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mas essa escola é diferente

(*)

sugiro clicar pra ampliar a linda ilustra do Decur (*)

“A nossa obra de adultos não consiste em ensinar, mas sim em ajudar a

mente infantil no trabalho de seu desenvolvimento”

Maria Montessori – “Mente Absorvente”

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“Mas sempre tem um que é diferente

Tem sempre um que até surpreende a gente”

Paulo Tatit – “O Rato”

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui o uniforme é qualquer roupa confortável. Calça de malha, shorts manchado, camiseta velha, camiseta nova, largona ou curtinha, e também vale só cueca, só calcinha, só fraldinha. Pés descalços, com chinelo, com crocs, só de meias, com tênis, sandália, sem nada, um pé de cada jeito. Pé no chão, pé na areia, pé no pedal, pé na água, pé no pé de fruta; pé dançante, pé pulante, pé veloz. Uniforme, aqui, pode ser tinta. É permitido usar o corpo como suporte para a arte. Menina não tem que usar rosa, nem menino só usa azul. Tem menina de camisetão e menino com saia rodada, girando pra lá e pra cá nas oficinas de dança ou nas histórias que se conta.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui a mochila desconhece personagem, só tem pano, papel não há. Não se carrega caderno ou livro didático. O conhecimento está do lado de fora e ainda nem foi escrito; está todo por ser descoberto, explorado, construído; está nas árvores, nos jogos com os colegas, no pedal da bicicleta; no purê de abóbora, no suco de romã, no abraço, no colo, nos afetos e vínculos, no presente que se ganha espontaneamente do amigo e no presente que se dá. E que não custa dinheiro, só demanda olhar, conexão, proximidade, um papel com canetinha ou tinta guache.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui não tem professor. Ou educador. Ou cozinheiro. Ou porteiro. Aqui tem gente de coração aberto para acolher a infância, para respeitar o outro, para estar presente sem interferir, para dar a mão sem indicar o caminho, para oferecer e oferecer-se. Gente capaz de desvestir a máscara dos títulos (porque eles não importam mesmo) e da “facilidade” da prepotência adultista para ser e estar e promover um ambiente em que as crianças sejam e estejam.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui tem concentração, muito prazer nas atividades e descobertas, criança trabalhando quieta e entregue naquilo que escolheu. Tem muita conversa, de pequeno com pequeno, de grande com pequeno, de grande com grande, de pequeno-com-pequeno-com-grande-com-pequeno-com-grande. E outra coisa que grassa por aqui é ouvido. A escola toda, pode-se dizer, é um ouvidão bem atento (não são as paredes só que têm ouvidos: todo mundo tem). Daqueles que principalmente escutam, ao invés de só ouvir. Tem olhos também. Brotam aos montes, em todo o lugar. Que veem, enxergam e reparam (como diz o Saramago).

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui a sala de aula é grande, é ampla, tem sacada, tem jardim, tem escada, refeitório, ateliê, quintal, um vaso com lavanda, um casal de sabiá. E amplia espaços, ao invés de se fechar. Não é gaiola. É asa. Aqui a porta está sempre aberta, e a criança escolhe onde ficar. Pode ser no grupo que está pintando ou no que vai começar a jogar, pode ser ouvir história, pode ser observar. Tem muito tempo de quintal, tem todo o tempo para brincar. Aqui brincar é coisa séria, como só criança consegue ser. Aqui criança tem autonomia, liberdade, é sujeito. Os limites –sim, eles existem- servem só para organizar, facilitar; jamais controlar, submeter, adequar. Limite aqui é leito de rio: ajuda a fluir. Mas a água segue livre pelo curso, que ela mesma vai fazendo (tal qual o caminhante) ao caminhar.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui criança não tem TDAH como se fosse gripe. Gripe, falando nisso, é outra coisa que quase não dá. O que dá muito por aqui é riso, gargalhada, grito, corre-corre, pega-pega, trepa-trepa. Tem umas brigas, umas negociações, umas explosões de raiva. Das naturais, das infantis.  Não carecem de remédio pra aquietar. Nada aqui, aliás, foi talhado para ser quieto. Tudo é movimento e tudo está em seu lugar.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui não tem festinha, não tem coreografia ensaiada, pasta com atividades pra pai ver de vez em quando.  Aqui pai e mãe estão dentro da escola o tempo todo. A fotografia é documental, tirada em tempo real. No sentido figurado, mas também no literal, na máquina fotográfica que registra as atividades e que muitas vezes é operada pela criança –que expressa-se a si mesma sem o olhar do adulto a escolher a hora de abrir o obturador. Aqui não tem apresentação de teatrinho, mas dá umas cenas lindas que dá vontade de filmar: abraços apertados e sinceros entre duas amigas depois das férias; um grupo tranquilo de crianças fazendo castelo de areia como se fosse praia (inclusive com raio oblíquo de sol, sombra de árvore protegendo cabecinhas e nada mais no corpo além de cueca, fralda e calcinha); outro grupinho apostando corrida de triciclo com circuito e regras que eles mesmos criaram –e respeitam, sem necessidade de sanção ou ameaça.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui não tem inglês, nem francês, nem alemão e tampouco japonês. Aqui ninguém é bilíngue de nascença, nem sabe escrever antes da hora. Palavra é coisa séria nessa escola. É pra ser dita, sentida, vivida, percebida, manipulada, saboreada, engolida, respirada, ouvida, tocada, corrida, pulada, dormida, abraçada, comida, digerida, cantada, brincada. Aqui não tem informática ou TV. E ninguém parece dar a mínima pra adultos bem sucedidos. Porque aqui, nessa escola, não é de tudo que dá. O que dá mesmo é infância, muita infância, ah, como dá.

(*) Do genial artista argentino Guillermo Decurgez. o Decur. Metáfora perfeita. Daqui ó.

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um pouco de silêncio

Dia desses estávamos Enzo e eu no quarto dele. Ele havia pedido companhia para brincar com massinhas e também ajuda, pois uma delas fica guardada num pote plástico que o pequeno não estava conseguindo abrir sozinho (ainda me pergunto porque caracas brinquedos de criança vêm em embalagens que precisam de adultos para abrir/fechar…).

Quando o filho finalmente começou a manipular a massinha, ficou em silêncio. Fez menção de me perguntar alguma coisa, mas desistiu. Ficamos alguns segundos assim: ele mexendo num pedaço da massa, eu noutro. Então senti uma necessidade de falar alguma coisa, de perguntar, de sugerir, de interagir, de marcar presença. Como se simplesmente estar ali com ele não fosse interação suficiente. E como se o silêncio fosse insuportável. Fosse mais insuportável que os ruídos todos com os quais lidamos diariamente e com os quais nos acostumamos.

