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castigo não é consequência

“Vocês podem fazer o que quiserem, desde que arquem com as consequências”. Essa é uma frase bastante conhecida e usada por pais, cuidadores, educadores ou adultos em posição de poder. Já foi dita para nós, quando crianças, e já foi usada por nós também, como forma de controle do comportamento infantil.

A frase, que até parece logicamente correta, embute duas sacanagenzinhas. A primeira delas –e talvez mais óbvia– é tentar fazer parecer que o interlocutor não está ameaçando o ouvinte, quando na verdade é precisamente isso que está fazendo. De um modo mais sutil, mas ainda assim uma ameaça.

A segunda é confundir propositalmente consequência com castigo. Porque na imensa maioria das vezes em que a frase é proferida, a “consequência” será uma punição, criada e definida pelo sujeito em posição de poder, o que é muitíssimo diferente de consequência natural de qualquer ação.

E a consequência disso é que crescemos confundindo os dois termos e ainda hoje, na educação dos nossos filhos, muitas vezes castigamos –o que é inútil, como bem explica o pediatra catalão Carlos Gonzalez— e, precisamente por isso, impedimos nossos filhos de vivenciarem suas ações para aprenderem com elas –o que seria papel da tal consequência, muitas vezes substituída, em nosso dia a dia, pelas punições.

Estou escrevendo sobre isso agora porque me parece cada mais essencial, para educar meu filho, separar as duas coisas. As crianças, assim como nós, aprendem pelas experiências, experimentando a vida e as consequências de suas ações –que, ao contrário dos castigos e do terror implícito na frase inicial deste post, são boas também. Daí a consequência natural ser muito mais educativa que qualquer punição –até porque leva à reflexão e facilita às crianças construírem a si próprias a partir de si próprias e não de modelos pré-definidos que chegam de fora.

Em seu blogue sobre a psiquiatra e educadora italiana Maria Montessori, Gabriel Salomão distingue muitíssimo bem castigo de consequência –e foi a partir dessa distinção que eu entendi o que era uma coisa e o que era outra, embora nunca tenha sido adepta da punição (só não entendia o que era a tal consequência). Se uma criança derruba comida no chão, a única consequência é chão sujo.

Em geral, quando algo assim acontece, adultos costumamos focar na ação “errada” da criança –a displicência na hora da comida, por exemplo–, e “dar um sermão”, chamar a atenção, brigar, gritar, ofender, humilhar (“você não faz nada direito!”, “ainda não aprendeu a segurar direito essa colher?”) e/ou criar outras punições e castigos além dessas citadas para “evitar” o “erro”. “Derrubou no chão? Então não vai mais brincar com seu brinquedo predileto hoje”.

Quando o castigo é modelo de “educação”, foca-se principalmente a ação, não no aprendizado e muito menos na criança –como se ela fosse má por natureza e precisasse ser consertada, um equívoco imenso, acho que nem preciso dizer. E, além disso, estabelece-se, muitas vezes,  padrões de ação muito mais elevados do que a criança é capaz de seguir.

Só que a consequência da ação fica onde num modelo de educação como esse? Quando e como a criança entrará em contato e vivenciará aquilo que sua ação produziu?

Ao castigar, impedimos a criança de experimentar seu erro (limpando o chão, por exemplo), geralmente punimos de forma completamente desconectada logicamente do que aconteceu (o que sujar o chão tem a ver com brinquedo favorito?) e ainda reforçamos a percepção infantil de amor condicional. Ou seja, um amor condicionado a determinado tipo de comportamento da criança.

Proibir uma criança que, para ficar nesse exemplo, sujou o chão de brincar com seu brinquedo preferido é uma punição que na certa não contribuirá para que a criança consiga controlar-se melhor nas próximas refeições.

Limpar o que sujou sim, ajudará. Isso é consequência, isso é experimentar o “erro”. E aprender com ele. Para Montessori, numa situação como a descrita acima, o que o educador precisa fazer, no máximo, é oferecer à criança um pano e um balde com água e mostrar a ela como fazer a  limpeza. Sem reprimendas. Sem sequer mencionar o “erro”. Sem raiva ou julgamentos. Aliás julgamento deveria ficar sempre longe de qualquer relação –amorosa principalmente. Não é fácil, pois sempre fomos julgados e somos nossos principais julgadores. Mas é um bom exercício de aprendizagem esse, para nós mesmos.

