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criar com apego é minha forma de mudar o mundo

Enquanto estou ocupada com o trabalho e com um post que estou escrevendo sobre a participação do coletivo Infância Livre de Consumismo  numa audiência pública na Câmara Federal ontem (posto hoje ainda), deixo você com essas duas imagens lindas, inspiradoras e auto-explicativas, que encontrei numa página no “Livro das Faces”.

precisa dizer alguma coisa?

precisa mesmo dizer alguma coisa?

A página leva (praticamente) o nome deste post, só que em espanhol: “La crianza con apego es mi forma de cambiar el mundo“. As fotos, portanto, são daqui. São lindas ou não são? Pra encher qualquer Carlos González de orgulho! 🙂

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mais uma sobre partos

Essa blogagem coletiva sobre violência obstétrica me deu muito o que refletir. Nesses dias, li coisas interessantíssimas na madresfera (posso emprestar o termo, Mari?) e dois textos em particular me chamaram mais atenção, pois falaram mais claramente coisas que eu andava matutando, mas que não tinha ainda conseguido colocar em palavras, elaborar racionalmente.

Vou pela ordem de leitura, então. Esse aqui, da Mari, do Viciados em Colo, foi de uma clareza e de uma sobriedade arrebatadoras. E foi doído também, uma vez que botou em evidência sentimentos com os quais a maioria de nós lida ou tem lidado. Ela mostra todos as etapas pelas quais passamos quando descobrimos que sofremos uma cesárea desnecessária, quando entramos em contato, ainda que virtual, com a possibilidade de outros partos. Vale muito a pena ser lido.

Comentei com ela, lá no Viciados, algumas coisas que acho que complementam bem o post que fiz sobre violência obstétrica. Para começar, a responsabilidade por ter feito uma cesárea foi, em larga medida, minha mesmo. Queria um normal, mas não me preparei para ele nem física nem psicologicamente.

Fisicamente faltou um monte de coisas: atividades físicas adequadas -e recomendadas- para gestantes, atenção com a pressão, diminuição efetiva do sal nos alimentos, uma dieta mais equilibrada e uma longa lista de etc.

Psicologicamente faltou calma, tranquilidade e, portanto, atenção ao que realmente importava. Faltou também confiança em mim e no meu corpo, faltou entrega à gestação, entrega à natureza, ao ancestral, ao feminino ancestral em nós, ao arquétipo de mãe, aos antigos mitos fundadores da maternidade. Faltou encarar o parto com a naturalidade necessária para deixar de temê-lo e, assim, passar por ele.

Reconheço também que toda a informação de que disponho hoje já estava por aí, na madresfera. Fui em quem não busquei ou não busquei adequadamente, nos lugares certos. Ignorância pode até ser justificativa, mas não desculpa.

De modo que, respondendo à pergunta que a Mari fez no final do post dela, não, eu ainda não me perdoei. Estou no caminho, pois compreendo que fiz o que pude, que o que dei de mim era o que eu tinha pro momento, mas sigo culpada, sigo doída, especialmente pelo que privei Enzo de viver (um parto propriamente, no qual ele participasse, fosse ativo, não fosse surpreendido por mãos apressadas “nascendo-o” à força) e pelo que obriguei Enzo a viver (meu filho bebezico e confuso saiu de mim e foi direto ser mexido e remexido por braços estranhos, num universo estranho, frio. E foi sozinho, sem nem carinho, sem nem conhecer a voz que o acompanhou na estadia do útero. Foi prum berço aquecido, mas sem toque, sem colo, sem vozes ou sons conhecidos, sem referências, sem cheiro familiar, sem afago, sem carinho, sem aconchego, sem ninguém que lhe dissesse “está tudo bem, não se assuste”.

Eu só toquei meu filho, só pude colocar meu filho no colo, sentir seu cheiro, falar com ele, olhar pra ele 4 horas depois do parto. Entre uma coisa e outra, ficamos, eu e ele, separados pela frieza institucional das regras da maternidade, da equipe médica, do staff de enfermeiros, de sei-lá-mais-quem que, por sei-lá-que-motivo inventou normas que atendem a sei-lá-quais-interesses (mas não aos do meu filho, nem aos meus).

Então dói ainda, dói muito. E, talvez por essa razão, terminei de ler o texto da Mari com os olhos rasos d’água.

O que me leva ao segundo texto que li (por indicação da Mari lá no post dela) e que ficou martelando aqui na cabeça. A Anne, do Super Duper, diferenciou muito bem as vias de nascimento. Uma coisa é parto, outra é nascimento. Quem teve uma cesárea, como eu, na verdade não teve um parto. Clic! Isso nunca tinha ficado tão claro antes.

Eu não participei do nascimento do Enzo, fui mera coadjuvante. Sabe como descobri que meu filho já tinha nascido? Ouvindo a obstetra dizer “bem vindo”. Ela falou isso uma vez, falou duas, achei estranho e, meio grogue, perguntei: “Já nasceu?”. Sim, tinha sido nascido. Nem me dei conta. Nem me dei conta do momento mais importante das nossas vidas -minha e do Enzo. Aconteceu e eu mal estava lá. Qualquer pessoa que esteve naquela sala de cirurgia vai saber contar melhor como foi o nascimento do meu filho que eu.

