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criança não é pública

Adultos: afeto é o máximo, desde que eu queira também! #fik dik (*)

Adultos: afeto é o máximo, desde que eu queira também! #fik dik (*)

Filho e eu passeando rapidamente num shopping, à tarde, logo depois da escola. Não lembro bem da razão da visita, mas com certeza passamos por ali para comprar alguma coisa que usaríamos em seguida. Granola, arrisco. Tem uma loja de produtos naturais que vende pela metade do preço do praticado pelo supermercado mais próximo de casa.

Uma mulher, talvez uns 30 anos, pouco menos, trabalha numa loja de utilidades domésticas. É simpática e falante. Sempre tenta estabelecer um diálogo com o filho, que foge dela. Sempre foi assim. E suspeito que o interesse da moça pelo pequeno seja justificado exatamente por ele não gostar muito de papo com estranhos e, às vezes, reagir com rispidez à insistência alheia.

Bom, nesse dia, ao passarmos em frente à loja onde a mulher trabalha, Enzo foi pego de surpresa. Ela não estava lá dentro, mas perto dele no corredor, provavelmente voltando de algum lugar. A moça agarrou, ligeira, meu filho por trás e tascou-lhe um beijo na testa, à força, enquanto ele se debatia e eu protestava.

Satisfeita pela conquista, a moça ensaiou dizer alguma coisa, diante da minha surpresa-silêncio, mas foi interrompida antes mesmo de começar. Foi interrompida por uma criança indignada –com toda a razão– que, mesmo mais frágil em muitos sentidos, aumentou a voz e se fez ouvir até o final do que tinha para dizer:

–Eu nunca mais vou deixar você me beijar! Você nunca mais vai fazer isso! Nunca mais!

–Mas eu só queria fazer um carinho em você…

–Não, não queria nada! Você queria me obrigar! Carinho é diferente! Carinho é o que minha mãe faz em mim, e ela só me beija quando eu quero!

A moça desconcertou. E eu também. Por não ter sido eu a expor à mulher o adultismo e o desrespeito do que acabara de fazer. Pois a criança e seus sentimentos nomearam com clareza o que tinha acontecido. “Você queria me obrigar a te satisfazer, não queria me dar carinho, porque carinho pressupõe que eu consinta e também queira”. Voilà.

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Criança não é pública. Se você não tocaria ou beijaria, à força, um estranho na rua, por que acha que pode fazer isso com uma criança? Criança é tão sujeito quanto eu ou você. Para conversar, receber ou dar afeto, precisa consentir. Assim como eu ou você. Criança não veio ao mundo para satisfazer carência de adulto adultista.

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Sobre esse tema, recomendo a leitura desse e desse posts. O primeiro é do ótimo site Paizinho Vírgula!, do Thiago Queiroz, pai de dois queridos, sobre o absurdo naturalizado de se obrigar bebês e crianças a beijar, abraçar e se relacionar com todo mundo (como se nós, adultos, fizéssemos isso também…). O segundo é da roteirista Renata Corrêa, mãe, feminista, que pondera sobre riscos de, mais velhas, as crianças não conseguirem identificar com clareza seus desejos e limites em relação a afetos e sexualidade se, na infância, as ensinarmos a conceder e aceitar a aproximação sempre que um adulto quiser.

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(*) Imagem da genial ilustradora italiana Beatrice Alemagna. Veio daqui, projeto recomendadíssimo de entrevistas com ilustradores infantis bacanas. Vale a visita nem que seja pra babar nas ilustras. 😉

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conversa comigo, mamãe

Daí que o pequeno tem ficado meio irritado com a presença da minha mãe, mesmo nas poucas vezes em que encontramos com ela. Hoje à tarde, por exemplo, tomando um café, deu pitis homéricos por motivos que normalmente não o tirariam do sério daquele jeito. Comecei a reparar, não só de hoje, que ele parecia ficar incomodado com a atenção que eu dava às outras pessoas. Um indício: hoje, num dos momentos mais tensos, quando ele estava se acalmando, retomei assunto que tinha interrompido com minha mãe; imediatamente ele começou a chorar de novo e me disse: “não conversa com a vovó, conversa com o Enzo, mamãe!”

Resolvi falar com ele sobre isso. À noite, em casa, depois do banho, estávamos deitados no sofá brincando e vendo um dos desenhos prediletos dele, só esperando a hora de tomar o leitinho e ir pra cama. Achei um bom momento e comecei o diálogo:

–Por que você não gostou quando a mamãe conversou com a vovó à tarde?

–Porque é ruim.

–E por que é ruim?

–Por que não é bom.

