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criança não é pública

Adultos: afeto é o máximo, desde que eu queira também! #fik dik (*)

Adultos: afeto é o máximo, desde que eu queira também! #fik dik (*)

Filho e eu passeando rapidamente num shopping, à tarde, logo depois da escola. Não lembro bem da razão da visita, mas com certeza passamos por ali para comprar alguma coisa que usaríamos em seguida. Granola, arrisco. Tem uma loja de produtos naturais que vende pela metade do preço do praticado pelo supermercado mais próximo de casa.

Uma mulher, talvez uns 30 anos, pouco menos, trabalha numa loja de utilidades domésticas. É simpática e falante. Sempre tenta estabelecer um diálogo com o filho, que foge dela. Sempre foi assim. E suspeito que o interesse da moça pelo pequeno seja justificado exatamente por ele não gostar muito de papo com estranhos e, às vezes, reagir com rispidez à insistência alheia.

Bom, nesse dia, ao passarmos em frente à loja onde a mulher trabalha, Enzo foi pego de surpresa. Ela não estava lá dentro, mas perto dele no corredor, provavelmente voltando de algum lugar. A moça agarrou, ligeira, meu filho por trás e tascou-lhe um beijo na testa, à força, enquanto ele se debatia e eu protestava.

Satisfeita pela conquista, a moça ensaiou dizer alguma coisa, diante da minha surpresa-silêncio, mas foi interrompida antes mesmo de começar. Foi interrompida por uma criança indignada –com toda a razão– que, mesmo mais frágil em muitos sentidos, aumentou a voz e se fez ouvir até o final do que tinha para dizer:

–Eu nunca mais vou deixar você me beijar! Você nunca mais vai fazer isso! Nunca mais!

–Mas eu só queria fazer um carinho em você…

–Não, não queria nada! Você queria me obrigar! Carinho é diferente! Carinho é o que minha mãe faz em mim, e ela só me beija quando eu quero!

A moça desconcertou. E eu também. Por não ter sido eu a expor à mulher o adultismo e o desrespeito do que acabara de fazer. Pois a criança e seus sentimentos nomearam com clareza o que tinha acontecido. “Você queria me obrigar a te satisfazer, não queria me dar carinho, porque carinho pressupõe que eu consinta e também queira”. Voilà.

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Criança não é pública. Se você não tocaria ou beijaria, à força, um estranho na rua, por que acha que pode fazer isso com uma criança? Criança é tão sujeito quanto eu ou você. Para conversar, receber ou dar afeto, precisa consentir. Assim como eu ou você. Criança não veio ao mundo para satisfazer carência de adulto adultista.

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Sobre esse tema, recomendo a leitura desse e desse posts. O primeiro é do ótimo site Paizinho Vírgula!, do Thiago Queiroz, pai de dois queridos, sobre o absurdo naturalizado de se obrigar bebês e crianças a beijar, abraçar e se relacionar com todo mundo (como se nós, adultos, fizéssemos isso também…). O segundo é da roteirista Renata Corrêa, mãe, feminista, que pondera sobre riscos de, mais velhas, as crianças não conseguirem identificar com clareza seus desejos e limites em relação a afetos e sexualidade se, na infância, as ensinarmos a conceder e aceitar a aproximação sempre que um adulto quiser.

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(*) Imagem da genial ilustradora italiana Beatrice Alemagna. Veio daqui, projeto recomendadíssimo de entrevistas com ilustradores infantis bacanas. Vale a visita nem que seja pra babar nas ilustras. 😉

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mas essa escola é diferente

(*)

sugiro clicar pra ampliar a linda ilustra do Decur (*)

“A nossa obra de adultos não consiste em ensinar, mas sim em ajudar a

mente infantil no trabalho de seu desenvolvimento”

Maria Montessori – “Mente Absorvente”

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“Mas sempre tem um que é diferente

Tem sempre um que até surpreende a gente”

Paulo Tatit – “O Rato”

