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com licença

A gente já falou tanto em licença maternidade e paternidade, em apoio para exercer uma maternagem ativa sem necessariamente abrir mão da vida profissional, em participação do pai no processo, na importância da presença amorosa e disponível dos pais no começo da vida das crianças… E eis que hoje, via a mulherada antenada lá do feice, descobri um documentário justamente sobre tudo isso.

O “Com Licença”, projeto do Urbanmoms, está no Benfeitoria aguardando apoio financeiro. A ajuda será benvinda até junho pro projeto emplacar. Mas a gente já pode ir vendo o trailer desde já pra ter uma ideia da relevância do conteúdo e do debate proposto:

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mais licença, menos creches

“É preciso uma aldeia para criar uma criança”

provérbio africano

Então a questão carreira x maternidade tem aparecido com força nas minhas relações novamente, seja nas mesas de bar, seja nos meus estudos/inquietações filosóficas, seja nas minhas avaliações sobre convicções pessoais, nos blogs que leio e nas redes sociais. Já abordei o tema várias vezes (aqui, por exemplo; mas também aqui e aqui) e entre ontem e hoje participei de um bate-papo virtual sobre o tema (e outras coisinhas) com algumas queridas no facebook.

Daí encontro esse vídeo, do pediatra José Martins Filho, sobre a importância do vínculo, dos cuidados e do afeto no início da vida da criança, principalmente no período que compreende a gestação e vai até os dois ou três anos.

E, entre muitos pontos essenciais, ele toca no assunto da licença maternidade de fato, não essa aí que temos hoje, que, cá entre nós, não serve para muita coisa. É precisamente a licença maternidade –e outros arranjos trabalhistas que possibilitem à mãe cuidar dos filhos e trabalhar ao mesmo tempo— o que precisa ser colocado em questão quando se fala em carreira (*) x maternidade.

Já contei que, para mim, não existe esse negócio de carreira versus maternidade. O versus entrou na equação apenas porque nossa sociedade (da qual fazemos parte, vale lembrar) não está nem aí para mulheres e crianças (assim como para muitos outros grupos), sejamos sinceros. As necessidades consideradas exclusivamente femininas e as necessidades consideradas exclusivamente infantis são ignoradas solenemente.

[Parêntese: estou falando em maternidade, necessidades femininas, mas não quero excluir a paternidade e os homens da equação. Uso esses termos por duas razões, basicamente: 1) as mulheres ainda são as que assumem a maior parte da responsabilidade na criação dos filhos; ainda é dela que se cobra deixar a carreira para ficar com os filhos ou vice-versa; ainda é a mulher que se coloca em questão em relação à carreira quando vira mãe. 2) algumas funções biológicas só mesmo a mãe pode cumprir (ou cumprir bem), como parir e amamentar. Mas acho os pais fundamentais, acho que há espaço para eles atuarem muito mais e volto a isso daqui a pouco.]

Então, na prática, expomos mulheres à situação dolorosa (torturante, eu diria) e absurda (sob todos os pontos de vista, mas especialmente sob o biológico, orgânico, natural) de ter de escolher entre se sustentar ou ficar com os filhos; de ter de deixar seus filhos muito pequenos com estranhos enquanto se remoem nas firmas para pagar as contas no fim do mês; de ter de se humilhar (como se tivesse pedindo favor) e aceitar pressões psicológicas e até financeiras (ganhar menos do que um colega homem, por exemplo) porque precisa ajustar alguns horários a necessidades do filho (amamentação, saídas para pediatras etc); de ter de abandonar qualquer possibilidade de trabalho remunerado e depender inteiramente de outra pessoa.

É um absurdo obrigar uma mãe a voltar ao trabalho com quatro meses de parida. Assim como é um absurdo obrigá-la a não voltar ao trabalho.

Isso sem falar do ponto de vista da criança, que o vídeo do José Martins aborda bem.