Não há lado bom no castigo. E só aprendizado onde há experiência, onde a vida pode ser experimentada.

ADENDO (dia 12/9, às 00h31): nos comentários, a Jaqueline Lima, do Ver de Mãe, comentou sobre um texto dela que trata de como encaramos o erro das crianças –e os nossos também. Recomendadíssimo! Para ler, vá por aqui; vale muito a pena e também tem a ver com a questão do castigo x consequência.

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já quebrei a testa

A Adriana, do Fora do Casulo, me convidou para participar de um meme, que consiste em:

1-) escrever 11 coisas aleatórias sobre mim; 2-) responder 11 questões enviadas por ela; 3-) fazer outras 11 questões para mandar para 11 blogueiras que eu convidar; 4-) não convidar quem me convidou e 5-) postar também as regras (que são essas que acabei de citar).

Nunca participei de um antes e achei bem divertida a brincadeira. Me fez pensar num monte de coisas, o que eu adoro. E também acho que ajuda a aproximar ainda mais as mães da madresfera, um dos objetivos desse blog. De modo que lá vai:

Coisas aleatórias sobre mim:

1-) Quando criança, quebrei partes do corpo pouco comuns: a testa e o cóccix. A primeira eu fissurei escorregando num escorrega de concreto (oh, boy, os anos 80…), aos 6. O segundo, um ano antes, brincando de tarzan no varal  da minha avó. Caí de bunda, claro.

2-) Tive escoliose, usei colete ortopédico dos 5 aos 10. Era limitante, mas lidei com isso numa boa, especialmente porque meus pais sempre tiveram o cuidado de não levar isso em consideração além da conta. Não me poupavam mais do que a realidade exigia e jamais me trataram como se o colete e a limitação física causada por ele fossem um problema, um fator de distinção. Também jamais me olharam com pena. O que ficou, afinal, foi uma experiência que mudou a forma como eu encarava o que era “normal” e o que “não era”.

3-) Não acho que os seres humanos sejam mais merecedores da vida do que outros animais. Nessa, estou com Darwin: bicho sente, bicho pensa, bicho tem consciência de si mesmo, bicho não se come.

4-) Decidi ser jornalista aos 13, depois de assuntar com meu pai quais profissões me permitiriam viver de escrever. Desde então, nunca mais me imaginei fazendo outra coisa nessa vida.

5-) Não vivo sem ler. Preciso ler o dia inteiro. Também não vivo sem escrever. Escrever me acalma e organiza minhas ideias.

6-) Acordo em prestações, aos poucos, colocando o despertador pra tocar de novo de 10 em 10 minutinhos, sabe como? Nisso, o rebento puxou a mim.

7-) Momentos impagáveis para mim são: brincar com Enzo e vê-lo brincar, tomar banho junto com o pequeno (adoro o contato pele-pele e ele também) e ler na cama com as pernas enroladas nas do marido.

😎 Nunca imaginei que a maternidade e o universo infantil fossem me absorver tanto, no bom sentido. É uma entrega que jamais experimentei antes. E sabe de uma coisa? Quanto mais dou de mim, mais inteira fico. Adoro ver meu filho fazendo coisas, qualquer coisa, mesmo as “artes”. Me surpreendo todos os dias com tudo de novo que ele aprende. A maternidade me fez em paz com a minha infância e uma admiradora das infâncias em geral. Ô fase linda e lírica dessa vida, sô!

9-) Nunca quis casar nem ter filhos. Não eram objetivos de vida, nem preocupações. Mas com o Dri eu quis, casei e tenho 😉

10-)  Adoro comer. Adoro o ritual de juntar a família e os amigos ao redor de uma mesa –ou em pé perto da pia e do fogão– pra jogar conversa fora enquanto se enche o bucho.

11-) Sou muito amada e sinto isso todos os dias, o que é um privilégio. Outro privilégio? Amo muito meu filho e meu marido (e minha gata!).

As perguntas da Drica:

1) Por que escrever um blog e não um diário?

Uma das coisas bacanas do blog é a troca, é o contato com outras mães, é ler e responder os comentários, é aprender com as experiências alheias e imaginar que as minhas experiências compartilhadas de alguma forma podem ajudar alguém.Aprendi tanto na madresfera e conheci tanta gente bacana e querida que nem consigo contar. Isso um diário não oferece. Também não teria paciência pra preencher religiosamente tudo o que aconteceu em cada dia. O blog dá a liberdade de eu aparecer por aqui quando acho que tenho alguma coisa interessante pra dizer.

