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espelho meu

Cada um tem o filho que merece, dizem. E muitas vezes essa frase soa pouco empática e bastante acusatória, como se esse “merecimento” fosse um castigo. Mas gosto de enxergar nela outro sentido. As crianças interagem com aquilo que somos, não com as máscaras. Ouvem o que sentimos, não o que dizemos. Mais que isso: veem e respondem também àquela parte que somos mas não gostaríamos de ser –ou o que não somos, mas gostaríamos de ser. De modo que, em suas muitas demandas, acabam por exigir de nós que, pelo menos, reconheçamos o que nos falta, as nossas ausências todas, e a presença delas na medida em que nos limitam. Se estivermos abertos a isso, os filhos nos colocam em contato direto com nossas pretensas impossibilidades e, portanto, nos facilitam o caminho na direção de deixá-las menos “im”  e mais “possibilidades”. A potência tão à flor da pele nas crianças potencializa a potência em nós.

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No sentido contrário, também nós enxergamos nos filhos (e não só neles…) aquilo que não queremos ver em nós. Não vemos o que vemos. Vemos o que somos. Em boa parte das vezes em que reagimos com impaciência ou irritação às demandas dos pequenos, estamos reagindo àquilo em nós que nos negamos e reconhecer e que aparece clara e limpidamente no comportamento das nossas crias. Dito de outra forma, os filhos nos revelam duplamente a nós mesmos: quando nos enxergam como somos e se comunicam com o “outro” que vive em nós e também quando nós vemos esse “outro” refletido nas atitudes dos nossos filhos que tanto nos “provocam”.

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Faz um tempo, levei meu filho a um parque para andar de triciclo. A pedido dele. Chegou lá ele deu duas pedaladas, disse que estava cansado e propôs –meio “choroso”– que eu o empurrasse. Neguei, ele desistiu de brincar. Aquilo me irritou muito. O primeiro pensamento consequente à irritação foi algo como: “ele me faz andar de casa até aqui, nesse calor, porque quer se divertir e acaba sendo incapaz disso. Estou perdendo tempo! Me esforço à toa!”

Fui reconhecendo uma série de “sombras” nesse pensamento: 1) autopiedade e autovitimização.

2) O grau de empatia é quase zero. As palavras que qualificam o outro, no caso, meu próprio filho, são duras e injustas.

3) Eu, adulta, me coloco na condição de vítima da criança, como se a intenção do pequeno fosse realmente me provocar ou prejudicar e como se eu tivesse sido obrigada a acompanhá-lo ao parque ao invés de ter escolhido ou assumido a responsabilidade de fazê-lo como cuidadora que sou. Não fui ao parque coagida. Filho pediu e eu decidi ir, decidi assumir como tarefa de mãe –que de fato é– proporcionar essa oportunidade, percebe? Mas na hora de narrar esse, digamos, acontecimento, escolhi, ainda que inconscientemente, me “desresponsabilizar” e me colocar no papel passivo: “ele me faz vir (…)”.

4) Algo que fiz pelo meu filho e que é uma responsabilidade minha é encarado, talvez inconscientemente, como um favor, como um esforço ou uma concessão, pela qual a criança deveria ser eternamente grata. Superioridade condescendente. Adultismo. Não construí a narrativa como se eu fosse um igual que convive, que cede e negocia com alguém em igualdade (alguém que também me concede, talvez em maior medida inclusive), embora dependente. Mas como aquele que merece ser agradecido por outro pelo simples fato de existir e estar, momentaneamente, presente.

5) Refiro-me a tempo e a esforço como se lidar com outro ser humano e, nessa relação, assumir e cumprir responsabilidades e tarefas, conceder, agir para o bem do outro etc fossem espécies de “investimentos”. A pergunta é: fui ao parque para ver meu filho feliz e lhe garantir oportunidade de ser criança, brincar, experimentar a infância ou levei o pequeno para que ele cumprisse um determinado papel e alcançasse algum objetivo (andar de triciclo tantos minutos e, portanto, cumprir uma hipotética cota diária de atividades físicas para se encaixar em algum padrão)?

6) Do item 5 chega-se ao 6: se me filho cumprisse à risca a expectativa que eu criei, aquilo no qual afirmei que “investi” tempo e esforço, eu teria me sentido certamente uma “mãe melhor”, que tem um filho “feliz”, que brinca com seu triciclo o tempo “adequado” como qualquer criança “normal”.

7) A expectativa é uma merda. E recai sobre o filho porque, note bem no parágrafo anterior, é cobrança que faço a mim mesma. O “filho perfeito” que imagino faz sentido porque eu preciso ser “a mãe perfeita”, saca?

8) E, ao fim e ao cabo, o mais estarrecedor e talvez menos evidente à primeira vista, mas sem dúvida mais nocivo para a relação mãe-filho e o que mais contribui para uma desconexão e uma falta de presença minhas que, sem dúvida, contribuem para meu filho ser mais dependente (quando pede pra eu empurrá-lo, por exemplo) e menos consciente de si mesmo: o pensamento –a narrativa– gira 100% em torno do meu umbigo. Cadê meu filho –de verdade, não a ideia de um filho– em toda essa situação (desde a irritação e ao longo de todo o pensamento em que conto a mim mesma a razão da irritação)?

