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maternidade é competição?

Pulga atrás da orelha: quando foi que a maternidade/paternidade virou competição? Ser mãe/pai é competir? O “desempenho” dos filhos é o que mede a qualidade da maternagem/paternagem (ok, essa palavra não existe, mas vou me permitir a licença poética)? É justo cobrar dos (ou esperar que os) filhos sejam os primeiros em sei-lá-o-que para que mães/pais ganhem sei-lá-o-que na comparação com outras/os mães/pais? Ou nós estamos tão acostumados à competição que nem percebemos a doideira que é tratar os filhos como se fossem competidores e/ou troféus?

Não tenho as respostas. Não tenho nenhuma delas, na verdade. Mas tenho pensado muito nisso, especialmente depois de encontros casuais que tenho tido com outras mães. Parece que há certos marcos de “desempenho” esperados para os filhos que servem, na verdade, para as mães medirem o “sucesso” delas e das crias.

Por exemplo: engatinhar é um desses marcos. Rola uma comparação deliberada para se saber qual bebê já engatinha ou começou a engatinhar primeiro, como se isso realmente significasse alguma coisa. O que se ganha quando um neném é “precoce” nessa área? Eu não sei, mas as mães parecem saber. Um google despretensioso vai mostrar que a idade “ideal” para começar a engatinhar é entre seis meses e um ano. Qualquer pediatra com dois neurônios funcionando vai dizer que, nesse período, o que vale mesmo é respeitar o tempo de cada criança. Mas experimenta dizer isso para as mães.

Dia desses ouvi de uma delas, cujo filho com 5 meses “quase engatinha”, que o “segredo” para a precocidade (que ela deve achar uma qualidade a ser copiada) do rebento é que ela nunca o pega no colo. Deixando o filho sozinho, sem colo, ela conseguiu que ele desenvolvesse habilidades motoras mais cedo. E ela critica as mães que fazem o contrário.

Pergunto: 1) Que vantagem o filho leva com isso? 2) Não seria melhor ter colo de mãe enquanto isso é fundamental –até para estimular o desenvolvimento neurológico e as sinapses– e deixar para estimular a evolução motora quando for a hora (ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo)? 3) Essa mãe já refletiu sobre a importância da autoestima na vida do filho? Será que já pensou que “se virar sozinha”, nessa idade, não é algo desejável para uma criança?

Filosofia de botequim (que eu A-DO-RO! Pena que não esteja tomando cerveja por esses dias. Do contrário, confesso, já estaria com uma bem gelada a me fazer companhia): vivemos em uma sociedade altamente competitiva, que estimula ainda mais competição como se isso fosse o único caminho para uma prometida prosperidade. Nós pais, perdidinhos da silva, achamos que o melhor para os filhos é que já nasçam competindo, que já nasçam na frente, chegando antes dos outros bebês em qualquer lugar que seja.

É uma síndrome de maternagem desenvolvimentista, sabe como? A preocupação principal deixa de ser o bem estar, a felicidade, o crescimento saudável e no tempo de cada criança, o respeito às etapas e ao ritmo do filho. O objetivo torna-se desenvolver -o quanto antes, de forma “otimizada”- tudo o que tiver que ser desenvolvido no menor espaço de tempo possível.

E daí a competição: se meu filho engatinha antes, ponto para mim, que consegui estimulá-lo e desenvolvê-lo mais rápido. Se ele anda primeiro, ótimo. Se fala primeiro, então, nossa, eu poderia ganhar um Nobel da maternagem.

O natural sequer é considerado. E o tempo, que nos submete a todos, é solenemente ignorado na busca ansiosa por alcançar, via filhos, a ponta, o pódio, o primeiro lugar de qualquer coisa que seja. Os filhos são superestimulados e, paradoxalmente, recebem menos atenção do que mereciam, já que “aprender a se virar sozinho” virou mantra. Na maternagem desenvolvimentista hegemônica,  quanto antes os bebês ficarem independentes, melhor. Mesmo que isso custe (se é que alguém ainda se preocupa com isso) boa parte da formação afetiva e emocional desse neném.

