de montar nada. No fim das contas, de tanta insistência, o pequeno cedeu e foi montar sei-lá-o-quê com a tia/avó.

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3) 

Avó leva a neta de quatro anos num parquinho. A menina é inteligente e articulada para a idade. A avó, toda orgulhosa, me explica que é porque a menina é “superestimulada” pelos pais, dois professores universitários que investem tudo na educação integral da criança e que, em casa, ainda insistem em “puxar” a menina, oferecendo sempre atividades artísticas e de lazer que possam “contribuir” para o “aprendizado”.

Além de articulada, a menina tem muita energia e imaginação. Logo transforma o tanque de areia em piscina. Quando a avó percebe, vai lá “ajudar” e “superestimular” a neta, que está concentrada, brincando e falando consigo mesma. Quer dizer, estava, até a avó aparecer: “nossa, que piscina grande! Deixa eu ver se a água está boa (fingindo colocar os pés na areia-água)”. E continua: “o que você está fazendo? Por que você não atravessa a piscina nadando? Vem até aqui nesta margem nadando que eu vou marcar seu tempo (!!!)” “Poxa, como você nada bem! Que tal mergulhar agora?”.

A menina não brincou sozinha, não inventou situações. Viveu apenas as fantasias da avó, que não parou de dirigir a brincadeira da neta até elas irem embora, duas horas depois.

Todas essas situações relatadas acima são reais, presenciadas recentemente.

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Não fazemos isso por mal. Nem eu nem o pai ou a tia/avó ou a avó. Mas atrapalhamos um bocado mesmo sem querer. Tiramos a liberdade, a tranquilidade e a energia das crianças.

Não conseguimos respeitar a conexão delas com o agora, com o que estão fazendo (talvez porque não tenham respeitado a nossa e porque tenham nos ensinado a nos desconectar desde muito cedo). Atrapalhamos. Muito. O tempo todo. É enlouquecedor.

Comecei a ficar muito incomodada. Irritada mesmo. Só de ver. Só de ouvir.

Fico imaginando como se sentem as crianças com tanta gente tagarelando, interrompendo os fluxos naturais de concentração e o prazer de estar presente numa atividade que tenha despertando interesse.

E em boa parte das vezes, fazemos pior: além de atrapalhar falando, a fala em si pretende dirigir as ações dos menores. Sugerimos que prestem atenção nisso ou naquilo (e não no que eles já estão prestando atenção); que façam de um jeito “certo”, pois pretendemos “ensinar” como se “faz” ou simplesmente fazer com que façam aquilo que achamos que devem fazer, não o que querem fazer.

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Comecei a tomar o caminho inverso. Falo cada vez menos com Enzo –e, creia-me, já é muito. Quando estamos juntos brincando, sempre espero que ele tome a iniciativa de falar comigo. Se me perguntou algo, só respondo. Se a conversa continuar, será porque ele quis. Antes de abrir a boca, olho, olho, olho e olho mais uma vez e olho de novo. Para ter certeza absoluta de que não estou interrompendo nada. Não interfiro nas brincadeiras dele, não sugiro nada. Todos os brinquedos dele estão acessíveis em diversos cômodos da casa. Outros utensílios com os quais goste de brincar, idem. Não sou eu quem vai achar ou sugerir ou estimular o que fazer. Essa é uma prerrogativa dele. Meu papel é “apenas” garantir que ele tenha atividades adequadas à mão. E que esteja bem emocionalmente para ouvir a si mesmo e achá-las.

Ainda escorrego muitíssimo, porque sou tagarela. Mesmo. E adoro isso. Mas agora sei –em diversos níveis, não apenas racionalmente– como é que a coisa toda deve ser. Ter me permitido experimentar a massinha, ter procurado sentir a emoção do Enzo, está sendo essencial nesse processo. E, em contrapartida, tenho aprendido muito nessa observação. Tenho aprendido –ou me lembrado de– como é bom a entrega a uma tarefa que te enche de vida e te absorve e te coloca em contato com tudo e com nada ao mesmo tempo. As crianças são mesmo geniais. Estou tentando não estragar isso.

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Para ler mais a respeito desse assunto, recomendo muito:

-Esse post aqui, do Marcelo Michelsohn;

-O Lar Montessori, do Gabriel Salomão, e em especial esse post;

-O encontro com o silêncio da Ana Thomaz

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Arquivado em Maternidade, reflexões

porque eu quis, porque eu gosto, porque me dá prazer

A questão é que, em geral, o tempo que eu tenho para ler e para escrever é um só. Daí isso exige uma opção: ou leio ou escrevo. E ultimamente (como a frequência aqui no blog deixa claro) tenho optado por ler. Não por mera questão de preferência, mas por um detalhe prático. Dá pra ler na cama (coisa que eu adoro); dá pra ler por 10, 15, 2o minutos; dá pra ler um livro mais absorvente ou uma leitura menos sofisticada (se o sono é grande, pego um livro reportagem, uma biografia, por exemplo. Os mais bacanas deixo pra quando a entrega for possível, sabe como?); dá pra ler rapidinho enquanto o filho está sonolento, mas ainda não dormiu.

