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laura gutman: só lendo

Comecei a ler a Laura Gutman. Quem é mãe blogueira e frequentadora assídua da madresfera sabe bem de quem estou falando.Para quem ainda não sabe, Laura Gutman é uma psicóloga argentina, especializada em amamentação e no atendimento a crianças e casais. “Militante” da criação por apego, é fundadora da Escola Capacitação Crianza, onde atende mães e bebês e promove cursos para profissionais da saúde e doulas.

Laura escreveu o que acho que seja o mais importante livro sobre maternidade da nossa geração,  “A maternidade e o encontro com a própria sombra“,  justamente o que estou lendo agora, numa “sentada” só (impossível parar de ler!). Entre (muitas) outras coisas, ela mostra de que forma emoções que consideramos “ruins” e que pretendemos não reconhecer (a nossa “sombra”) se refletem nos nossos filhos.

Ela fala de gravidez, de parto, de amamentação, de comportamentos e doenças infantis, do papel dos homens, do prazer das crianças (e da nossa reação a ele), de limites e comunicação, de sono, de violência. E escreve sobre tudo isso com uma profundidade que eu não tinha encontrado antes em nenhum  “especialista”  que ousei ler.

A leitura de  “Maternidade”  é, ao mesmo tempo, prazerosa e dolorida. Gutman afaga e acolhe na medida em que nos ajuda a reconhecer que muitas das nossas falhas são “explicáveis”por um sistema de coisas que é alheio à nossa vontade; mostra que a maioria das nossas inclinações maternas –aquilo que a gente tem vontade genuína de fazer de bom pros filhos, mas que a sociedade recrimina–são heranças femininas que carregamos conosco há milênios e que, em última análise (como já disse Carlos González), permitiram a sobrevivência da espécie humana por essas bandas.

Mas também é soco no estômago porque nos força a reconhecer que a parte de nós que nos esforçamos tanto para esconder nossos filhos trazem à luz. É difícil engolir que, de repente, aquela atitude que tanto irrita na criança é apenas RESPONSABILIDADE sua ou a manifestação externa, no bebê, de um conflito SEU.

Também pode ser complicado para algumas mães refletir sobre a maternidade que praticam. Gutman, assim como González, adota o ponto de vista do bebê. Ou seja, não se preocupa muito em passar a mão na cabeça das mães. Ao contrário, aponta como funciona a psiquê dos pequenos, a “fusão” com a mãe nos dois primeiros anos de vida, a “exterogestação”, que dura os primeiros nove meses, e a consequente importância que a figura materna tem na formação da personalidade das crianças. Sem medo de cutucar as mães, ela mostra o IDEAL de maternidade para a CRIANÇA (não para a mãe, nem para o marido, tampouco para o mercado de trabalho).

Enfim, muito mais do que um manual do tipo “faça isso, não faça aquilo”, o livro é uma espécie de “reflexão guiada” sobre si mesma e sobre o universo da formação da personalidade dos bebês. É profundo e libertador.

Mesmo ainda na metade, recomendo. Ainda ruminando o que tenho lido, separei algumas frases para compartilhar por aqui:

“O selvagem torna todas as mulheres saudáveis. Sem o lado selvagem, a psicologia feminina fica desprovida de sentido”.

“O mundo seria outro se as salas de parto fossem menos silenciosas, se no início da relação entre os seres humanos houvesse espaço para as emoções, se a desumanização não abrangesse as áreas da boa vinda ao mundo”.

“Quando as situações injustas são correntes, perdemos a noção de liberdade”.

“Talvez este [o parto] seja o espaço mais sutil encontrado por toda a sociedade para se permitir exercer o controle, os maus-tratos e o ódio sobre o poder infinito das mulheres que estão parindo”.

“Quando [o bebê] mama com mais frequência, isso não acontece, necessariamente, pelo fato de o leite não ser suficiente. Pelo contrário, é porque é um bebê ativo, conectado e feliz”.

“Um bebê se constitui um ser humano na medida em que está em total comunicação com o outro, de preferência a mãe. (…) o tempo todo de colo, calor, abrigo, movimento, ritmo”.

“A possibilidade de sugar, ingerir e satisfazer a fome deveria estar disponível cada vez que o bebê pedisse”.