Ana Thomaz propõe um exercício (que ela chama de trabalho) muito interessante nesse sentido de expor, por intermédio do outro, aquilo que queremos evitar em nós. É um exercício de autoconhecimento, pois, como ela mesma diz aqui, neste vídeo, a gente não se isola pra se conhecer; a gente só se conhece em relação, na relação com o outro.

Depois de muito trocar sobre isso no grupo de mães e pais do qual faço parte no facebook, me decidi a ir testando esse exercício, que consiste, resumidamente, em: reafirmar a você mesmo as críticas que faz ao outro, como se elas fossem a você.

No caso da minha irritação com o pequeno, naquele momento no parque em que, ambos injuriados, começávamos a voltar para casa, eu classifiquei meu filho como “preguiçoso”. “Ele não se empenha, não se esforça, desiste facilmente ao primeiro obstáculo, mesmo querendo muito determinada coisa”.

Passada talvez uma semana desse episódio, foi quando finalmente reafirmei esse julgamento me colocando dessa vez como alvo não como juíza. “Eu não me empenho, não me esforço, desisto facilmente ao primeiro obstáculo, mesmo querendo muito determinada coisa”.

Então, começou um processo de autoquestionamento, muito sutil e até muito pouco racionalizado ou organizado Fui me fazendo perguntas, deixando algumas inquietações virem à tona e, ao mesmo tempo, deixei as questões todas e as angústias todas seguirem seu rumo, sem tentar encontrar as respostas a: que empenho seria esse? que esforço seria esse? em que medida? o que espero que eu mesma faça para sentir que me empenho e me esforço? pelo quê? que obstáculos são esses? quando desisti facilmente? de quê? o que desejo e não me esforço pra conseguir? qual é a insatisfação comigo mesma que afinal projetei no meu filho?

Segundo a criadora do “método”, Ana Thomaz, não é preciso fazer nada além de reconhecer a sombra refletida no outro para “limpar” as energias estagnadas e dar ao corpo (que ela define também como parte do inconsciente) a senha pra “trabalhar” a situação.

O curioso (pra mim que sou cética mesmo com aquilo que, como é o caso, faz sentido) é que “funcionou”. Reconhecer a “preguiça”, a falta de energia e de determinação –uma certa inércia em mim mesma– fez com que, à revelia de qualquer avaliação consciente ou racional, eu pusesse, sem ao menos me dar conta, diversos projetos que me são caros e que estavam parados novamente em movimento.

Ao mesmo tempo em que, ainda que fundamentalmente eu continue sendo a mesma pessoa, passei a ir pra relação com o filho sem essa “bagagem”, sem essas emoções estagnadas minhas –como a autocensura ou a “autoexpectativa” não atingida– que se interpunham entre a gente.

Deixei de lado uma certa irritação latente, que, como toda irritação latente, não fazia parte do meu encontro com meu filho, mas de minha relação primária mal resolvida comigo mesma.

Descobri, meio por acaso, na prática (e é sempre na experiência que aprendemos porque é na experiência que nosso corpo, nosso inconsciente, sente e elabora) que, ao se abrir aos filhos, ao que eles exigem de nós e também àquilo que exigimos deles (portanto ao nosso reflexo neles), nos franqueamos uma infinidade de possibilidades de autodescoberta e de incorporação da nossa “sombra” àquilo que de fato somos ou podemos ser.

O mais incrível? Depois que eu apenas reconheci que a irritação dirigida supostamente ao meu filho era, na verdade, uma irritação comigo mesma, o pequeno simplesmente abandonou o comportamento “preguiçoso” que me irritou –ou que serviu de veículo pra eu expressar um descompasso que estava relegado à sombra. Uma vez que me vi refletida e aceitei meu reflexo, deixou de ser necessário mirá-lo de novo e de novo e de novo. A ficha caiu.

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“Quero ressaltar que não importa se nossa mãe (ou cuidadores) ‘fez tudo certinho’. Não importa se foi uma mãe fenomenal, calma, paciente, sacrificada ou justiceira. O que os filhos necessitam para criar seres alinhados com seu ser essencial e em profunda conexão consigo mesmos, é que seus cuidadores compreendam a si mesmos. Se não tivermos cuidadores adultos e maduros, consciente de seus próprios estados emocionais e sua história, essa sabedoria não será derramada sobre as crianças. Por isso, é pouco provável que as crianças quando cresçam olhem para suas vidas em estado de total consciência. Tornar-nos adultos é tomar as rédeas de nossas vidas, atravessar os bosques para enfrentar de frente nossos dragões internos, olhá-los nos olhos e ao final desse caminho cheio de perigos, decidir quem sou eu. A partir desse momento, seremos totalmente responsáveis pelas decisões que tomamos em nossas vidas em todas as áreas, incluindo a capacidade de não encerrar nossos filhos (se os temos) nos personagens que sejam mais convenientes para nós.”

Trecho do livro “La Biografía Humana: una nueva metodología al servicio de la indagacion personal”, de Laura Gutman, citado recentemente no facebook pela Anna Gallafrio.