{Ah, a simplicidade e a lógica das crianças… Fofo!}

—E por que não é bom?

–Porque Enzo sente falta.

–De quê? De conversar com a mamãe?, “chutei”.

–É, de conversar com a mamãe.

Pronto. Chegamos ao que realmente estava incomodando. Não era a colher de plástico que quebrou ou o suco que ele queria/não queria tomar. A “birra” não era nem com a avó. Enzo não estava fazendo “manha” (como muitos me disseram). Estava, na verdade, ressentindo a perda da atenção. Estava avisando, a seu modo, que sentia-se excluído naquele grupo que se formou, em que muitos adultos falavam, por muito tempo, coisas de adultos sem inclui-lo na conversa.

{Natural, não? Se alguns amigos se reúnem e a conversa fica restrita a apenas parte deles, os excluídos se ressentem. Em geral, com adultos, tentamos nem deixar as coisas chegarem a esse ponto. Já com as crianças… E depois ainda dizemos que elas é que são “não-civilizadas” por gritar no meio de um restaurante, por chorar “à toa”. Depois ainda brigamos com elas porque choram, gritam, esperneiam sobre a nossa óbvia falta de educação e civilidade.}

Sigo cada vez mais convencida de que manha não existe. O que existe são crianças aprendendo a lidar com sentimentos fortes e contraditórios, aprendendo a conviver com eles, aprendendo a expressá-los. E o que existe são adultos dispostos a ajudar ou a atrapalhar os pequenos nessa jornada.

Pedi desculpas ao Enzo pelo meu descuido, prometi que vou procurar não fazer mais isso, expliquei a ele que vejo pouco a vovó e que, quando isso acontece, são tantos assuntos pra por em dia que realmente falamos muito; reforcei, com ênfase, que gosto de conversar com ele e da companhia dele.

Ele sorriu, me abraçou, repetiu parte do que expliquei (como sempre faz), pulou no colo do papai, agradou a gata e pediu tetê “puquê Enzo qué dumi”.

Silenciosamente, agradeci meu filho pela paciência e por nunca desistir de me ensinar coisas, de me querer, de me chamar, de me mostrar o que significa respeito. Agradeci também Carlos González por ter me ensinado que uma criança merece tanto respeito quanto um adulto e muito mais cuidado do que um (óbvio, não?). E ainda a Laura Gutman porque foi ela que me mostrou que é preciso conversar com as crianças, sinceramente e sempre, não importa quantos anos elas tenham. Sempre vão entender um coração sincero, uma conversa sincera e sempre se farão entender se o ouvinte também tiver um coração aberto a isso.

As crianças são geniais!

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uma cama para cinco

Daí que filho está gripado. Daí que o pequeno ainda não sabe ao certo como funciona esse treco complexo que os adultos chamamos “assoar o nariz”. Daí que o problema não é apenas ter de respirar pela boca na maior parte do tempo. Mais complicado é que o catarro não expelido adequadamente se assenta na garganta e gera tosses, muitas tosses.

Daí que essas crises de tosses, às vezes, vêm fortes, bravas, irrompem sem aviso prévio e só param quando Enzo vomita. Vomita de tanto tossir. Daí que, para dormir à noite, fica um tanto mais complicado. Enzo acorda diversas vezes por causa das tosses e os pais mal dormem preocupados com o pequeno. Solução: pai sugere trazer o filho pra cama do casal, já ocupada pelos dois e pela gata (*). Mãe topa e, com o a chegada da criança e do Pimpão (o urso de pelúcia), os cinco se espremem para caber no (pequeno) espaço que lhes compete embaixo do edredom.

Enzo já dormiu na nossa cama antes, claro. Mas nunca desde o início da noite. As vezes em que o bebê divide o colchão com a gente acontecem no finzinho da madrugada, começo da manhã, quando ele acorda me chamando. Em geral, eu costumava levantar e niná-lo até dormir. Depois, berço de novo. Acontece que ele pesa, hoje, 14 kilos e é filho de uma mulher que teve escoliose na infância. Não posso com peso e estava sendo muito, mas muito difícil ninar Enzo por 20, 30 ou até 40 minutos. Foi aí que, coisa de uns dois meses atrás, Dri teve um bela conversa com nosso filho numa dessas madrugadas em que ele queria passar tempo no meu colo antes de dormir de novo. Propôs dormirmos juntos na cama e, daí em diante, eu nem levanto mais para pegá-lo. Dri vai lá e traz Enzo pra deitar do meu lado. Coluna agradeceu horrores.

