Arquivo do mês: setembro 2014

o choro e a chuva

(*)

(*)

–Não, mamãe, ele não chorou porque já é adulto, e adultos não choram.

–Por que você acha isso?

–Porque adultos já aprenderam que, se não der pra fazer, têm que tentar fazer de novo até acertar.

–Bom, adultos talvez não fiquem frustrados por não conseguir destampar um pote, mas ficam por outros motivos. Se para criança abir uma tampa é difícil, para um adulto pode ser igualmente difícil realizar um trabalho, por exemplo. E aí adultos choram.

–Mas adultos já sabem. Não precisam chorar. Só bebês e crianças choram. Porque eles não sabem.

–Adultos não sabem tudo. E choram muito também.

–Não choram nada. Porque eu não quero que os adultos chorem.

–Você ficaria com medo se eles chorassem? Se sentiria assustado? Desprotegido?

–Com medo. “Despotregido”.

–Você acha que chorar é uma coisa feia ou errada? Ou que quem chora é frágil? Que adultos que choram não podem te proteger?

–Não sei. As mães às vezes falam que a gente não pode chorar. Não querem que a gente chore.

{Eu, a mãe em questão, quase choro, ali, bem na frente dele, bem na hora}

–É que os adultos –e as mães– erram, filho. Erram muito, erram feio. E falam muita bobagem, como isso.

******

Peguei ele no colo, coloquei bem do meu lado na cama, olhei bem nos seus olhinhos brilhantes e confusos. Ficamos um bom tempo assim, só eu e ele. E então foi que pensei na chuva. E no choro. No choro como chuva, como uma descarga elétrica emocional tão necessária para aliviar nossos sentires quanto a chuva o é pra água aliviar-se cá pra baixo.

–Sabe quando a nuvem fica cinza escura e você diz que está cheia de chuva?

–Ã-hã.

–O que acontece quando a nuvem está bem bem bem cinza e bem bem pesada?

–Chove.

–Chove o quê?

–Água, ué.

–É igual o choro.

Ele me olhou e sorriu, interessado. Curioso.

–Quando você está triste ou frustrado ou com raiva, você se sente mal?

–Ã-hã.

–Parece que tem assim uma coisa meio desconfortável crescendo bem no meio da sua barriga?

–Parece. Eu sinto mal.

–Essa coisa é como se fosse uma nuvem, que vai enchendo, enchendo, enchendo dessas sensações até ficar cinza bem escuro, como a nuvem. Aí precisa chover. E aí você chove.

–Aí eu choro?

–Isso, querido, aí você chora. Quando a nuvem estiver cinza, chore.

Ele sorriu, pediu pra dormir abraçadinho e dormiu.

******

E eu perdi o sono. Quando é que passamos a ser tão babacas? Quando é que passamos, assim, definitivamente, a não acolher mais nada nem ninguém? A ignorar o que há de mais puro, mais belo e mais genuíno? Quando é que passamos a tirar dos filhos o direito de chorar –e não apenas de expressar emoções, mas principalmente de extravasar esses sentimentos? São cri-an-ças. Crianças lidando com um mundão de sensações novas e assustadoras. E não podem sequer chorar. Por que nós, os “adultos” supostamente maduros, não aguentamos um pitizinho. Ta-que-pa-riu!

Choram porque não abriram sozinhas a tampa da tinta guache. Sim! Com todo o direito e toda a razão do mundo. Porque é foda ser criança, ser pequeno, sentir-se indefeso e dependente e não conseguir sequer destarrachar uma porra duma tampinha ridícula. São crianças, mas não idiotas. Sabem-se crianças. Sabem-se limitados pacas em muitas coisas que gostariam de fazer. E foda-se que temos pressa e achamos que chorar pela tampa não-aberta é frescura. Frescura é a nossa, que reclamamos –como o bando de adultos mimados que na verdade somos– por ter de lidar com o sentimento de frustração tão genuíno quando, do alto da nossa “importância”, sequer conseguimos ser empáticos com a dificuldade sincera dos nossos filhos.

Pior que não abrir uma tampinha de guache sozinho –coisa pra qual uma criança pequena realmente ainda não tem força e habilidade suficientes– é essa sensação de ter força e habilidade, mas mesmo assim não fazer. Por cegueira. Por preguiça. Por adultismo.

Quanto de abandono e repressão ainda seremos capazes de impor? Quão babacas ainda seremos? Por quanto tempo? Quanto choro nosso foi brutalmente reprimido quando éramos crianças? Quando finalmente cresceremos e nos tornaremos adultos a ponto de acolher as crianças –as que fomos, as que somos e as que geramos?

Vou lá ver a lua –dizem que está linda– que aqui dentro agora chove um bocado.

(*) “Rain”, de Dario Moschetta, veio daqui.