O que mais me incomoda nisso tudo é o pressuposto. Quando discutimos a questão social e publicamente, circulamos (como disco riscado) apenas em dois pontos: creche e maternidade. Partimos, portanto, da ideia de que o ideal é oferecer mais vagas em creches, afastar as crianças de casa, deixá-las mesmo com estranhos e “liberar” a mãe para o trabalho. Uma intervenção cada vez mais precoce do mundo considerado masculino (competição, conquista, poder, obejetivo, busca), socialmente valorizado, no mundo considerado feminino (da conexão, do cuidado, das relações, do encontro), socialmente desvalorizado.  Fica claro porque isso acontece, certo? Se valorizamos mais o trabalho que as relações, o “melhor” é ter creches para as mães deixarem as crianças e cuidarem do que “importa”.

Segundo ponto que me incomoda é que a discussão raramente inclua os homens, os pais. Se fala em creches para as mães, em licença de seis meses para as mães e em mães que largam o trabalho na firma e empreendem, em apoio à mãe empreendedora etc.

Como eu comentei na conversa lá no facebook, para mim o foco está invertido nos dois casos: o dinheiro que o governo e (algumas poucas) empresas gastam com creches seria muito melhor empregado em licenças maternidade e paternidade decentes, um ano no mínimo, dois no ideal (a OMS recomenda amamentação por pelo menos dois anos, lembra?).

Os pais (homens) poderiam ter licenças de fato e assumir parte das tarefas e da troca de afeto com os filhos no dia a dia, liberando a mãe para o trabalho nesse período. E as crianças –com pais e mães ou pais ou mães por perto– cresceriam num ambiente bem mais adequado que numa escolinha abarrotada de crianças sendo “cuidadas” por três ou quatro cuidadoras.

Para mim, os pontos centrais do debate sobre carreira versus maternidade são justamente as licenças para quem trabalha em regime de oito horas diárias e o estímulo ao aumento de participação masculina na vida familiar, coisas que o José Martins cita no vídeo, e que não é comum de serem mencionadas, daí eu ter vindo aqui compartilhar.

Isso não resolve o “problema”, que é precisamente uma sociedade que desvaloriza o que há de mais importante, que é a vida, manifestada na criança e na mãe que a pariu. Uma sociedade que desrespeita crianças está fazendo alguma coisa muito errada. Sair fora da caixa é o caminho, o meu caminho. Cada vez mais eu vejo e entendo que posso criar a vida que quiser e que tanto faz como as empresas lidam com a maternidade, porque eu sei como eu vou lidar com a minha e cada pessoa pode lidar com a sua da forma que achar melhor. Mas como nem todo mundo pode –materialmente–ou quer fazer isso por conta própria, acho que a licença materpaterna decente já seria um bom começo, um passo na humanização e no reconhecimento real dos direitos das mães e das crianças.

(*) carreira aqui é mais sinônimo de trabalho remunerado e razoavelmente estável do que de construção de uma jornada profissional “ascendente” e “bem sucedida” no mundo corporativo

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com a cria nos braços

Na semana passada, assisti a alguns vídeos e entrevistas que a Anna Gallafrio, Life Coach especializada em mães, concedeu ao Mamatraca. O conteúdo é muito bom, reflexivo, recomendo. Mas o que me chamou mais atenção, no entanto (talvez pelas convicções que eu vim alimentando por aqui desde que me tornei mãe), foi ver que a Anna estava trabalhando com a filha mais nova, Corinna, 100% à tiracolo (às vezes mamando).

Essas imagens, especialmente a tranquilidade da pequena no sling enquanto a mãe cumpria sua jornada profissional, me emocionaram muito. Estavam ali, materializadas para quem quisesse ver, muitas das ideias que tive, tenho e que compartilhei/o com várias mães blogueiras (como as queridas Mariana Sá e Nine) sobre o falso dilema carreira x maternidade. Não precisamos escolher. Não há escolhas. O que há, ainda, é um mundo profissional (e social e cultural etc etc etc) profundamente separado (das) e hostil às nossas necessidades naturais e humanas mais profundas, como a de acolher nossos filhos e de sermos acolhidos quando bebês.

