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o tapinha não só dói como se reproduz

decur

Algumas considerações minhas sobre a aprovação da “Lei da Palmada”:

1) Não há interferência indevida do Estado na vida familiar, privada, particular. O Estado tem o dever de proteger a vida das pessoas e é precisamente isso que está fazendo agora. O corpo do outro é do outro, não pertence a ninguém além do outro. Não é porque o outro calhou de ser seu filho que o corpo dele virou “privado”. O corpo de uma pessoa é inviolável; ninguém pode bater em ninguém. Ninguém pode bater em criança; criança também é alguém, seu corpo também é inviolável. Óbvio. Seja um “tapinha”, um soco, um chute, um tacape na cabeça.

2) O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) já previa proteção para casos mais graves de agressão física. Mas não dizia nada sobre o famigerado “tapinha educativo”. A mudança que a “Lei da Palmada” realiza é justamente nesse ponto. Dá nome certo à violência do tapa na cara, do beliscão, do grito, da humilhação: violência e ponto. Mas, ao contrário do que muita gente tem dito, uma mãe que deu uma “palmada” no filho não será presa. A ideia da lei não é mandar pais e mães pra cadeia, minha gente (apesar do raciocínio binário de muitos pais violentos não dar conta de uma ação educativa que não seja punitiva). Nomeando a violência e a inscrevendo no ECA, na lei, o objetivo é conscientizar os pais que ainda não entenderam que há formas não-violentas de educar e que são essas as que melhor criam condições para uma sociedade mais justa e menos violenta (que, em tese, todos queremos). Melhor dizendo:

3)  há formas não-violentas de educar. “Tapinha educativo” não ensina absolutamente nada, exceto se o cuidador em questão quiser ensinar violência (praticar ou submeter-se a). Um exemplo bem basiquinho: imagine que tem lá uma criança fazendo qualquer coisa que o cuidador considere errada. Daí o cuidador dá uns gritos, lá de longe, mandando a criança parar. Como o poder é impotente, e a criança é potência pura, a criança OBVIAMENTE não para. Aí o cuidador vai lá e dá um tapa na criança. Vamos considerar que se pretendesse evitar que a criança se machucasse. Com o tapa, será que a criança aprendeu que o comportamento mais seguro seria não mexer naquele determinado objeto? Não, né? Porque tudo o que o adulto fez para ajudar a criança a compreender o perigo ou os limites seguros para se agir foi… nada!

4) Ainda que “tapinha” fosse mesmo educativo, que “funcionasse” instrumentalmente em algum nível, há coisas que não se faz por princípio, sabe? Porque a gente se pretende civilizados, inteligentes. A gente se pretende de alguma forma uma sociedade que usa razão, empatia, que convive e que abre mão conscientemente do uso da violência em função de uma convivência baseada em sentimentos mais “elevados” ou, dito de outra forma, com menos potencial lesivo. É como a tortura, entende?; ainda que “funcione” (e nem estou dizendo que funciona), não dá pra apoiar, aceitar, legitimar. Bater em criança está fora de questão.

5) Violência é SEMPRE, SEMPRE, SEMPRE a perda de controle de quem violenta. Não é nada além disso. Não é educação, não é amor, não é nada. É só perda de controle. É só o uso de vantagens física e emocional, relativas ao poder, para controlar o comportamento de alguém pelo medo e pela dor ao invés de o indivíduo que violenta sentir ele próprio a dor que lhe compete. O comportamento do outro gera no sujeito agressivo uma sensação que ele não suporta. Não suportando, ele vai lá e agride. Perda de controle sobre si mesmo.

6) A responsabilidade pelo que se sente é sempre de quem sente. O que significa dizer que se a mãe se encoleriza com um comportamento do filho, a responsabilidade pela cólera é absolutamente da mãe. JAMAIS do filho. A mãe tem de olhar pra si mesma e entender as razões pelas quais sente-se dessa forma. Educar, colocar limites, enfrentar conflitos e lidar com as diversas demandas dos filhos não deveria causar raiva. Se causa, tem alguma coisa erra aí –com o cuidador– que precisa ser investigada –pelo cuidador. Bater no filho pra passar a raiva não vai resolver nada (além de ser uma covardia em muitos aspectos).

7) Violência gera violência. A absoluta falta de destreza para lidar com as próprias emoções a ponto de agredir alguém é algo que se aprende. Se aprende ao levar um tabefe. Se aprende ao ser humilhado. Se aprende ao ter a autoestima destroçada por pais violentos.