Cheguei a abrir a boca e puxar o ar para começar a falar. Cheguei a formar a frase na cabeça. “O que você quer fazer com essa massa? Precisa que eu te ajude a fazer uma bolinha?” (Notei que ele fazia movimentos como se quisesse formar uma bola, mas não estava conseguindo, segundo o que meus padrões escolarizados definem como “bola”, claro). Cheguei até a começar o gesto de estender a mão para oferecê-la, caso ele quisesse me de dar seu pedaço de massinha pra eu “consertar”.

E então, num segundo, antes de efetivamente fazer qualquer dessas coisas, concluir qualquer dessas ações, olhei para o meu filho. Olhei para o rosto dele, para suas mãos que não paravam, para seus olhos fixos na massinha. Foi estranho, porque parei de pensar. Simplesmente não pensei em nada por aqueles segundos. Só vi. Só enxerguei. Só senti. Como se houvesse uma interrupção no tempo/espaço e como se eu, suspensa, fora da cena, pudesse compreender completamente, para além do raciocínio, o que estava acontecendo ali entre o filho, a massinha e eu.

Senti o que ele estava sentindo. Senti como estava pleno, concentrando, entregue àquele momento, curtindo e sentindo prazer na manipulação daquele objeto. Percebi como estava numa espécie de espaço/tempo diferente do meu. Porque eu ficava elucubrando um monte de coisas na cabeça, ansiosa, tensa, tentando prever se ele precisaria de ajuda ou tentando preencher alguma coisa com a fala.

Enzo, no entanto, já estava preenchido; presente naquele contato com aquela massinha. Ele estava no presente, naquele quarto. Eu não: estava na minha cabeça, pensando, pensando, pensando.

Então, de repente, quando percebi tudo isso, não havia mais necessidade de falar nem de fazer nada nem de pensar nada. Parei tudo: a fala, o gesto, os pensamentos. E me entreguei como ele ao contato com a massinha que estava nas minhas mãos. Fiquei ali, só manipulando, sem intenção alguma, sem “construir” nada, só sentindo a sensação de mexer naquele material. Só sentindo a presença do meu filho; só estando. Ele e eu, estando juntos. No silêncio. Por uns 20 minutos, talvez mais. Ficamos ali, cada um do seu jeito, compreendendo e vivendo aquele momento, aquelas sensações.

Entendi –não racionalmente, pois não racionalizei essa nova compreensão naquele momento– que as palavras são muitas vezes desnecessárias. Mais que isso: atrapalham. Eu teria atrapalhado a entrega do Enzo àquele presente, àquele momento, se tivesse dito qualquer coisa.

Já tinha lido muitas vezes que criança, por natureza, se estiver sentindo-se bem e equilibrada, é do silêncio. Brinca em silêncio, trabalha em silêncio, aprecia o silêncio. Encontrei afirmações desse tipo em muitas fontes diferentes, de Maria Montessori e Ana Thomaz a Carlos González. Tem momentos para extravasar, óbvio, em que os pequenos gritam, cantam alto, riem abertamente. Mas há muitíssimos outros momentos, quando, segundo Montessori, acham o que querem fazer, em que o silêncio não só é suficiente como é necessário, absorvidos que estão pela atividade “ideal” para aquela situação.

Acontece que toda essa informação racional só fez sentido, só foi completamente compreendida, apreendida, percebida por mim quando todo o cognitivo aprendeu também. Só fez sentido quando eu senti o significado do silêncio para o Enzo. E, uma vez sentida a informação, aí sim foi lá ser “validada” pelo racional, que já tinha o argumento na ponta da língua.

A partir desse dia, desses minutos brincando em silêncio, mais presente do que nunca ao lado do Enzo, mesmo muda, mesmo “na minha”, mesmo sem “interagir” com ele no sentido mais objetivo do termo, comecei a reparar muito mais no que e quando falava com meu filho. E na atitude de outras pessoas com ele e até de outros pais com seus próprios filhos.

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 1)

Um menino, de uns 4 ou 5 anos, estava brincando de amarelinha. Feliz da vida, completamente alheio ao que acontecia ao redor. Do jeito dele, da forma que ele queria: pulando aleatoriamente os números, contando, andando por sobre os desenhos, dando saltinhos quando bem entendia, fingindo que caía e por aí vai. Até que o pai, quando se deu conta de como a criança brincava, resolveu “corrigir” o filho, que brincava “errado”. E começou, à princípio, sutilmente, com perguntas do tipo: “Você sabe que tem que pular desse e desse jeito?” ou “Por que você não faz assim ó? (demonstrando como “deve ser”).

Como a criança não estava dando muita bola para o pai e se limitava a fazer o que ele pedia no momento em que pedia para, logo em seguida, brincar como estava brincando antes, o adulto não se conteve e começou a efetivamente explicar e dirigir completamente a brincadeira. Pegou uma pedra ele mesmo, jogou a pedra num número ele mesmo, virou-se para o filho: “agora você tem que ir pulando assim e assim (demonstrando) até a pedra”. O menino, imóvel, olhava o pai. “Vai, vai, vai!”, o pai dizia, gesticulando.

O menino foi, visivelmente deslocado, sem muita convicção, sem entender porque cara@#&*  precisava parar de se divertir para ficar pulando pedrinhas. E o pai ainda assim não estava satisfeito. Continuava a “corrigir” o brincar do filho, cada vez mais impaciente, cada vez falando mais alto, dando mais ordens. Suspirava quando o menino não “acertava” o pulo –com um pé só ou dois.

Depois de tentar de tudo para agradar o pai, ainda que estivesse obviamente se desagradando, a criança simplesmente deixou de brincar e foi sentar-se num canto. Fosse um temperamento um pouco mais “forte”, o menino ao invés de se isolar talvez começasse a “incomodar” os adultos com comportamentos “ruins”. Aí diriam que ele é malcriado, que faz manha, birra, dá chilique. “Não sei o que tem esse menino. Não obedece nunca”. Superativo, precisa de ritalina. Sei…

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2)

Uma mulher e um garotinho brincavam juntos num Sesc. Não sei bem o parentesco entre eles, mas eram parentes. Ou ela era avó ou tia. Haviam pedido diversos brinquedos, alguns com números, outros de montar e ainda alguns jogos de adultos. O menino estava brincando fazia um bom tempo com um único deles, não me lembro bem qual.

Mas a acompanhante dele encasquetou que ele deveria parar o que fazia para brincar com o das peças de montar. “Olha, Fulano, vamos fazer um carrinho?”. E aí ela fazia, o menino assistia para, logo depois voltar ao brinquedo original. “Fulano, aqui tem esse ó, dá pra montar um monte de coisas legais”. Menino ainda na dele. A moça esperava um pouco e retomava a artilharia: “Que tal a gente brincar com esse de montar?”

Não interessa muito as razões dela. O menino estava seguro com o brinquedo que queria. As escolhas dele deveriam ter sido respeitadas. E estava óbvio que ele não queria brincar de montar nada. No fim das contas, de tanta insistência, o pequeno cedeu e foi montar sei-lá-o-quê com a tia/avó.