Dependendo de quanto seja exatamente o tempo livre, ler se adapta a diversas situações e possibilidades. Dá pra gozar uma boa leitura tendo um minutinho ou hora e meia.

Mas o texto, não. Ou sento em frente ao computador com concentração e desprendimento adequados, ou o post não sai. Se, depois de todas as tarefas cumpridas, restarem 20 minutos, nem abro o blog. Quando estou por aqui só é bom se for 100%. Escrever por obrigação, com prazo no pescoço, é o que faço pra ganhar a vida. O blog é outra coisa. É prazer mesmo. É terapia também. 50 minutinhos, no mínimo. É trocar e aprender com tanta gente fina, elegante e sincera que passa por aqui.

Tudo isso pra dizer que sim, tenho lido muito. Não, não tenho blogado quase nada. Muita coisa do dia a dia que adoraria compartilhar vai ficando sem registro. Outras eu boto lá no face. Tem diálogos impagáveis entre o filho e eu. Tem conclusões surpreendentes do pequeno. Tem perguntas do Enzo que eu respondo com outra pergunta, só pra ver o que ele descobre ou inventa por si mesmo. Nas duas situações (tanto descobrir quanto inventar) aprendemos muito, ele e eu. Eu principalmente. Aprendo que as respostas “certas” são só isso mesmo. “Certas” entre aspas.

Já as fabulações… São de tudo um pouco. Imaginação, bricolagem, sentimentos expressos, frustrações, desejos, criações. E tem muito mais potencial. Uma coisa imaginada pode gerar outras coisas, ideias, pode dar vazão a sensações, comunicar, colocar em movimento. Imaginação é fértil literalmente. Cria, gera. As respostas “certas” são estanques, vazias de sentido pra um menino tão pequeno, terminam em si mesmas, não geram coisa alguma. A menos que ele imagine outras perguntas. E crie novas respostas. Mas daí é a imaginação de novo, entende?

Então tenho parado de responder. Ou de sempre querer responder “enciclopedicamente”. Estou aprendendo a não me sentir mal por não saber tudo. E não querer, portanto, que meu filho saiba tudo. Não fui procurar ainda o nome científico da parte branca do olho, por exemplo. Enzo perguntou umas duas vezes, depois de pedir “dá o nome disso”, apontando pra minha íris. Na falta de uma resposta “certa” (disse que não lembrava, mas que iria ver e falaria depois), ele mesmo resolveu-se e achou explicação que fez sentido pra ele (sensacional, aliás). “Acho que a parte branca é a parte que segura e abraça a íris, mamãe”. E não é mesmo?

O meu filho me desescolariza, me faz mais flexível, mais presente no presente. Sempre disse que a infância é lírica demais. Menos racionalização. Mais sentido. Infância é toda poesia. A nossa vida adulta burocratizada é texto técnico. Não sei você, mas eu tenho apostado mais na poesia.

Tenho feito coisas por nada, só pelo prazer de fazê-las. É minha pequena revolução poética. Porque, nesse mundo de resultados, de planilhas, de sucesso-padrão, de trabalho produtivo como centro de uma vida cujo sentido é comprar e acumular cada vez mais, fazer alguma porque sim, porque quero, porque gosto, porque me dá prazer e me enche de vida e que não vai dar lucro pra ninguém, é praticamente uma subversão.

Uma vez eu li (ou ouvi) alguma coisa mais ou menos assim: pra saber do que você gosta, pense no que você faz quando ninguém (nem seu superego) está olhando. Bom, o que eu faço quando ninguém está olhando é isso: leio, ouço música, vejo filme, danço sozinha, canto no chuveiro, canto pro filho, escrevo aqui, escrevo acolá (tenho um blog fechado de contos e ficção, já contei?), bebo uma cerveja jogando conversa fora com o Dri, mando e-mails quilométricos pros amigos, brinco com o Enzo, durmo.

Tenho me metido numas coisas que eu nunca me permiti antes. Aprender a tocar violão, por exemplo. Irmão maestro me emprestou um livro, me deu outro de aniversário, descolou o violão propriamente, deu dicas. No youtube achei zentas vídeo-aulas e cá estou. Engatinhando e me divertindo horrores com minhas duas mãos esquerdas.

Outra: no ano passado, li um livro do Enrique Vila-Matas, “Dublinesca”, que me arrebatou de tal modo que resolvi ir atrás das principais referências literárias (das muitas) em que ele baseia sua história. As mais óbvias são Samuel Beckett (especialmente “Murphy”) e James Joyce (“Ulysses”, por supuesto). “Ulysses” já estava na minha lista havia muito tempo e na minha estante desde 2012, quando o Dri me deu a edição de bolso da Penguin Companhia, com a festejada tradução do Caetano Galindo.

Mas eu estava com um pouco de preguiça de começar sozinha essa empreitada. Eu queria trocar com outros leitores de Vila-Matas, de Beckett, de Joyce. Sempre fui assim, de gostar de pensar junto, de falar e de ouvir. Mas depois da maternidade acho que virei um ser ainda mais sociável, ao mesmo tempo em que curto cada vez mais minha própria companhia. Estar sozinha, assim como estar acompanhada (dependendo do momento) têm sido experiências igualmente ótimas.

