Arquivo do mês: outubro 2014

espelho meu

Cada um tem o filho que merece, dizem. E muitas vezes essa frase soa pouco empática e bastante acusatória, como se esse “merecimento” fosse um castigo. Mas gosto de enxergar nela outro sentido. As crianças interagem com aquilo que somos, não com as máscaras. Ouvem o que sentimos, não o que dizemos. Mais que isso: veem e respondem também àquela parte que somos mas não gostaríamos de ser –ou o que não somos, mas gostaríamos de ser. De modo que, em suas muitas demandas, acabam por exigir de nós que, pelo menos, reconheçamos o que nos falta, as nossas ausências todas, e a presença delas na medida em que nos limitam. Se estivermos abertos a isso, os filhos nos colocam em contato direto com nossas pretensas impossibilidades e, portanto, nos facilitam o caminho na direção de deixá-las menos “im”  e mais “possibilidades”. A potência tão à flor da pele nas crianças potencializa a potência em nós.

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No sentido contrário, também nós enxergamos nos filhos (e não só neles…) aquilo que não queremos ver em nós. Não vemos o que vemos. Vemos o que somos. Em boa parte das vezes em que reagimos com impaciência ou irritação às demandas dos pequenos, estamos reagindo àquilo em nós que nos negamos e reconhecer e que aparece clara e limpidamente no comportamento das nossas crias. Dito de outra forma, os filhos nos revelam duplamente a nós mesmos: quando nos enxergam como somos e se comunicam com o “outro” que vive em nós e também quando nós vemos esse “outro” refletido nas atitudes dos nossos filhos que tanto nos “provocam”.

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Faz um tempo, levei meu filho a um parque para andar de triciclo. A pedido dele. Chegou lá ele deu duas pedaladas, disse que estava cansado e propôs –meio “choroso”– que eu o empurrasse. Neguei, ele desistiu de brincar. Aquilo me irritou muito. O primeiro pensamento consequente à irritação foi algo como: “ele me faz andar de casa até aqui, nesse calor, porque quer se divertir e acaba sendo incapaz disso. Estou perdendo tempo! Me esforço à toa!”

Fui reconhecendo uma série de “sombras” nesse pensamento: 1) autopiedade e autovitimização.

2) O grau de empatia é quase zero. As palavras que qualificam o outro, no caso, meu próprio filho, são duras e injustas.

3) Eu, adulta, me coloco na condição de vítima da criança, como se a intenção do pequeno fosse realmente me provocar ou prejudicar e como se eu tivesse sido obrigada a acompanhá-lo ao parque ao invés de ter escolhido ou assumido a responsabilidade de fazê-lo como cuidadora que sou. Não fui ao parque coagida. Filho pediu e eu decidi ir, decidi assumir como tarefa de mãe –que de fato é– proporcionar essa oportunidade, percebe? Mas na hora de narrar esse, digamos, acontecimento, escolhi, ainda que inconscientemente, me “desresponsabilizar” e me colocar no papel passivo: “ele me faz vir (…)”.

4) Algo que fiz pelo meu filho e que é uma responsabilidade minha é encarado, talvez inconscientemente, como um favor, como um esforço ou uma concessão, pela qual a criança deveria ser eternamente grata. Superioridade condescendente. Adultismo. Não construí a narrativa como se eu fosse um igual que convive, que cede e negocia com alguém em igualdade (alguém que também me concede, talvez em maior medida inclusive), embora dependente. Mas como aquele que merece ser agradecido por outro pelo simples fato de existir e estar, momentaneamente, presente.

5) Refiro-me a tempo e a esforço como se lidar com outro ser humano e, nessa relação, assumir e cumprir responsabilidades e tarefas, conceder, agir para o bem do outro etc fossem espécies de “investimentos”. A pergunta é: fui ao parque para ver meu filho feliz e lhe garantir oportunidade de ser criança, brincar, experimentar a infância ou levei o pequeno para que ele cumprisse um determinado papel e alcançasse algum objetivo (andar de triciclo tantos minutos e, portanto, cumprir uma hipotética cota diária de atividades físicas para se encaixar em algum padrão)?

6) Do item 5 chega-se ao 6: se me filho cumprisse à risca a expectativa que eu criei, aquilo no qual afirmei que “investi” tempo e esforço, eu teria me sentido certamente uma “mãe melhor”, que tem um filho “feliz”, que brinca com seu triciclo o tempo “adequado” como qualquer criança “normal”.

7) A expectativa é uma merda. E recai sobre o filho porque, note bem no parágrafo anterior, é cobrança que faço a mim mesma. O “filho perfeito” que imagino faz sentido porque eu preciso ser “a mãe perfeita”, saca?

8) E, ao fim e ao cabo, o mais estarrecedor e talvez menos evidente à primeira vista, mas sem dúvida mais nocivo para a relação mãe-filho e o que mais contribui para uma desconexão e uma falta de presença minhas que, sem dúvida, contribuem para meu filho ser mais dependente (quando pede pra eu empurrá-lo, por exemplo) e menos consciente de si mesmo: o pensamento –a narrativa– gira 100% em torno do meu umbigo. Cadê meu filho –de verdade, não a ideia de um filho– em toda essa situação (desde a irritação e ao longo de todo o pensamento em que conto a mim mesma a razão da irritação)?