Mas foi a gripe, por essas vias meio tortas, que botou o pequeno entre a gente desde o comecinho da noite, oficialmente, não como um arremedo de madrugada, mas como o lugar certo para se dormir desde que se deita. E quer saber? Adoramos. Porque é muito bom dormir apertadinho com quem se ama, ué. Porque é divertido. Porque dá uma sensação de aconchego e acolhimento sem igual. Porque sentir filho botando a mãozinha no seu rosto pra ver se você está mesmo ali é de uma ternura difícil de descrever. Porque numa dessas noites, acordei (eu também estou gripada, o que dificulta dormir bem) e vi Enzo enroladinho no papai, cabecinha no ombro, agarrado ao braço do Dri, coisa mais linda. Porque é gostoso e ponto final.

Adotamos a cama compartilhada de vez? Não. Mas mais por causa do Enzo do que nossa. Na terceira noite dormindo com a gente, ele mesmo pediu pra voltar para o berço, creia. Não se acostumou muito com a confusão de gente se virando para lá e para cá a toda hora. E ele é bem espaçoso para dormir, gosta de ficar atravessado, braços e pernas abertas, o que fica meio impossível quando se bota dois adultos, um menino, uma gata e um urso de pelúcia em apenas 1,3o metro de largura.

Mas, depois dessas experiências, me arrependo horrores de não ter compartilhado cama com o pequeno desde sempre. Se tiver um segundo filho, certeza que farei diferente. É como aconteceu com uma amiga minha: primeiro filho, seguiu à risca as indicações e “conselhos” dos “especialistas” de sempre, esses que aparecem em todas as revistas, sites e livros de maternidade. Botou o bebê para dormir em quarto separado logo que voltaram da maternidade. Com a segundinha, o oposto. Botou marido pra dormir com o mais velho e levou a nenê pra cama de casal. Resultado: noites melhores dormidas para todos os envolvidos, amamentação exclusiva sem a menor dificuldade (primogênito complementou), livre-demanda, bebéia tranquila, apegadinha, mas bem mais independente que o irmão mais velho na mesma idade.

Quando Enzo nasceu, eu era ainda mais ignorante sobre a bebezice do que sou hoje. Já tinha descoberto alguns blogs maternos, mas, apesar de interessada em várias ideias novas apresentadas por aqui, o desconhecimento e a insegurança me faziam pender um pouco  mais para o lado “mainstream” da maternidade, aquele que sai mensalmente na “Crescer” e na “Pais & Filhos”, aquele representado lindamente (só que não) na TV pela “Supernanny” e suas ideias autoritárias, desrespeitosas e inócuas de disciplina.

Eu era tão carente de conhecimento e de amadurecimento que projetava um ideal de maternidade –que espelhava, claro, minhas necessidades infantis de ser “perfeita” e “ganhar uma estrelinha no caderno” da sociedade, da família, dos amigos no final do ano–  no qual eu seria melhor mãe tanto mais quieto, educado e obediente fosse meu filho. Quanto mais Enzo se parece com uma boneca, tanto melhor mãe eu seria.

Daí que, para isso, nada “melhor” que meter as caras nesses livretinhos de auto-ajuda materna aos montes por aí e ouvir os “conselhos” da pitaqueirada de plantão de sempre (o que inclui familiares de todos os graus, médicos, estranhos e até enfermeiras da maternidade. Porque qualquer um, qualquer um mesmo, sempre se sente no direito de te dizer como educar seu filho. Para mim, essa é, sem dúvida, a coisa mais irritante da maternidade). E eu acabei fazendo um pouco isso no começo mesmo.

E os conselhos em geral diziam (e dizem) o seguinte, basicamente (vou exagerar, mas é bem pouco): 1) Filho bom é filho absolutamente submisso e treinadinho pra só chorar quando tiver fome; 2) Mãe que é mãe tem mais o que fazer na vida do que dar peito, dar colo, dar atenção, dar amor etc. Então bote logo esse nenê no lugar dele, que é naturalmente o carrinho, o berço, outro quarto (quanto mais longe do seu, melhor); 3) A vida é dura aí fora, portanto, nada de tratar esse nenê como se ele fosse…er… um… nenê. Ele tem que aprender a se virar, né não? 4) Jamais, em hipótese alguma, coloque seu filho no mesmo quarto que vocês. Isso dá em divórcio por falta de sexo (porque, né?, só é permitido transar na cama e à noite. Se o bebê estiver lá…) e porque o seu marido vai sentir ciúme do filho (lógico, todo homem tem o desenvolvimento emocional de uma criança de quatro anos e vai rivalizar com a própria cria). Além do mais: cama compartilhada gera dependência (bebê tem que nascer adulto já, minha gente!). Pode até ser agradável, delícia mesmo, mas, mãezinha, agora que você tem um filho, tem deixar de lado essas coisinhas à toa, sabe? Maternidade não é gostoso, maternidade é padecer no paraíso, mãezinha, lembra? Maternidade é disciplina. É ensinar seu filho a lidar com esse mundo cruel. Não seja boazinha com ele, não facilite a vida desse bebê, não acostume essa criança no colo, não crie um filhinho-de-mamãe. Supernanny nele! Cantinho do pensamento nele! Deixe chorar no escurinho do quarto, sozinho, no berço, até dormir!