E essa “nova” forma de maternar -não por acaso- cai como uma luva numa sociedade consumista e individualista que parece que desaprendeu a ter filhos. Enquanto não consome, filho não se insere nesse contexto. Para mim, parece fato que, ao passo que a ciência evolui e permite que casais que jamais teriam filhos concebam, coletivamente, perdemos a capacidade de nos reproduzir a contento, pois perdemos -e nos orgulhamos disso- habilidades fundamentais para maternar/paternar:

-Não temos mais tempo: não esperamos nossos filhos crescerem e se desenvolverem; queremos acelerar os processos todos. Não temos tempo, nem nossos filhos tem, para esperar as etapas normais e apropriadas.

– Não temos mais disponibilidade: prioridade é o que vem em primeiro lugar. Não dá para ter vários primeiros lugares na nossa lista. E, em geral, mesmo querendo priorizar nossos filhos, na prática, priorizamos o que paga as contas. Porque, afinal, as contas precisam ser pagas, e vivemos numa sociedade esquizofrênica que nos faz escolher entre filhos e ganha-pão.

-Não temos mais paciência: sou tecnológica, adoro os avanços todos da ciência, mas acho que o mundo super conectado, que nos leva a trabalhar como loucos (ao invés de nos poupar tempo, como seria de se supor) também nos faz acostumar com um ritmo irreal e não-natural de vida. Queremos adiantar tudo, queremos tudo para ontem, levamos o imediatismo a um outro nível. Não queremos para já, queremos que já esteja pronto quando começarmos a desejar o que quer que seja.

-Não respeitamos o que é natural: bacana mesmo é o artificial, é o que acelera processos, “facilita” processos, substitui o que seria natural por algo mais adequado à nossa vida corrida, cosmopolita, sem qualquer ligação com instintos, ancestralidade, com as heranças que gerações anteriores levaram milênios para aperfeiçoar e nos legar.

E, veja, não estou apontando o dedo para ninguém. Também me incluo nisso tudo aí, também sou fruto disso tudo aí, também reproduzo isso tudo aí, também já me flagrei cobrando a mim mesma sobre o desenvolvimento do Enzo e planejando quais as habilidades dele eu vou querer “acelerar”.

Não aponto dedos não apenas porque teria de começar por mim mesma e porque não estou aqui para isso, mas, principalmente, porque não há exatamente responsáveis. A sociedade caminhou para onde estamos, nos trouxe até aqui, nos estimula. Somos consequência do mundo em que vivemos, dos valores do nosso tempo, da ciência e das informações de que dispomos, daquilo que nós e que os outros consideramos importante, ainda que discordemos um pouco (não vivemos numa ilha). Somos filhos do tal zeitgeist, o “espírito do tempo”.

E o espírito do nosso tempo é extremamente competitivo, individualista, frenético,workaholic (vida pessoal, esse palavrão, não gera lucro para as empresas capitalistas, afinal), artificial, contraditório, caótico, precoce, imediatista, consumista e eternamente insatisfeito. Por que as mães ficariam de fora?

O que nos resta, então? Refletir, refletir, refletir. Debater, debater, debater. Transformar, transformar, transformar. E olhar para os nosso filhos, acima de tudo, com os olhos livres desses óculos todos que nos fazem ver os pequenos sob o prisma do que o mundo quer deles, não do que eles querem do mundo e podem dar a ele.

Fácil não é. Mas também não é impossível. Minha segunda resolução -já colocada em prática- é respeitar as inclinações do Enzo e o tempo dele. Quando ele quer brincar no chão, tentar engatinhar, tentar andar, ajudo, estimulo, fico do lado. Quando ele quer colo, sombra e água fresca, é isso que dou. Quando me cobram largar meu filho, não dar colo, deixá-lo “independente”, não estou mais me calando. Digo que optei por uma maternagem na contra-mão mesmo, sinto muito, mas não vou na sua casa dar pitaco, né? Plis, não faça isso na minha. Faço isso por mim, mas também pelas outras mães. Circular conhecimento. Esse é o nome do jogo.

Também decidi -faz tempo, o que faz dela minha primeira resolução- priorizar mesmo Enzo. Meu tempo é dele. Ponto. Isso me custa correrias extras no trabalho, mas vale muitíssimo a pena. Qualidade também é quantidade nesse caso. E como eu posso (tem mãe com bem menos sorte), não vejo razão para não fazer isso.