Sinto por mim e por Enzo, mas pelas pessoas de um modo geral. As histórias, os marcos fundamentais da vida, estão perdendo valor para uma supervalorização de uma pseudo-ciência vendida a preço de ouro. Adorava ouvir a história de como eu nasci. Isso é essencial, faz parte da nossa identidade, toda criança quer saber. E quanto mais emoção, melhor.

Minha mãe sempre contava com detalhes como foram as contrações, que ela achou que não era nada, que quase nem vai para o hospital, e que -veja só- chegando lá eu já estava quase nascendo. Lembrava dos detalhes, do médico que não chegava, da enfermeira que a tranquilizava, de não ter sentido muita dor (“é uma cólica menstrual um tanto mais forte”, me dizia, pra eu não ficar com medo), de eu ter nascido rápido, da emoção de me ver pela primeira vez, do primeiro choro (meu e dela, como mãe), do primeiro colo, da primeira mamada. E eu ouvia, satisfeita com minha origem.

Isso faz de nós menos mães? Claro que não, nem acredito que exista isso. Mas não posso deixar de lamentar que, ao invés de um relato de parto, a origem das nossas crias -e a narrativa fundadora da vida dos nossos filhos- será algo como: “Mamãe marcou na agenda, fomos lá, tomei uma injeção e você nasceu”.

Sei que o post está enorme, mas ainda preciso dizer que o convencimento da indústria da cesárea foi tão potente, tão manipulador e tão certeiro que tem (muita) gente que associa PN à pobreza, à gente desassistida, à gente que não tem acesso às “maravilhas” da ciência. Muita mocinha classe média por aí que adora elogiar as maravilhas da vida “civilizada” fora do Brasil, esquece que lá fora, entre os civilizados, a regra é PN. Pra todo mundo.

Aqui, virou “privilégio” ter sua barriga cortada desnecessariamente, passar por um procedimento cirúrgico arriscado desnecessariamente, ser privada de um momento de comunhão maravilhoso desnecessariamente.

Uma mistura de preconceito de classes com violência disfarçada de ciência.

Sou pela livre escolha da mulher, da parturiente, mas que livre escolha há, que livre escolha é possível, sem informação verdadeira e adequada? Como já disse no post anterior, manipulação é, com certeza, uma forma de violência.

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teste de violência obstétrica – dia internacional da mulher – blogagem coletiva

Será que blogagem coletiva com um dia de atraso vale? Tomara que sim, pois ontem não deu tempo de terminar o post, e é um tema sobre o qual venho querendo escrever faz tempo. Quem chamou a blogagem foram os blogs Cientista Que Virou Mãe, Parto do Princípio e Mamíferas e, entre os objetivos, a ideia é debater o assunto e divulgar o teste de violência obstétrica, que pode ser respondido anonimamente aqui.

Vou começar contando minha experiência. Acho que o que eu vivi pode jogar luz sobre um aspecto da violência obstétrica que fica, por vezes, esquecido, que é a violência sofrida não no parto em si, mas ao longo do pré-natal e da gestação. Em geral, é também uma violência mais difícil de combater, pois mais sutil, concretizada por palavras, conceitos e manipulação.

Minha GO é cesarista. Ponto. Notei isso mais ou menos na metade da gestação, conforme ia lendo e aprendendo coisas -aqui na blogosfera, principalmente. As informações que eu encontrava, inclusive em sites da OMS e da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) não batiam com “diagnósticos” feitos pela GO. Tive a confirmação da preferência dela pela cesárea quando li isso aqui, ótimo texto do Parto do Princípio mostrando mitos e fatos sobre PN.

E o que faz um GO cesarista, além de tentar forçar uma cesárea na “hora H”? Passa toda a gestação da paciente tentando convencê-la de que a cesárea é melhor, muito melhor, que um parto normal, especialmente se for uma cesárea eletiva.

ABRE PARÊNTESE: Não sou melhor do que ninguém, nem estou aqui para vomitar minhas verdades. Cada um é dono de si e sabe o que faz. Portanto, sem julgamentos -mesmo- e com todo o respeito a quem faz eletiva, digo que cesárea marcada sempre esteve completamente fora de cogitação para mim. Acho um desrespeito profundo ao bebê “nascê-lo” com data e hora marcada, quando ele obviamente ainda não está pronto para isso. Se estivesse, teria nascido. Ponto. De todas as ideias relativas a parto e maternidade que “viraram moda” nos últimos anos, acho que essa é a mais nociva e fútil de todas. É uma violência fazer um bebê nascer à força, é começar a vida nesse mundo de meodeos sendo desrespeitado em seu direito mais básico. FECHA PARÊNTESE.