Não comprei toda essa baboseira aí de cima, mas uma parte, infelizmente, sim. Eu achava mesmo que seria uma boa mãe se disciplinasse meu filho desde pitiquinho, se ele “aprendesse” a dormir sozinho desde sempre, se tivesse horários rígidos e mamadas de três em três horas.

Sorte nossa é que mãe tem instinto. Forte. Imperativo. Acho que foi isso que me fez começar a dar mais ouvidos às outras mães da madresfera que aos especialistas de sempre. Foi isso que me fez decidir por botar Enzo dormindo no nosso quarto desde que chegamos do hospital. Não na nossa cama (que pena!), porque eu tinha medo de machucá-lo. Mas no quarto. Ficou dormindo com a gente por quase um ano. E foi ótimo. Mas teria sido ainda melhor se fosse na cama. Calor humano, sabe? E era isso que eu queria, que nosso instinto –o meu e o dele– pedia. Frustramos um desejo bem genuíno. Lamento. E lamento ainda mais agora, que experimentei de fato. Putz, é bom, é o “certo”. Não o certo universal que não acredito nisso. Mas o certo pra mim, entende? Eu já tinha virado, depois de tudo que aprendi na madresfera com tantas mães maravilhosas que encontrei por aqui –e também com González, com Gutman, com Gerhardt, com Odent, com Uplinger–, uma entusiasta teórica da cama compartilhada. Agora, apesar da pouca experiência, virei uma entusiasta prática.

Hoje mesmo, Enzo veio pra nossa cama às 5h45 da matina. E apesar de só ter voltado a dormir às 7h50, foi bom, foi ótimo, foi gostoso, foi natural. Hoje, e cada vez mais, acho mesmo que o lugar das crianças pequenas é com os pais. Fisicamente com os pais. No colo, na cama, grudadinho no sofá. Contato, calor, pele-com-pele, carinho, toque delicado. Isso diz muito, muito mais que qualquer  “eu te amo”.

Fica cada vez mais fica evidente pra mim, como já dizia Montessori há duzentos anos, que as crianças são naturalmente impulsionadas para a independência. É natural, a gente não precisa fazer nada, só estar ali do lado, dando condições para que os filhos deem os próprios passos quando for a hora. E esse é o ponto: quando for a hora. Quando o filho está pronto, ele se vira sozinho sem precisar ser “ensinado”. Ninguém precisa ensinar bebê a dormir sozinho. Se ele ainda não faz isso, é porque precisa de colo, ué! Porque isso é o natural para ele naquele momento de seu desenvolvimento. Não se precisa treinar uma criança a usar o penico. Quando ela estiver pronta, vai partir dela a iniciativa para o desfralde. Não precisa tirar filho da cama dos pais. Quando ele estiver pronto, ele vai pro quarto dele sozinho, como fez Enzo e como fez a Clara, filha da Lígia Moreira Sena, aos 3 anos.

Então fica aqui meu relato e minha sugestão: se você tem vontade de oferecer cama aos filhos, vai fundo. Porque pode dar muito certo. E porque é bom, bom demais. Aqui tem um post muito bom e muito completo sobre cama compartilhada, com um viés científico, escrito pela Lígia e pela Andrea Mortensen, duas cientistas que pesquisam o tema há tempos. Super recomendo.

(*) Pela verdade dos fatos: a cama é da gata desde sempre. Ela é quem chega primeiro, se espalha e, depois, permite que Dri e eu deitemos no canto que sobra. Não sei se ela tem curtido muito a ideia de dividir seu espaço com Enzo e Pimpão, mas até agora ainda não reclamou…

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“vai ser cada vez mais interessante viver neste planeta”

“Conheci” a Laura Uplinger no trailer do documentário “O Renascimento do Parto“. Mas ainda não sabia bem quem era. Pesquisei um pouco mais depois de receber uma indicação de uma amiga. Cheguei à página dela e me encantei com o trabalho que desenvolve e com as reflexões que propõe.