E -terceira resolução, que na verdade é consequência de uma resolução maior (fugir dos modismos consumistas)- optei por mudar um pouco as coisas com a festa de um ano do Enzo. Estava planejando contratar especialistas e buffet para fazerem o aniversário dele. Mas mudei de ideia e vou fazer tudo (com exceção dos salgados). Não quero inserir Enzo desde sempre nessa coisa capitalista de competição pela festinha de aniversário mais “bacana” (leia-se mais cara e cheia de coisas supérfluas). Quero uma festa linda, claro, mas feita por nós, cumprindo todas as etapas, participando de todos os processos, com as nossas possibilidades reais, sem disfarces dados por especialistas.

Meu bolo não vai ter três andares e pasta americana. Mas vai ser delicioso, feito com muito amor, bem bonito, saudável, orgânico e sem porcarias. Enzo vai poder comer o próprio bolo!

Enfim, estou refletindo. E saindo da caverna.

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Arquivado em Maternidade, reflexões

personalidade em formação

Acho maravilhoso assistir, com ingresso VIP, à formação de uma personalidade. É um dos privilégios que temos por ser mães. Nossos bebezicos, aquelas coisicas pequenas, confusas, que não tinham a menor ideia do que eram e de onde estavam, poucos meses depois já têm um admirável domínio de si mesmos. Tanto que, muito além de ter desejos, preferências, quereres, brigam por eles.

De repente, a cria quer ficar só de pé; de repente, se joga na direção de um cômodo ou de outro e escolhe onde quer brincar; de repente, não quer mais vestir as calças, nem as blusas, nem roupa nenhuma; de repente, nega uma comida, mas aceita outra, evidenciando as preferências; de repente, se move em busca de um brinquedo específico, mesmo que a gente ofereça outros; de repente, se movimenta freneticamente até nos fazer entender que quer que levantemos com ele no colo; de repente, solta gritinhos de alegria quando acertamos que ele quer pegar o celular; de repente, reclama se o colocamos sentado de um jeito, mas ri quando o mudamos para outro; de repente, aceita uma coisa, mas não aceita outra de jeito nenhum; de repente, está observando, escolhendo, optando, se expressando com destreza e conduzindo boa parte do próprio dia.

Sim porque suas escolhas nos levam a dar a ele o acesso a boa parte do que ele pede, de modo que ele decide onde, quando e com o que brincar; onde, quando e o que comer; onde e quando dormir; onde, quando e por quanto tempo passear e assim por diante.

Fico admirada, pois acho que fazer tudo isso envolve uma série de habilidades novas e complexas. É preciso o bebê ter consciência do mundo que o cerca -de sua rotina, das ações dos pais etc-, de si próprio, conseguir avaliar o impacto desse mundo sobre si e distinguir entre o que será “agradável” ou “desagradável” de acordo com as preferências anteriormente reconhecidas. E, além de tudo, ter habilidades para expressar-se a contento.

E Enzitolino tem colocado em prática todas essas habilidades. Hoje cedo, por exemplo, ele acordou e, como de costume, levei o pequeno até o papai, que estava no escritório. Bom dia, bom dia, beijinhos, abracinhos, carinhos, saímos pra deixar o Dri à vontade e ficamos na sala, Enzito cercado de brinquedos. Mas eis que o bebê estava impaciente e, sentado no sofá ou no meu colo, só queria saber de ficar de pé. Gesticulava muito, balbuciava num tom de desaprovação e ansiedade e se jogava na direção do escritório. Levei ele até o pai e…bingo! Bebê calmo novamente.

Há poucas semanas, Enzo não estava assim tão fluente em relação a suas próprias escolhas. Mostrava um pouco da personalidade aqui e acolá, mostrava preferências, mas timidamente, hesitante. Agora já não noto quase hesitação nenhuma. Meu minimenininho sabe o que quer e expressa isso, outra coisa que chama a atenção, pois a comunicação evolui rapidamente. O choro já não é mais a principal forma de expressão, pelo contrário. Enzo só chora quando esgotou todas as outras possibilidades ou quando está cansado ou com fome (e mesmo assim, só quando não percebemos sinais iniciais de sono/fome e demoramos muito para dar a ele acesso à comida e caminha).