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui o uniforme é qualquer roupa confortável. Calça de malha, shorts manchado, camiseta velha, camiseta nova, largona ou curtinha, e também vale só cueca, só calcinha, só fraldinha. Pés descalços, com chinelo, com crocs, só de meias, com tênis, sandália, sem nada, um pé de cada jeito. Pé no chão, pé na areia, pé no pedal, pé na água, pé no pé de fruta; pé dançante, pé pulante, pé veloz. Uniforme, aqui, pode ser tinta. É permitido usar o corpo como suporte para a arte. Menina não tem que usar rosa, nem menino só usa azul. Tem menina de camisetão e menino com saia rodada, girando pra lá e pra cá nas oficinas de dança ou nas histórias que se conta.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui a mochila desconhece personagem, só tem pano, papel não há. Não se carrega caderno ou livro didático. O conhecimento está do lado de fora e ainda nem foi escrito; está todo por ser descoberto, explorado, construído; está nas árvores, nos jogos com os colegas, no pedal da bicicleta; no purê de abóbora, no suco de romã, no abraço, no colo, nos afetos e vínculos, no presente que se ganha espontaneamente do amigo e no presente que se dá. E que não custa dinheiro, só demanda olhar, conexão, proximidade, um papel com canetinha ou tinta guache.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui não tem professor. Ou educador. Ou cozinheiro. Ou porteiro. Aqui tem gente de coração aberto para acolher a infância, para respeitar o outro, para estar presente sem interferir, para dar a mão sem indicar o caminho, para oferecer e oferecer-se. Gente capaz de desvestir a máscara dos títulos (porque eles não importam mesmo) e da “facilidade” da prepotência adultista para ser e estar e promover um ambiente em que as crianças sejam e estejam.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui tem concentração, muito prazer nas atividades e descobertas, criança trabalhando quieta e entregue naquilo que escolheu. Tem muita conversa, de pequeno com pequeno, de grande com pequeno, de grande com grande, de pequeno-com-pequeno-com-grande-com-pequeno-com-grande. E outra coisa que grassa por aqui é ouvido. A escola toda, pode-se dizer, é um ouvidão bem atento (não são as paredes só que têm ouvidos: todo mundo tem). Daqueles que principalmente escutam, ao invés de só ouvir. Tem olhos também. Brotam aos montes, em todo o lugar. Que veem, enxergam e reparam (como diz o Saramago).

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui a sala de aula é grande, é ampla, tem sacada, tem jardim, tem escada, refeitório, ateliê, quintal, um vaso com lavanda, um casal de sabiá. E amplia espaços, ao invés de se fechar. Não é gaiola. É asa. Aqui a porta está sempre aberta, e a criança escolhe onde ficar. Pode ser no grupo que está pintando ou no que vai começar a jogar, pode ser ouvir história, pode ser observar. Tem muito tempo de quintal, tem todo o tempo para brincar. Aqui brincar é coisa séria, como só criança consegue ser. Aqui criança tem autonomia, liberdade, é sujeito. Os limites –sim, eles existem- servem só para organizar, facilitar; jamais controlar, submeter, adequar. Limite aqui é leito de rio: ajuda a fluir. Mas a água segue livre pelo curso, que ela mesma vai fazendo (tal qual o caminhante) ao caminhar.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui criança não tem TDAH como se fosse gripe. Gripe, falando nisso, é outra coisa que quase não dá. O que dá muito por aqui é riso, gargalhada, grito, corre-corre, pega-pega, trepa-trepa. Tem umas brigas, umas negociações, umas explosões de raiva. Das naturais, das infantis.  Não carecem de remédio pra aquietar. Nada aqui, aliás, foi talhado para ser quieto. Tudo é movimento e tudo está em seu lugar.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui não tem festinha, não tem coreografia ensaiada, pasta com atividades pra pai ver de vez em quando.  Aqui pai e mãe estão dentro da escola o tempo todo. A fotografia é documental, tirada em tempo real. No sentido figurado, mas também no literal, na máquina fotográfica que registra as atividades e que muitas vezes é operada pela criança –que expressa-se a si mesma sem o olhar do adulto a escolher a hora de abrir o obturador. Aqui não tem apresentação de teatrinho, mas dá umas cenas lindas que dá vontade de filmar: abraços apertados e sinceros entre duas amigas depois das férias; um grupo tranquilo de crianças fazendo castelo de areia como se fosse praia (inclusive com raio oblíquo de sol, sombra de árvore protegendo cabecinhas e nada mais no corpo além de cueca, fralda e calcinha); outro grupinho apostando corrida de triciclo com circuito e regras que eles mesmos criaram –e respeitam, sem necessidade de sanção ou ameaça.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui não tem inglês, nem francês, nem alemão e tampouco japonês. Aqui ninguém é bilíngue de nascença, nem sabe escrever antes da hora. Palavra é coisa séria nessa escola. É pra ser dita, sentida, vivida, percebida, manipulada, saboreada, engolida, respirada, ouvida, tocada, corrida, pulada, dormida, abraçada, comida, digerida, cantada, brincada. Aqui não tem informática ou TV. E ninguém parece dar a mínima pra adultos bem sucedidos. Porque aqui, nessa escola, não é de tudo que dá. O que dá mesmo é infância, muita infância, ah, como dá.