“Deveríamos refletir sobre o poder que exercemos sobre elas [as crianças], na posição de adultos, dizendo arbitrariamente quando é justo oferecer alimento e quando isso não é adequado ou merecido”.

“A alma não registra o tempo”.

“Somos uma sociedade extremamente violenta com nossas crias. Insistimos em não atender as queixas dos bebês, que dependem exclusivamente do cuidado dos adultos”.

Esse são só alguns exemplos, o livro é repleto de ideias complexas, que precisamos “marinar”  com calma. Para quem se interessou, também recomendo um vídeo que as meninas do Mamatraca fizeram para registrar a palestra da Gutman no Brasil. Elas editaram as melhores partes do seminário, que podem ser conferidas aqui ó.

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sim, pais, vocês podem

imagem da comunidade “Mês de Valorização da Paternidade”

Em agosto, uma extensa programação marcou o “Mês de Valorização da Paternidade“. Rascunhei vários posts sobre isso, anotei umas zentas ideias, mas, no fim das contas, agosto acabou e eu não publiquei nada. Está repetitivo, eu sei, mas é a verdade: correria, correria, correria, que redunda em pouco tempo para o blog (e para outros prazeres da vida. Pergunta quando foi a última vez que fui ao cinema com o Dri. Respondo: antes do Enzo nascer. E lá se vão, pelo menos, um ano e poucos meses… Pergunta há quanto tempo não consigo abrir o livro que estou “lendo”. Há mais de 15 dias. Nem uma abridinha sequer…).

Ok, desculpas justificativas à parte, mesmo atrasada, resolvi postar algumas considerações sobre a paternidade. Coisas que tenho pensado, outras que já pensava antes mesmo de ser mãe (quando, aliás, eu tinha certeza de que nunca seria mãe…), coisas que tenho lido e que geraram reflexão. Tudo inspirado por esse post do Alex Castro sobre paternidade. Ele resume bem a história toda com essa frase aqui: “Ser pai não é pra ser fácil. Se seu filho quase não te dá trabalho, alguma coisa você está fazendo errado”.

Alex fala sobre homens separados que se consideram ótimos pais só porque ligam para os filhos todos os dias e depositam mensalmente a grana que paga parte das contas do rebento. O texto dele é ótimo e merece uma complementação: tem muito homem que age exatamente da mesma forma só que morando na mesma casa com o filho, sabe como?

Daí que acho que a paternidade também precisa ser discutida –assim como a gente faz (até demais) com a maternidade. E estou falando não de ter filhos, mas de criá-los; não só de educar os pimpolhos e “transmitir valores” (como Alex comenta no texto dele que é coisa adorada pelo “pai-alfa”), mas de enfiar a mão na massa mesmo. Inspirada pelo post do Alex, decidi postar reflexões que eu já fazia sobre paternidade e que, soltas num ou noutro rascunho, tentei juntar por aqui. Penso mais ou menos o seguinte:

1) Definir o conceito: “pai é quem cuida”, estamos de acordo? Mas o que é “cuidar de filho”? Feliz –ou infeliz–mente, tanto para mães quanto para pais, cuidar envolve trocar fraldas, dar banho, planejar a alimentação, cozinhar, servir o almoço-lanche-jantar na hora certa, colocar para dormir, ajudar a dormir, acordar na madrugada para ficar com o pequeno insone, dar conta das “birras”, ler uma historinha, levar e buscar na escola, ir ao pediatra, ir a reuniões de escola. Inclui abrir mão de uma série de coisas, entre elas uma certa ascensão profissional. Inclui cozinhar aos sábados, inclui ler menos, beber menos, ter menos vida social. Inclui namorar menos (com a mãe/o pai da criança ou com qualquer outra/o). E mais uma infinidade de compromissos cotidianos que vão garantir o crescimento saudável da cria -e que vão mudando conforme a faixa etária vai avançando. Se você, pai, ainda não faz tudo isso, melhor refletir um pouquinho: ou está faltando alguma coisa para o seu filho ou a mãe dele está sobrecarregada.