 

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o tapinha não só dói como se reproduz

decur

Algumas considerações minhas sobre a aprovação da “Lei da Palmada”:

1) Não há interferência indevida do Estado na vida familiar, privada, particular. O Estado tem o dever de proteger a vida das pessoas e é precisamente isso que está fazendo agora. O corpo do outro é do outro, não pertence a ninguém além do outro. Não é porque o outro calhou de ser seu filho que o corpo dele virou “privado”. O corpo de uma pessoa é inviolável; ninguém pode bater em ninguém. Ninguém pode bater em criança; criança também é alguém, seu corpo também é inviolável. Óbvio. Seja um “tapinha”, um soco, um chute, um tacape na cabeça.

2) O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) já previa proteção para casos mais graves de agressão física. Mas não dizia nada sobre o famigerado “tapinha educativo”. A mudança que a “Lei da Palmada” realiza é justamente nesse ponto. Dá nome certo à violência do tapa na cara, do beliscão, do grito, da humilhação: violência e ponto. Mas, ao contrário do que muita gente tem dito, uma mãe que deu uma “palmada” no filho não será presa. A ideia da lei não é mandar pais e mães pra cadeia, minha gente (apesar do raciocínio binário de muitos pais violentos não dar conta de uma ação educativa que não seja punitiva). Nomeando a violência e a inscrevendo no ECA, na lei, o objetivo é conscientizar os pais que ainda não entenderam que há formas não-violentas de educar e que são essas as que melhor criam condições para uma sociedade mais justa e menos violenta (que, em tese, todos queremos). Melhor dizendo:

3)  há formas não-violentas de educar. “Tapinha educativo” não ensina absolutamente nada, exceto se o cuidador em questão quiser ensinar violência (praticar ou submeter-se a). Um exemplo bem basiquinho: imagine que tem lá uma criança fazendo qualquer coisa que o cuidador considere errada. Daí o cuidador dá uns gritos, lá de longe, mandando a criança parar. Como o poder é impotente, e a criança é potência pura, a criança OBVIAMENTE não para. Aí o cuidador vai lá e dá um tapa na criança. Vamos considerar que se pretendesse evitar que a criança se machucasse. Com o tapa, será que a criança aprendeu que o comportamento mais seguro seria não mexer naquele determinado objeto? Não, né? Porque tudo o que o adulto fez para ajudar a criança a compreender o perigo ou os limites seguros para se agir foi… nada!

4) Ainda que “tapinha” fosse mesmo educativo, que “funcionasse” instrumentalmente em algum nível, há coisas que não se faz por princípio, sabe? Porque a gente se pretende civilizados, inteligentes. A gente se pretende de alguma forma uma sociedade que usa razão, empatia, que convive e que abre mão conscientemente do uso da violência em função de uma convivência baseada em sentimentos mais “elevados” ou, dito de outra forma, com menos potencial lesivo. É como a tortura, entende?; ainda que “funcione” (e nem estou dizendo que funciona), não dá pra apoiar, aceitar, legitimar. Bater em criança está fora de questão.

5) Violência é SEMPRE, SEMPRE, SEMPRE a perda de controle de quem violenta. Não é nada além disso. Não é educação, não é amor, não é nada. É só perda de controle. É só o uso de vantagens física e emocional, relativas ao poder, para controlar o comportamento de alguém pelo medo e pela dor ao invés de o indivíduo que violenta sentir ele próprio a dor que lhe compete. O comportamento do outro gera no sujeito agressivo uma sensação que ele não suporta. Não suportando, ele vai lá e agride. Perda de controle sobre si mesmo.

6) A responsabilidade pelo que se sente é sempre de quem sente. O que significa dizer que se a mãe se encoleriza com um comportamento do filho, a responsabilidade pela cólera é absolutamente da mãe. JAMAIS do filho. A mãe tem de olhar pra si mesma e entender as razões pelas quais sente-se dessa forma. Educar, colocar limites, enfrentar conflitos e lidar com as diversas demandas dos filhos não deveria causar raiva. Se causa, tem alguma coisa erra aí –com o cuidador– que precisa ser investigada –pelo cuidador. Bater no filho pra passar a raiva não vai resolver nada (além de ser uma covardia em muitos aspectos).

7) Violência gera violência. A absoluta falta de destreza para lidar com as próprias emoções a ponto de agredir alguém é algo que se aprende. Se aprende ao levar um tabefe. Se aprende ao ser humilhado. Se aprende ao ter a autoestima destroçada por pais violentos.

8) Adultos que defendem a palmada porque “apanharam e estão bem/sobreviveram/são educados etc (fill the blanks)”, poderiam refletir sobre a Síndrome de Estocolmo e sobre a adolescência, também conhecida como aquela fase da vida em que a gente começa a descobrir os próprios valores, interiorizar-se e aceitar que os pais não são perfeitos. É quando a gente amadurece o suficiente para aceitar que, mesmo amando os pais, mesmo valorizando tudo o que fizeram pela gente, eles erraram feio, erram feio e a gente não precisa fazer a mesma coisa, se essa coisa não serve mais. É preciso uma boa dose de maturidade para cortar esse cordão umbilical sutil com os pais e seguir a vida autônoma, sem dependências e sem demonização.

9) Adultos bacanas que apanharam não são bacanas porque apanharam, mas APESAR de terem apanhado.