Ana Thomaz propõe um exercício (que ela chama de trabalho) muito interessante nesse sentido de expor, por intermédio do outro, aquilo que queremos evitar em nós. É um exercício de autoconhecimento, pois, como ela mesma diz aqui, neste vídeo, a gente não se isola pra se conhecer; a gente só se conhece em relação, na relação com o outro.

Depois de muito trocar sobre isso no grupo de mães e pais do qual faço parte no facebook, me decidi a ir testando esse exercício, que consiste, resumidamente, em: reafirmar a você mesmo as críticas que faz ao outro, como se elas fossem a você.

No caso da minha irritação com o pequeno, naquele momento no parque em que, ambos injuriados, começávamos a voltar para casa, eu classifiquei meu filho como “preguiçoso”. “Ele não se empenha, não se esforça, desiste facilmente ao primeiro obstáculo, mesmo querendo muito determinada coisa”.

Passada talvez uma semana desse episódio, foi quando finalmente reafirmei esse julgamento me colocando dessa vez como alvo não como juíza. “Eu não me empenho, não me esforço, desisto facilmente ao primeiro obstáculo, mesmo querendo muito determinada coisa”.

Então, começou um processo de autoquestionamento, muito sutil e até muito pouco racionalizado ou organizado Fui me fazendo perguntas, deixando algumas inquietações virem à tona e, ao mesmo tempo, deixei as questões todas e as angústias todas seguirem seu rumo, sem tentar encontrar as respostas a: que empenho seria esse? que esforço seria esse? em que medida? o que espero que eu mesma faça para sentir que me empenho e me esforço? pelo quê? que obstáculos são esses? quando desisti facilmente? de quê? o que desejo e não me esforço pra conseguir? qual é a insatisfação comigo mesma que afinal projetei no meu filho?

Segundo a criadora do “método”, Ana Thomaz, não é preciso fazer nada além de reconhecer a sombra refletida no outro para “limpar” as energias estagnadas e dar ao corpo (que ela define também como parte do inconsciente) a senha pra “trabalhar” a situação.

O curioso (pra mim que sou cética mesmo com aquilo que, como é o caso, faz sentido) é que “funcionou”. Reconhecer a “preguiça”, a falta de energia e de determinação –uma certa inércia em mim mesma– fez com que, à revelia de qualquer avaliação consciente ou racional, eu pusesse, sem ao menos me dar conta, diversos projetos que me são caros e que estavam parados novamente em movimento.

Ao mesmo tempo em que, ainda que fundamentalmente eu continue sendo a mesma pessoa, passei a ir pra relação com o filho sem essa “bagagem”, sem essas emoções estagnadas minhas –como a autocensura ou a “autoexpectativa” não atingida– que se interpunham entre a gente.

Deixei de lado uma certa irritação latente, que, como toda irritação latente, não fazia parte do meu encontro com meu filho, mas de minha relação primária mal resolvida comigo mesma.

Descobri, meio por acaso, na prática (e é sempre na experiência que aprendemos porque é na experiência que nosso corpo, nosso inconsciente, sente e elabora) que, ao se abrir aos filhos, ao que eles exigem de nós e também àquilo que exigimos deles (portanto ao nosso reflexo neles), nos franqueamos uma infinidade de possibilidades de autodescoberta e de incorporação da nossa “sombra” àquilo que de fato somos ou podemos ser.

O mais incrível? Depois que eu apenas reconheci que a irritação dirigida supostamente ao meu filho era, na verdade, uma irritação comigo mesma, o pequeno simplesmente abandonou o comportamento “preguiçoso” que me irritou –ou que serviu de veículo pra eu expressar um descompasso que estava relegado à sombra. Uma vez que me vi refletida e aceitei meu reflexo, deixou de ser necessário mirá-lo de novo e de novo e de novo. A ficha caiu.

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“Quero ressaltar que não importa se nossa mãe (ou cuidadores) ‘fez tudo certinho’. Não importa se foi uma mãe fenomenal, calma, paciente, sacrificada ou justiceira. O que os filhos necessitam para criar seres alinhados com seu ser essencial e em profunda conexão consigo mesmos, é que seus cuidadores compreendam a si mesmos. Se não tivermos cuidadores adultos e maduros, consciente de seus próprios estados emocionais e sua história, essa sabedoria não será derramada sobre as crianças. Por isso, é pouco provável que as crianças quando cresçam olhem para suas vidas em estado de total consciência. Tornar-nos adultos é tomar as rédeas de nossas vidas, atravessar os bosques para enfrentar de frente nossos dragões internos, olhá-los nos olhos e ao final desse caminho cheio de perigos, decidir quem sou eu. A partir desse momento, seremos totalmente responsáveis pelas decisões que tomamos em nossas vidas em todas as áreas, incluindo a capacidade de não encerrar nossos filhos (se os temos) nos personagens que sejam mais convenientes para nós.”

Trecho do livro “La Biografía Humana: una nueva metodología al servicio de la indagacion personal”, de Laura Gutman, citado recentemente no facebook pela Anna Gallafrio.

 

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Arquivado em Maternidade, reflexões