2) Aproximar conceitos: paternidade não é tão diferente de maternidade quando os pais realmente são presentes, assumem seu quinhão de responsabilidade –e de prazer, porque cuidar é muito bom também. Mas acontece que as cobranças acabam recaindo só sobre as mães. Ou alguém aí ouve com frequência um pai ser interpelado por outra pessoa com a seguinte pergunta: “como você concilia carreira e paternidade”? Não faz lá muito sentido perguntar isso APENAS  para a mulher. Se estamos falando de paternidade de verdade, o pai vai ter que rebolar –como rebolam as mães– para conciliar seu trabalho com a paternidade, para não levar esporro de chefe porque chegou atrasado (de novo) por causa da reunião na escola, para não perder promoções ou para lidar bem com as promoções perdidas. Ontem ainda li uma chamada nessas capas de revistas femininas que dizia mais ou menos assim: “vale a pena o esforço de dar conta da carreira, da maternidade e do casamento?”. Me pergunto se essas revistas são mesmo femininas. Porque elas NUNCA assumem a defesa da igualdade de gêneros. O homem não deveria estar igualmente comprometido com a paternidade e com fazer o casamento dar certo? Acho que falta evoluirmos muito nesse sentido ainda para que a maternidade e paternidade sejam sinônimos de fato.

3) Brincar de boneca: li esses dias uma frase que dizia mais ou menos o seguinte: enquanto não for permitido aos meninos brincarem de bonecas, pais que trocam fraldas, dão banho, cozinham para os filhos e assumem compromisso com o cuidar diário serão mais exceção que regra. Simples assim. Eu já dizia quando estava grávida (razão pela qual levei vários amigos incrédulos às gargalhadas compulsivas) e reafirmo: Enzo terá muitas bonecas e será estimulado a brincar com elas. Ainda não é hora, mas ganhará as deles quando for. Por enquanto, ele demonstra todo o seu afeto (com abracinhos, beijinhos, carinhos e companhia) ao Leo e ao Leozinho, seus dois leõezinhos de pelúcia, pelos quais é apaixonado.

4) Abaixo a supermãe: mulheres, por favor, vamos parar com essa bobagem de “dar conta” de tudo? Ainda bem, não somos perfeitas nem super coisa nenhuma. Ainda bem, somo só humanas. É nossa responsa também que os homens não participem mais da parte braçal –e mais trabalhosa– da criação dos filhos. Assumimos tudo o que há para ser feito, aceitamos tudo o que os homens não fazem. E ainda achamos o máximo quando, no fim do dia, exaustas, descabeladas, cheirando a comida azeda e com cara de chapadas, contabilizamos quantas coisas fizemos. Reclamar não adianta nada, ok? É preciso mudar de postura. Aos poucos, de uma vez, com carinho, com firmeza, do jeito que der. Mas com mudança prática. No nosso caso, aqui em casa, sempre houve divisão de tarefas. Todo mundo faz de tudo. Dri assume não só as responsas de pai presente, mas de dono de casa.  Já contei aqui (com muito orgulho do Dri, aliás), como a paternidade dele é que permite a minha maternagem. Recomendo a leitura.

5) Licença paternidade: Sou super favorável à licença paternidade decente  porque: a) vai ajudar os pais a colocarem a mão na massa; b) pode permitir que os homens participem de fato do nascimento e dos primeiros meses dos filhos (tão cruciais); c) vai reduzir a discriminação profissional em relação às mulheres e d) deve tirar um importante argumento de quem ainda tem a cara de pau de defender a discrepância entre salários de homens e mulheres que ocupam igual posição. Desde 2008, acontecem aqui e ali algumas manifestações nesse sentido, há projetos de lei em tramitação para elevar a licença para um mês, mas, até agora, nada. Uma das campanhas, a “Dá Licença, Sou Pai“, teve até a participação de “globais”. Mas há um silêncio sobre isso até entre as mães. Acho que falta mobilização nossa –das mães e dos pais– para o tema ganhar a dimensão que merece.

Para quem quiser ver o vídeo direto no Youtube, só clicar aqui.

6) Sim, pais, vocês podem: acho que falta um empurrãozinho para estimular os pais a assumirem mais responsabilidades no cuidar dos filhos. É preciso vontade deles, claro, mas também estímulos, condições favoráveis e compreensão. O meu empurrãozinho virtual é esse: vamos refletir? Vamos arregaçar as mangas? Vamos seguir o exemplo de tantos pais que se jogaram na paternidade e não se arrependem (taí o Renato Kauffman que não me deixa mentir)? Vamos ser sinceros e assumir que o papel tradicional de pai é cômodo e não dá mais conta de cumprir as obrigações paternas –ainda bem– no século XXI?