(*) Do genial artista argentino Guillermo Decurgez. o Decur. Metáfora perfeita. Daqui ó.

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com a cria nos braços

Na semana passada, assisti a alguns vídeos e entrevistas que a Anna Gallafrio, Life Coach especializada em mães, concedeu ao Mamatraca. O conteúdo é muito bom, reflexivo, recomendo. Mas o que me chamou mais atenção, no entanto (talvez pelas convicções que eu vim alimentando por aqui desde que me tornei mãe), foi ver que a Anna estava trabalhando com a filha mais nova, Corinna, 100% à tiracolo (às vezes mamando).

Essas imagens, especialmente a tranquilidade da pequena no sling enquanto a mãe cumpria sua jornada profissional, me emocionaram muito. Estavam ali, materializadas para quem quisesse ver, muitas das ideias que tive, tenho e que compartilhei/o com várias mães blogueiras (como as queridas Mariana Sá e Nine) sobre o falso dilema carreira x maternidade. Não precisamos escolher. Não há escolhas. O que há, ainda, é um mundo profissional (e social e cultural etc etc etc) profundamente separado (das) e hostil às nossas necessidades naturais e humanas mais profundas, como a de acolher nossos filhos e de sermos acolhidos quando bebês.

Essa dicotomia só “existe” porque o mundo do trabalho nos desumaniza quando não nos oferece a possibilidade de exercermos uma tarefa que nos garanta o sustento (e também alguma parcela de satisfação) enquanto cuidamos dos nossos filhos. Nos desumaniza também porque sua lógica desvaloriza nossas emoções, sentimentos e afetos. E sobrevaloriza todo o resto, incluindo a racionalidade (que supostamente nos garantiria igualdade e justiça, veja só) e um punhado de distrações.

Na hora em que vi o vídeo da Anna, me lembrei da Licia Ronzulli, a deputada italiana que, em 2010, foi ao trabalho no Parlamento Europeu com a filha no sling. A foto dela amamentando e, ao mesmo tempo, votando no Parlamento correu as redes socias. Ao contrário de ter sido uma exceção à regra, Ronzulli continou levando a filha ao trabalho, pelo menos até 2012.

em 2010 (*)

em 2010 (*)

e no ano passado (**)

e no ano passado (**)

Não vou discutir a questão de o ambiente não ser adequado para uma criança pequena crescer, até porque não sei com qual periodicidade a menina vai ao Parlamento com a mãe nem quais atividades lúdicas ela faz lá ou em outros ambientes. Suspeito até que, ainda que ela estivesse lá, com a mãe, 4 horas por dia, 5 dias por semana, seria mais saudável que estar com estranhos nas escolinhas que eu conheço por aqui. Mas essa é outra conversa.

Lembrei também, ao ver a silenciosa, sutil e profunda “revolução” da Anna Gallafrio, desta ideia genial aqui: um espaço de co-work em que os filhos não são apenas aceitos, mas muito, muito bem vindos em um ambiente projetado para os pais, mas também para as crianças que estarão por perto. Aqui tem um caminho do meio, não? Aqui tem um caminho natural, não? Para manter a metáfora que a Nine usa com frequência, desconheço leoa que deixe os filhos com a vizinha pra caçar. Sou mamífera. Quero caçar com a cria nos braços!

ambiente recebe bem mães, pais e filhos para ... trabalhar (***)

ambiente recebe bem mães, pais e filhos para … trabalhar (***)

 

Ah, já quase ia esquecendo: está aí abaixo o vídeo que mais me tocou, de todos os que vi da Anna com a Corinna (e não por acaso, como toda a série com ela no Mamatraca, fala de carreira e maternidade):

Imagens de: (*) G1, (**) Mirror e (***) Garatujas Fantásticas

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laura gutman: só lendo

Comecei a ler a Laura Gutman. Quem é mãe blogueira e frequentadora assídua da madresfera sabe bem de quem estou falando.Para quem ainda não sabe, Laura Gutman é uma psicóloga argentina, especializada em amamentação e no atendimento a crianças e casais. “Militante” da criação por apego, é fundadora da Escola Capacitação Crianza, onde atende mães e bebês e promove cursos para profissionais da saúde e doulas.