10) Para aqueles que ainda não conhecem formas de realmente educar seus filhos sem o que o senso comum oferece como alternativa (agressões, ameaças, supernanny e castigos), mas se interessam por uma relação mais autêntica e respeitosa com os filhos, recomendo algumas leituras, começando por:

a) essa seleção aí abaixo de textos das cientistas Lígia Moreiras Sena e Andréia C. K. Mortensen (uma das administradoras da ótima comunidade Crescer sem violência):

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2013/02/educacao-sem-violencia-porque-bater-nao.html

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2012/11/postagem-coletiva-19-de-novembro-dia.html

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2013/04/como-o-mau-jornalismo-incentiva.html

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2014/03/dos-direitos-radicais-das-criancas.html

O blog da Lígia, o “Cientista que virou mãe“, aliás, é todo ele altamente recomendável. Lígia e Andréia acabaram de lançar um livro justamente sobre como –e por que– educar sem palmadas.

b) o blog “Conexão Pais e Filhos“, do Marcelo Michelsohn, é basicamente um amontoado de exemplos de educação ativa e da educação pela conexão, ambas correntes absolutamente não-violentas. E absolutamente eficazes (sou testemunha, sou aluna do Michelsohn, sou leitora de Rebeca Wild, da educação ativa, e de Patty Wipfler, da educação pela conexão). Aqui um post dele essencial sobre o tema. Mas todos são ótimos, pois ajudam a entender a educação sob outro prisma, que não o da dominação-poder-controle. Michelsohn dá aulas sobre conexão entre pais e filhos. Haverá novas turmas, basta dar uma olhada no blog dele.

c) falando em Patty Wipfler, ela coordena uma instituição nos EUA, a Hand in Hand Parenting, que dissemina muita informação sobre educação pela conexão, educação respeitosa e não violenta. Os cursos e livros são, naturalmente, pagos. Mas há conteúdo grátis para se ter uma ideia do tipo de perspectiva educativa.

d) outro ótimo blog para se entender a natureza das crianças e das relações saudáveis que podemos estabelecer com elas –e que também dá muitas ideias e subsídio para quem assume uma educação não-violenta– é este aqui, o “Lar Montessori”, escrito por Gabriel Salomão, professor montessoriano e ex-aluno de colégio que aplicava o método desenvolvido pela médica italiana Maria Montessori. Aqui também a “palmada” é cientificamente rechaçada. Montessori, há quase 100 anos, já sabia que, além de eticamente questionável, bater é ineficaz.

e) há também a criação por apego, que prega respeito na relação com o filho, inclusive na hora de se colocar limites. Aqui um blog ótimo, do Thiago Queiroz, o Paizinho, Vírgula!, sobre o tema.

f) além dos blogs, há os livros. Sim, educar dá trabalho e exige empenho, aprendizado, entrega, como tudo o que realmente vale a pena nessa vida. Eu começaria (como de fato comecei) pelo “Besame Mucho“, do Carlos González. Tem o “Unconditional Parenting“, do Alfie Kohn. E “Etapas del Desarrollo“, da Rebeca Wild. Recomendo “A maternidade e o encontro com a própria sombra” e “O poder do discurso materno“, ambos da Laura Gutman. E ainda “Mente Absorvente” e “A Criança“, da Montessori, além do já citado “Educar sem violência“, da Lígia e da Andréia.

g) finalmente, mas não menos importante: vídeos da Ana Thomaz acho essenciais nessa jornada. Já cansei de recomendá-los aqui. Mas valem cada segundo. Começaria por esse aqui, depois iria pra esse e pra esse outro aqui.

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PS: leia também a “Lei da Palmada”. Aqui ó.

PS2:  Para quem diz que “quem cuida do meu filho sou eu”, seguinte: ok, cuidar você pode. Melhor: cuidar você deve. O que não pode é bater. Entendeu?

Se violência é educação, posso bater em você também? Porque, segundo meus parâmetros, pai que bate em criança precisa aprender muita coisa.

PS3: a imagem lindíssima que ilustra/complementa o post é do artista e ilustrador argentino Guillermo Decurgez, o Decur. Ele tem um perfil artístico no feissy, este blog e uma loja bacana no Etsy.

 

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um pouco de silêncio

Dia desses estávamos Enzo e eu no quarto dele. Ele havia pedido companhia para brincar com massinhas e também ajuda, pois uma delas fica guardada num pote plástico que o pequeno não estava conseguindo abrir sozinho (ainda me pergunto porque caracas brinquedos de criança vêm em embalagens que precisam de adultos para abrir/fechar…).

Quando o filho finalmente começou a manipular a massinha, ficou em silêncio. Fez menção de me perguntar alguma coisa, mas desistiu. Ficamos alguns segundos assim: ele mexendo num pedaço da massa, eu noutro. Então senti uma necessidade de falar alguma coisa, de perguntar, de sugerir, de interagir, de marcar presença. Como se simplesmente estar ali com ele não fosse interação suficiente. E como se o silêncio fosse insuportável. Fosse mais insuportável que os ruídos todos com os quais lidamos diariamente e com os quais nos acostumamos.

Cheguei a abrir a boca e puxar o ar para começar a falar. Cheguei a formar a frase na cabeça. “O que você quer fazer com essa massa? Precisa que eu te ajude a fazer uma bolinha?” (Notei que ele fazia movimentos como se quisesse formar uma bola, mas não estava conseguindo, segundo o que meus padrões escolarizados definem como “bola”, claro). Cheguei até a começar o gesto de estender a mão para oferecê-la, caso ele quisesse me de dar seu pedaço de massinha pra eu “consertar”.