Essa dicotomia só “existe” porque o mundo do trabalho nos desumaniza quando não nos oferece a possibilidade de exercermos uma tarefa que nos garanta o sustento (e também alguma parcela de satisfação) enquanto cuidamos dos nossos filhos. Nos desumaniza também porque sua lógica desvaloriza nossas emoções, sentimentos e afetos. E sobrevaloriza todo o resto, incluindo a racionalidade (que supostamente nos garantiria igualdade e justiça, veja só) e um punhado de distrações.

Na hora em que vi o vídeo da Anna, me lembrei da Licia Ronzulli, a deputada italiana que, em 2010, foi ao trabalho no Parlamento Europeu com a filha no sling. A foto dela amamentando e, ao mesmo tempo, votando no Parlamento correu as redes socias. Ao contrário de ter sido uma exceção à regra, Ronzulli continou levando a filha ao trabalho, pelo menos até 2012.

em 2010 (*)

em 2010 (*)

e no ano passado (**)

e no ano passado (**)

Não vou discutir a questão de o ambiente não ser adequado para uma criança pequena crescer, até porque não sei com qual periodicidade a menina vai ao Parlamento com a mãe nem quais atividades lúdicas ela faz lá ou em outros ambientes. Suspeito até que, ainda que ela estivesse lá, com a mãe, 4 horas por dia, 5 dias por semana, seria mais saudável que estar com estranhos nas escolinhas que eu conheço por aqui. Mas essa é outra conversa.

Lembrei também, ao ver a silenciosa, sutil e profunda “revolução” da Anna Gallafrio, desta ideia genial aqui: um espaço de co-work em que os filhos não são apenas aceitos, mas muito, muito bem vindos em um ambiente projetado para os pais, mas também para as crianças que estarão por perto. Aqui tem um caminho do meio, não? Aqui tem um caminho natural, não? Para manter a metáfora que a Nine usa com frequência, desconheço leoa que deixe os filhos com a vizinha pra caçar. Sou mamífera. Quero caçar com a cria nos braços!

ambiente recebe bem mães, pais e filhos para ... trabalhar (***)

ambiente recebe bem mães, pais e filhos para … trabalhar (***)

 

Ah, já quase ia esquecendo: está aí abaixo o vídeo que mais me tocou, de todos os que vi da Anna com a Corinna (e não por acaso, como toda a série com ela no Mamatraca, fala de carreira e maternidade):

Imagens de: (*) G1, (**) Mirror e (***) Garatujas Fantásticas

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o post da Nine sobre mamíferas e o sustento da família

Sabe quando você tem um post muito importante, que você escreve mentalmente diversas vezes, mas que, por ser tão importante para você e condensar tantas ideias, nunca sai do papel?

Pois eu tenho um assim, que mistura no mesmo saco coisas complexas como maternidade, feminismo, instinto, trabalho, atribuições profissionais, feminino, capitalismo, patriarcado, papel do pai. Já fiz e refiz o texto tantas vezes e com um resultado tão aquém do que eu penso que acabei deixando parado, para marinar as ideias, sabe como?

Mas eis que a Nine publicou hoje está pérola aqui. Pronto, não preciso mais escrever o meu post. Como eu comentei lá, ela redigiu melhor e mais claramente tudo o que eu sempre quis dizer sobre esse assunto. Os pontos altíssimos do texto dela, para mim e segundo minha leitura do que ela escreveu:

-Cumprir nossas funções biológicas a contento (parir, amamentar, acalentar e acolher os filhotes muito pequenos) não pode nos impedir de ganhar nosso sustento. Isso não acontece com nenhum mamífero na natureza, só nessa nossa sociedade disfuncional.

-Papel biológico não tem nada a ver com os papéis de gênero que vivemos. Gênero é uma construção social. Não é porque você ovula e pari que precisa passar a roupa, lavar a louça e fazer o jantar todos os dias.