Laura escreveu o que acho que seja o mais importante livro sobre maternidade da nossa geração,  “A maternidade e o encontro com a própria sombra“,  justamente o que estou lendo agora, numa “sentada” só (impossível parar de ler!). Entre (muitas) outras coisas, ela mostra de que forma emoções que consideramos “ruins” e que pretendemos não reconhecer (a nossa “sombra”) se refletem nos nossos filhos.

Ela fala de gravidez, de parto, de amamentação, de comportamentos e doenças infantis, do papel dos homens, do prazer das crianças (e da nossa reação a ele), de limites e comunicação, de sono, de violência. E escreve sobre tudo isso com uma profundidade que eu não tinha encontrado antes em nenhum  “especialista”  que ousei ler.

A leitura de  “Maternidade”  é, ao mesmo tempo, prazerosa e dolorida. Gutman afaga e acolhe na medida em que nos ajuda a reconhecer que muitas das nossas falhas são “explicáveis”por um sistema de coisas que é alheio à nossa vontade; mostra que a maioria das nossas inclinações maternas –aquilo que a gente tem vontade genuína de fazer de bom pros filhos, mas que a sociedade recrimina–são heranças femininas que carregamos conosco há milênios e que, em última análise (como já disse Carlos González), permitiram a sobrevivência da espécie humana por essas bandas.

Mas também é soco no estômago porque nos força a reconhecer que a parte de nós que nos esforçamos tanto para esconder nossos filhos trazem à luz. É difícil engolir que, de repente, aquela atitude que tanto irrita na criança é apenas RESPONSABILIDADE sua ou a manifestação externa, no bebê, de um conflito SEU.

Também pode ser complicado para algumas mães refletir sobre a maternidade que praticam. Gutman, assim como González, adota o ponto de vista do bebê. Ou seja, não se preocupa muito em passar a mão na cabeça das mães. Ao contrário, aponta como funciona a psiquê dos pequenos, a “fusão” com a mãe nos dois primeiros anos de vida, a “exterogestação”, que dura os primeiros nove meses, e a consequente importância que a figura materna tem na formação da personalidade das crianças. Sem medo de cutucar as mães, ela mostra o IDEAL de maternidade para a CRIANÇA (não para a mãe, nem para o marido, tampouco para o mercado de trabalho).

Enfim, muito mais do que um manual do tipo “faça isso, não faça aquilo”, o livro é uma espécie de “reflexão guiada” sobre si mesma e sobre o universo da formação da personalidade dos bebês. É profundo e libertador.

Mesmo ainda na metade, recomendo. Ainda ruminando o que tenho lido, separei algumas frases para compartilhar por aqui:

“O selvagem torna todas as mulheres saudáveis. Sem o lado selvagem, a psicologia feminina fica desprovida de sentido”.

“O mundo seria outro se as salas de parto fossem menos silenciosas, se no início da relação entre os seres humanos houvesse espaço para as emoções, se a desumanização não abrangesse as áreas da boa vinda ao mundo”.

“Quando as situações injustas são correntes, perdemos a noção de liberdade”.

“Talvez este [o parto] seja o espaço mais sutil encontrado por toda a sociedade para se permitir exercer o controle, os maus-tratos e o ódio sobre o poder infinito das mulheres que estão parindo”.

“Quando [o bebê] mama com mais frequência, isso não acontece, necessariamente, pelo fato de o leite não ser suficiente. Pelo contrário, é porque é um bebê ativo, conectado e feliz”.

“Um bebê se constitui um ser humano na medida em que está em total comunicação com o outro, de preferência a mãe. (…) o tempo todo de colo, calor, abrigo, movimento, ritmo”.