Voltando às tentativas de convencimento, foi exatamente o que minha GO fez comigo, ao longo das 36 semanas de gestação (sim, Enzo nasceu pré-termo). Desde o começo, deixei claro que queria PN. Nunca duvidei da minha capacidade de parir meu filho, minha mãe teve PN, minha avó teve PN, cresci ouvindo relatos de PN e sempre achei PN a coisa mais natural do mundo quando se pensa em parir um bebê (e acontece que é, né?, a coisa mais natural do mundo…). E as cesáreas que presenciei de perto sempre me pareceram dolorosas, recuperação difícil, aquela coisa de cirurgia. De modo que disse à GO na primeira consulta que queria PN, sem discussão.

Acontece que, na 14ª semana, o ultrassom indicou que minha placenta estava “baixa”. A ultrassonografista, médica, não se preocupou, explicou que até a 20ª semana ainda tinha tempo para “subir”, que não era nada preocupante. Mas a GO cesarista já me “diagnosticou” com placenta prévia (que só é diagnosticada assim depois de 20 ou 25 semanas) e tascou um “ó, não vai dar pra ser normal, porque você TEM placenta prévia”.

Para azar dela -e sorte minha-, no ultrassom seguinte, com 18 para 19 semanas, a placenta já estava normal. Só que ela continuou tratando a coisa como se eu fosse ter cesárea. Tive de lembrá-la de que meu parto seria normal algumas vezes durante a consulta.

Pensa que ela desistiu? Nada! Passado um tempo, ela “encontrou” outro “problema”: Enzo ainda não teria virado, nem se encaixado na posição de nascer. Que que ela me sugere, com calendário na mão? “Vamos marcar a cesárea, já que não vai rolar normal”? Agora me pergunta quantas semanas de gravidez: 22, 23. Que bebê PRECISA ter virado e estar encaixado para nascer com 22 semanas?? Devolvi essa pergunta para ela e reforcei: será normal, nada de marcar coisa nenhuma.

A terceira tentativa veio quando, às 30 semanas, eu me autodiagnostiquei com colestase gestacional. Sim, porque por ela eu estava só com alergia por ter comido três rodelas de abacaxi uns 15 dias antes dos sintomas (coceiras pelo corpo) começarem. A colestase é uma doença que pode surgir na gravidez, ninguém sabe ao certo porque, e consiste numa deficiência do fígado de excretar corretamente a bile, que se acumula no sangue gerando uma coceira dos infernos pelo corpo inteiro. Eu simplesmente não conseguia dormir e, mesmo no inverno, tomava banho frio na madrugada.

Em geral, a colestase é benigna, mas pode diminuir a concentração de vitamina K no sangue, que ajuda na coagulação. Grávidas com essa doença precisam acompanhar direitinho a evolução dela, pois, a partir de um determinado ponto, pode levar à hemorragia no parto. Para as que chegam nesse estágio, antes de parir é preciso tomar injeções de vitamina K, que serão reforçadas logo após o nascimento do bebê.

Enfim, achei estranho o diagnóstico de alergia, pesquise e encontrei essa doença no google. Sintomas batiam com os meus e por minha conta procurei um gastro; por minha conta pedi a ele os exames que medem as taxas de bile no sangue e por minha conta levei a ela, que DESCONHECIA a tal colestase (ok, é rara. Zero vírgula zero nada de mulheres têm, mas se eu achei…). Daí que quando ela soube do diagnóstico, tascou um “vai ter que ser cesárea”. Mas até dois segundos antes, ela NEM SABIA que isso existia, deosdoceu! Como é que no segundo seguinte já sabia que impediria o PN? Claro que não impede, só para registrar.

E, dali em diante, em toda consulta, ela fazia questão de tentar me convencer a agendar a data da cesárea, mesmo eu dizendo que queria normal. E ela: “mas escolhe, só pro caso”. Só pro caso de quê? A verdade é que ela ficou morrendo de medo da “doença desconhecida” e queria adiantar o parto do Enzo, numa cesárea eletiva, claro. A pressão era tamanha que eu cheguei a procurar outras GOs, já quase parindo. O problema é que não achei nenhuma em quem confiasse para trocar naquela altura dos acontecimentos. E por pior que fosse o jeito da minha GO de conduzir a situação, eu confiava nela tecnicamente, ela é minha gineco desde os 14 anos, enfim… Fiquei com medo de mudar e me arrepender.

Eu já estava suficientemente estressada por estar lidando com uma doença raríssima, que eu desconhecia, que me dava um incômodo horrível e ainda atrapalhava meu sono (só coça à noite, a porcaria da colestase). Tive medo, claro, de evoluir a ponto de prejudicar minha absorção de vitamina K, tive muito medo do parto. E a GO, para me “tranquilizar”, depois que leu sobre a doença, toda hora fazia questão de dizer que o fígado é órgão mais importante do corpo segundo a medicina chinesa, que eu tomasse cuidado, que era sério o que eu tinha, que era melhor fazer o parto logo e blá blá blá.