Então convidei alguns amigos interessados em literatura e meu irmão, que geralmente topa minhas loucuras.

Pausa: quando penso em ter outro filho –e essa é uma ideia que às vezes baixa por aqui, ainda que sob protestos do marido–, sempre penso nisso por causa do meu irmão, das experiências e da infância compartilhada, das memórias compartilhadas, e também do companheirismo da vida adulta. Amor de irmão é uma coisa diferente de todos os outros afetos. Não sei se quero privar meu filho de provar esse sentimento. Despausa.

Alguns aceitaram e viramos três dispostos a essa jornada literária autoimposta. Era pra lermos “Ulysses”, depois Beckett. Zé, meu irmão, sugeriu outro arranjo: já que estávamos lendo obras mais antigas que inspiraram uma obra contemporânea, que tal começar pela obra original, que inspirou o próprio Joyce em “Ulysses”? Sim, botamos no topo da lista “Odisseia”, de Homero, em verso e na íntegra.

E aí eu me vi, mesmo com tanta coisa que tenho pra ler pro trabalho, pra estudo, pros grupos dos quais participo, pro mestrado, deixando todas essas “leituras necessárias” de lado e priorizando as 574 páginas de uma das obras mais antigas de que se tem notícia no Ocidente.

Por quê? Porque sim, oras. Porque é bom pacas. Porque adorei. Porque ri. Porque me emocionei. Porque é lindo. Porque é tosco às vezes. Porque é cheio de revelações sobre a subjetividade daquele grupo de pessoas que viveu por essas bandas há nove ou dez mil anos. Porque eles são nós. Porque o Homero (ou os homeros, ninguém sabe se esse cara realmente existiu ou se suas obras são criações coletivas sem autoria definida –e a gente achando que está inventando a roda com as colaborações via internet) foi o pioneiro nas “vinganças justificadas”. Porque, por mais inverossímel ou exagerada que nos pareça a saga do Odisseu, ela é bem contada como poucas coisas que li. Porque dá prazer ler. Muito prazer.

E tudo isso é consequência direta do que aprendo como mãe, com meu filho, com seu olhar fresco sobre o mundo e com sua ligação tão íntima com ele mesmo. Redescobri em mim, observando Enzo, um prazer íntimo e intenso com a literatura. Nunca deixei de gostar de ler. Mas perdi um pouco do tesão que eu tinha quando era mais nova.

E o que eu tenho percebido –e refletido publicamente por aqui– é que a gente perde o tesão justamente pelo que jamais poderia perder, por aquilo em nós que nos constitui. Daí buscamos numa coisa ou numa conquista ou numa outra pessoa preencher um vazio supostamente inato, mas que não nasce com a gente e que, na verdade, botamos no peito quando abrimos mão de amar o que nos move.

As crianças só amam o que as coloca em movimento, o que dá prazer. E isso é tão subversivo e, de certa forma, considerado perigoso, que tratamos logo, nós, adultos, de botar a criançada nas escolas, a primeira das muitas coisas brochantes, corta-tesão e alienantes que inventamos para nos distrair do que realmente importa, porque essa distração é pressuposto para toparmos levar essa vida sem sentido que levamos.

Durante muito tempo, na terapia (foram seis anos de análise até eu resolver me dar um descanso), eu busquei um sentido, uma resposta, uma explicação lógica. Pra mim, pra vida. Procurei um sentido na vida de um modo geral. Na minha vida particularmente. E sabe de uma coisa? Com a maternidade descobri que não é preciso buscar sentido. O sentido não nos escapa. Ele nasce conosco, ele meio que é o que nós somos. Conosco e em nós. O tempo todo.

Observando meu filho, comecei a pensar que não há um vazio fundamental na condição humana. Não há busca. Há pessoas, aquilo que as constitui, a vida que levam. E essa vida pode ser mais plena de sentido (não necessariamente de lógica, mas who cares?) e, portanto, menos “vazia”, quanto mais fiel essa pessoa for àquilo que lhe dá tesão, prazer. O sentido sempre esteve e estará aqui. As crianças sabem, nós também sabíamos.

Então, resumindo, se eu não escrevo mais frequentemente no blog, não é por falta de vontade ou por falta de ter o que dizer. É por amor. É por tesão. Amor que não me deixa vir aqui à toa. Amor que me leva a outras paixões, entre elas desenhar uma praia com nuvens com o filho e vê-lo, como eu vi hoje, botar os olhos da nuvem dentro da boca só porque ele achou mais bonito assim. E se pra ele é mais bonito assim –e a beleza é fundamental–, que assim seja, pois mais belo assim será.

Não escrevi esse post gigante (sorry, não consigo evitar, juro que tento) pra me justificar pelas ausências ou pra explicar coisa alguma ou com qualquer finalidade que seja. Escrevi só (só mesmo) porque quis, porque deu vontade, porque me deu um prazer enorme e me fez feliz. Um brinde, então (com cerveja gelada por aqui), às coisas “inúteis” e deliciosas.

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