Em comunicação “verbal”, por assim dizer, Enzitolino usa principalmente duas habilidades: ele protesta, emitindo sons de desagrado, ou endossa nossas atitudes dando sonoras gargalhadinhas ou gritinhos empolgados. Mas ele “fala” muito com o corpo também: faz caretas engraçadíssimas -que nos fazem rir, mesmo quando ele está meio bravo-, ri bastante, se movimenta de forma bem típica quando está alegre ou aprovando algo e nos “dirige” para onde quer ir, jogando todo o corpo, incluindo braços e pernas, na direção em que deseja ir. Ou se põe de pé e ralha com a gente quando não está satisfeito com alguma coisa.

Começar a conhecer o mundo, começar a conhecer a si mesmo e -essencial- começar a compreender a relação que existe entre “eu” e o “mundo”, para mim, é a base de toda a liberdade possível, pois é liberdade de informação, de análise/avaliação/pensamento e, consequentemente, liberdade -genuína- de ação. Não é fascinante que o pequeno esteja começando a dominar tudo isso com tanta desenvoltura? E não é fascinante poder acompanhar de camarote e ir vendo, aos poucos, a personalidade deles ganhando corpo, espaço, se fazendo notar e materializar em ações? Não é bacana ver a autoestima dos bebês se construindo? Pra mim, é, sem dúvida, mais uma faceta sensacional da maternidade.

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Arquivado em bebezices, Maternidade, paternidade

dou colo em livre demanda sim

Enzo adora colo, não é segredo para ninguém. E quem lê o blog sabe que sou coleira convicta. Mas parece que isso incomoda demais as pessoas que, de um jeito ou de outro, convivem com meu filho, ainda que só de vez em quando. Tenho sido cada vez mais cobrada e questionada. Uns acham que Enzo manipula a mamãe, o maquiavélico. Para outros, eu tenho é preguiça de educar. Pelo que tenho visto por aí, não sou a única a ser cobrada/questionada. O paradigma hegemônico diz que o “certo” é deixar bebês chorando, pois são todos uns manhosos.

Eu não ia escrever sobre isso. Sinceramente, não me incomodo com as críticas. Sei que as pessoas, na maioria das vezes, estão tentando “me ajudar”, sei que o senso comum determina que colo é mau, já sabia que a pressão viria, de modo que estou preparada para lidar com ela. Dou a resposta-padrão “li muito sobre isso, acho que dar colo é ótimo, não se preocupe”, sorrisinho e assunto encerrado.

Mas eis que um casal que está pensando em ter filhos veio conversar comigo sobre isso no fim de semana. Eles queriam entender porque a gente faz diferente aqui em casa e disseram que se surpreenderam com a calma do Enzo. Queriam saber se a cria é tão sossegada e sorridente por causa do colo. E confessaram que estavam curiosos, pois tudo o que ouvem vai no sentido contrário, no sentido do “não dê colo”.

Então achei que valia um post para explicitar parte das minhas convicções. Começo dizendo que, como a maioria, fui orientada por todo mundo -de obstetra e pediatra a parentes- a não dar colo para o Enzo. E acreditei nisso. E achei que faria isso. E achei que Enzo teria de ser “treinado”, teria de me obedecer desde sempre, caso contrário, me manipularia, abusaria, viveria sem limites.

Mas eis que no caminho encontrei a blogosfera e a Mari e Gonzalez,  Laura Gutman, John Bowlby, Donald Winnicott, Sue Gerhardt (e seu lindo Why Love Matters), a Associação Internacional de Parentagem por Apego. E aí tudo mudou. Refleti, refleti, refleti muito, e percebi que dar colo não só é algo muito natural (genético até) como é altamente desejável.

Fiz escolhas conscientes como mãe. Até onde tenho domínio racional sobre minhas ações (e olha que sei que, na prática, é bem pouquinho), escolhi ser a mãe que sou, a maternagem que ofereço, com a qual me identifico. Até onde consigo controlar (de novo, bem pouquinho), procuro não reproduzir por reproduzir um jeito “x” ou “y” de maternar, procuro pensar sobre os porquês de fazer ou não fazer isso e aquilo e, de novo, escolho aquilo com o qual me identifico. E tenho como parâmetro nessa análise o bem estar e o desenvolvimento emocional do meu filho.