E então, num segundo, antes de efetivamente fazer qualquer dessas coisas, concluir qualquer dessas ações, olhei para o meu filho. Olhei para o rosto dele, para suas mãos que não paravam, para seus olhos fixos na massinha. Foi estranho, porque parei de pensar. Simplesmente não pensei em nada por aqueles segundos. Só vi. Só enxerguei. Só senti. Como se houvesse uma interrupção no tempo/espaço e como se eu, suspensa, fora da cena, pudesse compreender completamente, para além do raciocínio, o que estava acontecendo ali entre o filho, a massinha e eu.

Senti o que ele estava sentindo. Senti como estava pleno, concentrando, entregue àquele momento, curtindo e sentindo prazer na manipulação daquele objeto. Percebi como estava numa espécie de espaço/tempo diferente do meu. Porque eu ficava elucubrando um monte de coisas na cabeça, ansiosa, tensa, tentando prever se ele precisaria de ajuda ou tentando preencher alguma coisa com a fala.

Enzo, no entanto, já estava preenchido; presente naquele contato com aquela massinha. Ele estava no presente, naquele quarto. Eu não: estava na minha cabeça, pensando, pensando, pensando.

Então, de repente, quando percebi tudo isso, não havia mais necessidade de falar nem de fazer nada nem de pensar nada. Parei tudo: a fala, o gesto, os pensamentos. E me entreguei como ele ao contato com a massinha que estava nas minhas mãos. Fiquei ali, só manipulando, sem intenção alguma, sem “construir” nada, só sentindo a sensação de mexer naquele material. Só sentindo a presença do meu filho; só estando. Ele e eu, estando juntos. No silêncio. Por uns 20 minutos, talvez mais. Ficamos ali, cada um do seu jeito, compreendendo e vivendo aquele momento, aquelas sensações.

Entendi –não racionalmente, pois não racionalizei essa nova compreensão naquele momento– que as palavras são muitas vezes desnecessárias. Mais que isso: atrapalham. Eu teria atrapalhado a entrega do Enzo àquele presente, àquele momento, se tivesse dito qualquer coisa.

Já tinha lido muitas vezes que criança, por natureza, se estiver sentindo-se bem e equilibrada, é do silêncio. Brinca em silêncio, trabalha em silêncio, aprecia o silêncio. Encontrei afirmações desse tipo em muitas fontes diferentes, de Maria Montessori e Ana Thomaz a Carlos González. Tem momentos para extravasar, óbvio, em que os pequenos gritam, cantam alto, riem abertamente. Mas há muitíssimos outros momentos, quando, segundo Montessori, acham o que querem fazer, em que o silêncio não só é suficiente como é necessário, absorvidos que estão pela atividade “ideal” para aquela situação.

Acontece que toda essa informação racional só fez sentido, só foi completamente compreendida, apreendida, percebida por mim quando todo o cognitivo aprendeu também. Só fez sentido quando eu senti o significado do silêncio para o Enzo. E, uma vez sentida a informação, aí sim foi lá ser “validada” pelo racional, que já tinha o argumento na ponta da língua.

A partir desse dia, desses minutos brincando em silêncio, mais presente do que nunca ao lado do Enzo, mesmo muda, mesmo “na minha”, mesmo sem “interagir” com ele no sentido mais objetivo do termo, comecei a reparar muito mais no que e quando falava com meu filho. E na atitude de outras pessoas com ele e até de outros pais com seus próprios filhos.

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 1)

Um menino, de uns 4 ou 5 anos, estava brincando de amarelinha. Feliz da vida, completamente alheio ao que acontecia ao redor. Do jeito dele, da forma que ele queria: pulando aleatoriamente os números, contando, andando por sobre os desenhos, dando saltinhos quando bem entendia, fingindo que caía e por aí vai. Até que o pai, quando se deu conta de como a criança brincava, resolveu “corrigir” o filho, que brincava “errado”. E começou, à princípio, sutilmente, com perguntas do tipo: “Você sabe que tem que pular desse e desse jeito?” ou “Por que você não faz assim ó? (demonstrando como “deve ser”).

Como a criança não estava dando muita bola para o pai e se limitava a fazer o que ele pedia no momento em que pedia para, logo em seguida, brincar como estava brincando antes, o adulto não se conteve e começou a efetivamente explicar e dirigir completamente a brincadeira. Pegou uma pedra ele mesmo, jogou a pedra num número ele mesmo, virou-se para o filho: “agora você tem que ir pulando assim e assim (demonstrando) até a pedra”. O menino, imóvel, olhava o pai. “Vai, vai, vai!”, o pai dizia, gesticulando.

O menino foi, visivelmente deslocado, sem muita convicção, sem entender porque cara@#&*  precisava parar de se divertir para ficar pulando pedrinhas. E o pai ainda assim não estava satisfeito. Continuava a “corrigir” o brincar do filho, cada vez mais impaciente, cada vez falando mais alto, dando mais ordens. Suspirava quando o menino não “acertava” o pulo –com um pé só ou dois.