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3) 

Avó leva a neta de quatro anos num parquinho. A menina é inteligente e articulada para a idade. A avó, toda orgulhosa, me explica que é porque a menina é “superestimulada” pelos pais, dois professores universitários que investem tudo na educação integral da criança e que, em casa, ainda insistem em “puxar” a menina, oferecendo sempre atividades artísticas e de lazer que possam “contribuir” para o “aprendizado”.

Além de articulada, a menina tem muita energia e imaginação. Logo transforma o tanque de areia em piscina. Quando a avó percebe, vai lá “ajudar” e “superestimular” a neta, que está concentrada, brincando e falando consigo mesma. Quer dizer, estava, até a avó aparecer: “nossa, que piscina grande! Deixa eu ver se a água está boa (fingindo colocar os pés na areia-água)”. E continua: “o que você está fazendo? Por que você não atravessa a piscina nadando? Vem até aqui nesta margem nadando que eu vou marcar seu tempo (!!!)” “Poxa, como você nada bem! Que tal mergulhar agora?”.

A menina não brincou sozinha, não inventou situações. Viveu apenas as fantasias da avó, que não parou de dirigir a brincadeira da neta até elas irem embora, duas horas depois.

Todas essas situações relatadas acima são reais, presenciadas recentemente.

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Não fazemos isso por mal. Nem eu nem o pai ou a tia/avó ou a avó. Mas atrapalhamos um bocado mesmo sem querer. Tiramos a liberdade, a tranquilidade e a energia das crianças.

Não conseguimos respeitar a conexão delas com o agora, com o que estão fazendo (talvez porque não tenham respeitado a nossa e porque tenham nos ensinado a nos desconectar desde muito cedo). Atrapalhamos. Muito. O tempo todo. É enlouquecedor.

Comecei a ficar muito incomodada. Irritada mesmo. Só de ver. Só de ouvir.

Fico imaginando como se sentem as crianças com tanta gente tagarelando, interrompendo os fluxos naturais de concentração e o prazer de estar presente numa atividade que tenha despertando interesse.

E em boa parte das vezes, fazemos pior: além de atrapalhar falando, a fala em si pretende dirigir as ações dos menores. Sugerimos que prestem atenção nisso ou naquilo (e não no que eles já estão prestando atenção); que façam de um jeito “certo”, pois pretendemos “ensinar” como se “faz” ou simplesmente fazer com que façam aquilo que achamos que devem fazer, não o que querem fazer.

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Comecei a tomar o caminho inverso. Falo cada vez menos com Enzo –e, creia-me, já é muito. Quando estamos juntos brincando, sempre espero que ele tome a iniciativa de falar comigo. Se me perguntou algo, só respondo. Se a conversa continuar, será porque ele quis. Antes de abrir a boca, olho, olho, olho e olho mais uma vez e olho de novo. Para ter certeza absoluta de que não estou interrompendo nada. Não interfiro nas brincadeiras dele, não sugiro nada. Todos os brinquedos dele estão acessíveis em diversos cômodos da casa. Outros utensílios com os quais goste de brincar, idem. Não sou eu quem vai achar ou sugerir ou estimular o que fazer. Essa é uma prerrogativa dele. Meu papel é “apenas” garantir que ele tenha atividades adequadas à mão. E que esteja bem emocionalmente para ouvir a si mesmo e achá-las.

Ainda escorrego muitíssimo, porque sou tagarela. Mesmo. E adoro isso. Mas agora sei –em diversos níveis, não apenas racionalmente– como é que a coisa toda deve ser. Ter me permitido experimentar a massinha, ter procurado sentir a emoção do Enzo, está sendo essencial nesse processo. E, em contrapartida, tenho aprendido muito nessa observação. Tenho aprendido –ou me lembrado de– como é bom a entrega a uma tarefa que te enche de vida e te absorve e te coloca em contato com tudo e com nada ao mesmo tempo. As crianças são mesmo geniais. Estou tentando não estragar isso.

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Para ler mais a respeito desse assunto, recomendo muito:

-Esse post aqui, do Marcelo Michelsohn;

-O Lar Montessori, do Gabriel Salomão, e em especial esse post;

-O encontro com o silêncio da Ana Thomaz

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a (falta de) TV e o “computador” do filho

Faz 15 dias que estamos sem TV. Quer dizer, o aparelho continua firme e forte, funcionando (até onde eu sei), no mesmo lugar onde está desde que tiramos da caixa. A diferença é que, faz duas semanas, ele permanece desligado durante o dia todo, pelo menos até a hora do filho ir para a cama.

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A princípio, eu queria apenas diminuir o tempo de exposição do Enzo às telas. Observando o comportamento recente dele, havia percebido um aumento muito grande de interesse pelos programas televisivos e, na mesma proporção, a diminuição (ou perda completa) de interesse por atividades lúdicas quaisquer.

Sempre fui favorável a estimular uma infância com pouca TV porque sempre acreditei que TV distrai do que é importante. Ligar o aparelho muitas vezes é desligar-se, especialmente no caso das crianças, em que a relação delas com o mundo pode ser tão intensa e frutífera e que a criação e a descoberta ainda estão tão potentes (ainda não desaprenderam a inventar). Criança não bloqueia a criação nem a percepção racionalizando e tentando explicar/entender logicamente o mundo, como a gente faz. Criança primeiro sente, cria, primeiro ousa, experimenta. Depois apreende o sentido lógico, que é só uma das faces de qualquer coisa. A Ana Thomaz diz que as crianças têm os sentidos ainda muito abertos e usam muito mais do que a parte racional do cérebro (os famosos 5%) que os adultos usamos. Concordo.

Para os pequenos, um objeto é muito mais do que a função utilitária que ele tem. É também forma, cor, textura, cheiro, som, gosto e zilhões de possibilidades de percepção e aplicação. Ou, de outra forma, uma tampa de panela jamais viraria uma direção de carro, confere? E isso não é “só” brincadeira. Quem disse que alguém começa a aprender a dirigir quando senta no carro da autoescola? Para mim, criança começa a aprender tudo sobre tudo não apenas quando faz as perguntas racionais e lógicas aos adultos sobre o que é isso ou o que é aquilo, mas principalmente quando (e porque) se permite experimentar todas as coisas, observar, testar, imaginar, inventar e reinventar usos reais e imaginários e absorver das coisas tudo o que elas têm para dar, sem limites. Elas acham as próprias respostas antes de fazer as perguntas.

Só que esse percurso de criação e experimentação pode ser atrapalhado, entre outras coisas, por tecnologia e brinquedos prontos (ou “ultraprontos”, tipo a boneca que come, faz xixi e fala). Aliás, isso explica porque criança pequena não gosta muito de brinquedo, prefere embalagem. Para criar, é preciso algum vazio; alguma coisa por fazer, certo? E para mim fez muito sentido na prática, como disse, pela observação do meu filho. Quanto mais ele preenchia seu tempo com entretenimento, menos criava. Resolvi ampliar as possibilidades de criação dele pelo modo mais óbvio: diminuindo a distração.