Isso significa que: não sou escrava do Enzo, nem manipulada por ele. Pelo contrário. Dou colo em livre demanda, sim, pois decidi dar, pois acredito nisso como a melhor forma de maternar e amar uma criança. Dou colo em livre demanda, porque acredito no que diz Carlos Gonzalez: os filhos precisam do colo para se sentirem amados, amparados, seguros. Assim como nós, adultos, temos nossos rituais de segurança, os bebês têm os deles, o que inclui colimdimamãe.

Aqui rola colo à vontade porque aplico a maternagem por apego, cujos pressupostos incluem me colocar no lugar do bebê, o indefeso, e não o contrário. O neném, recém-chegado nesse mundo, é que precisa ser protegido e acalentado, é quem está confuso, perdido e assustado, é quem olha para a mãe esperando dela a calma necessária para ajudá-lo a organizar o turbilhão de emoções e novas experiências que ele vivencia. E o toque, o holding (vide Winicott) é que vão dar, em larga medida, a segurança de que precisa o pequeno para ir organizando, a seu tempo, o seu mundo interior.

Respondendo à pergunta que os amigos fizeram, acho que sim: colo colabora muito para manter Enzo mais calmo, tranquilo e sorridente. Claro que a personalidade dele ajuda muito, é até determinante, penso. Mas colo, carinho, afago, tudo isso evita estresse e frustração, com os quais ele não saberia lidar pela pouca idade. Sobre isso, recomendo muito essa entrevista aqui, com a Sue Gerhardt, psicóloga inglesa especializada no desenvolvimento do sistema nervoso.

E dou colo em livre demanda porque quero, porque me dá prazer ter meu filho coladinho em mim, porque obviamente dá muito prazer a ele estar coladinho a mim, recebendo abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim. E rindo. E mordendo meu nariz. E sendo feliz. Por que não?

Quer dizer que não estimulo Enzo a brincar sozinho, engatinhar, ficar no chão livre, leve e solto? Claro que estimulo. Claro que brinco com ele, que o incentivo a desenvolver habilidades motoras e sensoriais para as quais ele precisa estar autônomo, sentadinho no sofá, num cercadinho, num tapete. Mas faço na medida do desejo dele, do interesse dele, da inclinação dele, não da minha conveniência. Se ele quer carinho no colo, vai ter. Se está interessado em brincar, vamos brincar no chão, ajudá-lo a desenvolver a coordenação motora, a fortalecer seus músculos etc.

Isso também significa que não sou mole nem deixo para lá na hora de mostrar limites. Só que meus limites são um tanto diferentes dos limites dos outros. Não vejo meu filho alguém que deve ser “ensinado” a se adaptar às minhas necessidades. A adulta sou eu, a mãe sou eu, eu que tenho que me adaptar às necessidades do pequeno e provê-lo de tudo quanto ele necessite enquanto ele ainda precisar que seja assim, seja mamadeira, seja colo. Colo nada mais é que desejo de amor e proteção, desejo de locomoção (para quem não anda), desejo de ver o mundo de um outro ângulo, curiosidade. Se negar todas essas coisas lindas a um bebê que, óbvio, minha gente, só depende de mim, é impor limites, não quero impor limite nenhum.

Acredito que, para o bebezico, “mamãe te ama” é colo, calor humano, carinho, estômago cheio, fralda limpa, brincadeiras, atenção. E tudo isso requer dedicação, proximidade (física inclusive), disponibilidade, disposição. Botar  “limites”, ainda mais esses limites, não faz o menor sentido nesse momento do desenvolvimento dos pequenos.

Não acredito em manha. Bebês têm direito de chorar por coisas que queiram e isso não é “fazer manha”. O tipo de maternagem que escolhi é aquele em que meu filho pode se comunicar comigo, da maneira que consegue, e exprimir suas frustrações, ainda que esteja frustrado simplesmente por não poder pegar determinado brinquedo. Não acho isso ruim ou tentativa de manipulação ou má-fé, como pressupõe a palavra. Para o que é importante para mim, não rola deixar bebê chorando e ensiná-lo a não reivindicar seus interesses, como se o desejo dele valesse menos que o meu. Isso é igual a fazer tudo o que o bebê quer? Não, nem seria saudável. Mas é igual a ouvir o bebê e levar em conta seus interesses, seu ponto de vista, ao invés de deixá-lo chorando sozinho porque ele é “manhoso” e “só quer colo”.