-Também não precisa ganhar menos que um homem em cargo igual, tampouco é responsabilidade sua apenas sair mais cedo pra levar filho no médico, fazer lição junto ou trabalhar em meio-período pra ficar mais tempo com as crias. Os homens têm responsabilidades domésticas e com suas famílias que não se limitam (quando muito) a pagar contas. Ser pai é muitíssimo mais complexo que isso. E exige um grau de comprometimento com o que é tido como “feminino”, exige doação e entrega.

-Igualdade não significa que tenhamos de ser iguais para ter os mesmos direitos. Falta à revolução feminista o mais importante: devolver a valorização perdida por milênios de patriarcado àquilo que é tido como feminino. É preciso que ser mãe e ser pai (cuidar, acolher, doar-se, valores considerados femininos) seja tão valorizado quanto ser doutora em física quântica ou presidente de multinacional, saca? Que um homem que abdica de um certo crescimento profissional para ficar com os filhos seja admirado, seja socialmente valorizado. Que fazer isso não seja menor, nem seja “trabalho de mulher”. É preciso que os meninos possam ser estimulados a desenvolver o feminino neles, e que nós, mulheres, não precisemos necessariamente almejar o sucesso-padrão (a conquista, a competição, a realização cartesiana, valores tidos como masculinos) para sermos respeitadas e admiradas. Mas que possamos fazer exatamente isso se quisermos.

Fato é que o post dela está muitíssimo melhor que esse meu resumo tosco. Corre, que vale muito a pena.

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madrugada é dia útil

“Enquanto o caos segue em frente / com toda a calma do mundo”

Sereníssima” – Legião Urbana 

Trabalhar em casa tem várias vantagens. A mais óbvia delas, naturalmente, é estar perto do filho. Mas tem outras, como não perder tempo com deslocamentos, conseguir almoçar direito e sem gastar horrores por aí, comer maçã ao invés de porcaria no lanche da tarde, ligar o som e cantar loucamente enquanto se faz algum trabalho mais “braçal” (tipo baixar, salvar e organizar nas pastas zentas planilhas do Caged para se obter a variação do estoque de empregos formais no interior).

Só que tem sempre um porém, né? E, nesse caso, o porém é o seguinte: quando se é uma pessoa desorganizada como eu, home office pode ser muito, muito, muito caótico. Em todos os sentidos, mas principalmente em relação ao horário. Por mais que na redação ninguém tenha hora pra chegar nem hora pra sair, por mais que frequentemente os repórteres estendam seu expediente até bem tarde da noite (até pra esperar os colegas redatores/fechadores ficarem livres e ir com eles tomar umas no bar pé-sujo ali da esquina), o horário de trabalho acaba.

Em casa, não.

Na semana passada, por exemplo, trabalhei até perto das 4h todas as madrugadas e, de quinta para sexta, virei sem dormir. O saldo, entre outras coisas, foi pressão 7 x 5, dor de cabeça e muuuuita dor de garganta.

Ter muita coisa para fazer -meu caso- ajuda a explicar o horário nada ortodoxo. Estava apurando uma capa bem bacana, mas bem complexa também, com muitas variáveis a serem esmiuçadas, muitas informações de segunda mão para serem checadas, muitas fontes para ouvir (sei lá, acho que falei com mais de 50 pessoas, fácil, fácil) e, consequentemente, muito trabalho, terminada a apuração, para organizar, escrever e editar isso tudo.

Plus: também estava apurando, ao mesmo tempo, outras duas matérias, que entrego agora no começo da semana (a capa era para sexta), e, para uma delas, tive de ir a uma coletiva na quinta. Marcada para às 10h30, a entrevista com a fonte acabou acontecendo só às 13h. Cheguei em casa às 15h, o que atrapalhou bastante o andamento das outras pendências.

Acontece que, reconheço, se eu fosse um tantinho mais organizada, as coisas renderiam mais. E não falo de organização no trabalho, pois para isso sou organizada até demais. Tenho uns métodos de apuração que são quase manias. Quando não consigo, por alguma razão, por exemplo, atualizar a lista que faço com todos os contatos de todas as fontes e o status de como estão as conversações, fico tão incomodada que parece que não trabalhei naquele dia.