Depois de tentar de tudo para agradar o pai, ainda que estivesse obviamente se desagradando, a criança simplesmente deixou de brincar e foi sentar-se num canto. Fosse um temperamento um pouco mais “forte”, o menino ao invés de se isolar talvez começasse a “incomodar” os adultos com comportamentos “ruins”. Aí diriam que ele é malcriado, que faz manha, birra, dá chilique. “Não sei o que tem esse menino. Não obedece nunca”. Superativo, precisa de ritalina. Sei…

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2)

Uma mulher e um garotinho brincavam juntos num Sesc. Não sei bem o parentesco entre eles, mas eram parentes. Ou ela era avó ou tia. Haviam pedido diversos brinquedos, alguns com números, outros de montar e ainda alguns jogos de adultos. O menino estava brincando fazia um bom tempo com um único deles, não me lembro bem qual.

Mas a acompanhante dele encasquetou que ele deveria parar o que fazia para brincar com o das peças de montar. “Olha, Fulano, vamos fazer um carrinho?”. E aí ela fazia, o menino assistia para, logo depois voltar ao brinquedo original. “Fulano, aqui tem esse ó, dá pra montar um monte de coisas legais”. Menino ainda na dele. A moça esperava um pouco e retomava a artilharia: “Que tal a gente brincar com esse de montar?”

Não interessa muito as razões dela. O menino estava seguro com o brinquedo que queria. As escolhas dele deveriam ter sido respeitadas. E estava óbvio que ele não queria brincar de montar nada. No fim das contas, de tanta insistência, o pequeno cedeu e foi montar sei-lá-o-quê com a tia/avó.

**********

3) 

Avó leva a neta de quatro anos num parquinho. A menina é inteligente e articulada para a idade. A avó, toda orgulhosa, me explica que é porque a menina é “superestimulada” pelos pais, dois professores universitários que investem tudo na educação integral da criança e que, em casa, ainda insistem em “puxar” a menina, oferecendo sempre atividades artísticas e de lazer que possam “contribuir” para o “aprendizado”.

Além de articulada, a menina tem muita energia e imaginação. Logo transforma o tanque de areia em piscina. Quando a avó percebe, vai lá “ajudar” e “superestimular” a neta, que está concentrada, brincando e falando consigo mesma. Quer dizer, estava, até a avó aparecer: “nossa, que piscina grande! Deixa eu ver se a água está boa (fingindo colocar os pés na areia-água)”. E continua: “o que você está fazendo? Por que você não atravessa a piscina nadando? Vem até aqui nesta margem nadando que eu vou marcar seu tempo (!!!)” “Poxa, como você nada bem! Que tal mergulhar agora?”.

A menina não brincou sozinha, não inventou situações. Viveu apenas as fantasias da avó, que não parou de dirigir a brincadeira da neta até elas irem embora, duas horas depois.

Todas essas situações relatadas acima são reais, presenciadas recentemente.

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Não fazemos isso por mal. Nem eu nem o pai ou a tia/avó ou a avó. Mas atrapalhamos um bocado mesmo sem querer. Tiramos a liberdade, a tranquilidade e a energia das crianças.

Não conseguimos respeitar a conexão delas com o agora, com o que estão fazendo (talvez porque não tenham respeitado a nossa e porque tenham nos ensinado a nos desconectar desde muito cedo). Atrapalhamos. Muito. O tempo todo. É enlouquecedor.

Comecei a ficar muito incomodada. Irritada mesmo. Só de ver. Só de ouvir.

Fico imaginando como se sentem as crianças com tanta gente tagarelando, interrompendo os fluxos naturais de concentração e o prazer de estar presente numa atividade que tenha despertando interesse.

E em boa parte das vezes, fazemos pior: além de atrapalhar falando, a fala em si pretende dirigir as ações dos menores. Sugerimos que prestem atenção nisso ou naquilo (e não no que eles já estão prestando atenção); que façam de um jeito “certo”, pois pretendemos “ensinar” como se “faz” ou simplesmente fazer com que façam aquilo que achamos que devem fazer, não o que querem fazer.

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Comecei a tomar o caminho inverso. Falo cada vez menos com Enzo –e, creia-me, já é muito. Quando estamos juntos brincando, sempre espero que ele tome a iniciativa de falar comigo. Se me perguntou algo, só respondo. Se a conversa continuar, será porque ele quis. Antes de abrir a boca, olho, olho, olho e olho mais uma vez e olho de novo. Para ter certeza absoluta de que não estou interrompendo nada. Não interfiro nas brincadeiras dele, não sugiro nada. Todos os brinquedos dele estão acessíveis em diversos cômodos da casa. Outros utensílios com os quais goste de brincar, idem. Não sou eu quem vai achar ou sugerir ou estimular o que fazer. Essa é uma prerrogativa dele. Meu papel é “apenas” garantir que ele tenha atividades adequadas à mão. E que esteja bem emocionalmente para ouvir a si mesmo e achá-las.

Ainda escorrego muitíssimo, porque sou tagarela. Mesmo. E adoro isso. Mas agora sei –em diversos níveis, não apenas racionalmente– como é que a coisa toda deve ser. Ter me permitido experimentar a massinha, ter procurado sentir a emoção do Enzo, está sendo essencial nesse processo. E, em contrapartida, tenho aprendido muito nessa observação. Tenho aprendido –ou me lembrado de– como é bom a entrega a uma tarefa que te enche de vida e te absorve e te coloca em contato com tudo e com nada ao mesmo tempo. As crianças são mesmo geniais. Estou tentando não estragar isso.