2) Você trabalha? Se sim, como concilia ser mãe e profissional?

Trabalho em casa. Minha profissão permite essa flexibilidade, o que é ótimo. Posso tentar juntar o melhor dos dois mundos: fico perto do filho e continuo tocando minha carreira. Mas há probleminhas: um deles é que é impossível trabalhar com a mesma dedicação de antes, seja por estar fisicamente em casa (e ter de invariavelmente lidar com problemas domésticos), seja por não conseguir concentração 100% no trabalho com o filho por perto querendo colo. O que tem funcionado por aqui é a ajuda das mães (a minha e do marido), que têm vindo 4 dias por semana ficar com Enzo. Ele ama as avós, fica super bem com elas e aí me dá um pouco mais de tempo pra organizar a agenda. Acontece que elas vão ter de parar de vir, e nós precisaremos decidir se Enzo vai pra escola ou se contratamos uma babá. Estamos recomeçando a visitar colégios e iniciando contatos com amigos, conhecidos, agências. Ainda não sei qual opção escolher e confesso que estou bem angustiada com ambas. Acho meu filho pequeno demais para escolas, mas não gosto da ideia de ter uma babá. #comofaz?

4) Qual seu post predileto, escrito por você?

Eu costumo gostar mais daqueles posts que escrevi com o fígado ou com o coração. Dessa lista, dois deles eu me lembro que mexeram bastante comigo. Um sobre como é frustrante não ser a mãe 100% dos meus sonhos e outro sobre as cobranças e comparações a que estamos submetidas numa sociedade que não entende patavina de infância –nem de respeito.

Os links, respectivamente:

https://maederna.wordpress.com/2012/02/28/maternidade-real/

https://maederna.wordpress.com/2012/04/04/maternidade-e-competicao/

5) Você tem algum sonho realizado? Qual?

Tenho vários. Ser jornalista é um deles. Ter a vida que tenho hoje é outro.

6) E um sonho ainda não realizado? Qual e porque ainda não realizou?

Rá, também tenho vários: ajudar meu filho a crescer feliz e a ser quem ele efetivamente é; dar, de fato, o melhor de mim na maternidade, como a minha fez por mim; escrever um livro; voltar a visitar com Enzo lugares bacanas que fui e aprovei; conhecer outros tantos lugares que ainda não conheço; fazer o mestrado; estudar história e letras; aprender “coisas sobre a terra, o céu e o ar” (*); entender mais de física… A lista é loooonga, ainda bem. Sonhar mantém a gente vivo.

7) Qual o momento mais emocionante da sua vida que você se lembra?

O nascimento do Enzo, com certeza. E a primeira vez que eu disse “eu te amo” pro Dri, há quase 13 anos. São duas cenas que sempre me fazem sorrir quando lembro delas.

8) Qual seu/sua escritor(a) predileto(a)?

Putz, essa é difícil. Depende do meu humor, do que estou a fim de ler, do que estou lendo no momento… A lista é longa, vou citar os que lembrar de bate-pronto, ok? Gosto muito de Milan Kundera, Julio Ramón Ribeyro, Milton Hatoum, Anaïs Nin, Jorge Amado, Gabriel García Marquez, José Saramago (o Saramáximo), Wislawa Szymborska, Guimarães Rosa, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Érico Veríssimo e, claro, Machado de Assis, o primeiro que me arrebatou definitivamente.

9) Novela, filme ou livro? Por quê? 

Livro. Porque me dá mais prazer que as outras opções, embora eu adore um bom filme e, com frequência, deixe a leitura pra lá só pra assistir a algo que me interesse.

10) O que faz para relaxar?

Ando. Amo andar sem rumo e sem pressa, vendo as ruas, as pessoas, a cidade, a vida. Me faz um bem danado. Se possível, ando ouvindo música. Também leio e ouço música pra relaxar. Mas, dependendo da literatura e da música, especialmente se forem das boas, eu não relaxo, “ligo” mais.

11) Qual sua profissão? Se pudesse ter feito outra coisa, no que estaria trabalhando hoje?

