o choro e a chuva

(*)

(*)

–Não, mamãe, ele não chorou porque já é adulto, e adultos não choram.

–Por que você acha isso?

–Porque adultos já aprenderam que, se não der pra fazer, têm que tentar fazer de novo até acertar.

–Bom, adultos talvez não fiquem frustrados por não conseguir destampar um pote, mas ficam por outros motivos. Se para criança abir uma tampa é difícil, para um adulto pode ser igualmente difícil realizar um trabalho, por exemplo. E aí adultos choram.

–Mas adultos já sabem. Não precisam chorar. Só bebês e crianças choram. Porque eles não sabem.

–Adultos não sabem tudo. E choram muito também.

–Não choram nada. Porque eu não quero que os adultos chorem.

–Você ficaria com medo se eles chorassem? Se sentiria assustado? Desprotegido?

–Com medo. “Despotregido”.

–Você acha que chorar é uma coisa feia ou errada? Ou que quem chora é frágil? Que adultos que choram não podem te proteger?

–Não sei. As mães às vezes falam que a gente não pode chorar. Não querem que a gente chore.

{Eu, a mãe em questão, quase choro, ali, bem na frente dele, bem na hora}

–É que os adultos –e as mães– erram, filho. Erram muito, erram feio. E falam muita bobagem, como isso.

******

Peguei ele no colo, coloquei bem do meu lado na cama, olhei bem nos seus olhinhos brilhantes e confusos. Ficamos um bom tempo assim, só eu e ele. E então foi que pensei na chuva. E no choro. No choro como chuva, como uma descarga elétrica emocional tão necessária para aliviar nossos sentires quanto a chuva o é pra água aliviar-se cá pra baixo.

–Sabe quando a nuvem fica cinza escura e você diz que está cheia de chuva?

–Ã-hã.

–O que acontece quando a nuvem está bem bem bem cinza e bem bem pesada?

–Chove.

–Chove o quê?

–Água, ué.

–É igual o choro.

Ele me olhou e sorriu, interessado. Curioso.

–Quando você está triste ou frustrado ou com raiva, você se sente mal?

–Ã-hã.

–Parece que tem assim uma coisa meio desconfortável crescendo bem no meio da sua barriga?

–Parece. Eu sinto mal.

–Essa coisa é como se fosse uma nuvem, que vai enchendo, enchendo, enchendo dessas sensações até ficar cinza bem escuro, como a nuvem. Aí precisa chover. E aí você chove.

–Aí eu choro?

–Isso, querido, aí você chora. Quando a nuvem estiver cinza, chore.

Ele sorriu, pediu pra dormir abraçadinho e dormiu.

******

E eu perdi o sono. Quando é que passamos a ser tão babacas? Quando é que passamos, assim, definitivamente, a não acolher mais nada nem ninguém? A ignorar o que há de mais puro, mais belo e mais genuíno? Quando é que passamos a tirar dos filhos o direito de chorar –e não apenas de expressar emoções, mas principalmente de extravasar esses sentimentos? São cri-an-ças. Crianças lidando com um mundão de sensações novas e assustadoras. E não podem sequer chorar. Por que nós, os “adultos” supostamente maduros, não aguentamos um pitizinho. Ta-que-pa-riu!

Choram porque não abriram sozinhas a tampa da tinta guache. Sim! Com todo o direito e toda a razão do mundo. Porque é foda ser criança, ser pequeno, sentir-se indefeso e dependente e não conseguir sequer destarrachar uma porra duma tampinha ridícula. São crianças, mas não idiotas. Sabem-se crianças. Sabem-se limitados pacas em muitas coisas que gostariam de fazer. E foda-se que temos pressa e achamos que chorar pela tampa não-aberta é frescura. Frescura é a nossa, que reclamamos –como o bando de adultos mimados que na verdade somos– por ter de lidar com o sentimento de frustração tão genuíno quando, do alto da nossa “importância”, sequer conseguimos ser empáticos com a dificuldade sincera dos nossos filhos.