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(**)

No primeiro dia em que fiz isso, recorri a um expediente muito conhecido entre as mães: a mentira. Não me orgulho, mas… menti descaradamente. Como de costume, ele começou a pedir para ligar a TV assim que acordou, antes mesmo do café. Desconversei. Não deu certo. Então apelei: “filho, sinto muito, mas a TV quebrou”. Esperto que só, não acreditou muito. Retrucou com um “a mamãe ti mosta que quebou“. Improvisei um teatro, dei uma disfarçada com o controle remoto e, bem na hora em que o desenho que ele pediu ia começar, desliguei. “Está vendo, filho, quebrou”. Se convenceu.

Tinha planejado ligar mais à tarde e deixá-lo ver o desenho que quisesse. Mas, para minha surpresa e admiração total (ou não, porque no fundo eu esperava que isso acontecesse), ele simplesmente esqueceu que a TV existia. E foi brincar. Brincou com guache, depois com os carimbos (lavou as almofadas de tinta dentro do copo de água, de modo que saiu toda a tintura e as ditas cujas foram pro lixo), desenhou com giz de cera e lápis de cor, tirou tudo para fora da caixa de brinquedos e voltou a usar muitos que fazia tempo nem ligava, encaixou e desencaixou inúmeras pecinhas, conversou com os bichos de pelúcia, pegou o edredom do meu quarto e fez uma cama para a Branca e para o Pimpão (a coelha e o urso, respectivamente, com quem ele dorme todos os dias), “telefonou” para um monte de gente, correu. Nem um minuto parado. Dormiu cedo, exausto.

Esperei para ver como seria no dia seguinte. Pediria ou não para ver “Charlie e Lola”? Não pediu. Tomou café e foi brincar de novo. Como ele não pedia para ligar a TV, eu simplesmente ia deixando desligada. E assim estamos. Ele não pede, eu não sugiro. Os personagens de que ele gostava, que antes eram parâmetros para todas as (poucas) brincadeiras, surgem esporadicamente nas fabulações dele, que agora são muito mais criativas e reveladoras do que ele realmente observa, pensa e sente. E isso tem sido um aprendizado para mim também, porque vejo nossa dinâmica refletida e consigo perceber, por exemplo, quando ele se chateou com alguma coisa ou quando ficou impressionado com algo que eu (ou as pessoas próximas) fiz (fizeram). Brincadeira (assim como a arte) também é comunicação.

Dia desses ele pegou meu edredom, colocou no sofá, “guardou” sob ele a Branca e o Pimpão, cobriu metade das pernas (sob um calor de 35º C) e me chamou. Sentei onde ele indicou (bem ao lado dele) e então começou a brincadeira: “Agola não é mais o Enzo, é a majetade. E eu estou levando a mamãe de tem pro paque“. Majestade é uma personagem de um livro que ele adora (e que nem temos em casa; a gente lia numa biblioteca pública). Trem é o veículo utilizado num dos episódios de que ele mais gosta do “Backyardigans”. E o parque é a praça onde vamos com ele com frequência nos finais de semana. Bem mais rica e imaginativa essa brincadeira do que simplesmente reproduzir falas do “Mr. Maker”… E isso é só um exemplo. Porque uma criança que brinca o dia inteiro sem parar (pausas esporádicas para me ajudar a lavar o tomate cereja e preparar o almoço ou arrumar a casa…) diz muito sobre o bom estado da sua criatividade, confere?

Mas eu soube mesmo que está dando certo e que estamos no bom caminho sem a TV anteontem. Da mesa da sala, onde trabalho às vezes, vi e ouvi o pequeno brincando (porque a gente trabalha em casa sempre com um olho no peixe e outro no gato, né?). E eis que Enzo pegou um livro fininho, mas de capa dura, colocou deitado em cima do móvel da TV e abriu a capa, levantando-a apoiando-a no aparelho. Começou a “digitar” no livro aberto como se fosse o notebook. Tirou uma das mãos do livro, levou ao ouvido, e então ficou um bom tempo “conversando” e fazendo “perguntas” sobre valejo (varejo, área que eu cubro como jornalista). Aí se despediu (“xau, xau, bigadu“), colocou o “telefone” de volta na mesa da TV, baixou a capa do livro e, satisfeito, disse para si mesmo: “Ponto, posso fechar o compodoi que eu já acabei minha entevita“.

(*) Mafalda veio daqui e (**) o Calvin eu achei nesse endereço ó.

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a omelete, a mãe, o filho e a cebola roxa

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Daí que a mãe se lembra, às 19 h de um domingo, que esqueceu de comprar o frango que faria pro filho. Putaqueopariu! #mãedemerda!  Isso que dá ficar 15 minutos de pernas pro ar, lendo, enquanto bebê dorme! Não se apercebeu ainda, moça,  que “pernas pro ar” não rima com “maternidade”?

Seis palavrões e uma dúzia de xingamentos depois, mãe resolve abrir a geladeira pra ver se salva alguma coisa lá de dentro. Afinal, #mãedemerda ou não, a cria vai jantar daqui a alguns minutos, confere, produção?  E eis que, nessa busca, dá de cara com os ovos. Pensa, faz contas, rememora quantas vezes o filho comeu ovo durante a semana… Uma vez, meia clara. Ok, liberado, pois a pediatra recomenda dar duas vezes por semana, ovo inteiro. Voilàmãe decide então fazer uma omelete em substituição à carne.

Separa dois ovos, um punhado de ervilhas frescas, outro punhado de milho fesco, tomatinhos cereja, umas lasquinhas de mussarela de búfala… Hum, não vai ficar a melhor omelete do mundo, mas deve dar pro gasto. Pelo menos, Enzo come proteína, leguminosas, um carboidrato do bom, o tomate, fibras…

Daí a mãe se lembra de que comprou uma cebola roxa dois dias antes para colocar numa hipotética salada de brócolis que não saiu do papel. Ok, vamos usar a cebola roxa também! Enzo nunca provou, não se sabe se vai gostar, mas tentemos.

Mãe acha muito importante oferecer alimentos e temperos variados para o pequeno. Assim, ele vai se acostumando e ampliando seu paladar e repertório alimentar, digamos assim. A cebola roxa estava na lista fazia um tempo; mãe achou uma ótima oportunidade para testar.

A ideia, a essa altura, é dar uma dourada na cebola antes de misturar à omelete. Um pinguinho de azeite na panela, cebola cortada em pedacinhos pequenos bem fininhos, uma pitada de sal e, depois de um tempo, um pouquinho de água, para dar aquela cozidinha e  para não queimar.