Sou jornalista e não me imagino fazendo outra coisa. Admiro outras profissões, até assunto comigo mesma se toparia alguma delas, mas, lá no fundo, sei que só posso ser o que sou. Agora pelo menos. O que quero, profissionalmente, é ser também pesquisadora, mas de jornalismo/comunicação, o que não é exatamente mudar de carreira.

O que eu quero saber dazamiga:

1-) De que maneiras a maternidade mudou quem você era?

2-) Do que sente mais falta na sua vida pré-filhos?

3-) Você é daquelas que, em nome da diversão da prole, paga mico? Conte aí quais já pagou.

4-) O que você lê sobre maternidade? O que recomenda?

5-) Deixar chorar ou pegar no colo? Por quê?

6-) Conseguiu amamentar seus filhos? Conte sua experiência, o que aprendeu, o que faria igualzinho e o que faria diferente.

7-)  O que mais te agrada e o que mais te incomoda na maternidade?

8 -) Menino pode brincar de boneca? Menina pode brincar de carrinho e de bola?

9-) O que você faz quando sobra um tempinho só pra você?

10-) Quais são as perguntas que você se faz e que mais te aporrinham?

11-) Tem algum desejo que seja só para você? Qual?

Azamiga que eu gostaria que respondessem:

1-) Mari, do Viciados em Colo

2-) Mari, do Pequeno Guia Prático

3-) Mari, do Pachamamas

4-) Anne, do SuperDuper

5-) Dayane, do Mamma Mia!

6-) Clarisse, do a mãe que quero ser

7-) Paloma, do Peripécias de Cecília & Fofices de Clarice

8 -) Tamine, do Bebê Natureba

9-) Ana, do Colorida Vida

10-) Priscila, do Mãe de Duas

11-) Sofia, do Buteco Feminino

E quem quiser, fique à vontade para responder as minhas perguntas, as da Dri, as 22, só algumas…

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a alma do negócio

Na semana passada, no blog do MMqD, a Pérola Boudakian escreveu um post ótimo sobre a publicidade para crianças. Entre outras coisas, ela fez uma entrevista super bacana com duas das blogueiras mais ativas nesse campo: a Mari Sá, do Viciados em Colo, e a Tais Vinha, do Ombudsmãe. Recomendo uma boa lida.

Muitos dos argumentos de ambas já foram expostos por aqui, mas ressalto duas coisas. 1) Tais lembra -muito bem- que as crianças ainda não conseguem diferenciar muito bem o que é fantasia do que é imaginário. Para elas, é ainda mais nociva a mensagem -largamente difundida pela publicidade- de que é preciso consumir para ser alguém. E, pior, essa mensagem vem sendo direcionada aos nossos filhos por intermédio de concessões públicas de comunicação que, em tese, deveriam nos ajudar a formar uma sociedade de cidadãos, não uma legião de consumidores.

2) Já a Mari dá exemplos muito tristes de crianças assumindo comportamentos que já seriam nocivos em adultos, que dirá em crianças: uma amiga da filha cuspiu um chocolate porque não queria engordar; outras deixam de brincar pois estão vestidas como gente grande (salto, cabelo “feito”). Esse comentário também me deu a impressão de que, para as meninas, assim como para as mulheres, no mundo machista em que vivemos, o fardo é mais pesado. Parece que delas se exige mais. Mais uma razão para regulamentarmos a publicidade infantil: igualdade de gêneros.

E acabei voltando a esse assunto também porque a leitora Patrícia, que comentou lá no post do MMqD, sugeriu um documentário sobre o tema, disponível no YouTube. Já tinha ouvido falar, mas assisti a ele apenas ontem. Recomendo muito. Trata-se do “Criança: A Alma do Negócio”, da Estela Renner (diretora do “Amores Expressos“, uma vídeo série que registrou os bastidores da criação de romances para uma série de literatura com o mesmo nome).

O documentário mostra, por exemplo, crianças dando seus depoimentos sobre como a publicidade direciona seus hábitos, gostos e opções. E, claro, ouve pais e especialistas, que apontam os estragos que a propaganda podem fazer na autoestima e na autoimagem dos pequenos.

Vale a pena dar uma boa olhada.