Pior que não abrir uma tampinha de guache sozinho –coisa pra qual uma criança pequena realmente ainda não tem força e habilidade suficientes– é essa sensação de ter força e habilidade, mas mesmo assim não fazer. Por cegueira. Por preguiça. Por adultismo.

Quanto de abandono e repressão ainda seremos capazes de impor? Quão babacas ainda seremos? Por quanto tempo? Quanto choro nosso foi brutalmente reprimido quando éramos crianças? Quando finalmente cresceremos e nos tornaremos adultos a ponto de acolher as crianças –as que fomos, as que somos e as que geramos?

Vou lá ver a lua –dizem que está linda– que aqui dentro agora chove um bocado.

(*) “Rain”, de Dario Moschetta, veio daqui.

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10 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões

10 Respostas para “o choro e a chuva

  1. Esse texto me tocou muito, talvez por ter ouvido tanto “não precisa chorar”, e quem (além de mim) sabe quando eu preciso ou não chorar?! Por enquanto, faço diferente com meu irmão e digo que ele pode sim chorar o quanto precisar, tentarei me esforçar ao máximo para fazer diferente com meus filhos também.

    • Isabelle,

      é dolorido mesmo lidar com os nossos choros reprimidos e nos descobrir no papel de repressores de choros alheios.

      Fico muito feliz que você não repete esse modelo com seu irmão nem fará com seus filhos! É o que tento aqui, às vezes com sucesso, outras nem tanto.

      bjos e obrigada

  2. Lívia

    MUito interessante a reflexão!Tenho pavor de ver crianças tentando não chorar porque o pai ou mãe fala: “engole o choro” e aí fica aquele choro reprimido e a criança começa até a soluçar…Que coisa horrível!Tem uns que ainda falam: se chorar vai apanhar!E aí o programa mega educativo #sqn da Supernanny ainda afirma que criança não pode chorar sem motivo porque senão fica no cantinho da disciplina…Mas todo choro tem motivo!Pode não ser motivo válido para mim, pra vc, mas pra quem tá chorando é!!!
    Lívia

    • Lívia,

      esse supernanny é tão equivocado, mas tão equivocado que dá medo. tratam crianças como se fossem ratinhos de laboratório e, plus, criança está sempre errada pra essa gente. é como se tivessem nascido com defeitos que só os adultos iluminados pudessem corrigir (na verdade, é quase o contrário…). enfim, lamento profundamente essa cultura da violência contra a infância. e sim, todo choro tem motivo. e deve ser acolhido. um dia a gente aprende. 😉

      bjos e obrigada,

  3. Que texto lindo! Vixe, minha filha ainda vai me ver chorando muito. Vai descobrir rapidinho que adultos choram pq a mamãe aqui é uma torneira quebrada. Mas se tem uma coisa que ela nunca vai ouvir de mim é a horrível frase “engole o choro!”. Não tem coisa mais cruel pra se dizer a uma criança, e até hj vejo gente fazer isso com os filhos. :/
    Olha só, tenho um blog que falo, entre outros assuntos, sobre minhas descobertas e experiências como mãe de primeira viagem. Se puder passar lá pra conhecer, fica o convite. Vamos trocar figurinhas! 🙂
    Beijos!
    http://www.baudabijou.com.br

    • Obrigada, Bijou!

      essa do “engole o choro” é mesmo de cortar o coração. e infelizmente muito frequente de se ouvir por aí. que bom que você chora fácil! 😉 quando mais choro, menos emoções estagnadas! vou visitar seu blog com certeza. será um prazer. uma das coisas mais bacanas da “madresfera” é trocar figurinhas mesmo, nessa eterna conversa de comadre. não dizem que é preciso uma aldeia pra criar uma criança?

      bjos e obrigada

  4. Parabéns pelo texto: criatividade e profundidade.

  5. Que texto lindo, Nat! Lindo!!!

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