Daí achei esse vídeo –que é só um trailer– e resolvi compartilhar:

Resolvi compartilhar porque me provocou muitas reflexões e trouxe uma série de informações novas. E também porque deu uma acordada em ideias que estavam meio adormecidas por aqui, desde os tempos em que li González e Gutman pela primeira vez.

Faz tempo que tenho pensado sobre o tipo de sociedade que somos, especialmente no que diz respeito à acolhida (ou não) que damos à infância, reflexão constante da Uplinger. Do parto cesáreo agendado às escolinhas, babás, mil e tantas aulas, mil e tantos compromissos. Se não respeitamos nem o tempo das crianças, pra mim é óbvio que não as respeitamos como crianças.

No vídeo, Laura diz uma coisa que eu não tinha percebido: desde muito tempo, sempre que uma mulher teve dinheiro, delegou a terceiros os cuidados com os filhos. Mas isso está mudando, e talvez sejamos a primeira geração de mães para quem a maternidade ganhou a importância que realmente merece. Como já me disse uma vez a Mari Zanotto, não há nada mais político nessa vida que educar cria. E é disso que se trata esse vídeo da Laura. Vale a pena.

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a vergonha alheia e o respeito pelos sentimentos dos bebês

Sabe o que de mais importante eu tenho aprendido com meu filho? Que “nós”, os adultos, e “eles”, os bebês e crianças, não somos assim tão diferentes quanto o metro e meio de altura a mais (no nosso caso) nos faz crer.

"Mother and Child", obra da Susan Stockdale (*)

“Mother and Child”, obra da Susan Stockdale (*)

A “descoberta” começou num inocente passeio de domingo, há umas três semanas. Enzo estava correndo numa arquibancada, segurando minha mão. Mesmo assim, tropeçou e levou um tombinho bem leve. Reagiu super mal, chorou horrores, gritou, saiu correndo, não aceitou conforto, afago, palavras amigáveis, nada, nada, nada. Qualquer tentativa de aproximação, preocupação ou acolhimento era recebida com gritos, choros e palavras de ordem: “Não! Não! Não! Não!”

No meio dos protestos, ele começou a dizer que estava “bavo”, “bavo”, “bavo” e, sem querer-querendo, deu a deixa de que eu precisava para tentar um diálogo. “Bravo por que, filho?” O pequeno começou a apontar em direção às pessoas que estavam na quadra. Olhava para as crianças –com as quais estivera brincando até pouco antes do tombinho–, apontava para elas, gesticulava com a testa franzida, olhos cheios de lágrima e, em seguida, mostrava o local onde tinha caído. E recomeçava a chorar. “Bavo, bavo, bavo”.

Fiquei confusa com aquela gesticulação toda, os balbucios, o choro, a “baveza”. Demorou um pouco, confesso, mas a ficha caiu. E quando caiu, não tive dúvidas, mas perguntei: “Você ficou com vergonha, filho?”.

-Aaaaah! Gonha, gonha, gonha!

Pronto, o filho voltou a sorrir. Eu tinha entendido, finalmente, o que ele estava tentando me dizer. E aí se acalmou imediatamente, veio se sentar no meu colo e conversamos longamente sobre o tombo, a raiva (que ele traduziu como “bavo”), a vergonha. Perguntei se ele tinha ficado envergonhado por cair simplesmente ou por cair na frente das pessoas. E descobri que a frustração foi por ambas as coisas, mas mais por ser num local público, cheio de gente.

Descobri que Enzo, apesar da pouca idade, é muito exigente consigo, não gosta de errar. Pior ainda se o erro for cometido com testemunhas. Expliquei que todo mundo cai, que todo mundo já caiu. Dri e eu mostramos a ele algumas cicatrizes e sinais, contamos como e quando nos machucamos daquele jeito. E isso tranquilizou o pequeno, pelo menos em relação àquele tombo.

E –mais importante– descobri que, embora ainda um bebê, meu filho já tem noção de si mesmo, sentimentos complexos  e uma vida emocional que, em geral, gostamos de atribuir apenas aos adultos. Quando uma criança cai e chora, na maioria das vezes, nos esforçamos ao máximo para sufocar o choro, minimizar os sentimentos dela, diminuir a importância do que essa criança está sentindo. A resposta padrão é sempre “não foi nada”, ou “logo passa” ou ainda o infame “antes de casar, sara” (eu detestava ouvir isso!).