Já disse que ainda não sei bem qual seria o modelo ideal de regulamentação e regulação de publicidade infantil. Mas o marido -que é favorável à proibição total- saiu-se com um argumento que acho válido compartilhar. Nossa legislação proíbe menores de 18 anos de assinarem qualquer contrato de compra, venda, prestação de serviço etc. Isso porque entende que quem tem menos de 18 ainda não tem elementos suficientes para decidir autonomamente por adquirir ou se desfazer de algo, nem para entrar de igual para igual numa negociação. Então, se já partimos desse pressuposto, é um contra-senso imaginar que os pequenos -que não podem comprar- podem ser alvos de propagandas, certo?

 

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complô das 6h

–Eu acho que eles dormem demais.

–Verdade, são dois preguiçosos. Onde já se viu pais dormindo tanto assim?

–Pois é, menina! Se deixar, eles vão até às 8h. E nem ficam envergonhados.

–Outro dia, ela dormiu até às 10h, lembra? A sorte é que ele acordou antes.

–Ah, mas não foi por acaso, não. Ele levantou mais cedo por minha causa.

–Fato. Do contrário, teria dormido o tanto que ela dormiu.

–Então! Já vimos que não podemos mais deixar por conta deles.

–E eu não sei? Mas já tenho um plano.

–Qual?… Ooops, psiuuuu, disfarça que eles estão vindo.

(…)

–Já passaram?

–Já, pode falar.

–Então, o negócio é o seguinte: o que você acha de a gente revezar e cada um de nós acordá-los num dia? Não fica pesado para ninguém, num dia que a gente quiser dormir um pouco a mais, o outro faz o serviço e a gente ainda garante que os preguiçosos acordem num bom horário.

–Ótima ideia. Começamos quando?

–Eu comecei hoje, na verdade. Miei uns 40 minutos seguidos até ele se levantar. Ela ainda ficou lá, acredita? Mas eu não desisto fácil, você sabe, né?

–E como sei!

–Bom, isso faz de você o moço que vai acordá-los amanhã, combinado.

–Fechou! A que horas? Umas 6h?

–Ontem eu acordei às 5h30, mas acho cedo, nem clareou o dia ainda. Podemos manter 6h.

–De acordo!

********************

Talvez a conversa acima seja fictícia, tendo em vista que nenhum dos dois envolvidos fala ainda (até onde sabemos, pelo menos). Mas é fato que faz uns dias que nos acordam pontualmente às 6h: ou a Jóh vem miando pro quarto e mia até alguém levantar e ir brincar com ela ou é Enzo que acordo cedinho assim e põe papai e mamãe de pé a essa hora da madrugada.

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ser mãe (também) é…

…você acordar de um sono bem gostoso, olhar em  volta, não reconhecer o lugar. Olhar de novo, com mais vagar, e se perguntar:

-Que que esse notebook está fazendo aqui? Que que essa mesa está fazendo aqui? Que que essa cadeira está fazendo aqui? Que que eu estou fazendo sentada nessa cadeira? Aliás, que que eu estou fazendo AQUI??

E aí você se dá conta de que o “aqui” não é seu quarto, mas o escritório.  E aí você olha no relógio e são 4 da manhã. E aí você se lembra de que eram 2h30 quando viu as horas pela última vez. E aí você nota que está com as mãos no teclado, com a cabeça meio pendida, mas com o pescoço duro (o que explica a dor chatinha na região). E aí cai a ficha de que você estava trabalhando. E aí você liga os pontos que faltavam e…bingo! Tem aquele prazo para amanhã (hoje?), às 7 da matina, sabe como? Com toda a matéria prontinha, revisada e os dados checados (aí você se lembra de que a checagem é a última coisa de que você se lembra antes do apagão).

E aí você se “loga” novamente no computador. E aí você puxa aquele bloquinho de anotações que estava meio jogado ali no canto da mesa, entre a pilha de livros do marido e sua xícara de chá (sem chá, by the way, que você já deu aquela espiadinha torcendo pra ter sobrado ao menos um gole). E aí, apertando os olhos, franzindo a testa, você acha exatamente o ponto em que parou.  E aí você segue na labuta que, afinal, agora tem só três horas pra terminar tudo.

Quem nunca?