Anúncios

10 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões

castigo não é consequência

“Vocês podem fazer o que quiserem, desde que arquem com as consequências”. Essa é uma frase bastante conhecida e usada por pais, cuidadores, educadores ou adultos em posição de poder. Já foi dita para nós, quando crianças, e já foi usada por nós também, como forma de controle do comportamento infantil.

A frase, que até parece logicamente correta, embute duas sacanagenzinhas. A primeira delas –e talvez mais óbvia– é tentar fazer parecer que o interlocutor não está ameaçando o ouvinte, quando na verdade é precisamente isso que está fazendo. De um modo mais sutil, mas ainda assim uma ameaça.

A segunda é confundir propositalmente consequência com castigo. Porque na imensa maioria das vezes em que a frase é proferida, a “consequência” será uma punição, criada e definida pelo sujeito em posição de poder, o que é muitíssimo diferente de consequência natural de qualquer ação.

E a consequência disso é que crescemos confundindo os dois termos e ainda hoje, na educação dos nossos filhos, muitas vezes castigamos –o que é inútil, como bem explica o pediatra catalão Carlos Gonzalez— e, precisamente por isso, impedimos nossos filhos de vivenciarem suas ações para aprenderem com elas –o que seria papel da tal consequência, muitas vezes substituída, em nosso dia a dia, pelas punições.

Estou escrevendo sobre isso agora porque me parece cada mais essencial, para educar meu filho, separar as duas coisas. As crianças, assim como nós, aprendem pelas experiências, experimentando a vida e as consequências de suas ações –que, ao contrário dos castigos e do terror implícito na frase inicial deste post, são boas também. Daí a consequência natural ser muito mais educativa que qualquer punição –até porque leva à reflexão e facilita às crianças construírem a si próprias a partir de si próprias e não de modelos pré-definidos que chegam de fora.

Em seu blogue sobre a psiquiatra e educadora italiana Maria Montessori, Gabriel Salomão distingue muitíssimo bem castigo de consequência –e foi a partir dessa distinção que eu entendi o que era uma coisa e o que era outra, embora nunca tenha sido adepta da punição (só não entendia o que era a tal consequência). Se uma criança derruba comida no chão, a única consequência é chão sujo.

Em geral, quando algo assim acontece, adultos costumamos focar na ação “errada” da criança –a displicência na hora da comida, por exemplo–, e “dar um sermão”, chamar a atenção, brigar, gritar, ofender, humilhar (“você não faz nada direito!”, “ainda não aprendeu a segurar direito essa colher?”) e/ou criar outras punições e castigos além dessas citadas para “evitar” o “erro”. “Derrubou no chão? Então não vai mais brincar com seu brinquedo predileto hoje”.

Quando o castigo é modelo de “educação”, foca-se principalmente a ação, não no aprendizado e muito menos na criança –como se ela fosse má por natureza e precisasse ser consertada, um equívoco imenso, acho que nem preciso dizer. E, além disso, estabelece-se, muitas vezes,  padrões de ação muito mais elevados do que a criança é capaz de seguir.

Só que a consequência da ação fica onde num modelo de educação como esse? Quando e como a criança entrará em contato e vivenciará aquilo que sua ação produziu?

Ao castigar, impedimos a criança de experimentar seu erro (limpando o chão, por exemplo), geralmente punimos de forma completamente desconectada logicamente do que aconteceu (o que sujar o chão tem a ver com brinquedo favorito?) e ainda reforçamos a percepção infantil de amor condicional. Ou seja, um amor condicionado a determinado tipo de comportamento da criança.

Proibir uma criança que, para ficar nesse exemplo, sujou o chão de brincar com seu brinquedo preferido é uma punição que na certa não contribuirá para que a criança consiga controlar-se melhor nas próximas refeições.

Limpar o que sujou sim, ajudará. Isso é consequência, isso é experimentar o “erro”. E aprender com ele. Para Montessori, numa situação como a descrita acima, o que o educador precisa fazer, no máximo, é oferecer à criança um pano e um balde com água e mostrar a ela como fazer a  limpeza. Sem reprimendas. Sem sequer mencionar o “erro”. Sem raiva ou julgamentos. Aliás julgamento deveria ficar sempre longe de qualquer relação –amorosa principalmente. Não é fácil, pois sempre fomos julgados e somos nossos principais julgadores. Mas é um bom exercício de aprendizagem esse, para nós mesmos.

Não há lado bom no castigo. E só aprendizado onde há experiência, onde a vida pode ser experimentada.

ADENDO (dia 12/9, às 00h31): nos comentários, a Jaqueline Lima, do Ver de Mãe, comentou sobre um texto dela que trata de como encaramos o erro das crianças –e os nossos também. Recomendadíssimo! Para ler, vá por aqui; vale muito a pena e também tem a ver com a questão do castigo x consequência.

4 Comentários

Arquivado em Uncategorized