8) Adultos que defendem a palmada porque “apanharam e estão bem/sobreviveram/são educados etc (fill the blanks)”, poderiam refletir sobre a Síndrome de Estocolmo e sobre a adolescência, também conhecida como aquela fase da vida em que a gente começa a descobrir os próprios valores, interiorizar-se e aceitar que os pais não são perfeitos. É quando a gente amadurece o suficiente para aceitar que, mesmo amando os pais, mesmo valorizando tudo o que fizeram pela gente, eles erraram feio, erram feio e a gente não precisa fazer a mesma coisa, se essa coisa não serve mais. É preciso uma boa dose de maturidade para cortar esse cordão umbilical sutil com os pais e seguir a vida autônoma, sem dependências e sem demonização.

9) Adultos bacanas que apanharam não são bacanas porque apanharam, mas APESAR de terem apanhado.

10) Para aqueles que ainda não conhecem formas de realmente educar seus filhos sem o que o senso comum oferece como alternativa (agressões, ameaças, supernanny e castigos), mas se interessam por uma relação mais autêntica e respeitosa com os filhos, recomendo algumas leituras, começando por:

a) essa seleção aí abaixo de textos das cientistas Lígia Moreiras Sena e Andréia C. K. Mortensen (uma das administradoras da ótima comunidade Crescer sem violência):

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2013/02/educacao-sem-violencia-porque-bater-nao.html

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2012/11/postagem-coletiva-19-de-novembro-dia.html

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2013/04/como-o-mau-jornalismo-incentiva.html

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2014/03/dos-direitos-radicais-das-criancas.html

O blog da Lígia, o “Cientista que virou mãe“, aliás, é todo ele altamente recomendável. Lígia e Andréia acabaram de lançar um livro justamente sobre como –e por que– educar sem palmadas.

b) o blog “Conexão Pais e Filhos“, do Marcelo Michelsohn, é basicamente um amontoado de exemplos de educação ativa e da educação pela conexão, ambas correntes absolutamente não-violentas. E absolutamente eficazes (sou testemunha, sou aluna do Michelsohn, sou leitora de Rebeca Wild, da educação ativa, e de Patty Wipfler, da educação pela conexão). Aqui um post dele essencial sobre o tema. Mas todos são ótimos, pois ajudam a entender a educação sob outro prisma, que não o da dominação-poder-controle. Michelsohn dá aulas sobre conexão entre pais e filhos. Haverá novas turmas, basta dar uma olhada no blog dele.

c) falando em Patty Wipfler, ela coordena uma instituição nos EUA, a Hand in Hand Parenting, que dissemina muita informação sobre educação pela conexão, educação respeitosa e não violenta. Os cursos e livros são, naturalmente, pagos. Mas há conteúdo grátis para se ter uma ideia do tipo de perspectiva educativa.

d) outro ótimo blog para se entender a natureza das crianças e das relações saudáveis que podemos estabelecer com elas –e que também dá muitas ideias e subsídio para quem assume uma educação não-violenta– é este aqui, o “Lar Montessori”, escrito por Gabriel Salomão, professor montessoriano e ex-aluno de colégio que aplicava o método desenvolvido pela médica italiana Maria Montessori. Aqui também a “palmada” é cientificamente rechaçada. Montessori, há quase 100 anos, já sabia que, além de eticamente questionável, bater é ineficaz.

e) há também a criação por apego, que prega respeito na relação com o filho, inclusive na hora de se colocar limites. Aqui um blog ótimo, do Thiago Queiroz, o Paizinho, Vírgula!, sobre o tema.

f) além dos blogs, há os livros. Sim, educar dá trabalho e exige empenho, aprendizado, entrega, como tudo o que realmente vale a pena nessa vida. Eu começaria (como de fato comecei) pelo “Besame Mucho“, do Carlos González. Tem o “Unconditional Parenting“, do Alfie Kohn. E “Etapas del Desarrollo“, da Rebeca Wild. Recomendo “A maternidade e o encontro com a própria sombra” e “O poder do discurso materno“, ambos da Laura Gutman. E ainda “Mente Absorvente” e “A Criança“, da Montessori, além do já citado “Educar sem violência“, da Lígia e da Andréia.

g) finalmente, mas não menos importante: vídeos da Ana Thomaz acho essenciais nessa jornada. Já cansei de recomendá-los aqui. Mas valem cada segundo. Começaria por esse aqui, depois iria pra esse e pra esse outro aqui.

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PS: leia também a “Lei da Palmada”. Aqui ó.

PS2:  Para quem diz que “quem cuida do meu filho sou eu”, seguinte: ok, cuidar você pode. Melhor: cuidar você deve. O que não pode é bater. Entendeu?