Enquanto a cebola doura, o pai vai preparando a omelete. O filho brinca no chão, sob a supervisão da mãe, que também supervisiona a dita-cuja da cebola. Mas quem resiste a cheiro de cebola na panela? É só o aroma começar a se espalhar que o filho larga os brinquedos todos e pede colo pra ver o prato cheiroso mais de perto.

Aspira uma ou duas vezes a cebola na panela e pede um pouco. Mãe pega a colher, experimenta, já está cozida. Pega outro punhadinho, assopra, dá pro rebento. Agora desce e brinca aí que a mamãe vai terminar o jantar. Ã-hã.

Mal termina de engolir, filho pede cebola de novo. Mãe admira-se. Achou que ele poderia gostar, mas não tanto a ponte de pedir repeteco na cebolinha sem nada. Ok, não faz mal, mais uma colherada de cebola, então.

Mal termina de engolir, filho pede cebola de novo. Mãe dá. Mas faz a ressalva: filho, é para colocar na omelete…

Mal termina de engolir, filho pede cebola de novo. Mãe pensa em negar –pohan, assim não sobra pra omelete–, mas pondera: se o objetivo de colocar a cebola na omelete dele é que ele coma, que diferença faz se for misturadinha lá ou pura na colher? Nenhuma. Mais cebola para o pequeno.

E mais. E mais. E mais. E outra colherada. E outra. E outras. Estabelece-se o seguinte padrão: o filho brinca um pouco enquanto mastiga. Tão logo a cebola acaba, larga o brinquedo, abre a boquinha, gesticula (apontando para o recipiente acebolado) e, para não restar dúvidas do seu desejo, faz um “ahãm” mordendo o nada com a boquinha. Boquinha cheia, volta pro lugar até terminar de mastigar.

E assim vão, mãe e filho, por vários minutos, até que… a cebola acaba! Uma cebola inteirinha! E acaba  bem antes de a omelete ir para o fogo… Da cebola mesmo só sobrou o bafinho para comprovar que tudo nos bebês é fofo, até mau hálito.

(*) Imagem daqui.

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nosso papel nos papéis de gênero

Numa loja de roupas para crianças, um pai, uma mãe e uma menina de três anos. A menina precisava de sapatos. Mas a mãe se encantou mesmo com uma tiara. Enquanto o pai calçava e descalçava os modelos na filha, que, indiferente, continuava brincando com seus livros de colorir, a mãe insistia em botar o acessório na cabeça da pequena.

Mãe colocava. Filha tirava. Mãe colocava de novo. Filha tirava de novo. Mãe trocava o modelo da tiara (“Esse vai servir melhor”). Filha nem deixava ela terminar de encaixar o objeto na cabecinha. Mãe insistia. Filha começava a chorar. Pai intervinha: “ela não gosta disso! Deixa ela”.

A mãe, ela própria, tinha uma dessas na cabeça. Depois da intervenção paterna, mãe ficava amuada, cara fechada, procurando novos modelos de tiara. Assim que dava uma brecha, tentava colocar na menina novamente. A cena se repetiu por três vezes, até que a menina não parou de chorar.

A mãe, entre irritada e decepcionada, quando viu que não teria jeito de convencer a cria a usar o troço na cabeça, ameaçou:

-Quando crescer, vai adorar uma dessas, você vai ver. Aí a mamãe ajuda a escolher umas bem bonitas, para você ir lindona para a escola, para as festas…

A filha interrompeu, ainda com lágrimas nos olhos:

-Não quéio!

-Ah, mas você vai querer! Espera só você ser maior.

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A cena, da qual participei involuntariamente (eu e o casal estávamos na mesma loja), me fez pensar em algumas coisas:

ESPELHO, ESPELHO MEU: Queremos tanto, mas tanto, que nossos filhos sejam nossa imagem e semelhança que mal dá para disfarçar. É difícil conceber que, de repente, a cria tem outras inclinações, outros sonhos, outros valores; que mesmo que tenhamos lutado à beça para sermos quem somos, pode ser que os nossos acertos, aos olhos dos filhos, simplesmente não sirvam. Ponto.

Acho, tirando por mim e pelas minhas conversas de travesseiro comigo mesma, que duas coisas doem muito nisso tudo: 1) Aceitar que os filhos podem ser nossos opostos, podem ser opostos inclusive de características nossas que amamos. Porque se o rebento for diferente de você naquele defeito que te aborrece horrores, você vai ficar super feliz. O problema é quando a cria resolve ser diversa em pontos dos quais você se orgulha em você mesmo.

Dá uma impressão de falha, de que você não foi um bom modelo, ou de que o filho está menosprezando aquilo que você é, respeita e admira. Fato é que a gente cria um modelo do que seria o filho ideal, mais ou menos baseado no ideal que fazemos de nós mesmos, e nos esforçamos para enquadrá-lo nisso.

2) Aceitar que não podemos melhorar a nós mesmos e consertar a nossa infância/adolescência/expectativas frustradas com a vida do herdeiro. No fundo, mesmo o item anterior, trata disso: tendemos a projetar nas crianças as nossas frustrações e desejos e dar a eles tudo o que julgamos que nos falta. E “ai” do filho, aquele ingrato que não sabe o valor das coisas, se ele não quiser o que a gente oferece assim, de mão beijada, mas que para nós foi custoso a vida inteira.

Já me peguei várias imaginando a escola ideal pro Enzo. E qual será? A que tem tudo o EU queria que meus colégios tivessem e eles não tinham. Ah, cê jura?

Tenho certeza absoluta de que não ficarei nem um pouco chateada, preocupada, frustrada, decepcionada etc etc etc se Enzo for, por exemplo, gay. Já achava isso antes de ter filho (quando todo preconceituoso me saía com essa pergunta infame “você ia querer um filho gay” em discussões em que eu defendia a orientação sexual). E fiquei mais convicta agora, que sou mãe. Mas se ele for um machista conservador… Aí vai doer. Como lidar com a possibilidade de os filhos não serem o que a gente espera deles, ou seja, uma versão (supostamente) melhorada de nós mesmos?

PAPÉIS DE GÊNERO: Nascemos livres de estereótipos, de papéis, de amarras limitantes, com todas as possibilidades do mundo para explorar. Daí as pessoas mais velhas logo se incumbem de nos mostrar que, bem, não é assim tão simples: se formos meninas, TEMOS de gostar disso, daquilo ou daquilo outro. Se formos meninos, TEMOS de brincar disso, daquilo, daquilo outro.

Daí que, depois da “guerra da tiara”, fiquei pensando o quanto ainda contribuímos, como pais, querendo ou sem querer, para manter um fosso gigantesco entre meninos e meninas, homens e mulheres. Se, por um lado, as crianças só querem saber de brincar livremente (de coisas “de menino” e de coisas “de menina”), por outro, fazemos questão a todo instante de marcar as diferenças de gênero estabelecidas.