Costumamos menosprezar os sentimentos das crianças. Dizemos que, se choram “demais” porque caíram, são “manhosas”, “birrentas”, “carentes”, “querem chamar a atenção”. Não somos empáticos com elas, não nos colocamos em seus lugares, não procurarmos enxergar o mundo pelos olhos delas e aí perdemos a oportunidade de perceber que elas somos nós. Que elas sentem como nós, só que com mais intensidade (ainda não têm o arcabouço racional, fisicamente falando inclusive, que nos permite organizar emoções e lidar melhor com as questões emocionais).

Carlos González (de novo ele, eu sei, mas fazer o que se o cara é bom?) foi o primeiro que me alertou, em seu ótimo “Besame Mucho“, para esse, digamos, fenômeno. Ele sustenta, e eu concordo, que tratamos as crianças como quase-pessoas, não como pessoas propriamente. Não respeitamos –e sequer admitimos– os sentimentos delas, não imaginamos que também se envergonham, que também se irritam, que se assustam, que se frustram e que todo esse emaranhado de emoções precisa ser expressado.

Quando um filho expressa o que sente, tratamos logo de dizer que “passa” ou que aquilo é “manha” e, portanto, o melhor a fazer é ignorar.

Por que fazemos isso? “Sei lá” seria a resposta mais honesta. Mas vou chutar outras alternativas. Uma delas é que somos ignorantes mesmo. Ponto. Sabemos pouquíssimo sobre a psicologia e o desenvolvimento emocional dos bebês e das crianças muito pequenas, dito por uma das mais reputadas especialistas no assunto, a britânica Sue Gerhardt.

(((Ela é psicoterapeuta e estudiosa da neurologia de bebês e crianças ainda na primeira infância. Escreveu o altamente recomendável “Why Love Matters” (infelizmente ainda sem edição em português), que evidencia como o amor e o tratamento carinhoso e respeitoso nos primeiros três anos de vida modificam para melhor a estrutura física do cérebro.)))

Nós não sabemos porque os bebês agem como agem e tendemos, então, a avaliar suas ações pelo conhecimento que temos do mundo emocional adulto. Logo, um bebê que ignora um “não” está “testando limites” ou simplesmente testando a paciência dos pais, desafiando. Se chora por alguma coisa que não compreendemos ou que, para nós, não tem importância, então são “manhosos”, “choram para chamar a atenção”. Se ficam irritadiços “à toa”, são “mimados” ou “não tem limites”.

São poucas as vozes discordantes. Duas delas já citadas. Tanto Gonzalez quanto Gerhardt defendem que, assim como os adultos, crianças têm mau humor, dias ruins, se impacientam e estressam com coisas aparentemente banais, mas que podem ser, na verdade, “gotas d’água” em processos emocionais desgastantes que ficam alheios aos adultos. Afinal, bebês não falam ou não falam bem e –plus– entendem muito pouco do que acontece consigo mesmos para expressar com exatidão o que sentem e porque sentem.

Também dizem claramente o seguinte: suportamos adultos “dando chiliques”, sendo grosseiros, se comportando mal. Ninguém vê um adulto nervoso e diz: “ah, seu manhoso, está bravo por quê? Quer um motivo real para ficar bravo? Vem cá!”. Nosso esforço, ao contrário, é sempre no sentido de tentar: a) entender o motivo da explosão e 2) acalmar o dito cujo. Por que não fazer o mesmo com nossos filhos, tão mais frágeis, inconstantes e realmente necessitados desse tipo de apoio?

Até os especialistas mais “mainstream”, que reproduzem o senso comum e esta postura desconfiada em relação às boas intenções das crianças, como o pediatra norteamericano Harvey Karp (autor, entre outros, de “O bebê mais feliz do pedaço” e “A criança mais feliz do pedaço“), reconhecem que é preciso muito mais de empatia que de desconfiança na hora de educar filhos. Karp diz em várias passagens de seus livros que acredita que os bebês sintam de forma muito parecida com a nossa, com o agravante de que entendem ainda menos do que “a gente grande”  sobre o que estão sentindo, o que, claro, aumenta a reação.

Alguns estudiosos levantam boas hipóteses sobre o funcionamento, por assim dizer, dos bebês (lá vamos nós falar de novo do González, da Gerhardt, do Winicott). Parte deles chegou a provar teorias interessantes (caso dos citados e também de Melanie Klein, John Bowlby), mas essas teorias não repercutiram entre a maioria dos pediatras, profissionais de saúde (física e mental)  e das mães da nossa geração  (ou da geração das nossas mães).

Arrisco dizer que não repercutiram porque eram –e são– francamente contrárias (sob um ponto de vista bem limitado) ao “espírito do tempo” das nossas gerações. Quem ia querer saber de colo em tempo integral se o “bacana”, o “moderno” é mãe que tem carreira? Quem ia querer saber do prazer da amamentação se prazer mesmo a gente encontra é no shopping?