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criar com apego é minha forma de mudar o mundo

Enquanto estou ocupada com o trabalho e com um post que estou escrevendo sobre a participação do coletivo Infância Livre de Consumismo  numa audiência pública na Câmara Federal ontem (posto hoje ainda), deixo você com essas duas imagens lindas, inspiradoras e auto-explicativas, que encontrei numa página no “Livro das Faces”.

precisa dizer alguma coisa?

precisa mesmo dizer alguma coisa?

A página leva (praticamente) o nome deste post, só que em espanhol: “La crianza con apego es mi forma de cambiar el mundo“. As fotos, portanto, são daqui. São lindas ou não são? Pra encher qualquer Carlos González de orgulho! 🙂

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dou colo em livre demanda sim

Enzo adora colo, não é segredo para ninguém. E quem lê o blog sabe que sou coleira convicta. Mas parece que isso incomoda demais as pessoas que, de um jeito ou de outro, convivem com meu filho, ainda que só de vez em quando. Tenho sido cada vez mais cobrada e questionada. Uns acham que Enzo manipula a mamãe, o maquiavélico. Para outros, eu tenho é preguiça de educar. Pelo que tenho visto por aí, não sou a única a ser cobrada/questionada. O paradigma hegemônico diz que o “certo” é deixar bebês chorando, pois são todos uns manhosos.

Eu não ia escrever sobre isso. Sinceramente, não me incomodo com as críticas. Sei que as pessoas, na maioria das vezes, estão tentando “me ajudar”, sei que o senso comum determina que colo é mau, já sabia que a pressão viria, de modo que estou preparada para lidar com ela. Dou a resposta-padrão “li muito sobre isso, acho que dar colo é ótimo, não se preocupe”, sorrisinho e assunto encerrado.

Mas eis que um casal que está pensando em ter filhos veio conversar comigo sobre isso no fim de semana. Eles queriam entender porque a gente faz diferente aqui em casa e disseram que se surpreenderam com a calma do Enzo. Queriam saber se a cria é tão sossegada e sorridente por causa do colo. E confessaram que estavam curiosos, pois tudo o que ouvem vai no sentido contrário, no sentido do “não dê colo”.

Então achei que valia um post para explicitar parte das minhas convicções. Começo dizendo que, como a maioria, fui orientada por todo mundo -de obstetra e pediatra a parentes- a não dar colo para o Enzo. E acreditei nisso. E achei que faria isso. E achei que Enzo teria de ser “treinado”, teria de me obedecer desde sempre, caso contrário, me manipularia, abusaria, viveria sem limites.

Mas eis que no caminho encontrei a blogosfera e a Mari e Gonzalez,  Laura Gutman, John Bowlby, Donald Winnicott, Sue Gerhardt (e seu lindo Why Love Matters), a Associação Internacional de Parentagem por Apego. E aí tudo mudou. Refleti, refleti, refleti muito, e percebi que dar colo não só é algo muito natural (genético até) como é altamente desejável.

Fiz escolhas conscientes como mãe. Até onde tenho domínio racional sobre minhas ações (e olha que sei que, na prática, é bem pouquinho), escolhi ser a mãe que sou, a maternagem que ofereço, com a qual me identifico. Até onde consigo controlar (de novo, bem pouquinho), procuro não reproduzir por reproduzir um jeito “x” ou “y” de maternar, procuro pensar sobre os porquês de fazer ou não fazer isso e aquilo e, de novo, escolho aquilo com o qual me identifico. E tenho como parâmetro nessa análise o bem estar e o desenvolvimento emocional do meu filho.

Isso significa que: não sou escrava do Enzo, nem manipulada por ele. Pelo contrário. Dou colo em livre demanda, sim, pois decidi dar, pois acredito nisso como a melhor forma de maternar e amar uma criança. Dou colo em livre demanda, porque acredito no que diz Carlos Gonzalez: os filhos precisam do colo para se sentirem amados, amparados, seguros. Assim como nós, adultos, temos nossos rituais de segurança, os bebês têm os deles, o que inclui colimdimamãe.