Menino só ganha determinado tipo de brinquedo, só se veste com determinada roupa, só assiste a determinados desenhos e programas, é estimulado a ter determinadas atitudes, tudo para reforçar o que se espera deles: que sejam agressivos, exploradores, cheios de iniciativa, racionais, líderes.

Para as meninas, o contrário: estimula-se a passividade, uma visão “mágica” da vida, o romantismo. E, cada vez mais cedo, cobra-se delas que se preocupem com o que toda mulher tem que se preocupar, afinal: ser bonita, se vestir de forma sexy, atrair o homem certo, porque, sem isso, minha filha, sua vida não tem sentido. O único objetivo de vida de uma mulher é ser escolhida pelo cara certo. Então, mexam-se mocinhas, v’ambora colocar tiara, sapatinho de salto, roupinhas fashion que já evidenciem alguns de seus melhores atributos. Nada de se sujar, de correr e suar, de brincar no chão, de abrir os aparelhos eletrônicos pra ver o que tem dentro. Nada de subir em árvore, de andar de skate, de jogar bola. Nada de usar esses shorts feiosos, camisetas, tênis. Nada de se divertir. A beleza tem seu preço, acostumem-se que só piora (depilação, horas num salão fazendo a unha, cirurgias plásticas para corrigir os defeitos imperdoáveis, lipoaspiração que homem não escolhe as gordas etc etc etc).

É ou não é isso que estamos dizendo para as nossas meninas todos os dias? E parece que estamos fazendo isso cada vez mais cedo. Já vi menininhas que mal sabem andar se equilibrando em sapatinhos de salto. Eu me preocupo muito com isso. Até porque tive a sorte de não viver isso de forma tão explícita na minha infância, o que, julgo eu hoje, depois de seis anos de terapia, me fez um bem danado.

Fui livre, fiz tudo o que quis e, primeira neta/sobrinha do lado da minha mãe, cheguei ocupando espaços tanto nas aspirações femininas (da avó, da tia) quanto nas masculinas (avô, tio).

Ao mesmo tempo em que fazia vários programas “de menina” com a minha avó e minha tia (passeios em shoppings, comprinhas, comidinhas, tricô e crochê -a avó tentou ensinar, eu não aprendi-, vestir as roupas da tia, “roubar” a maquiagem dela, brincar de ser ela, ir ao cinema ver filmes “de menina”), tive uma relação bem mais próxima com meu avô e meu tio do que tiveram outras meninas da minha geração com os respectivos.

Meu avô fazia questão de conversar comigo sobre “coisas de menino”, como esportes (ele era fã de Fórmula 1) e independência financeira. Ele sempre me estimulava a estudar, adorava quando eu contava que estava “indo bem” na escola, incentivava que eu pensasse numa carreira e sempre me dizia que “primeiro tenha uma profissão, sua casa e seu carro. Depois pense em amor”. Prático, mas vamos combinar que são conselhos bem diferentes dos dados geralmente a uma menina. Nunca fui cobrada -nem por ele, nem por ninguém- a ter certas posturas de menina.

Já o meu tio me levava com ele para todos os lugares, inclusive para as quadras de futebol, para dar voltas de moto pela cidade (desde o 4 anos) e para os bares com os amigos (ah, os anos 80!). Foi ele quem me ensinou a dirigir (aos 14 anos, mas não conte para ninguém) e quem me deu de presente, quando eu tinha uns 10, um super mega master blaster carrinho de rolimã, com freios, encosto e carpete.

Então, sem cobranças para ser isso ou aquilo e com passe livre para efetivamente aproveitar a companhia dos familiares queridos, tive o melhor dos “dois” mundos, que, para mim, nunca foram dois, eram sempre o mesmo.

Sou mãe de menino. Sei que as coisas são mais injustas com as meninas, mas digo sem medo que os papéis são limitantes para os mocinhos também. E se Enzo não gostar de carros? E se Enzo quiser cozinhar, gostar de poesia, for mais romântico (não estou querendo dizer o homem que dá flores, essa bobagem, mas aquele que vê a vida sob o prisma das emoções)? E se Enzo curtir brincar de bonecas, cuidar, oferecer carinho? E se ele não se identificar com o estereótipo do “macho alfa”?

Há um tempo, uma colega cujo filho (uns 3 ou 4 anos) gostava de flores, fotografia e culinária, ouviu piadinhas maldosas sobre a sexualidade do garoto na redação da revista em que trabalhávamos. É, na redação, onde, supostamente, somos todos “mente aberta”. Ãhã. Somos sim, viu?

Sinceramente, se Enzo for tudo isso que descrevi, por mim, ótemo! Mas o que quero dizer, usando Enzo como exemplo, é que há inúmeras possibilidades diferentes da hegemônica para os meninos também. Poder tomar a iniciativa e ser mais ativo que passivo, ter uma dose de agressividade é uma coisa ótima, pela qual a gente -gênero feminino-, ainda luta. Mas ser OBRIGADO a fazer isso SEMPRE também não é legal. O machismo vitimiza os homens também.

Tento oferecer múltiplas oportunidades ao Enzo, de carrinhos (embora ele ainda não tenha nenhum com o qual brincar) a bonecas. Outro dia, numa loja de brinquedos educativos, vi um menininho todo feliz brincando com uma cozinha de madeira. Por que não? Se quiser, Enzo vai ter uma. E, para querer, a cozinha tem que ser oferecida a ele como opção.

Sempre me pergunto: será que faço mesmo isso? Que ofereço inúmeras possibilidades? Ou sem perceber limito meu filho e exijo dele que se encaixe em certos padrões sociais? A mãe da tiara tem tanta certeza de que a filha vai se adequar que até já anteviu isso: “quando crescer, você vai gostar”. Nada contra. Mas será que a menina vai gostar mesmo ou terá sido  induzida a gostar por ter aprendido que é assim que “as meninas fazem”?

Será que temos tido consciência do nosso papel na disseminação dos papéis de gênero? É isso mesmo que queremos? Uma filha princesinha e um filho guerreiro? Se for, ok. Mas e se não for e acabar sendo porque nem conseguimos nos questionar a respeito? Somos -todos nós- frutos da sociedade em que vivemos. E essa mãe da tiara -pegando a tiara como exemplo dessa limitação de papéis de gênero- também deve ter sido ensinada a gostar de tiaras. Mas será que precisamos mesmo reproduzir isso ad infinitum?

Veja, não estou dizendo que as mulheres só gostam das tiaras porque foram ensinadas assim. Tem gente que gosta mesmo. Tem mulher que gosta mesmo de ocupar e viver os papéis tradicionais. Tem gente que vive os papéis tradicionais em partes. As coisas não são só brancas e pretas, afinal, há nuances variadas. Mas nem falo disso, pois aí não há problemas.

O problema começa quando pensamos em todas as outras meninas e meninos que, bem, gostariam e poderiam ter ido além disso (sem juízo de valor nesse “além”) e não foram porque menino “é assim”, menina “é assado”.