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Enzo vai invadir nossa praia

"Nossa" praia, refúgio coletivo nosso e dos amigos mais queridos

Enzo foi à praia pela primeira vez nesse feriado. Passamos um dia e meio com amigos queridos no litoral. Confesso que eu tinha muitos receios e dúvidas e, por isso, demorei um bocado para decidir ir ou não. Eu não sabia, por exemplo, como Enzo se comportaria numa casa estranha, num ambiente mais agitado; se gostaria ou não do mar, da areia; se ficaria na praia ou se seria preciso ficar com ele em casa; se se adaptaria bem à mudança de horários e rotinas; de que forma o protegeríamos dos pernilongos, mosquitos e afins.

Pois ainda bem que lidamos com os receios e, mesmo meio assustados (cê jura? eu, como medo? ah, vá!), botamos as mochilas (e todas as trocentas e zentas mil coisas do bebê) no carro e pegamos a estrada. Porque, para começar, a cria adorou a “casa estranha”. Olhinhos curiosos e atentos percorreram cada cantinho novo, exploraram cada detalhe, mantiveram Enzo entretido, ocupado e feliz da vida com as novidades. A janela diferente, o batente de madeira, o ventilador de teto… Ah, o ventilador de teto foi amor à primeira vista. Era alguém ligar a geringonça que o pequeno, às gargalhadas, erguia as mãozinhas tentando pegar.

E o mato, então, fez sucesso. Aqui, em SP, quando passeio com ele pela rua, uma das diversões é observar árvores. Lá, como a casa tem um jardim bacana, plantas nas paredes, flores e folhas à vontade, o bebê deu vazão ao pequeno botânico que mora nele, pôs tudo na mãe e (quase tudo) na boca.

Ficou oficializado que Enzo é baladeiro-bagunceiro-arroz-de-festa-nível-máximo. Quis participar de todas as conversinhas, colinhos, sorrisinhos, palhaçadinhas dirigidas -OU NÃO- a ele. Fez amizade com novos amigos que papai e mamãe conheceram como se fossem velhos habituais aqui de casa. E com os mais próximos, só faltou pedir pra morar junto.

Acho que é papel dos pais socializar o bebê, apresentá-lo às pessoas com quem a família mantém relações próximas, facilitar a construção de outros laços afetivos, também muito importantes para um desenvolvimento emocional saudável. Nem só de pais vivem os pequenos, afinal. E isso tudo é especialmente fácil para nós, porque Enzo adora pessoas, adora carinho, adora fazer amizades.

Finalmente, a praia: Enzo adorou a paisagem, o clima, a espuminha das ondas, passear na orla no colinho do papai, fazer bagunça e rir das conversas dos amigos… Relaxou tanto que dormiu numa caminha improvisada na esteira da mamãe com a toalha dele. Mamou quando teve fome/sede e, no restante do tempo, aproveitou para conhecer tudo o que atraiu seu olhar, incluindo a fauna local: viu caranguejinhos pequeninos se escondendo na areia, viu gaivotas, viu diversos pássaros, gargalhou de tudo.

E tem como não gostar dessa praia?

Tem mesmo como não gostar dessa praia?

Só não se apegou muito à água. Nas diversas vezes em que tentamos molhar seus pezinhos, houve choro. Na primeira, se assustou com a onda; nas outras, não gostou mesmo foi da temperatura do mar.

Mas, no cômputo geral, consideramos muito bem sucedida sua primeira incursão litorânea. E nós, tendo em vista o sossego/alegria do rapaz, também pudemos aproveitar. Antes de ir, achamos que talvez nem conseguíssemos ficar na areia efetivamente, já que não sabíamos como seria a reação de Enzo, se ele conseguiria levar vida normal na praia (leia-se: brincar, comer, dormir, brincar, comer, dormir) ou se ficaria incomodado com alguma coisa. Acabou que ficamos bem mais do imaginávamos e com muita tranquilidade.

Resultado: volta programada para a Páscoa -ou talvez, além do feriado, algum fim de semana de sol que nos der na telha.

Agora, é preciso dizer que passamos alguns perrengues pela falta de experiência em viajar com bebês. O primeiro deles foi o tempo. Decidimos em cima da hora e, portanto, tivemos de resolver TUDO no sábado à tarde. Por tudo, entenda-se: comprar um berço portátil de camping (como esse aqui), comprar protetor solar, repelente, fraldinhas para banho e arrumar as zentas coisas do Enzo (incluindo panelinhas, colherinhas, pratinhos, mamadeiras, esterilizador, roupinha de cama, trocentas fraldas, sabonete, creminhos, frutinhas frescas já lavadas/esterilizadas, fazer papinhas, congelar papinhas, não esquecer papinhas no freezer…).