A desorganização a que me refiro -e que suga bastante o tempo- é das outras coisas: é a desorganização de não guardar nada no lugar certo e aí não conseguir achar aquela blusinha pra jogar em cima da camiseta quando está frio; é a desorganização de não tirar pratinhos e canequinhas e potinhos de dentro da geladeira e aí “perder” a comida; é a desorganização de nunca saber ao certo onde está mesmo a ração da gata; é a desorganização de comer-falar-com-fonte-atualizar-apuração-tomar-remédio-ler-release-tudo-ao-mesmo-tempo-agora; é a desorganização de nunca lembrar de deixar separadas as frutas que Enzo vai comer naquele dia e ter de interromper o trabalho para separá-las quando as mães pedem; é a desorganização de decidir ler só mais um pouquinho antes de dormir e aí notar que, putz, o “mais um pouquinho” durou quase uma hora e meia que eu não tinha; é a desorganização de não respeitar rotinas e horários (como hora para almoçar, para tomar um café, para descansar, para dormir)…

E, por último, mas não menos importante, é A desorganização de se acostumar a avançar noite e madrugada trabalhando e CONTAR com isso como se fosse, de fato, dia útil, hora útil de trabalho. Aí, a pessoa (no caso, eu) planeja seu dia incluindo como regra o que deveria ser exceção. E, a cada vez que eu faço isso, fica mais difícil quebrar o círculo e reduzir um pouco a jornada.

Comecei essa semana acordando bem cedo. Estou saindo da cama às 6h30, junto com o Dri. Espero que esse novo horário me “derrube” à noite e me ajude a conseguir limitar um pouco as coisas aqui no escritório. Sei que preciso disso. Mas, por enquanto, sem querer ser pessimista, são 22h30 e estou #semsono, avançando no trabalho, #semhorapraparar.

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home + baby + office

A semana passada foi punk: um prazo apertadíssimo, uma matéria complicada sobre um assunto do qual eu entendia pouco, um calor horrível que deixava Enzito praticamente insone ao longo do dia (o que empacava demais o trabalho), dentinhos e mais dentinhos nascendo e incomodando pacas a cria (o que também empacava demais o trabalho). Resumo da ópera: dormi 12 horas em cinco dias, sendo que de quinta pra sexta, foram duas horinhas de sono apenas, das 6h às 8h da matina.

Trabalho em casa, sou repórter frilancer e já levava essa vida bem antes de engravidar. Deixei a redação no final de 2009, um ano e meio antes, portanto, de parir meu filho. E, confesso, foi providencial. Porque não imagino como seria minha relação com Enzo se, aos 4 meses dele, eu tivesse de voltar à rotina que eu tinha na redação: entrar às 10h para não ter hora pra sair, chegando em casa frequentemente depois das 23h. Eu mal veria meu filho, não teria condições de cuidar dele nas mínimas coisas (nem mesmo dar um banho), não acompanharia nada do seu desenvolvimento, seríamos quase estranhos a dividir a mesma casa. E um dia eu levaria um susto: “putz, você já fala?”

Logo que ele nasceu, no entanto, a rotina do “home office” mudou radicalmente, o que é natural e esperado. Eu já sabia que não conseguiria trabalhar no mesmo ritmo de antes. E fui me ajeitando, trabalhando nos intervalos das mamadas, trabalhando quando ele dormia, quando se distraía, quando umas das avós vinha visitar a gente ou à noite, depois que Dri chegava do trabalho. E deu certo. Mesmo no primeiro mês eu trabalhei, pois Enzo adiantou 15 dias e nasceu bem no meio da conclusão de uma matéria, de modo que na maternidade eu tive de fazer entrevistas e, em casa, segui apurando e escrevendo, contando muito com o marido, que estava de férias.

Dei por garantido o sucesso do trabalho em casa com filho.