Estou exagerando na descrição só pra mostrar as contradições. Não acho que mulher não deva ter carreira (eu tenho uma e amo!), ou que não possa gastar com o que bem entender ou que seja culpada disso ou daquilo. Só usei esses exemplos pra dizer que a sociedade do consumo, que ganhou força incrível depois das duas guerras do século passado, nos fez crer em um monte de coisas, infantilizou toda uma geração, só pra vender mais. Nesse contexto, olhar o outro de frente, com maturidade e respeito, não faz sentido. Se for uma criança então, piorou. Soma-se a isso o fato de que a infância já não era mesmo muito respeitada mundo afora (a “invenção” da infância é bem recente) e pronto. O pouco de conhecimento que temos sobre a vida psíquica das crianças pequenas vem sendo ignorado de propósito há tempos.

Daí, voltando pro meu exemplo prosaico e singelo, meu filho, tão pequeno, me dá um bela de uma lição e traduz, em atos, o que esses caras todos aí de cima levaram anos estudando. Ele sente sim. “Tombinho”, pra mim, é coisa séria pra ele. E, sim, mamãe, é preciso respeitar e acolher, ajudar o pequeno a processar a vergonha, o medo, a frustração e a raiva, que são sentimentos humanos, tanto dos “grandes” quanto dos “pequenos”.

Dizem o próprio Karp e, com muito mais propriedade, a Laura Gutman (**) que somos nós, pais/mães e adultos, que precisamos nomear os sentimentos dos filhos para ajudá-los a entender o que se passa com eles e, dessa forma, aprender a lidar (um pouco melhor) com as emoções. E foi precisamente na medida em que eu nomeei a vergonha de Enzo que o sentimento passou a fazer sentido e o choro perdeu sua função primordial, a comunicação.

De lá pra cá Enzo fala muito, muito mesmo sobre sentimentos. Virou um “bavinho”, pois qualquer pequena frustração que tem, corre me contar anunciando que está “bavo”. Até faz graça com isso, é preciso dizer, e às vezes fica “bavo” de mentirinha. De todo o modo, também é preciso dizer, praticamente não faz “birra” no sentido clássico do termo e simplesmente não chora mais para expressar qualquer sentimento que tenha. Sempre fala o que está sentindo e isso resolve ou alivia o conflito, seja dele com ele mesmo seja dele com a gente (quando negamos alguma coisa, por exemplo).

Além do mais, as crises de frustração, que duravam bem mais, agora são rápidas e levam, em geral, o tempo de uma conversa. Também sinto que a ligação e a confiança mútuas aumentaram. Sei que essa confiança vai fazer a diferença no nosso relacionamento –e no relacionamento dele com outras pessoas– quando for maior e isso, por si só, já será muito.

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(*) Susan Stockdale é uma artista norteamericana, ilustradora de livros infantis, que eu conheci fuçando no Etsy (loja virtual de arte, design e quinquilharias bonitinhas diversas). A imagem, aliás, é de lá mesmo, vá por aqui se quiser mais detalhes.

(**) Recomendo muito uma série de vídeos de uma palestra da Gutman sobre seu livro “El poder del discurso materno“. Aqui embaixo, o primeiro trecho de 7, que valem a pena.

Dá pra ir assistindo às outras partes pelo próprio navegador do You Tube (por aqui). Altamente recomendável.

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laura gutman: só lendo

Comecei a ler a Laura Gutman. Quem é mãe blogueira e frequentadora assídua da madresfera sabe bem de quem estou falando.Para quem ainda não sabe, Laura Gutman é uma psicóloga argentina, especializada em amamentação e no atendimento a crianças e casais. “Militante” da criação por apego, é fundadora da Escola Capacitação Crianza, onde atende mães e bebês e promove cursos para profissionais da saúde e doulas.

Laura escreveu o que acho que seja o mais importante livro sobre maternidade da nossa geração,  “A maternidade e o encontro com a própria sombra“,  justamente o que estou lendo agora, numa “sentada” só (impossível parar de ler!). Entre (muitas) outras coisas, ela mostra de que forma emoções que consideramos “ruins” e que pretendemos não reconhecer (a nossa “sombra”) se refletem nos nossos filhos.

Ela fala de gravidez, de parto, de amamentação, de comportamentos e doenças infantis, do papel dos homens, do prazer das crianças (e da nossa reação a ele), de limites e comunicação, de sono, de violência. E escreve sobre tudo isso com uma profundidade que eu não tinha encontrado antes em nenhum  “especialista”  que ousei ler.