E ainda levar suprimentos para nós, pelo menos para os almoços…

Outro perrengue foi a escolha do repelente. O ideal seria não precisar dele, eu sei. Mas acontece que a praia para onde sempre vamos é bem natureba e, portanto, cheia de mosquitos. Sem chance de deixar Enzito sem proteção. Optei pelo mais natural possível, seguindo indicação do dr. Homeopata. Mas eis que não encontrei o recomendado -repelente fitoterápico da Weleda– em lugar nenhum. E comprar pelo site não era uma opção nessa altura dos acontecimentos.

Numa das farmácias de manipulação que visitamos atrás do Weleda, havia um similar. Vi preço e deixei para comprar mais tarde, depois que tivesse feito uma pesquisinha no bairro para ver se essa era mesmo a melhor opção. Só que eu esqueci que era sábado de Carnaval (céus!). A loja fechou mais cedo e acabamos tendo de comprar um desses repelentes de mercado mesmo. Claro que levei a versão baby, para nenês acima de seis meses (tem a infantil, mas essa é só para crianças com mais de dois anos), mas, mesmo assim, usei contrariada. A eficiência é inquestionável: os mosquitos não picaram nem a gente, que segurava Enzo. Porém, a pele dele ressentiu um pouco, e eu mais ainda por ter passado um monte de porcarias no meu filho. Enfim, era o que eu tinha para o momento.

No fim do sábado, ainda tivemos de rodar atrás do protetor solar. Como não queríamos um protetor químico (cheio de parabenos, que desregulam o sistema endócrino), apesar de ser o recomendado pela dra. Ped, fomos atrás das opções de protetores físicos (por exemplo o Anthelios Dermo Pediatrics, da La Roche-Posay). Aliás, as dicas sobre protetores eu achei aqui, no Coisas Minhas, e vale a pena ler. Mas protetor também foi testado e aprovado, mesmo a gente tendo o cuidado de não expor Enzo ao sol entre 11h e 17h (horário de verão).

Para as próximas, a resolução # 1 é não deixar NADA para a última hora. Nem a decisão de ir, nem comprinhas, nem arrumar as malas. Muitas coisas que nos tomaram tempo, como algumas compras, não precisaremos fazer nas próximas vezes, mas, mesmo assim, vamos tomar o cuidado de bater o martelo com antecedência suficiente para não rolar correria que, no fim das contas, atrasou nossa saída e nos fez perder um dia (já que, pelo horário que saímos de casa, pegamos cinco horas de engarrafamento num trajeto feito em, no máximo, metade desse tempo).

A resolução # 2 diz respeito à organização. Antes, era só jogar meia dúzia de roupas, um biquíni/sunga, uma canga, shampoo-sabonete-desodorante-perfume-hidratante-protetor-solar-escova-e-pasta-de-dentes na mochila e se mandar pra praia. Agora precisamos organizar melhor essa bagunça para facilitar ( já que são bem mais itens a serem levados) e para caber no carro. Quilos de sacolinhas com um pouco de coisa em cada uma definitivamente não rola mais. Decidimos comprar malas maiores para as roupas de cama e umas pequenas para os artigos de higiene nossos e do Enzo. Mala ele já tem e Dri e eu seguimos cada qual com sua mochila, que ainda dá conta do recado.

Para levar para a praia, a resolução # 3 manda o seguinte: vamos deixar o bom, barato e velho isopor de lado e substituir por uma ou duas caixas térmicas, tipo essa aqui. Não por glamour, não, mas para possibilitar o transporte seguro de frutinhas e papinhas do Enzo, tanto de SP para o litoral (na sacola térmica que eu tenho, a comida dele quase descongelou) quanto da casa para a praia propriamente. Dessa vez, ele passou à base de mamadeira, mas isso está longe do ideal. Nas próximas, vamos levar todo o suprimento à tiracolo. Faltou ainda uma cadeirinha só para ele e uma toalha mais adequada à praia, maior, multi-uso.