“A possibilidade de sugar, ingerir e satisfazer a fome deveria estar disponível cada vez que o bebê pedisse”.

“Deveríamos refletir sobre o poder que exercemos sobre elas [as crianças], na posição de adultos, dizendo arbitrariamente quando é justo oferecer alimento e quando isso não é adequado ou merecido”.

“A alma não registra o tempo”.

“Somos uma sociedade extremamente violenta com nossas crias. Insistimos em não atender as queixas dos bebês, que dependem exclusivamente do cuidado dos adultos”.

Esse são só alguns exemplos, o livro é repleto de ideias complexas, que precisamos “marinar”  com calma. Para quem se interessou, também recomendo um vídeo que as meninas do Mamatraca fizeram para registrar a palestra da Gutman no Brasil. Elas editaram as melhores partes do seminário, que podem ser conferidas aqui ó.

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sim, pais, vocês podem

imagem da comunidade “Mês de Valorização da Paternidade”

Em agosto, uma extensa programação marcou o “Mês de Valorização da Paternidade“. Rascunhei vários posts sobre isso, anotei umas zentas ideias, mas, no fim das contas, agosto acabou e eu não publiquei nada. Está repetitivo, eu sei, mas é a verdade: correria, correria, correria, que redunda em pouco tempo para o blog (e para outros prazeres da vida. Pergunta quando foi a última vez que fui ao cinema com o Dri. Respondo: antes do Enzo nascer. E lá se vão, pelo menos, um ano e poucos meses… Pergunta há quanto tempo não consigo abrir o livro que estou “lendo”. Há mais de 15 dias. Nem uma abridinha sequer…).

Ok, desculpas justificativas à parte, mesmo atrasada, resolvi postar algumas considerações sobre a paternidade. Coisas que tenho pensado, outras que já pensava antes mesmo de ser mãe (quando, aliás, eu tinha certeza de que nunca seria mãe…), coisas que tenho lido e que geraram reflexão. Tudo inspirado por esse post do Alex Castro sobre paternidade. Ele resume bem a história toda com essa frase aqui: “Ser pai não é pra ser fácil. Se seu filho quase não te dá trabalho, alguma coisa você está fazendo errado”.

Alex fala sobre homens separados que se consideram ótimos pais só porque ligam para os filhos todos os dias e depositam mensalmente a grana que paga parte das contas do rebento. O texto dele é ótimo e merece uma complementação: tem muito homem que age exatamente da mesma forma só que morando na mesma casa com o filho, sabe como?

Daí que acho que a paternidade também precisa ser discutida –assim como a gente faz (até demais) com a maternidade. E estou falando não de ter filhos, mas de criá-los; não só de educar os pimpolhos e “transmitir valores” (como Alex comenta no texto dele que é coisa adorada pelo “pai-alfa”), mas de enfiar a mão na massa mesmo. Inspirada pelo post do Alex, decidi postar reflexões que eu já fazia sobre paternidade e que, soltas num ou noutro rascunho, tentei juntar por aqui. Penso mais ou menos o seguinte:

1) Definir o conceito: “pai é quem cuida”, estamos de acordo? Mas o que é “cuidar de filho”? Feliz –ou infeliz–mente, tanto para mães quanto para pais, cuidar envolve trocar fraldas, dar banho, planejar a alimentação, cozinhar, servir o almoço-lanche-jantar na hora certa, colocar para dormir, ajudar a dormir, acordar na madrugada para ficar com o pequeno insone, dar conta das “birras”, ler uma historinha, levar e buscar na escola, ir ao pediatra, ir a reuniões de escola. Inclui abrir mão de uma série de coisas, entre elas uma certa ascensão profissional. Inclui cozinhar aos sábados, inclui ler menos, beber menos, ter menos vida social. Inclui namorar menos (com a mãe/o pai da criança ou com qualquer outra/o). E mais uma infinidade de compromissos cotidianos que vão garantir o crescimento saudável da cria -e que vão mudando conforme a faixa etária vai avançando. Se você, pai, ainda não faz tudo isso, melhor refletir um pouquinho: ou está faltando alguma coisa para o seu filho ou a mãe dele está sobrecarregada.