Mas acontece que conforme Enzo cresce, mais e mais ele precisa de atenção, passa menos tempo dormindo, se distrai menos com bobagens e procura, cada vez mais, “emoções”: ficar sentadinho no sofá é pouco, mexer nos brinquedinhos de bebês é pouco; ele quer mesmo é escalar o armário, alcançar o lustre, abrir as portas das coisas, mastigar minha caneta, digitar no computador e atender o telefone. Resultado: cada vez menos tempo para eu efetivamente trabalhar.

Não que eu esteja reclamando. Esse arranjo é o melhor para nós, sigo tendo a certeza de que somos -Enzo e eu- privilegiados pela possibilidade de estarmos juntos o dia todo, de eu estar presente o dia todo, cuidando de tudo o que diz respeito a ele e, ainda assim, manter minha vida profissional razoavelmente em ordem.

Mas confesso que é preciso uma boa dose de esforça e boa vontade pra coisa andar. Estou tendo de reorganizar um monte de hábitos, por exemplo. E, com o teste da semana passada (sim, porque foi a primeira vez em que eu praticamente tive de trabalhar em ritmo de redação novamente desde que Enzo nasceu), aprendi um bocado de coisas, que podem ajudar quem pensa em optar por trabalhar em casa:

-Admitir que trabalhar em casa com um bebê pequeno é viver muito mais o home que o office: isso é importante para o planejamento, para ter ideia de quantas horas de fato sobram livres para me dedicar ao “office”. Mas, mais que isso, é essencial para diminuir a ansiedade e a cobrança. Quando se tem um prazo, um trabalho para entregar, alguma coisa para fazer, é complicado ficar passeando pela casa com o bebê sem se cobrar, sem pensar um “que-que-eu-tô-fazendo-meodeos”. E isso não ajuda nada, pois nem bem eu me dedico ao Enzo, nem bem me dedico ao trampo. Menos cobranças, pois, e melhor medida do tempo. O que me leva ao segundo aprendizado:

-O expediente não é mais o mesmo: antes, quando eu pensava em “x” dias para o fim do prazo, tinha uma ideia de quanto isso me renderia de trabalho, ainda que não precisasse fazer a conta em horas. Só que trabalhar com esse timing na cabeça é perder o prazo na certa, pois, na prática, a gente trabalha bem menos do que gostaria/deveria por dia, especialmente conforme os filhos crescem. A verdade é que, no sistema “home office”, o trabalho vira o lazer, sabe como? Você acaba cumprindo seus deveres nos INTERVALOS entre o almoço da cria e a mamadeira, entre trocar a milésima fralda e dar uma volta com o bebê no sol, entre entreter o bebê com uma tampa de panela e tentar embalá-lo pro próximo soninho. Além disso, estou tendo de me acostumar: trabalhar à noite ou na madrugada virou meu segundo nome.

-Foco, foco, foco: já disse que sou caótica? Pois é, sou caótica. E isso significa uma tendência a fazer zentas coisas ao mesmo tempo. Mas estou tendo de me curvar a esse tal foco, essa palavrinha amanda pelos autores de autoajuda, que eu tanto criticava. Porque é imprescindível aproveitar o (pouco) tempo livre para o trabalho apenas trabalhando. Daí que não leio mais jornal online, não tuito durante o dia (às vezes, no horário do almoço, mas bem às vezes), não navego na internet, nada. E é essencial que se esteja com o dia todo planejado para não se perder tempo de trabalho organizando ou decidindo, na hora, o que fazer.

-Pensar hoje o que se pode fazer amanhã: não dou o dia por encerrado antes de colocar na agenda direitinho o que terei de fazer no dia seguinte. É bom para ter um roteiro a seguir e, na hora em que baby dorme, ir direto ao ponto. E também ajuda a não botar coisas demais na agenda que não serão cumpridas. Comecei a planejar a semana, ao invés de só o dia, coisa que NUNCA fiz antes. Mas é importante para ver se  prazo será ou não factível.