Claro que a responsabilidade não é só da GO e de sua pressão dos infernos, mas não tenho dúvidas de que ela contribuiu e muito para o resultado: minha pressão arterial começou a subir consistentemente a partir da 32ª semana. Eu, que sempre tive pressão 11 x 8, 10 x 7, não conseguia mais abaixar de 14 x 10.  No dia em que pari, minha pressão estava a 22 x 18, não tinha mais nada de líquido amniótico, havia risco de sofrimento fetal e risco de eclâmpsia (para mim). Eu entrei em trabalho de parto, o que foi ótimo, tive até dilatação de 8 centímetros, mas não pudemos esperar a natureza agir por causa das condições gerais apontadas acima. A cesárea, afinal, foi necessária. E é ótimo que exista a cesárea quando há necessidade dela. Não sou contra cesáreas a priori, elas salvam vidas. Mas só quando são NECESSÁRIAS.

Mas me pergunto: a minha teria mesmo sido necessária se a GO não pressionasse tanto desde o começo? Se não me assustasse tanto quando soube da colestase? Se não fosse cesarista? Se fosse entusiasta do parto normal? Porque risco por risco, há bem menos no normal, inclusive de hemorragias. Ali, na hora, foi necessária, mas teríamos chegado a esse estado de coisas se a condução do pré-natal tivesse sido diferente?

Claro que o que aconteceu comigo é um nada perto da violência obstétrica pela qual passam diversas mulheres, é nada perto de relatos sofridos de maus tratos, de abandono, de imperícia e de cesáreas totalmente desnece(s)áres, feitas totalmente contra a vontade das mães. Mas achei que valia relatar, pois sei que isso acontece em diversos consultórios por aí, sei que muitas mães são manipuladas para “escolher” cesáreas ao invés de PNs, são estimuladas a agendar cesáreas, sob o argumento (que eu ouvi várias vezes) de que depois das 38 semanas “tudo bem nascer a qualquer hora”.

No curso de pais que Dri e eu fizemos, só eu e mais umas três ou quatro mães -de uma sala lotada- queriam parto normal. Por que será? A que tipo de informações erradas as gestantes são submetidas para temerem o PN e acharem a cesárea melhor? Mentir, manipular, submeter não são formas de violência? Acho que sim, e são sutis, difíceis de serem percebidas. E é a esse tipo de violência que várias mães da nossa geração são submetidas antes e durante a gravidez, culminando nesses números ridículos de cesáreas no Brasil.

Minha GO dizia que cesárea era mais segura. Uma ova. Cesárea é uma cirurgia abdominal de alta complexidade, 7 camadas são laceradas, há mais risco de hemorragia e a recuperação é um outro parto, de tão chatinha, arriscada e complicada. O grande “barato” da cesárea é que o médico leva 20 minutos numa, ao passo que levaria até 12 horas num parto normal. Faz as contas de quanto ele ganha (em dinheiro) e economiza (em tempo) fazendo a cirurgia ao invés do procedimento natural.

Meia hora depois da minha cesárea, a GO estava flanando por aí, ou atendendo alguém, ou fazendo outra cesárea. E Enzo estava num bercinho aquecido, chorando sozinho. Por quê? Porque eu estava sem meu filho, imóvel, dopada, cheia de coceiras, com a pressão a 17 x alguma coisa, largada numa sala sozinha esperando passar o efeito da analgesia. Quatro horas depois da minha cesárea, a GO já poderia ter feito, sei lá, outras 4 cirurgias. Mas eu continuava dopada, pressão alta, coceira, largada sozinha. E pior,  sem nem ter conhecido meu filho, que continuava chorando sozinho num bercinho aquecido, vendido pelas maternidades como luxo tecnológico.

Só que eles esquecem que levaram 5 mil anos de civilização para fazer uma droga dum bercinho aquecido para “regular” a temperatura do RN aqui fora. Mas o colo, que faz as mesmas funções e ainda é amor, afago, acalento, sossego, segurança, faz isso desde sempre. Foram 5 mil anos pra imitar mal e porcamente o colo humano, do qual Enzo foi privado nas suas primeiras horas. E foi privado de mamar logo de cara, foi privado da mãe. E  por quê? Por causa da porcaria da cesárea, por causa da porcaria da pressão (arterial, da GO, da doença).

Enfim, tudo pra dizer que considero a pressão por cesárea e essa epidemia de cesáreas uma violência -contra a mãe e contra o bebê-, especialmente cesáreas agendadas, que são ainda mais violentas com os bebês. E tudo pra dizer que ainda há muito o que conquistar para as mulheres, incluindo o direito de parir direito.

Sou feminista, de modo que tudo o que tenho pra dizer sobre direitos e mulheres rende vários posts (farei um dia), mas só desejo que as moças parem de lamentar que o feminismo “acabou” com a “feminilidade” (já ouvi de várias), ou que acabou com as “gentilezas” (tipo um sujeito abrir a porta pra você) e abram os olhos para quanta violência ainda existe. Obstétrica, doméstica, sexual. Violência física e psicológica. Violência da submissão física ao macho (como o estupro), mas também violência da submissão psicológica, intelectual, financeira que muitas vezes é imposta. Violência do controle do corpo da mulher por outrem (vide valorização da virgindade, valorização de um certo padrão de beleza, como se fôssemos todas um bando de bonecas infláveis), violência do controle de nossas escolhas. E tem gente que ainda acha que gentileza é abrir porta de carro. Não, obrigada, a porta eu mesma abro, sou capaz disso também. A gentileza que quero é respeito e igualdade de direitos e de deveres.