2) Aproximar conceitos: paternidade não é tão diferente de maternidade quando os pais realmente são presentes, assumem seu quinhão de responsabilidade –e de prazer, porque cuidar é muito bom também. Mas acontece que as cobranças acabam recaindo só sobre as mães. Ou alguém aí ouve com frequência um pai ser interpelado por outra pessoa com a seguinte pergunta: “como você concilia carreira e paternidade”? Não faz lá muito sentido perguntar isso APENAS  para a mulher. Se estamos falando de paternidade de verdade, o pai vai ter que rebolar –como rebolam as mães– para conciliar seu trabalho com a paternidade, para não levar esporro de chefe porque chegou atrasado (de novo) por causa da reunião na escola, para não perder promoções ou para lidar bem com as promoções perdidas. Ontem ainda li uma chamada nessas capas de revistas femininas que dizia mais ou menos assim: “vale a pena o esforço de dar conta da carreira, da maternidade e do casamento?”. Me pergunto se essas revistas são mesmo femininas. Porque elas NUNCA assumem a defesa da igualdade de gêneros. O homem não deveria estar igualmente comprometido com a paternidade e com fazer o casamento dar certo? Acho que falta evoluirmos muito nesse sentido ainda para que a maternidade e paternidade sejam sinônimos de fato.

3) Brincar de boneca: li esses dias uma frase que dizia mais ou menos o seguinte: enquanto não for permitido aos meninos brincarem de bonecas, pais que trocam fraldas, dão banho, cozinham para os filhos e assumem compromisso com o cuidar diário serão mais exceção que regra. Simples assim. Eu já dizia quando estava grávida (razão pela qual levei vários amigos incrédulos às gargalhadas compulsivas) e reafirmo: Enzo terá muitas bonecas e será estimulado a brincar com elas. Ainda não é hora, mas ganhará as deles quando for. Por enquanto, ele demonstra todo o seu afeto (com abracinhos, beijinhos, carinhos e companhia) ao Leo e ao Leozinho, seus dois leõezinhos de pelúcia, pelos quais é apaixonado.

4) Abaixo a supermãe: mulheres, por favor, vamos parar com essa bobagem de “dar conta” de tudo? Ainda bem, não somos perfeitas nem super coisa nenhuma. Ainda bem, somo só humanas. É nossa responsa também que os homens não participem mais da parte braçal –e mais trabalhosa– da criação dos filhos. Assumimos tudo o que há para ser feito, aceitamos tudo o que os homens não fazem. E ainda achamos o máximo quando, no fim do dia, exaustas, descabeladas, cheirando a comida azeda e com cara de chapadas, contabilizamos quantas coisas fizemos. Reclamar não adianta nada, ok? É preciso mudar de postura. Aos poucos, de uma vez, com carinho, com firmeza, do jeito que der. Mas com mudança prática. No nosso caso, aqui em casa, sempre houve divisão de tarefas. Todo mundo faz de tudo. Dri assume não só as responsas de pai presente, mas de dono de casa.  Já contei aqui (com muito orgulho do Dri, aliás), como a paternidade dele é que permite a minha maternagem. Recomendo a leitura.

5) Licença paternidade: Sou super favorável à licença paternidade decente  porque: a) vai ajudar os pais a colocarem a mão na massa; b) pode permitir que os homens participem de fato do nascimento e dos primeiros meses dos filhos (tão cruciais); c) vai reduzir a discriminação profissional em relação às mulheres e d) deve tirar um importante argumento de quem ainda tem a cara de pau de defender a discrepância entre salários de homens e mulheres que ocupam igual posição. Desde 2008, acontecem aqui e ali algumas manifestações nesse sentido, há projetos de lei em tramitação para elevar a licença para um mês, mas, até agora, nada. Uma das campanhas, a “Dá Licença, Sou Pai“, teve até a participação de “globais”. Mas há um silêncio sobre isso até entre as mães. Acho que falta mobilização nossa –das mães e dos pais– para o tema ganhar a dimensão que merece.

Para quem quiser ver o vídeo direto no Youtube, só clicar aqui.