Minha reflexão é sobre se, quando e como nós, pais, sem perceber, somos os principais responsáveis não por alargar os horizontes dos pequenos, apoiar os filhos e acolhê-los como são; mas por tolhê-los, limitá-los, cobrá-los e exigir deles que sejam algo que não são. Esse não é o tipo de mãe que eu quero ser. O mundo vai dar a “gaiola” para o Enzo. Eu quero dar as asas. Por isso, sinceramente, espero todos os dias refazer e refazer essa reflexão.

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Arquivado em gênero, Maternidade, reflexões

o rei está de cueca!

Apesar de eu ter trabalhado horrores no fim de semana de 19 e 20 de maio -acabo deixando para escrever as matérias quando o Dri está em casa para cuidar do Enzo, pois preciso de bastante concentração na hora de redigir-, consegui dar umas fugidinhas bem bacanas durante a tarde de sábado, 19/5. Embora fizesse um friozinho aqui em SP, estava um sol lindo, céu aberto, delícia de flanar com o bebê por aí.

Descobri que ia rolar uma contação de histórias pertinho de casa e arrisquei ir. Sei que Enzo é bem bebê ainda, que não compreende ainda o conteúdo que está sendo narrado, nem consegue ficar muito tempo prestando atenção na mesma coisa. Mas sei também que compreende a entonação das palavras, que capta a atmosfera festiva, que gosta do contanto com outras pessoas, que tem prazer em ficar perto de outras crianças (ainda que por pouco tempo e no meu colo) e que responde muito bem à música. Não sabia se teria música, mas achei que sim. E fomos lá, Enzo e eu, destemidos, no sling.

Geralmente, quando vou percorrer “longas” distâncias a pé, prefiro levar o bebê no carrinho, pois não aguento muito o peso do pimpolho (11,2 kg!). E dá preguiça, confesso. Mas no sábado, resolvi que a ocasião pedia um corpo-a-corpo com a cria, deu vontade e pronto, fomos slingando juntos até o local da contação.

Chegamos uns 10 minutos atrasados, o que prejudicou um pouco, pois Enzo ficou mais longe do que deveria do casal de contadores. Como a concentração dos bebês nessa idade ainda é bastante fluida, facilitaria um contato mais próximo com a pessoa que fala. Mas, mesmo assim, ele ficou bastante interessado.

Prestou atenção em cada detalhe, na entonação da voz, no jeito de andar e falar da contadora, nas risadas que ela dava, nas pausas, nos objetos que segura e, principalmente, na música. Toda vez em que se tocava o violão ou em que os contadores cantavam alguma coisa, Enzo fixava ainda mais o olhar, parecia se divertir mais.

Claro que o interesse exclusivo pela história teve prazo de validade. Durou uns 20 minutos, tempo de terminar  o primeiro conto. Pouco depois de começar o segundo, uma adaptação do clássico “A Roupa Nova do Imperador“, do Hans Christian Andersen, Enzo resolveu que queria mesmo era descer do colo, andar (se segurando em mim, que ele ainda não anda sozinho), passear por entre as pessoas e, enfim, subir no banquinho e brincar com a fresta entre um pedaço e outro da madeira do banco.

Ele se divertiu à beça, conheceu gente nova (várias mães de crianças e, em especial, uma mãe cujo filho também chama-se Enzo), riu para toda essa gente, subiu no banco, desceu do banco, tirou o tênis várias vezes, sentou, levantou novamente, investigou texturas e formas e, assim que terminou a segunda contação, resolveu que era hora de ir embora.

Saldo muito positivo, na minha avaliação. Primeiro porque acho importante começar a introduzir Enzo em atividades lúdicas, artísticas, sociais. As contações entraram para a nossa agenda semanal. Segundo porque noto, como já disse, que ele adora se relacionar com outras crianças. E levá-lo a ambientes em que haja crianças virou uma prioridade. Terceiro porque confirmei que ele fica muito mais alegre quando faz alguma atividade diferente da cotidiana. O bebê definitivamente não gosta de rotina.

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Nesse fim de semana agora (26 e 27/5), optamos por um passeio ao ar livre no domingo e também foi ótimo. Na noite do sábado, aniversário da minha mãe, fomos com ele a uma pizzaria com playground. Resumo da ópera: passei boa parte do jantar do lado de fora, no parquinho, brincando com Enzo (no colo) ou levando-o para ver as outras crianças brincarem. E foi impressionante ver como ele já entende o que se passa. Ele ficou muito, mas muito atento mesmo às atividades dos meninos maiores. E riu muito, muito mesmo, de todas as traquinagens. Tanto que, quando o parque esvaziou, acabei cedendo e deixando que ele escorregasse no escorregador. Claro, segurando em mim e no pai, nós dois é que fomos “escorregando” Enzo, com toda a segurança. Mas não deu pra não deixar ele ao menos provar o gostinho, depois de ter se divertido tanto assistindo à diversão dos outros.

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E o que tem a ver o título do post com tudo isso? Bem, na adaptação que os contadores fizeram do conto do Andersen, o rei (ou imperador) estava de cueca, não nu. 🙂

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dormir é para os fracos

Daí que a mãe acabou de colocar o bebê no berço. Não é cedo. São mais de 23h, mas o filho dorme tarde mesmo, e os pais meio que agradecem, pois preferem dormir um tantinho “depois da hora” que acordar às 6h, notívagos que sempre foram. Bebê dormindo, quentinho, coberto. Check.

Aí a mãe vai até a cozinha, pega uma maçã, vai pra sala, pega uma revista, aquela que ela comprou no fim de semana anterior, depois de fuçar zentas bancas de jornal e não achar, aquela que ela estava louca pra ler; senta, estica as pernas no sofá e, finalmente, abre o periódico. Uma lida aqui, uma mordida ali, maçã acaba, são 23h30, marido lembra que é bom aproveitar pra descansar enquanto a cria dorme, mãe avalia que marido está certo, faz mais de 15 dias que ambos não descansam direito, pois filho resolveu acordar de hora em hora de novo (coisa que não fazia desde mês e meio).

Mãe levanta, escova os dentes, põe pijamas e, quase se deitando, lembra que esqueceu de trocar a água da Jóh, a gata. Volta pra cozinha, lava o potinho, seca, coloca água fresca, pega a bichana no colo, leva pra cama, deitam ambas.

1, 2, 3, 4, 5, 6 e…Enzo acorda! Nem 40 minutos depois de adormecer, cansadíssimo. #comassim? Mãe, incrédula, levanta. Mãe, irritadíssima, levanta. Mãe, com sono, levanta. E respira fundo antes de entrar no quarto. E, quando vê o filho todo fofo, em pé no berço, coçando os olhos e rindo pra ela, dá um sorriso sincero misturado a um suspiro igualmente sincero e aprende uma nova acepção para a palavra “contradição”.