Se violência é educação, posso bater em você também? Porque, segundo meus parâmetros, pai que bate em criança precisa aprender muita coisa.

PS3: a imagem lindíssima que ilustra/complementa o post é do artista e ilustrador argentino Guillermo Decurgez, o Decur. Ele tem um perfil artístico no feissy, este blog e uma loja bacana no Etsy.

 

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os castigos são inúteis

Carlos Gonzalez é daqueles que quanto mais leio (e leio tudo dele que me cai em mãos), mais admiro. É uma gratidão profunda o que sinto por esse homem. Ele –ao lado de hoje amigas queridas da blogosfera, como Mari Sá— é dos grandes responsáveis pela mudança de perspectiva em relação à maternidade e educação que vivi nos primeiros meses de filho extra-útero. Tudo o que penso hoje sobre educação e maternagem diverge radicalmente do senso comum de antes; graças a Gonzalez e sua turma, me permiti pensar e refletir sobre meu papel como mãe, ao invés de apenas ressoar e repetir o que todo mundo diz que se tem que.

Hoje circulou no feissy mais uma entrevista do Gonzalez. É uma entrevista que nem explora tanto assim as (boas) ideias do pediatra catalão. Mas, apesar disso,  vale muito a pena. Tanto que compartilhei por lá e resolvi fazer o mesmo por aqui.

Antes de ir lá no jornal português “Observador” ler a entrevista na íntegra, dá cá só uma olhada nesses trechos: 

Sobre castigos:
Os castigos são inúteis, tanto para as crianças como para os adultos. É claro que é preciso impor limites aos mais novos. Todos os pais o fazem. O que digo é que os limites lógicos e razoáveis são impostos pelos pais sem que ninguém diga nada. Não deixamos os nossos filhos brincar com o fogo ou com facas. Rejeito os limites que não considero lógicos ou razoáveis, que não se colocam por necessidade ou para evitar quaisquer danos, mas que apenas servem para demonstrar “aqui sou eu que mando”.

Sobre crianças “desobedientes” e “manipuladoras”:
O que fazemos com os maridos ou esposas que são desobedientes ou manipuladores? Com os namorados, amigos, parentes ou empregados? Será que os adultos nunca fazem nada de mal? Claro que sim, mas não os punimos (a não ser que cometam um delito que apenas os juízes podem punir). Eu não castigo a minha esposa ou os meus amigos, vizinhos, taxistas… Como médico não castigo os meus pacientes nem a minha enfermeira. Porquê castigar apenas os meus filhos? Que terão feito eles de tão terrível para merecerem um castigo? É absurdo. É curioso que se fale de crianças “manipuladoras” quando estamos precisamente a falar de colocar regras e limites a crianças. Isto é, para manipular. Nós manipulamos as nossas crianças, compramos livros que explicam como fazê-lo… e os “manipuladores” são eles?

Sobre autocontrole e disciplina
Autocontrolo ensina-se com o exemplo. Eu não bato nos meus filhos porque tenho disciplina, autocontrolo. Não digo ao meu filho para se calar porque não me deixa ouvir televisão, ao invés desligo o televisor para ouvi-lo melhor. Isso é a disciplina.

Sobre respeito e palmadas
As crianças não são adultas, mas são parecidas. E, em todo o caso, precisam de mais respeito do que os adultos, porque são mais frágeis. Precisam de ser mais toleradas porque são inexperientes e ignorantes, podem cometer erros. Muitas vezes castigamos ou repreendemos as crianças por coisas que nunca puniríamos num adulto. Se vejo a minha esposa ou um amigo a chorar, pergunto o que se passa e tento consolá-los. Para os meus filhos é igual. Se estou a comer com um amigo e vejo que este deixa metade da comida no prato, não o obrigo a acabar tudo. Com os meus filhos também não faço isso. Jamais bateria na minha mulher, no meu pai ou em companheiros de trabalho. Muito menos nos meus filhos.

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Muito o que refletir, não?

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conversa comigo, mamãe

Daí que o pequeno tem ficado meio irritado com a presença da minha mãe, mesmo nas poucas vezes em que encontramos com ela. Hoje à tarde, por exemplo, tomando um café, deu pitis homéricos por motivos que normalmente não o tirariam do sério daquele jeito. Comecei a reparar, não só de hoje, que ele parecia ficar incomodado com a atenção que eu dava às outras pessoas. Um indício: hoje, num dos momentos mais tensos, quando ele estava se acalmando, retomei assunto que tinha interrompido com minha mãe; imediatamente ele começou a chorar de novo e me disse: “não conversa com a vovó, conversa com o Enzo, mamãe!”