6) Sim, pais, vocês podem: acho que falta um empurrãozinho para estimular os pais a assumirem mais responsabilidades no cuidar dos filhos. É preciso vontade deles, claro, mas também estímulos, condições favoráveis e compreensão. O meu empurrãozinho virtual é esse: vamos refletir? Vamos arregaçar as mangas? Vamos seguir o exemplo de tantos pais que se jogaram na paternidade e não se arrependem (taí o Renato Kauffman que não me deixa mentir)? Vamos ser sinceros e assumir que o papel tradicional de pai é cômodo e não dá mais conta de cumprir as obrigações paternas –ainda bem– no século XXI?

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criar com apego é minha forma de mudar o mundo

Enquanto estou ocupada com o trabalho e com um post que estou escrevendo sobre a participação do coletivo Infância Livre de Consumismo  numa audiência pública na Câmara Federal ontem (posto hoje ainda), deixo você com essas duas imagens lindas, inspiradoras e auto-explicativas, que encontrei numa página no “Livro das Faces”.

precisa dizer alguma coisa?

precisa mesmo dizer alguma coisa?

A página leva (praticamente) o nome deste post, só que em espanhol: “La crianza con apego es mi forma de cambiar el mundo“. As fotos, portanto, são daqui. São lindas ou não são? Pra encher qualquer Carlos González de orgulho! 🙂

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a importância dos outros

Já fui mais favorável às datas comemorativas “comerciais”. Mesmo assim, e apesar de saber que elas têm como objetivo estimular o consumo e o consumismo, acho válido, sob certos aspectos, o fato de elas existirem. São um ritual, uma marcação, e essas coisas têm lá sua importância.

Por exemplo: sempre comemoramos o Dia dos Namorados aqui em casa, com presente e tudo o mais, ainda que seja um presente simbólico (uma barra de chocolate diferente, uma cerveja que o marido estava querendo, um café da manhã caprichado na cama…). Podemos nos dar esses mimos e fazer a comemoração em qualquer dia? Claro que sim. E fazemos. Mas como a rotina e a correria são uma ameaça constante a esses momentos, é bom saber que, se não der para ter esses momentos com a frequência ideal, pelo menos vamos contar com uma “forcinha” das datas comemorativas.

Evidente que não adianta nada comemorações mecânicas, homenagens frias e desdém no restante do ano. Mas estou falando de casos em que as datas só ajudam, uma vez que, claro, elas sozinhas não resolvem nada.

Tudo isso para dizer que -agora mais que nunca- o Dia das Mães é bacana demais para comemorar, juntar a família, socializar, ritualizar. E fizemos de tudo isso um pouco ontem: almoçamos com minha mãe, minha sogra, meu pai, meu irmão e a namorada e meu cunhado. Estivemos cercados de muito carinho, afeto e bom papo, e Enzo comemorou ainda mais, pois teve à disposição o colo das duas avós, do avô e dos tios ao mesmo tempo. Tanto que ele ficou tão excitado que só conseguiu dormir depois da meia-noite.

Além disso, a data foi também importante para refletir. Refleti muito -e sem culpas nem crises- não apenas sobre meu papel como mãe e o que eu significo para Enzo, mas também sobre o meu “não-papel”, ou seja, sobre o espaço que preciso deixar para os outros na vida do Enzo.

Por partes: sobre as mães, sua importância e seus limites, recomendo a leitura de alguns posts ótimos de colegas blogueiras que foram muito inspiradores.

1) Lígia, a Cientista que Virou Mãe, fez dois posts muito bons sobre a capa da Time americana dessa semana, que estampou uma mãe amamentando o filho de três anos ao lado da seguinte pergunta: “Você é mãe o suficiente?” A matéria -que eu ainda li- suscitou boas questões, que Lígia expôs muito bem. Veja o post 1 aqui e o 2 nesse outro link.

2) A Mari Zanotto, do Pequeno Guia Prático, escreveu O POST do Dia das Mães, publicado no portal MMqD, sobre as muitas culpas maternas e o inevitável choque entre as nossas necessidades pessoais o que é “melhor” para nossos filhos. Corajosamente, ela conta que, cinco anos depois de ter parido a Alice, primogênita, está se permitindo reservar mais tempo para si mesma, ainda que isso signifique menos tempo com os pequenos. Com seu humor delicioso, o post fica ainda mais redondo, apesar do tema-pedrada que ela escolheu. Me identifiquei muito e acho que quase todas nós vamos nos identificar também, tanto em relação às necessidades que temos quanto sobre a culpa que atendê-las nos causa. Para ler (recomendadíssimo se você ainda não leu), vá por aqui.