Para quem quiser, acho bem bacana o teste de violência obstétrica. Eu deveria ter pedido informações para a Ligia Sena, do Cientista Que Virou Mãe, para inserir o formulário por aqui, mas não fiz por absoluta falta de tempo, de modo que sugiro que o teste seja feito lá na página da Ligia por enquanto. Pois, de qualquer maneira, vou pedir pra ela e depois insiro aqui.

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não gosto de manha, a palavra

Não gosto da palavra manha. Não acredito nela, não uso. Meu problema com a palavra começa em seu pressuposto: o bebê só precisa de alguns tipos de cuidados. Portanto, se chorar querendo qualquer outra coisa, é “manha”, é um “choro sem motivo”.

No senso comum, em se tratando de bebês, manha equivale a manipulação, a chorar à toa com intenção de manipular os pais para obter deles algum benefício a que o bebê não tem direito -ou que não é “bom” para ele. Significa exagerar uma emoção com o objetivo deliberado de enganar mamãe e papai, sensibilizá-los a dar algo que não deveriam dar ou que simplesmente não dariam, pois não é necessário.

Não faz muito tempo, numa consulta com a pediatra do Enzo, levei uma bronca por “perder” muito tempo com Enzo e ficar à disposição dele o dia todo. Para eu saber se estava “exagerando” ou não nos cuidados, a dra. Ped me deu a seguinte receita: põe a cria em algum lugar seguro (carrinho, cercadinho, tapetinhos etc). Se chorar, faça um check list mental: ele está alimentado? Está limpo? Está com alguma dor ou incômodo? Se a resposta for “sim” para as duas primeiras e “não” para a última, então o choro é “manha”, ele não precisa de nada.

Aí eu pergunto:

1) Quem disse que o bebê só precisa de cuidados físicos? Quer dizer que se estiver de barriga cheia, limpo e sem dor o resto é frescura? Necessidades psicológicas, emocionais, curiosidade tudo isso é ignorável? É desejável que seja ignorado? Nem pode ser considerado uma necessidade?

O que leva à segunda pergunta.

2) Quem disse que só queremos -ou que só devemos querer- o estritamente necessário? O que não garante a nossa sobrevivência imediata é supérfluo e desejar isso é errado? E se fosse um adulto? É assim que funciona também? Só precisamos garantir alimentos, higiene e alívio pra enxaqueca? Todo o resto é dispensável? Amor? Carinho? Amigos? Uma cervejinha gelada? Um livro? Um disco? Querer essas coisas é frescura e manha?

Ou 0s adultos têm mais valor que os bebês? Podem querer mais coisas? Bebês não sentem? Não desejam? Não podem desejar sei-lá-o-quê? Só gente grande pode ter vontades esquisitas (tipo ficar milionário antes dos 30)?

O pior é que tachar os pequenos como manhosos a priori não quer dizer apenas que as crianças não têm direito a nada que não seja necessidade básica -e física ainda por cima. Quer dizer que elas não têm nem o direito de pedir por coisas que não sejam comida, bumbum limpo e, eventualmente, um remedinho para dor de ouvido.

Dizer “isso é manha” desqualifica, de uma só tocada, o pedido (o ato de pedir, reivindicar, expressar desejo e frustração) e o desejo em si, já que, senso comum, manha é “chorar à toa”. Para muitos, psicólogos inclusive, alguns dos quais li recentemente, dar o que a criança pede é igual a contentar todos os seus “caprichos”. E reduzir os quereres e necessidades das crianças a “caprichos” não é de uma soberba imensa? Para mim, é.

Se meu desejo, adulta que sou, é um desejo digno; se nós, “gente grande”, somos estimulados (até demais) e super premiados por “lutar” pelo que queremos, porque o querer das crianças deve ser menosprezado?

O pediatra espanhol Carlos Gonzalez diz, em seu ótimo Besame Mucho, que nos acostumamos a tratar os pequenos de forma desrespeitosa, de maneiras que não trataríamos adulto nenhum. E provoca: ué, não somos todos iguais, afinal? Ou, como dizia o poeta, uns são mais iguais que os outros? Ele desafia: antes de fazer qualquer coisa a um bebê ou a uma criança, imagine o que faria na mesma situação se fosse um adulto.

Isso significa atender a todos os desejos dos bebês? Claro que não. Concordo com quem diz que é nosso papel de pais ensinar e ajudar os filhos a lidar com a frustração. E nem todos os desejos podem mesmo ser realizados, na bebezice e na vida.