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Para ler mais a respeito desse assunto, recomendo muito:

-Esse post aqui, do Marcelo Michelsohn;

-O Lar Montessori, do Gabriel Salomão, e em especial esse post;

-O encontro com o silêncio da Ana Thomaz

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a infância que não cabe na TV

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A gente até sabe que a Academia Americana de Pediatria (AAP, na sigla em inglês) recomenda que bebês até 24 meses não assistam à TV e que crianças a partir dos dois anos vejam, no máximo, duas horas diárias de programação televisiva. A gente até sabe que os argumentos principais da AAP para essa restrição fazem sentido. Segundo pesquisas daquela academia, ficou evidente que a TV prejudica a sociabilização das crianças com suas famílias, atrapalha a aquisição da linguagem e está no pacote do estilo de vida causador, em crianças, de doenças como obesidade, hipertensão e diabetes tipo 2.

Se isso já não fosse motivo suficiente, tem mais: psicólogos têm apontado que o uso insistente das telas (**) diminui a concentração e a capacidade criativa das crianças. Tem textos interessantes para se começar a pensar sobre esse efeito aqui, aqui e aqui também. O tédio e o ócio, tão próprios da infância e tão importantes para o livre brincar e o desenvolvimento dos pequenos, são bastante prejudicados quando a criança fica boa parte de seu tempo diante de dispositivos eletrônicos. Para se entendiar a ponto de criar a partir disso, é preciso não ter distrações. Para ter tempo livre e “fazer nada” a ponto de achar algo realmente interessante pra fazer (e até para poder descobrir o que é interessante naquele momento), não se pode estar inerte diante de um aparelho que faz quase tudo sozinho.

Tudo o que vem pronto para a mão dos pequenos tira deles a possibilidade de experimentar, de criar. E é nessa experimentação, nessa criação, que eles são, que eles vivem.

Essa infância, a infância potencializadora, livre, plena, essa não cabe na caixa. Não cabe na TV (nem na escola, mas esse é outro assunto). Essa simplesmente não cabe nesse modelo de vida que a gente leva (outro assunto que rende). A infância da TV é a infância do entretenimento. E entretenimento não goza de muito boa reputação por aqui (“distração”, diz o dicionário. E quem disse que distração é coisa boa?).

Mas, o caso é que, no dia a dia, na realidade dos nossos afazeres e das nossas muitas limitações (inclusive de espaço, uma vez que muitos de nós moramos em apartamentos cada vez mais minúsculos), acabamos por fazer concessões a muitas coisas, inclusive à TV e às telas.

Aqui não foi diferente, especialmente quando comecei a lidar, ao mesmo tempo, com as tarefas do trabalho e com as tarefas de mãe. Como fazer uma entrevista de 40, 50 minutos com a cria chorando, querendo atenção e brincadeira? Liga a TV! Dá o celular para ele brincar! Bota um joguinho no tablet! Tudo errado, eu sei.

Resultado disso é que parte dessas coisas que eu só lia em teoria, estou vendo acontecer aqui em casa. Responsabilidade minha, meu pequeno, se eu deixar, passa o dia diante da TV. Justo ele que, há poucos meses, só assistia a programas com muita, muita insistência. Nós passávamos o dia inteiro com a tela desligada. O.Dia.Inteiro.Sem.Nadica.De.TV. Enzo nem se aproximava dela. E brincava, como brincava. Com tudo e qualquer coisa, das panelas, tampas, colheres e utensílios aos brinquedos, gizes de cera e papéis.

Nem parece o mesmo garoto que, agora, acorda e vai logo pedindo  “qué vê o Mêique” (no caso, o Mr. Maker, aquele programa inglês ótimo –só que ao contrário– de “artes” [hã hã] para crianças). Nem parece o mesmo que se planta diante da TV pra ver Sid ou DVD do Palavra Cantada ou qualquer coisa que esteja passando.

Enzo se desinteressou pelos utensílios domésticos, pelos não-brinquedos tão interessantes que sempre chamaram a atenção dele e desenvolveram sua criatividade; se desinteressou por vagar pela casa à cata do que fazer. Ele brinca muito, mas brinca melhor com a TV ligada, no melhor estilo “um olho no peixe, outro no gato”. As brincadeiras todas agora envolvem o Maker e o Sid. Ele continua criativo, mas a criatividade deles agora se baseia no que vê na TV. Cria a partir do Maker, a partir do Sid, a partir do Palavra Cantada. A TV virou sua referência.

Um dia, cheguei na sala e vi uma cena que me chocou profundamente: Enzo sentadinho, comportadinho, perninhas cruzadas, tão absorvido, mas tão absorvido, que não piscava! Não me viu ali –e olha que eu fiquei um tempão parada, chamando a atenção, falando. Ele nem olhou. Estava igual ao Calvin e ao Haroldo da tirinha aí de cima.