-Não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje: procrastinação, essa coisa delícia da vida, na qual, confesso, era viciada, virou história. E esse conselho de pai, essa coisa chatinha de fazer tudo na hora, virou mantra. Se alguma coisa que eu deveria ter feito ontem sobrar pra hoje, putz, complica e muito a vida.

-Mães à mão: para quem tem esse privilégio, é sempre bom deixar as nossas mães de sobreaviso. Às vezes, não tão raramente quanto eu gostaria, é necessário pedir uma ajuda, nem que seja coisa de duas horinhas. Minha sogra mora longe, minha mãe trabalha, de modo que não é tão simples assim contar com elas, mas eu já precisei diversas vezes, e a ajuda delas foi essencial, inclusive, na semana passada. Para quem não tem parentes por perto e com disponibilidade de tempo, sugiro uma babá daquelas que cobram por hora e geralmente cobrem folga. Não é fácil de achar, a gente não tem tradição em baby sitter , mas é bom ter alguém de confiança na manga, pro caso das coisas não saírem como o esperado.

-Disciplina: não ia falar dela de novo. Odeio essa coisa autoajuda de “discipline-se”. Mas acontece que, na prática, ela é um pressuposto. Trabalhar em casa é depender 110% de si próprio e de suas escolhas em relação ao seu tempo. A tentação é grande, ainda mais com um bebezico fofo querendo abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim. E com uma rotina de mãe tão extenuante, fica fácil querer deixar pra lá alguma alguma tarefa que parece desimportante, mas que, no fim das contas, vai fazer falta.

Tem outras coisas úteis, que eu recomendo ter/checar/ponderar:

-Tecnologia: computador que funcione, internet que funcione, telefone que funcione. Se alguma dessas coisas der pau, não tem “mocinho da tecnologia” para resolver em cinco minutos e botar na conta da firma.

-Acessórios: para quem, como eu, precisa do telefone o dia todo, vale a pena pensar em comprar aqueles head sets de telefonistas, que deixam as mãos livres. Fios longos também ajudam, pois é preciso se movimentar muito, às vezes com bebê no colo, às vezes indo atrás do bebê. Notebook e internet sem fio dão mobilidade. Úteis, pois.

ABRE PARÊNTESE: Licença-maternidade decente já e licença-paternidade decente já. É assunto pra um outro post, que prometo pra breve, mas sempre gosto de lembrar que a imensa maioria das mães e dos pais não têm esse privilégio de optar por trabalhar em casa. Acho que temos -pais e mães- de pensar nisso coletivamente, não apenas nos arranjos possíveis pra nós, mas em como alcançar arranjos melhores para a maioria. E isso passa não apenas pelas licenças (4 meses é pouco, 5 dias é nada), mas por condições de trabalho adequadas, por creches nas firmas, por creches públicas decentes, por programas de trabalho especiais para pais e mães, por trabalho meio-período para pais e mães e pela extensão de benefícios a pais, de modo a diminuir preconceito contra mulheres em idade fértil e colaborar para equiparar nossos salários, uma vez que ainda ganhamos  menos que os meninos em igual cargo (entre 30% e 40% menos, dependendo da fonte). FECHA PARÊNTESE.

Por outro lado, ficar em casa pode parecer A maravilha das maravilhas, mas não é. Tem prós que pesam muito, como acompanhar o filho, especialmente nessa fase de bebê, em que os pais são essenciais até pra formação emocional saudável. É bacana também, por exemplo, poder sair pra dar uma volta com Enzo numa tarde de sol, quando as coisas estão tranquilas. Mas faz falta se arrumar pra trabalhar, encontrar gente, falar com gente, aquele tempinho gostoso lendo no metrô, conversas no cafezinho, sair pra beber umas depois do expediente, resolver as coisas com os chefes olho no olho (e-mail/telefone sucks), reunião de pauta olho no olho, olho no olho, enfim. Eu pesei bem tudo isso e fiz uma escolha que acho consciente, o que diminui a pressão da frustração, que acaba aparecendo aqui e ali.

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