Mas discordo muito da pediatra sobre:

1) A atenção que Enzo merece: não acho que eu não deva estar disponível, que eu deva ensiná-lo a “não precisar de mim”. Como eu já escrevi outras vezes, ele precisa, eu quero que precise, é bom e natural que precise, pois ele é um BEBÊ. E acho que é natural que qualquer coisa de que ele precise ou que ele queira o faça procurar por mim ou pelo pai, do jeito que ele sabe e pode fazer: chorando. Se vamos dar o que ele quer é outra coisa, mas não quero tachá-lo de manhoso só porque ele pede, nem vou ignorá-lo.

2) O que é necessário: acho colo necessário, acho beijo necessário, acho afago necessário, acho sentir-se amado necessário, acho sentir-se seguro necessário, acho sentir-se acalentado necessário, acho toque necessário, acho alegria necessária, acho riso necessário, acho brincadeirinhas necessárias. Não acho limpar a bunda e encher a barriga as únicas necessidades.

3) O que fazer quando Enzo quer algo de que não precisa: é ótimo que pessoas, incluindo crianças, queiram o que não precisam. Se a gente só quisesse aquilo de que precisasse, seríamos todos nômades, coletores de frutos, caçadores de pequenos animais, viveríamos em cavernas e usaríamos desenhos toscos para nos comunicar. Nem os bichos limitam seus desejos às necessidades. Minha gata não precisa de colo, mas adora esse tipo de afago; não precisa da nossa cama, mas prefere dormir com a gente que sozinha. Podendo atender a esses desejos (dos filhos, dos gatos, dos amigos, nossos mesmos) -e eles sendo saudáveis- não vejo razão para negar.

4) Como e quando ensinar a lidar com frustração: não acho que a gente precise marcar na agenda: esses ensinamentos serão naturais, se estivermos atentos aos filhos e a nós mesmos, porque temos limitações, limites que também limitam os filhos.Exemplo bobo? Eu me canso de ficar com Enzo no colo (ele pesa 9,6 kg, afinal). E aí eu o coloco no carrinho, no sofá, no tapete, mesmo que ele ralhe um pouco. E eu converso com ele e explico que estou cansada e mostro que, naquele momento, é isso que dá pra ser feito. E ele entende, a seu modo, e lida com sua impossibilidade.

E há situações em que o que a cria deseja é impossível. Não precisamos inventar um “não” só pra o menino não ficar “manhoso”. Enzo ama facas. É claro que ele não pode brincar com elas, é claro que eu não dou, é claro que ele chora. E ok. Ele chora o tempo necessário para, justamente, lidar com a frustração. E depois passa. Que mãe eu seria se o achasse manhoso simplesmente porque ele está tentando lidar com sua frustração, com o limite? O grande barato -todo mundo diz por aí- não ensinar justamente o tal limite? Pois é, pra isso, é preciso não reprimir o choro, nem partir do pressuposto de que se trata de “manha”.

Pois eu acredito que ensinar a lidar com frustração é muito mais fácil e efetivo quando não brigamos com os filhos por eles estarem chorando (porque querem algo ou porque não podem ter algo), quando não rotulamos nossos filhos só porque, bem, eles não se comportam como se fossem bonecos. E isso foi um clic gigantesco que eu tive lendo a série sobre “birras” (outra palavra que eu detesto; outro post no forno) do O Astronauta.

5) Razões pelas quais “devo combater a manha”: para a dra. Ped, eu “perco” muito tempo fazendo as “vontades” de Enzo. Para mim eu GANHO muito tempo CONVIVENDO com meu filho.

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dou colo em livre demanda sim

Enzo adora colo, não é segredo para ninguém. E quem lê o blog sabe que sou coleira convicta. Mas parece que isso incomoda demais as pessoas que, de um jeito ou de outro, convivem com meu filho, ainda que só de vez em quando. Tenho sido cada vez mais cobrada e questionada. Uns acham que Enzo manipula a mamãe, o maquiavélico. Para outros, eu tenho é preguiça de educar. Pelo que tenho visto por aí, não sou a única a ser cobrada/questionada. O paradigma hegemônico diz que o “certo” é deixar bebês chorando, pois são todos uns manhosos.

Eu não ia escrever sobre isso. Sinceramente, não me incomodo com as críticas. Sei que as pessoas, na maioria das vezes, estão tentando “me ajudar”, sei que o senso comum determina que colo é mau, já sabia que a pressão viria, de modo que estou preparada para lidar com ela. Dou a resposta-padrão “li muito sobre isso, acho que dar colo é ótimo, não se preocupe”, sorrisinho e assunto encerrado.

Mas eis que um casal que está pensando em ter filhos veio conversar comigo sobre isso no fim de semana. Eles queriam entender porque a gente faz diferente aqui em casa e disseram que se surpreenderam com a calma do Enzo. Queriam saber se a cria é tão sossegada e sorridente por causa do colo. E confessaram que estavam curiosos, pois tudo o que ouvem vai no sentido contrário, no sentido do “não dê colo”.