Aqui rola colo à vontade porque aplico a maternagem por apego, cujos pressupostos incluem me colocar no lugar do bebê, o indefeso, e não o contrário. O neném, recém-chegado nesse mundo, é que precisa ser protegido e acalentado, é quem está confuso, perdido e assustado, é quem olha para a mãe esperando dela a calma necessária para ajudá-lo a organizar o turbilhão de emoções e novas experiências que ele vivencia. E o toque, o holding (vide Winicott) é que vão dar, em larga medida, a segurança de que precisa o pequeno para ir organizando, a seu tempo, o seu mundo interior.

Respondendo à pergunta que os amigos fizeram, acho que sim: colo colabora muito para manter Enzo mais calmo, tranquilo e sorridente. Claro que a personalidade dele ajuda muito, é até determinante, penso. Mas colo, carinho, afago, tudo isso evita estresse e frustração, com os quais ele não saberia lidar pela pouca idade. Sobre isso, recomendo muito essa entrevista aqui, com a Sue Gerhardt, psicóloga inglesa especializada no desenvolvimento do sistema nervoso.

E dou colo em livre demanda porque quero, porque me dá prazer ter meu filho coladinho em mim, porque obviamente dá muito prazer a ele estar coladinho a mim, recebendo abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim. E rindo. E mordendo meu nariz. E sendo feliz. Por que não?

Quer dizer que não estimulo Enzo a brincar sozinho, engatinhar, ficar no chão livre, leve e solto? Claro que estimulo. Claro que brinco com ele, que o incentivo a desenvolver habilidades motoras e sensoriais para as quais ele precisa estar autônomo, sentadinho no sofá, num cercadinho, num tapete. Mas faço na medida do desejo dele, do interesse dele, da inclinação dele, não da minha conveniência. Se ele quer carinho no colo, vai ter. Se está interessado em brincar, vamos brincar no chão, ajudá-lo a desenvolver a coordenação motora, a fortalecer seus músculos etc.

Isso também significa que não sou mole nem deixo para lá na hora de mostrar limites. Só que meus limites são um tanto diferentes dos limites dos outros. Não vejo meu filho alguém que deve ser “ensinado” a se adaptar às minhas necessidades. A adulta sou eu, a mãe sou eu, eu que tenho que me adaptar às necessidades do pequeno e provê-lo de tudo quanto ele necessite enquanto ele ainda precisar que seja assim, seja mamadeira, seja colo. Colo nada mais é que desejo de amor e proteção, desejo de locomoção (para quem não anda), desejo de ver o mundo de um outro ângulo, curiosidade. Se negar todas essas coisas lindas a um bebê que, óbvio, minha gente, só depende de mim, é impor limites, não quero impor limite nenhum.

Acredito que, para o bebezico, “mamãe te ama” é colo, calor humano, carinho, estômago cheio, fralda limpa, brincadeiras, atenção. E tudo isso requer dedicação, proximidade (física inclusive), disponibilidade, disposição. Botar  “limites”, ainda mais esses limites, não faz o menor sentido nesse momento do desenvolvimento dos pequenos.

Não acredito em manha. Bebês têm direito de chorar por coisas que queiram e isso não é “fazer manha”. O tipo de maternagem que escolhi é aquele em que meu filho pode se comunicar comigo, da maneira que consegue, e exprimir suas frustrações, ainda que esteja frustrado simplesmente por não poder pegar determinado brinquedo. Não acho isso ruim ou tentativa de manipulação ou má-fé, como pressupõe a palavra. Para o que é importante para mim, não rola deixar bebê chorando e ensiná-lo a não reivindicar seus interesses, como se o desejo dele valesse menos que o meu. Isso é igual a fazer tudo o que o bebê quer? Não, nem seria saudável. Mas é igual a ouvir o bebê e levar em conta seus interesses, seu ponto de vista, ao invés de deixá-lo chorando sozinho porque ele é “manhoso” e “só quer colo”.

