Arquivo do mês: julho 2015

tão feliz e selvagem

a capa e o olhar infantil que define a narrativa (*)

a capa e o olhar infantil que define a narrativa (*)

Estou para fazer uma resenha desse livro há um tempo, desde que comprei para a cria, positivamente influenciada por essa outra resenha aqui, da Luciana Conti e seu Gato de Sofá, de quem sou fã e leitora. O livro, no caso, é “Selvagem“, da havaiana Emily Hugues, e conquistou Enzo e eu logo de cara, ainda numa primeira leitura na livraria. É um dos preferidos do filho, e fica fácil entender os vários motivos.

As ilustrações são lindíssimas, fortes (como só as sutilezas e delicadezas podem ser), coloridas, expressivas. Se comunicam muito bem com as crianças. Tanto que o filho atraiu-se especialmente pela capa, pelos olhos imensos, felizes e negros da “menina selvagem”, que fitam o leitor de um modo alegre, desafiador e convidativo.

Quando o desafio é aceito (geralmente prontamente) e o livro é aberto, então se percebe que a escolha da capa não foi aleatória. É uma das muitas metáforas que fazem a obra tão interessante. Explico: uma das coisas mais bacanas de “Selvagem” é a perspectiva narrativa, completamente construída a partir do olhar da menina que, criada com os animais desde bebê, um dia, sem mais nem menos, é arrancada de seu “habitat” e sofre uma tentativa de “civilização”.

Não há, nem sutilmente que seja, o ponto de vista do adulto, moralizador, instando a criança-leitora a contemporizar a frustração e o desencanto da personagem com sua nova vida na cidade. Ao contrário do que acontece nas fábulas e também em obras para adultos com temática similar, não é a menina criada na selva quem precisa ser “salva” ou protegida, mas, sob a ótica dela, é a cidade que está toda “errada”. E assim a narrativa se dá, assumindo claramente um ponto de vista não hegemônico e lançando um olhar bem definido –o da “menina selvagem”– ao mundo que conhecemos e no qual, na verdade, não é preciso se enquadrar.

Outra das metáforas, a principal delas, selvagem x civilizado, pode não ter leitura tão óbvia e é cheia de camadas sutis. Por exemplo: Emily Hugues é uma havaiana radicada em Londres, uma imigrante. Não importa o quão bem sucedida seja na “nova” sociedade que adotou, sempre será uma “outsider“, alguém com costumes,  olhares e perspectivas diferentes. Em geral (e claro que não falo de Hugues em particular, pois não sei de sua história de vida esse tanto) não raramente essas diferenças são vistas pelos “locais” como “erros” a serem “corrigidos”. Não deixa de ser significativo que Hugues inverta o senso comum em “Selvagem” e tache como “errados” justamente aqueles que tentam “corrigir” o espírito livre –e diverso– da menina-personagem.

Mesmo que se tome o caminho mais óbvio e se opte por ler “Selvagem” como a contraposição entre a liberdade da “selva” e o preço conformador da “civilização, a narrativa revela múltiplos significados, entre eles a dicotomia entre criança e adulto. A história, ainda mais da forma como é contada, não deixa de ser também sobre as crianças e o processo de “educação” ao qual as submetemos, como se elas precisassem ser “corrigidas”, “consertadas” e como se suas respostas inatas a questões cotidianas (comer instintivamente com as mãos e brincar destruindo coisas, por exemplo) não dessem conta de prepará-las para o desenvolvimento, sendo necessária a intervenção “civilizatória” do adulto. O que é, precisamente, o contrário.

“os corvos a ensinaram a falar”

Os pequenos identificam-se rapidamente e, em geral, aliam-se à criança “universal” que a “menina selvagem” representa. Perguntei certo dia ao meu filho qual era a parte do livro de que ele mais gostava, e a resposta não poderia ser outra: as cenas em que a personagem é livre e vive na selva com os animais.

No entanto, foi a nuance de “natureza” e de “felicidade” que me chamou a atenção. Natureza, onde vivia a “menina selvagem” antes de ser “resgatada”, pode não ser apenas o strictu sensu, o mundo não manipulado pelo homem, a selva. Há a própria natureza humana, a essência, aquilo em nós que nasce conosco e nos define. As crianças, “felizes e selvagens”, são especialistas em dar vazão a essa essência. Uma criança não pensa”quem sou”, porque ela simplesmente é. E sendo, ela manifesta e concretiza essa natureza.

A narrativa nos conta que a personagem sempre estivera na selva, “e isso fazia sentido”. Depois, reforça que, na civilização, “ela não entendia nada, e ficou infeliz”. A felicidade da menina depende, como a nossa, do que faz sentido para ela, não para qualquer outro grupo. A felicidade, nesse caso, não é uma construção, um objetivo, uma conquista (como parece ser no que acredita o ocidente), mas um estado em que se é aquilo que se é e que se vive o que se é. Para ser feliz basta ser.

eles falavam errado, e ela não entendia nada e ficou infeliz

eles falavam errado, e ela não entendia nada e ficou infeliz

Portanto, a natureza metafórica –e também literal– de que trata “Selvagem” ainda está em choque com a “civilização”, num sentido mais amplo, mais profundo, de possibilidade de existência material e psicológica da natureza original em nós no mundo über “civilizado” e muito violento em que nos metemos.

No fundo, quando as crianças dão piti na fila do supermercado, quando se recusam a comer com garfos, quando se tornam agressivas ou resistentes (aos nossos olhos), quando “fazem manha”, quando não cooperam deliberadamente, quando põem “a casa abaixo” (como faz a personagem em uma cena de “Selvagem”), metaforicamente ou não, podem estar “apenas” (o que não é pouco) sinalizando que, talvez sem perceber, as estamos tirando cada vez mais cedo, mais rápido e mais violentamente da “selva” particular em que fazem sentido e são suas próprias naturezas.

(*) As fotos são minhas mesmo. Tirei do livro do filho. Então, releve 😉

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Serviço:

“Selvagem”, de Emily Hugues (tradução de Maria Luiza X. de A. Borges, do original “Wild”)

40 páginas

Pequena Zahar

1ª edição em 2015

R$ 39,90

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Arquivado em artes, literatura infantojuvenil