ABRE PARÊNTESE: Só para constar, essa praia é muito especial para nós e foi muito bacana que Enzo tenha começado sua vida de turista justamente nela. Dri, quando criança, vivia por lá; tem muitas de suas melhores memórias da meninice ligadas à praia. Namorados, fugíamos até ela sempre que dava. E, de uns anos para cá, depois que descolamos essa casa bacaninha para alugar e, assim, evitamos de vez as (proibitivas) tarifas de (impessoais) pousadas, o local virou refúgio coletivo: não só do Dri e meu, mas de todos os nossos amigos mais queridos (incluindo meu irmão e meu primo). Vamos sempre, sempre juntos. Rareamos as idas no ano passado por causa da gravidez e, por isso, estava louca para retomar, com Enzo à bordo. FECHA PARÊNTESE.

PS: Vai ter foto do Enzo na praia, gentes! Falta só descarregar, ok?

PS 2: Depois de tudo isso, mamãe aqui acrescentou mais uma coisa essencial à sua lista de “eu quero”: um biquíni que ressalte os pontos fortes, esconda os defeitos, levante os peitos, levante a bunda, suma com as gordurinhas indesejadas nos quadris, transforme o abdome numa barriga chapada, deixe a pele do rosto mais viçosa, melhore o cabelo, esconda aquela unha que ficou mal pintada e ainda seja à prova de puxões de bebê. Onde eu compro um desses?

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mamma, relaxa che te fa bene

Uma das delícias absolutas da blogosfera é o tanto que a gente aprende. Escrevi sobre a alimentação do Enzo no post anterior e surgiram dicas muito bacanas nos comentários. Dicas que quero compartilhar e que me fizeram refletir e concluir e encontrar outras coisas, que também quero compartilhar. Então, esse é um post-adendo, pois.

A Mari, do Viciados em Colo, como sempre, certeira:

estes bebês são tão sábios… conhecem melhor o sistema deles do que nós conhecemos o nosso e sabem direitinho seguir os instintos. relaxe!

E ela ainda recomendou: 1-) Deixar o sal totalmente de lado; 2-) Oferecer novamente os alimentos recusados depois de um tempo; 3-) Abusar das ervas frescas, do alho e das cebolas (louca para experimentar as cebolas brancas, aliás); 4-) Ir engrossando, mês a mês, a consistência da papinha para Enzo treinar a musculatura do maxilar e evitar que o pequeno pare na fonoaudióloga (leia ).

A Adriana, do Fora do Casulo, passou pela mesma experiência que eu: filho que recusa alimentos ou come bem pouco, sabe como? E o que ela fez? 1-) Abriu mão da rigidez de horários e apostou no horário certo para ele, no horário dele; 2-) Abusou dos legumes mais adocicados, tipo mandioquinha, cenoura, abóbora; 3-) Teve paciência.

E também não fico insistindo, não acho que horário de comer deva ser horário de tortura.

Já a Nívea, do Que Seja Doce, vive a experiência oposta, que ela conta aqui (recomendo. E um dia vou ser tão organizada quanto ela). E se ofereceu para trocar receitas, o que eu super topo. Quem sabe assim não pago a promessa de compartilhar receitinhas que dão certo com Enzo?

Daí me dei conta de que essa pressão toda tem a ver com aquela famosa expressão mangia che te fa bene sabe? Porque a gente é criada pensando que quantidade é qualidade. Não é. Mas a gente foi tão treinadinha para achar que quanto mais, melhor, que fica difícil depois aliviar o coração na hora em que o bebê recusa meio potinho de almoço.

A lição que eu estou tirando dessa fase do Enzo é: vamos oferecer, vamos variar o cardápio, vamos ampliar a oferta inicialmente de frutas e legumes mais adequados ao paladar dos pequenos, mas vamos, sobretudo, respeitar a vontade deles, que expressa a necessidade alimentar deles. Se é para eles comerem bem, por que não ouvi-los?

Fato é que os nossos filhos sabem sim o que é melhor para eles. Um estudo recente, por exemplo, concluiu que bebês que se alimentam com as próprias mãos, escolhendo os alimentos, têm menos risco de sobrepeso e, no médio prazo, conseguem uma dieta mais equilibrada que aqueles cujas mães oferecem a alimentação na colherinha. Matérias sobre isso aqui e aqui.

Daí que minha vibe alimentícia da cria está numas de relaxa che te fa bene! E justo hoje o moçoilinho almoçou tudo, ainda comeu um monte de mamãe e, perto do soninho, encontrou espaço para mandar ver em 240 ml de leite! Como disse o Dri, será que ele colocou tudo isso nas bochechas?

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