Que desperdício de talento, que desperdício de vitalidade, que desperdício de energia criadora, que desperdício de criatividade. Crianças não foram desenhadas para não criarem, para receberem a coisa criada pronta. É da natureza deles gerar coisas. É na geração, na fabulação, na invenção, na reprodução, na ressignificação, na construção/descontrução que eles se conhecem, olham pra si mesmos, constroem sua autoestima, desopilam, extravasam frustrações, se divertem, sentem prazer, curtem a vida, aprendem, crescem, se sociabilizam, questionam e se estimulam. É um ciclo virtuoso. Que a TV quebra. Vi isso acontecer aqui, é evidente. TV não é inofensiva.

E eu, que sempre fui favorável a oferecer pouca TV, mas que cheguei a julgar “exagerados” alguns pais que criaram os filhos sem o acesso nenhum ao aparelho, estou revendo muita coisa porque a prática que eu vi, vejo e estou vivendo aqui em casa me mostrou que a teoria faz todo o sentido.

Também estou num momento de revisão de valores, de questionar “verdades” que são tomadas como “universais” e “naturais” da condição humana (e nem estou falando dos “ismos” –machismo, racismo, sexismo–, mas de coisas bem mais profundas e ancestrais, talvez originárias dos preconceitos todos).

Tenho descoberto, gratidão especial à Ana Thomaz e ao Humberto Maturana, que muito do que a gente acha que é uma característica humana ou uma manifestação da condição humana, válida para todos os seres humanos no planeta, na verdade, é uma construção social. Ou consequência de padrões socialmente definidos pela nossa civilização. Daí concluí que, se é uma construção social e não faz sentido (como muitas dessas construções não fazem sentido pra mim), pode ser simplesmente desconstruída. Não no mundo lá fora. Mas aqui, na minha casa, na minha vida, no meu dia a dia.

E, nesse contexto, é ainda mais importante não atrapalhar o processo criativo do meu filho e a comunicação livre e fluida que ele tem com ele mesmo, característica de todas as crianças, justamente porque ainda não foram “educadas”, enquadradas, encaixadas, “socialmente construídas”.

Tamo junta, Mafalda! (***)

Tamo junta, Mafalda! (***)

[Tem um post interessante, recente, da Ana, que fala um pouco sobre isso. Não sobre TV, mas sobre a capacidade de conexão das crianças. Recomendo. Vá por aqui]

Então estou colocando em prática umas adaptações à nossa rotina para diminuir a exposição do Enzo à TV. Para começar, estou tentando observar e registrar o tempo em que a TV fica ligada, para ter ideia de em que pé estamos quanto ao consumo das telas. Sinceramente, não faço ideia de por quanto tempo o pequeno fica exposto.

O segundo passo é entender o percentual de atenção exclusiva que Enzo concede à TV. Porque, em geral, ele pede para ligar, assiste por dez, 15 minutos, e vai fazer outra coisa. O aparelho fica ligado, a pedido dele, que de vez em quando volta para dar uma olhadinha. Mas boa em parte desse período, ele está fazendo outra atividade.

Não que isso mude muita coisa. TV ligada é TV ligada. O caso é que eu quero entender bem a dinâmica dele com o aparelho para descobrir quais necessidades estão sendo transferidas para as telas.

Outro passo é me estruturar melhor para: 1) ter condições de sair com ele de casa para atividades ao ar livre (ou em outros ambientes) todos os dias e 2) poder oferecer alternativas verdadeiramente interessantes. Muitas delas dependerão mais de mim do que depende o consumo das telas.

Não quero proibir. Não acho proibição eficiente. E –o principal– é uma violência, um desrespeito, uso do poder e da força. Estou procurando não usar o poder com ele. De modo que a ideia não é que eu limite, mas que eu proporcione um ambiente tão bacana e adequado a ele que o filho mesmo prefira outras atividades mais instigantes.

Que TV que nada! Criança gosta mesmo é de criar

Que TV que nada! Criança gosta mesmo é de criar

Hoje, por exemplo, a TV ficou ligada na parte da manhã e num pedaço da tarde. Depois do almoço, ele me pediu para pintar com as tintas guache que ganhou ontem e deu muito certo. Esqueceu completamente da TV e passou a tarde todinha (e uma parte de noite: só topou tomar banho às 2oh!) pintando. Conectado, entregue, feliz, muito feliz. Nem sombra de irritação, aquela irritação de tédio que ele tem com frequência quando fica muito tempo vendo TV (ou fazendo alguma coisa vazia, que preenche tempo, mas não a necessidade dele).

Sei que é bem possível que ele reduza seu interesse pelas telas, porque sei que eu “viciei” Enzo em TV; porque já tivemos uma experiência semelhante com celular (em restaurantes, ele só parava quieto mexendo no aparelho. Hoje, basta levar giz e papel); porque criança não precisa nem gosta genuinamente de TV (ou das telas). O aparelho é apenas sedutor e fácil.

Para nós, acho que o caminho é esse. Sem pressa. Sem cobranças –nem de mim para mim, tampouco de mim para ele. Aproveitando o processo. 

(*) A tirinha do “Calvin e Haroldo” eu peguei daqui.

(**) Para este texto, “telas” (celular, tablet, notebook, desktop, games e congêneres) e “TV” são quase sinônimos. Tudo o que escrevi sobre a última, vale para as primeiras.

(***) A tirinha da “Mafalda” (Quino é um gênio!) veio daqui ó.

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