A leitura de  “Maternidade”  é, ao mesmo tempo, prazerosa e dolorida. Gutman afaga e acolhe na medida em que nos ajuda a reconhecer que muitas das nossas falhas são “explicáveis”por um sistema de coisas que é alheio à nossa vontade; mostra que a maioria das nossas inclinações maternas –aquilo que a gente tem vontade genuína de fazer de bom pros filhos, mas que a sociedade recrimina–são heranças femininas que carregamos conosco há milênios e que, em última análise (como já disse Carlos González), permitiram a sobrevivência da espécie humana por essas bandas.

Mas também é soco no estômago porque nos força a reconhecer que a parte de nós que nos esforçamos tanto para esconder nossos filhos trazem à luz. É difícil engolir que, de repente, aquela atitude que tanto irrita na criança é apenas RESPONSABILIDADE sua ou a manifestação externa, no bebê, de um conflito SEU.

Também pode ser complicado para algumas mães refletir sobre a maternidade que praticam. Gutman, assim como González, adota o ponto de vista do bebê. Ou seja, não se preocupa muito em passar a mão na cabeça das mães. Ao contrário, aponta como funciona a psiquê dos pequenos, a “fusão” com a mãe nos dois primeiros anos de vida, a “exterogestação”, que dura os primeiros nove meses, e a consequente importância que a figura materna tem na formação da personalidade das crianças. Sem medo de cutucar as mães, ela mostra o IDEAL de maternidade para a CRIANÇA (não para a mãe, nem para o marido, tampouco para o mercado de trabalho).

Enfim, muito mais do que um manual do tipo “faça isso, não faça aquilo”, o livro é uma espécie de “reflexão guiada” sobre si mesma e sobre o universo da formação da personalidade dos bebês. É profundo e libertador.

Mesmo ainda na metade, recomendo. Ainda ruminando o que tenho lido, separei algumas frases para compartilhar por aqui:

“O selvagem torna todas as mulheres saudáveis. Sem o lado selvagem, a psicologia feminina fica desprovida de sentido”.

“O mundo seria outro se as salas de parto fossem menos silenciosas, se no início da relação entre os seres humanos houvesse espaço para as emoções, se a desumanização não abrangesse as áreas da boa vinda ao mundo”.

“Quando as situações injustas são correntes, perdemos a noção de liberdade”.

“Talvez este [o parto] seja o espaço mais sutil encontrado por toda a sociedade para se permitir exercer o controle, os maus-tratos e o ódio sobre o poder infinito das mulheres que estão parindo”.

“Quando [o bebê] mama com mais frequência, isso não acontece, necessariamente, pelo fato de o leite não ser suficiente. Pelo contrário, é porque é um bebê ativo, conectado e feliz”.

“Um bebê se constitui um ser humano na medida em que está em total comunicação com o outro, de preferência a mãe. (…) o tempo todo de colo, calor, abrigo, movimento, ritmo”.

“A possibilidade de sugar, ingerir e satisfazer a fome deveria estar disponível cada vez que o bebê pedisse”.

“Deveríamos refletir sobre o poder que exercemos sobre elas [as crianças], na posição de adultos, dizendo arbitrariamente quando é justo oferecer alimento e quando isso não é adequado ou merecido”.

“A alma não registra o tempo”.

“Somos uma sociedade extremamente violenta com nossas crias. Insistimos em não atender as queixas dos bebês, que dependem exclusivamente do cuidado dos adultos”.

Esse são só alguns exemplos, o livro é repleto de ideias complexas, que precisamos “marinar”  com calma. Para quem se interessou, também recomendo um vídeo que as meninas do Mamatraca fizeram para registrar a palestra da Gutman no Brasil. Elas editaram as melhores partes do seminário, que podem ser conferidas aqui ó.

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criar com apego é minha forma de mudar o mundo

Enquanto estou ocupada com o trabalho e com um post que estou escrevendo sobre a participação do coletivo Infância Livre de Consumismo  numa audiência pública na Câmara Federal ontem (posto hoje ainda), deixo você com essas duas imagens lindas, inspiradoras e auto-explicativas, que encontrei numa página no “Livro das Faces”.

precisa dizer alguma coisa?

precisa mesmo dizer alguma coisa?

A página leva (praticamente) o nome deste post, só que em espanhol: “La crianza con apego es mi forma de cambiar el mundo“. As fotos, portanto, são daqui. São lindas ou não são? Pra encher qualquer Carlos González de orgulho! 🙂

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