Porque eu acredito que, se a questão é evitar que os filhos sejam “tiraninhos” quando um pouco maiores, o caminho é o inverso. Com um ano, um ano e pouco, o bebê vai desobedecer mesmo. Não por falta de limite, mas por curiosidade, porque esquece recomendações. Nesse caso, o ideal vai ser distrai-lo e chamar sua atenção para outras coisas. Enchê-lo de “não” só vai vulgarizar a palavra.

E, quando for ainda maior (2, 3 anos), confrontar a ordem dos pais vai ser reafirmar sua personalidade, pois é nessa fase que as crianças começam um processo de individualização: testam quem são, do que gostam, o que preferem, de que forma colocar as preferências em prática. E, assim como na adolescência, a melhor forma de ser você é deixar de ser o outro (os pais). Daí a confrontar abertamente é um passo. Só que sabe qual criança vai passar por essa fase mais tranquilamente? Aquela que tem vínculo de melhor qualidade com os pais, aquela que se sentiu mais amada e protegida lááá atrás, na fase bebezica. Sabe qual? Essa mesma, a do colo, a “viciadinha”-dependente-que-“fazia-manha”. E não estou sozinha nisso. Dê uma boa olhada aqui e aqui. Aliás, isso ainda rende outros posts, no forno. Até porque não pratico “maternagem de resultados”. É muito bom que bebê coleiro seja mais tranquilo até nas fases emocionalmente confusas, mas faço o que faço por princípios. Ainda que os resultados fossem “piores”, ainda que fosse mais “eficiente” não dar colo, daria.

E chegamos ao ponto da tal independência, que parece que virou o objetivo principal de pais e mães. Independência é desejável? Muito. Já disse em algum outro post que crio meu filho pro mundo, para se encontrar, para se virar, para saber se respeitar e respeitar os outros, para viver suas próprias experiências, fazer suas próprias escolhas, trilhar seu caminho, sem interferências. Minha função como mãe, minha tarefa maternal, é ajudar Enzo a SER ELE MESMO, seja lá o que isso signifique, seja lá quanto tempo ele demore para descobrir quem é (se é que vai descobrir completamente), seja lá onde isso o leve. Não quero, não vou nem posso interferir numa jornada que é dele, só dele. O que quero, posso e vou fazer é ajudá-lo a estar pronto quando as escolhas começarem a cercá-lo, quando for preciso optar pelos caminhos. E ampará-lo se ele precisar.

Se minha tarefa é ajudá-lo a estar pronto, minha tarefa é prepará-lo, ajudar a prepará-lo. Pois eis que, para estar pronto lá na frente ele precisa se fortalecer agora, precisa se saber amado, protegido, precisa de fundação, de raízes, de um porto-seguro. Saca o tal “resiliente”? Ele só é resiliente porque as pontas são flexíveis, mas a raiz é sólida. Raiz sólida é amor, é autoestima, é reconhecimento de si próprio como capaz e amado. E, para isso, é preciso dependência completa quando o bebê for completamente dependente. Não é óbvio? Não é óbvio que exigir independência de um ser emocionalmente dependente é queimar etapas que, lá na frente, farão falta? Não é óbvio que quanto mais eu respeitar os limites do meu filho e suas necessidades físicas e psíquicas agora, mais independente ele será no futuro, quando estiver pronto para isso?

Gonzalez definiu muito bem (sempre ele) duas correntes de maternagem/paternagem/palpites. Ele falava, na verdade, sobre pediatras, mas vale para todo mundo. De um lado, os que pensam que tomam partido dos pais. Esses acham que os bebês devem ser treinados desde o primeiro dia para a independência, que deve chegar ainda na bebezice. Nesse caso, os pais só estão autorizados a fazer coisas relativas às necessidades básicas físicas ao bebê, como dar de comer, limpar, dar banho. Serão maus pais se derem colo, se ninarem para dormir no colo, se deixarem chupetar o peito, se estimularem o bebê a experimentar o mundo pelo afago “colístico” da mãe.

E há o outro grupo que entende que não há lado nessa história: mães e bebês vivem em simbiose, não se opõem, se complementam. Esse incentiva o colo, a amamentação em livre demanda, cama compartilhada, calor humano, satisfação dos prazeres e desejos do bebê, amor em manifestação livre, dependência, muita DEPENDÊNCIA. Eu faço parte, seguramente, desse grupo.

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