castigo não é consequência

“Vocês podem fazer o que quiserem, desde que arquem com as consequências”. Essa é uma frase bastante conhecida e usada por pais, cuidadores, educadores ou adultos em posição de poder. Já foi dita para nós, quando crianças, e já foi usada por nós também, como forma de controle do comportamento infantil.

A frase, que até parece logicamente correta, embute duas sacanagenzinhas. A primeira delas –e talvez mais óbvia– é tentar fazer parecer que o interlocutor não está ameaçando o ouvinte, quando na verdade é precisamente isso que está fazendo. De um modo mais sutil, mas ainda assim uma ameaça.

A segunda é confundir propositalmente consequência com castigo. Porque na imensa maioria das vezes em que a frase é proferida, a “consequência” será uma punição, criada e definida pelo sujeito em posição de poder, o que é muitíssimo diferente de consequência natural de qualquer ação.

E a consequência disso é que crescemos confundindo os dois termos e ainda hoje, na educação dos nossos filhos, muitas vezes castigamos –o que é inútil, como bem explica o pediatra catalão Carlos Gonzalez— e, precisamente por isso, impedimos nossos filhos de vivenciarem suas ações para aprenderem com elas –o que seria papel da tal consequência, muitas vezes substituída, em nosso dia a dia, pelas punições.

Estou escrevendo sobre isso agora porque me parece cada mais essencial, para educar meu filho, separar as duas coisas. As crianças, assim como nós, aprendem pelas experiências, experimentando a vida e as consequências de suas ações –que, ao contrário dos castigos e do terror implícito na frase inicial deste post, são boas também. Daí a consequência natural ser muito mais educativa que qualquer punição –até porque leva à reflexão e facilita às crianças construírem a si próprias a partir de si próprias e não de modelos pré-definidos que chegam de fora.

Em seu blogue sobre a psiquiatra e educadora italiana Maria Montessori, Gabriel Salomão distingue muitíssimo bem castigo de consequência –e foi a partir dessa distinção que eu entendi o que era uma coisa e o que era outra, embora nunca tenha sido adepta da punição (só não entendia o que era a tal consequência). Se uma criança derruba comida no chão, a única consequência é chão sujo.

Em geral, quando algo assim acontece, adultos costumamos focar na ação “errada” da criança –a displicência na hora da comida, por exemplo–, e “dar um sermão”, chamar a atenção, brigar, gritar, ofender, humilhar (“você não faz nada direito!”, “ainda não aprendeu a segurar direito essa colher?”) e/ou criar outras punições e castigos além dessas citadas para “evitar” o “erro”. “Derrubou no chão? Então não vai mais brincar com seu brinquedo predileto hoje”.

Quando o castigo é modelo de “educação”, foca-se principalmente a ação, não no aprendizado e muito menos na criança –como se ela fosse má por natureza e precisasse ser consertada, um equívoco imenso, acho que nem preciso dizer. E, além disso, estabelece-se, muitas vezes,  padrões de ação muito mais elevados do que a criança é capaz de seguir.

Só que a consequência da ação fica onde num modelo de educação como esse? Quando e como a criança entrará em contato e vivenciará aquilo que sua ação produziu?

Ao castigar, impedimos a criança de experimentar seu erro (limpando o chão, por exemplo), geralmente punimos de forma completamente desconectada logicamente do que aconteceu (o que sujar o chão tem a ver com brinquedo favorito?) e ainda reforçamos a percepção infantil de amor condicional. Ou seja, um amor condicionado a determinado tipo de comportamento da criança.

Proibir uma criança que, para ficar nesse exemplo, sujou o chão de brincar com seu brinquedo preferido é uma punição que na certa não contribuirá para que a criança consiga controlar-se melhor nas próximas refeições.

Limpar o que sujou sim, ajudará. Isso é consequência, isso é experimentar o “erro”. E aprender com ele. Para Montessori, numa situação como a descrita acima, o que o educador precisa fazer, no máximo, é oferecer à criança um pano e um balde com água e mostrar a ela como fazer a  limpeza. Sem reprimendas. Sem sequer mencionar o “erro”. Sem raiva ou julgamentos. Aliás julgamento deveria ficar sempre longe de qualquer relação –amorosa principalmente. Não é fácil, pois sempre fomos julgados e somos nossos principais julgadores. Mas é um bom exercício de aprendizagem esse, para nós mesmos.

Não há lado bom no castigo. E só aprendizado onde há experiência, onde a vida pode ser experimentada.

ADENDO (dia 12/9, às 00h31): nos comentários, a Jaqueline Lima, do Ver de Mãe, comentou sobre um texto dela que trata de como encaramos o erro das crianças –e os nossos também. Recomendadíssimo! Para ler, vá por aqui; vale muito a pena e também tem a ver com a questão do castigo x consequência.

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4 Comentários

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4 Respostas para “castigo não é consequência

  1. Oi Natalie,
    Gostei muito que tenha tratado este tema. Estou passando aki rapidinho e depois volto para compartilhar umas reflexões que tenho sobre isso.
    Bjão
    Jaqueline Lima

  2. Oi Natalie,
    Fui a uma palestra da Martha Gabriel ontem que me suscitou um monte de reflexões que associei a outras ideias que já estavam me ocupando e também ao seu post, e escrevi um texto sobre isso. Cito o seu relato tb. Se tiver um tempinho, confere lá: http://verdemamae.blogspot.com.br/2014/09/margem-de-erro-devaneios-de-uma-mae-que.html
    Bjo,
    Jaqueline Lima

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