Toca mãe e filho irem pra sala. No colo, bebê apoia o rostinho nos ombros da mãe, fecha os olhos. “Oba, acho que foi alarme falso, ele vai voltar a dormir, só queria ser ninado”, pensa a mãe, cheia de culpa e remorso por ter ficado tão irritada. E aí, entre um beijinho e outro nos cabelos cheirosos do rebento (todo bebê é assim tão cheiroso ou isso é coisa de mãe hormonalmente descompensada?), mãe cumpre à risca todas as orientações para fazer-cria-dormir-no-meio-da-madrugada: Não acende luz nenhuma. Caminha de um lado pro outro, corredor afora, corredor adentro, vai-e-volta na mais absoluta escuridão. Não abre nem a cortina da sala, que é pra não deixar a claridade da rua entrar pela janela e colocar a perder o sono do pequeno.

Anda compassadamente, igual tartaruga. Passinhos curtos, ritmados, bem vagarosos, sabe como? E ainda via jogando o corpo levemente de um lado pro outro, dando aquela gingada de nana-nenê. Não abre a boca, não fala nada, só sussurra canções de ninar. Não dá muito certo, pois o filho, curioso, quer saber de onde vem o som sussurrado.  Como está enxergando neca naquele escuro todo, começa a procurar a boca da mãe com as mãozinhas, se agita, desencosta a cabecinha e…NÃO!… começa a falar.

Opa, opa, opa, sinal de alerta. Mãe se cala de vez, esquece a canção de ninar, abaixa de leve a cabecinha do filho até encostar no ombro materno de novo e se concentra só nos passinhos ritmados. Vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta, vai-e-volta… Ok, deu pra entender, né? Vai-e-volta no repeat por, sei lá, 30 minutos.

Nesse meio tempo, bebê levanta e abaixa a cabecinha do ombro da mãe várias vezes, balbucia alguma coisa, recosta novamente, num exercício constante de dar esperanças à mãe sonada e tirá-las sem dó nem piedade. O fato é que a mãe é otimista incorrigível -ou está precisando desesperadamente de cama- para ainda acreditar que, àquela altura, o filho vai voltar a dormir rapidinho. Se fosse, já teria dormido, o que não é o caso.

Mãe tenta voltar a cantar baixinho. E aí o sono do bebê some de vez. Animado (ainda que a mãe esteja cantarolando canções de ninar que derrubariam qualquer brutamontes), bebê recomeça a balbuciar, só que dessa vez em alto e bom som, dirigindo-se aos quadros, móveis e objetos que ele encontra pelo caminho e consegue reconhecer na penumbra.

-Abufff….guuuu…éééééé…pápápápápápápápá.

Putz, pensa a mãe, “abuf” e “pápápá” ele só fala quando está ligado no 220.

Conformada, ela acende uma luz fraquinha no canto da sala, senta-se com o filho no chão, espalha os brinquedos e se rende à realidade: a cria despertou e quer fazer bagunça na madrugada, de novo. Entre bocejos, “pescadas” discretas e tentativas aguerridas de se manter desperta (o que não parece ser dificuldade alguma para o filho), mãe participa dos exercícios bebezísticos da cria insone.

Bebê sobe no sofá, pega brinquedo, caminha até a braceta da direita, joga o objeto lá de cima, olha para a mãe, espera a mãe pegar, joga de novo, olha para a mãe, espera a mãe pegar, segura o brinquedo, olha, analisa, morde, vira-se para o outro lado, anda até o braço esquerdo do sofá, joga brinquedo lá de cima, olha para a mãe, espera a mãe pegar, segura o brinquedo, joga longe, vê outro brinquedo no chão, pede para descer, caminha (com ajuda da mãe) até o novo objeto, senta, pega, chacoalha, olha, ameaça por na boca, “não põe na boca, filho!” três vezes, chora, engatinha um pouco para a esquerda, levanta apoiando-se na estante, caminha uns passos, quase cai, ri para a mãe que o segura, caminha até o fim do corredor três vezes, soltando uns gritinhos de emoção, senta de novo, pega outro brinquedo, solta uns abuuuufff, ri de si mesmo, engatinha correndo atrás da gata, chama a mãe para ajudá-lo a voltar andando, volta até o sofá, resolve subir. E…

…tudo de novo em looping, ou seja, por duas horas no repeat. Sem descanso, sem bocejo, sem quase nem piscar de olhos da cria. Quando finalmente vislumbra um coçar de olhos, uma piscadela mais demorada e um abrir de boca sinalizando que o soninho está querendo aportar, mãe pega o filho no colo, às pressas, e começa a chacoalhar.

Bebê reclama, ainda não era hora, mãe! Mãe devolve bebê no chão; ele sobe no sofá, pega brinquedo, caminha até a braceta da direita, joga o objeto lá de cima, olha para a mãe e…mais meia hora de exercícios bebezísticos. Até que filho dá outro bocejo, outro piscar demorado, outra coçadela no olho. E começa um chorinho irritado.

Achando que só vai dormir no dia seguinte (tecnicamente já é dia seguinte, mas para a mãe só é dia seguinte quando amanhece, herança dos tempos baladeiros), mãe pega a cria só para acalmar o filho. Inicia um chacoalhar suave, sussurrando de novo a música de ninar preferida do pequeno. Em 3, 2, 1-surpresa total- bebê adormece, suspira profundamente, daquele jeito gostoso que só os bebês conseguem suspirar.

Mãe sorri num misto de “ai que gracinha” com “ainda bem que ele dormiu, meodeos”. Caminha até o quarto quase em respirar, coloca filho no berço e vai saindo bem devagar.

Ufa, pensa, agora finalmente vou poder dormir, descansar, fechar os olhos, relaxar. Cava um espaço embaixo do edredom, felinamente ocupado pela gata e pelo marido, se arruma, puxa a blusa do pijama, que enrolou, apoia uma perna sobre a outra (está virada para o lado direito), coloca o travesseiro na posição ideal, encaixa melhor na curvinha no pescoço, respira fundo e fecha os olhos.

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9….Não está bom. Vira de barriga pra cima, ajeita os pés, desenrola o pijama que dessa vez tinha ficado preso nas costas, arruma novamente o travesseiro, puxa o edredom mais para perto do queixo, que está frio, procura, com o pé, o pé do marido, encosta a mão na mão do marido, fecha os olhos, respira fundo.

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9….Não está bom. Vira para o lado esquerdo, apoia uma perna sobre a outra, coça as costas, coça a orelha, dá uma viradinha a mais para acomodar melhor os ombros, afofa o travesseiro, afunda a cabeça nele, desafunda, pois ficou sem ar, estica um braço, desdobra uma perna, coça a cabeça, fecha os olhos, respira fundo.

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9….Não está bom.

Mãe, irritadíssima, levanta. Perdeu o sono.

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