3) Para rir, vá até aqui, no Mãe de Duas, e dê uma olhadinha na homenagem cheia de humor e -por que não?- ironia que a Priscilla Perlatti fez para nossa “categoria” (devíamos fundar um sindicato…).

4) Por fim, ainda sugiro uma passadinha no Potencial Gestante, da Luíza Diener: nesse post aqui, ela definiu -de certa forma poeticamente- o que é ser mãe. Identificação instantânea, especialmente em relação a comer escondida (tenho feito muito isso nesses dias em que Enzo decidiu que tudo o que eu como ele PRECISA comer também, rá!).

**********

Agora chegamos noutro ponto importante das reflexões: o meu “não-papel”. Sabe o que de mais importante eu descobri nesse Dia das Mães? Que Enzo adora conviver com outras pessoas. Por conta própria, ele já expandiu seu próprio universo, já busca outras referências, outro tipo de atenção, outros colos, outros carinhos e outras brincadeiras. Nosso mundo Enzo-Mamãe-Papai-gata é, claro, essencial, mas (já) não basta.

É impressionante como ele fica mais tranquilo (apesar de excitadíssimo), mais feliz, mais atento/focado, mais risonho, menos chorão e menos irritadiço quando há outras pessoas em casa. Com as avós, por exemplo, tem uma relação de carinho e cumplicidade que é deliciosa de ver. Mas não é só com elas. Basta ter alguém diferente por aqui que meu minimeninho deixa vir à tona com ainda mais força seu lado “mr. simpatia”.

E ele não faz isso só para chamar a atenção, não. É genuíno. Enzo fica genuinamente mais feliz quando em contato com um universo de gente mais amplo que apenas nós quatro (contando com a Joh, a gata que AMA).

Sabe? Pensando bem -que foi o que eu fiz ontem- é fácil de entender. Os outros, com suas outras referências, outros pontos de vista, outras infâncias e outras histórias de vida, enriquecem muito as experiências do Enzo, seja lidando com ele diretamente seja mostrando a mim e ao Dri coisas que podemos fazer com e para o Enzo que antes não fazíamos.

Exemplos? Meu primo (que fazia anos que eu não via) foi a primeira pessoa a colocar Enzo em pé no chão, há cerca de três meses, quando veio conhecer o pequeno. Meu filho já ficava mais ou menos em pé sobre o sofá, mas nunca tinha botado os pezinhos no chão simplesmente porque isso ainda não tinha passado nem pela minha cabeça nem pela do marido. Resultado é que, desde então, começamos a botar Enzo no chão com frequência e isso representou um salto no desenvolvimento motoro dele. Hoje, ele praticamente já anda e, a seu jeito, engatinha super bem.

No sábado à noite, outro exemplo, um amigo muito querido veio nos visitar. Enzo também adora esse “tio”, a ponto de, só de ele estar por perto, o mocinho ficar quietinho e comportado em situações em que, normalmente, estaria dando um escândalo (como tirar do banho, secar o cabelo, trocar a fralda).

Pois o tio, brincando com Enzo, fez uma coisa que fascinou meu bebê. E foi uma coisa simples, que eu mesma poderia ter feito, mas não fiz porque nunca pensei nisso: ele ficou escondendo e mostrando uma tampinha de garrafa ao Enzo que, às gargalhadas, tentava descobrir onde o objeto estava escondido. Pronto: Enzo agora quer brincar disso com a gente a toda hora, o que evidencia a importância da brincadeirinha e o prazer que gerou. E não partiu de nós, mas de alguém de “fora” do nosso círculo familiar imediato.

Nós, pais, somos limitados, apesar de todo o esforço que fazemos para satisfazer as necessidades dos pequenos, apesar de todo o conhecimento e crescimento que perseguimos. Abrir espaço para os outros na nossa vida e na vida dos nossos filhos é parte do nosso papel. Assumir esse “não-papel”, aceitar que esse espaço não nos pertence, é essencial. E não apenas para ensinar os pequenos a se socializarem, mas para enriquecer mesmo a vida deles e a nossa. E para, aos pouco, ir dando às crianças a liberdade que, um dia, vão reivindicar.

De resto, e meio atrasada, feliz Dia das Mães! 😉

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