Porque eu acredito que, se a questão é evitar que os filhos sejam “tiraninhos” quando um pouco maiores, o caminho é o inverso. Com um ano, um ano e pouco, o bebê vai desobedecer mesmo. Não por falta de limite, mas por curiosidade, porque esquece recomendações. Nesse caso, o ideal vai ser distrai-lo e chamar sua atenção para outras coisas. Enchê-lo de “não” só vai vulgarizar a palavra.

E, quando for ainda maior (2, 3 anos), confrontar a ordem dos pais vai ser reafirmar sua personalidade, pois é nessa fase que as crianças começam um processo de individualização: testam quem são, do que gostam, o que preferem, de que forma colocar as preferências em prática. E, assim como na adolescência, a melhor forma de ser você é deixar de ser o outro (os pais). Daí a confrontar abertamente é um passo. Só que sabe qual criança vai passar por essa fase mais tranquilamente? Aquela que tem vínculo de melhor qualidade com os pais, aquela que se sentiu mais amada e protegida lááá atrás, na fase bebezica. Sabe qual? Essa mesma, a do colo, a “viciadinha”-dependente-que-“fazia-manha”. E não estou sozinha nisso. Dê uma boa olhada aqui e aqui. Aliás, isso ainda rende outros posts, no forno. Até porque não pratico “maternagem de resultados”. É muito bom que bebê coleiro seja mais tranquilo até nas fases emocionalmente confusas, mas faço o que faço por princípios. Ainda que os resultados fossem “piores”, ainda que fosse mais “eficiente” não dar colo, daria.

E chegamos ao ponto da tal independência, que parece que virou o objetivo principal de pais e mães. Independência é desejável? Muito. Já disse em algum outro post que crio meu filho pro mundo, para se encontrar, para se virar, para saber se respeitar e respeitar os outros, para viver suas próprias experiências, fazer suas próprias escolhas, trilhar seu caminho, sem interferências. Minha função como mãe, minha tarefa maternal, é ajudar Enzo a SER ELE MESMO, seja lá o que isso signifique, seja lá quanto tempo ele demore para descobrir quem é (se é que vai descobrir completamente), seja lá onde isso o leve. Não quero, não vou nem posso interferir numa jornada que é dele, só dele. O que quero, posso e vou fazer é ajudá-lo a estar pronto quando as escolhas começarem a cercá-lo, quando for preciso optar pelos caminhos. E ampará-lo se ele precisar.

Se minha tarefa é ajudá-lo a estar pronto, minha tarefa é prepará-lo, ajudar a prepará-lo. Pois eis que, para estar pronto lá na frente ele precisa se fortalecer agora, precisa se saber amado, protegido, precisa de fundação, de raízes, de um porto-seguro. Saca o tal “resiliente”? Ele só é resiliente porque as pontas são flexíveis, mas a raiz é sólida. Raiz sólida é amor, é autoestima, é reconhecimento de si próprio como capaz e amado. E, para isso, é preciso dependência completa quando o bebê for completamente dependente. Não é óbvio? Não é óbvio que exigir independência de um ser emocionalmente dependente é queimar etapas que, lá na frente, farão falta? Não é óbvio que quanto mais eu respeitar os limites do meu filho e suas necessidades físicas e psíquicas agora, mais independente ele será no futuro, quando estiver pronto para isso?

Gonzalez definiu muito bem (sempre ele) duas correntes de maternagem/paternagem/palpites. Ele falava, na verdade, sobre pediatras, mas vale para todo mundo. De um lado, os que pensam que tomam partido dos pais. Esses acham que os bebês devem ser treinados desde o primeiro dia para a independência, que deve chegar ainda na bebezice. Nesse caso, os pais só estão autorizados a fazer coisas relativas às necessidades básicas físicas ao bebê, como dar de comer, limpar, dar banho. Serão maus pais se derem colo, se ninarem para dormir no colo, se deixarem chupetar o peito, se estimularem o bebê a experimentar o mundo pelo afago “colístico” da mãe.

E há o outro grupo que entende que não há lado nessa história: mães e bebês vivem em simbiose, não se opõem, se complementam. Esse incentiva o colo, a amamentação em livre demanda, cama compartilhada, calor humano, satisfação dos prazeres e desejos do bebê, amor em manifestação livre, dependência, muita DEPENDÊNCIA. Eu faço parte, seguramente, desse grupo.

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