Então achei que valia um post para explicitar parte das minhas convicções. Começo dizendo que, como a maioria, fui orientada por todo mundo -de obstetra e pediatra a parentes- a não dar colo para o Enzo. E acreditei nisso. E achei que faria isso. E achei que Enzo teria de ser “treinado”, teria de me obedecer desde sempre, caso contrário, me manipularia, abusaria, viveria sem limites.

Mas eis que no caminho encontrei a blogosfera e a Mari e Gonzalez,  Laura Gutman, John Bowlby, Donald Winnicott, Sue Gerhardt (e seu lindo Why Love Matters), a Associação Internacional de Parentagem por Apego. E aí tudo mudou. Refleti, refleti, refleti muito, e percebi que dar colo não só é algo muito natural (genético até) como é altamente desejável.

Fiz escolhas conscientes como mãe. Até onde tenho domínio racional sobre minhas ações (e olha que sei que, na prática, é bem pouquinho), escolhi ser a mãe que sou, a maternagem que ofereço, com a qual me identifico. Até onde consigo controlar (de novo, bem pouquinho), procuro não reproduzir por reproduzir um jeito “x” ou “y” de maternar, procuro pensar sobre os porquês de fazer ou não fazer isso e aquilo e, de novo, escolho aquilo com o qual me identifico. E tenho como parâmetro nessa análise o bem estar e o desenvolvimento emocional do meu filho.

Isso significa que: não sou escrava do Enzo, nem manipulada por ele. Pelo contrário. Dou colo em livre demanda, sim, pois decidi dar, pois acredito nisso como a melhor forma de maternar e amar uma criança. Dou colo em livre demanda, porque acredito no que diz Carlos Gonzalez: os filhos precisam do colo para se sentirem amados, amparados, seguros. Assim como nós, adultos, temos nossos rituais de segurança, os bebês têm os deles, o que inclui colimdimamãe.

Aqui rola colo à vontade porque aplico a maternagem por apego, cujos pressupostos incluem me colocar no lugar do bebê, o indefeso, e não o contrário. O neném, recém-chegado nesse mundo, é que precisa ser protegido e acalentado, é quem está confuso, perdido e assustado, é quem olha para a mãe esperando dela a calma necessária para ajudá-lo a organizar o turbilhão de emoções e novas experiências que ele vivencia. E o toque, o holding (vide Winicott) é que vão dar, em larga medida, a segurança de que precisa o pequeno para ir organizando, a seu tempo, o seu mundo interior.

Respondendo à pergunta que os amigos fizeram, acho que sim: colo colabora muito para manter Enzo mais calmo, tranquilo e sorridente. Claro que a personalidade dele ajuda muito, é até determinante, penso. Mas colo, carinho, afago, tudo isso evita estresse e frustração, com os quais ele não saberia lidar pela pouca idade. Sobre isso, recomendo muito essa entrevista aqui, com a Sue Gerhardt, psicóloga inglesa especializada no desenvolvimento do sistema nervoso.

E dou colo em livre demanda porque quero, porque me dá prazer ter meu filho coladinho em mim, porque obviamente dá muito prazer a ele estar coladinho a mim, recebendo abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim. E rindo. E mordendo meu nariz. E sendo feliz. Por que não?

Quer dizer que não estimulo Enzo a brincar sozinho, engatinhar, ficar no chão livre, leve e solto? Claro que estimulo. Claro que brinco com ele, que o incentivo a desenvolver habilidades motoras e sensoriais para as quais ele precisa estar autônomo, sentadinho no sofá, num cercadinho, num tapete. Mas faço na medida do desejo dele, do interesse dele, da inclinação dele, não da minha conveniência. Se ele quer carinho no colo, vai ter. Se está interessado em brincar, vamos brincar no chão, ajudá-lo a desenvolver a coordenação motora, a fortalecer seus músculos etc.

Isso também significa que não sou mole nem deixo para lá na hora de mostrar limites. Só que meus limites são um tanto diferentes dos limites dos outros. Não vejo meu filho alguém que deve ser “ensinado” a se adaptar às minhas necessidades. A adulta sou eu, a mãe sou eu, eu que tenho que me adaptar às necessidades do pequeno e provê-lo de tudo quanto ele necessite enquanto ele ainda precisar que seja assim, seja mamadeira, seja colo. Colo nada mais é que desejo de amor e proteção, desejo de locomoção (para quem não anda), desejo de ver o mundo de um outro ângulo, curiosidade. Se negar todas essas coisas lindas a um bebê que, óbvio, minha gente, só depende de mim, é impor limites, não quero impor limite nenhum.

Acredito que, para o bebezico, “mamãe te ama” é colo, calor humano, carinho, estômago cheio, fralda limpa, brincadeiras, atenção. E tudo isso requer dedicação, proximidade (física inclusive), disponibilidade, disposição. Botar  “limites”, ainda mais esses limites, não faz o menor sentido nesse momento do desenvolvimento dos pequenos.

Não acredito em manha. Bebês têm direito de chorar por coisas que queiram e isso não é “fazer manha”. O tipo de maternagem que escolhi é aquele em que meu filho pode se comunicar comigo, da maneira que consegue, e exprimir suas frustrações, ainda que esteja frustrado simplesmente por não poder pegar determinado brinquedo. Não acho isso ruim ou tentativa de manipulação ou má-fé, como pressupõe a palavra. Para o que é importante para mim, não rola deixar bebê chorando e ensiná-lo a não reivindicar seus interesses, como se o desejo dele valesse menos que o meu. Isso é igual a fazer tudo o que o bebê quer? Não, nem seria saudável. Mas é igual a ouvir o bebê e levar em conta seus interesses, seu ponto de vista, ao invés de deixá-lo chorando sozinho porque ele é “manhoso” e “só quer colo”.

Porque eu acredito que, se a questão é evitar que os filhos sejam “tiraninhos” quando um pouco maiores, o caminho é o inverso. Com um ano, um ano e pouco, o bebê vai desobedecer mesmo. Não por falta de limite, mas por curiosidade, porque esquece recomendações. Nesse caso, o ideal vai ser distrai-lo e chamar sua atenção para outras coisas. Enchê-lo de “não” só vai vulgarizar a palavra.

E, quando for ainda maior (2, 3 anos), confrontar a ordem dos pais vai ser reafirmar sua personalidade, pois é nessa fase que as crianças começam um processo de individualização: testam quem são, do que gostam, o que preferem, de que forma colocar as preferências em prática. E, assim como na adolescência, a melhor forma de ser você é deixar de ser o outro (os pais). Daí a confrontar abertamente é um passo. Só que sabe qual criança vai passar por essa fase mais tranquilamente? Aquela que tem vínculo de melhor qualidade com os pais, aquela que se sentiu mais amada e protegida lááá atrás, na fase bebezica. Sabe qual? Essa mesma, a do colo, a “viciadinha”-dependente-que-“fazia-manha”. E não estou sozinha nisso. Dê uma boa olhada aqui e aqui. Aliás, isso ainda rende outros posts, no forno. Até porque não pratico “maternagem de resultados”. É muito bom que bebê coleiro seja mais tranquilo até nas fases emocionalmente confusas, mas faço o que faço por princípios. Ainda que os resultados fossem “piores”, ainda que fosse mais “eficiente” não dar colo, daria.

E chegamos ao ponto da tal independência, que parece que virou o objetivo principal de pais e mães. Independência é desejável? Muito. Já disse em algum outro post que crio meu filho pro mundo, para se encontrar, para se virar, para saber se respeitar e respeitar os outros, para viver suas próprias experiências, fazer suas próprias escolhas, trilhar seu caminho, sem interferências. Minha função como mãe, minha tarefa maternal, é ajudar Enzo a SER ELE MESMO, seja lá o que isso signifique, seja lá quanto tempo ele demore para descobrir quem é (se é que vai descobrir completamente), seja lá onde isso o leve. Não quero, não vou nem posso interferir numa jornada que é dele, só dele. O que quero, posso e vou fazer é ajudá-lo a estar pronto quando as escolhas começarem a cercá-lo, quando for preciso optar pelos caminhos. E ampará-lo se ele precisar.

Se minha tarefa é ajudá-lo a estar pronto, minha tarefa é prepará-lo, ajudar a prepará-lo. Pois eis que, para estar pronto lá na frente ele precisa se fortalecer agora, precisa se saber amado, protegido, precisa de fundação, de raízes, de um porto-seguro. Saca o tal “resiliente”? Ele só é resiliente porque as pontas são flexíveis, mas a raiz é sólida. Raiz sólida é amor, é autoestima, é reconhecimento de si próprio como capaz e amado. E, para isso, é preciso dependência completa quando o bebê for completamente dependente. Não é óbvio? Não é óbvio que exigir independência de um ser emocionalmente dependente é queimar etapas que, lá na frente, farão falta? Não é óbvio que quanto mais eu respeitar os limites do meu filho e suas necessidades físicas e psíquicas agora, mais independente ele será no futuro, quando estiver pronto para isso?

Gonzalez definiu muito bem (sempre ele) duas correntes de maternagem/paternagem/palpites. Ele falava, na verdade, sobre pediatras, mas vale para todo mundo. De um lado, os que pensam que tomam partido dos pais. Esses acham que os bebês devem ser treinados desde o primeiro dia para a independência, que deve chegar ainda na bebezice. Nesse caso, os pais só estão autorizados a fazer coisas relativas às necessidades básicas físicas ao bebê, como dar de comer, limpar, dar banho. Serão maus pais se derem colo, se ninarem para dormir no colo, se deixarem chupetar o peito, se estimularem o bebê a experimentar o mundo pelo afago “colístico” da mãe.

E há o outro grupo que entende que não há lado nessa história: mães e bebês vivem em simbiose, não se opõem, se complementam. Esse incentiva o colo, a amamentação em livre demanda, cama compartilhada, calor humano, satisfação dos prazeres e desejos do bebê, amor em manifestação livre, dependência, muita DEPENDÊNCIA. Eu faço parte, seguramente, desse grupo.

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