Resolvi falar com ele sobre isso. À noite, em casa, depois do banho, estávamos deitados no sofá brincando e vendo um dos desenhos prediletos dele, só esperando a hora de tomar o leitinho e ir pra cama. Achei um bom momento e comecei o diálogo:

–Por que você não gostou quando a mamãe conversou com a vovó à tarde?

–Porque é ruim.

–E por que é ruim?

–Por que não é bom.

{Ah, a simplicidade e a lógica das crianças… Fofo!}

—E por que não é bom?

–Porque Enzo sente falta.

–De quê? De conversar com a mamãe?, “chutei”.

–É, de conversar com a mamãe.

Pronto. Chegamos ao que realmente estava incomodando. Não era a colher de plástico que quebrou ou o suco que ele queria/não queria tomar. A “birra” não era nem com a avó. Enzo não estava fazendo “manha” (como muitos me disseram). Estava, na verdade, ressentindo a perda da atenção. Estava avisando, a seu modo, que sentia-se excluído naquele grupo que se formou, em que muitos adultos falavam, por muito tempo, coisas de adultos sem inclui-lo na conversa.

{Natural, não? Se alguns amigos se reúnem e a conversa fica restrita a apenas parte deles, os excluídos se ressentem. Em geral, com adultos, tentamos nem deixar as coisas chegarem a esse ponto. Já com as crianças… E depois ainda dizemos que elas é que são “não-civilizadas” por gritar no meio de um restaurante, por chorar “à toa”. Depois ainda brigamos com elas porque choram, gritam, esperneiam sobre a nossa óbvia falta de educação e civilidade.}

Sigo cada vez mais convencida de que manha não existe. O que existe são crianças aprendendo a lidar com sentimentos fortes e contraditórios, aprendendo a conviver com eles, aprendendo a expressá-los. E o que existe são adultos dispostos a ajudar ou a atrapalhar os pequenos nessa jornada.

Pedi desculpas ao Enzo pelo meu descuido, prometi que vou procurar não fazer mais isso, expliquei a ele que vejo pouco a vovó e que, quando isso acontece, são tantos assuntos pra por em dia que realmente falamos muito; reforcei, com ênfase, que gosto de conversar com ele e da companhia dele.

Ele sorriu, me abraçou, repetiu parte do que expliquei (como sempre faz), pulou no colo do papai, agradou a gata e pediu tetê “puquê Enzo qué dumi”.

Silenciosamente, agradeci meu filho pela paciência e por nunca desistir de me ensinar coisas, de me querer, de me chamar, de me mostrar o que significa respeito. Agradeci também Carlos González por ter me ensinado que uma criança merece tanto respeito quanto um adulto e muito mais cuidado do que um (óbvio, não?). E ainda a Laura Gutman porque foi ela que me mostrou que é preciso conversar com as crianças, sinceramente e sempre, não importa quantos anos elas tenham. Sempre vão entender um coração sincero, uma conversa sincera e sempre se farão entender se o ouvinte também tiver um coração aberto a isso.

As crianças são geniais!

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“vai ser cada vez mais interessante viver neste planeta”

“Conheci” a Laura Uplinger no trailer do documentário “O Renascimento do Parto“. Mas ainda não sabia bem quem era. Pesquisei um pouco mais depois de receber uma indicação de uma amiga. Cheguei à página dela e me encantei com o trabalho que desenvolve e com as reflexões que propõe.

Daí achei esse vídeo –que é só um trailer– e resolvi compartilhar:

Resolvi compartilhar porque me provocou muitas reflexões e trouxe uma série de informações novas. E também porque deu uma acordada em ideias que estavam meio adormecidas por aqui, desde os tempos em que li González e Gutman pela primeira vez.

Faz tempo que tenho pensado sobre o tipo de sociedade que somos, especialmente no que diz respeito à acolhida (ou não) que damos à infância, reflexão constante da Uplinger. Do parto cesáreo agendado às escolinhas, babás, mil e tantas aulas, mil e tantos compromissos. Se não respeitamos nem o tempo das crianças, pra mim é óbvio que não as respeitamos como crianças.

No vídeo, Laura diz uma coisa que eu não tinha percebido: desde muito tempo, sempre que uma mulher teve dinheiro, delegou a terceiros os cuidados com os filhos. Mas isso está mudando, e talvez sejamos a primeira geração de mães para quem a maternidade ganhou a importância que realmente merece. Como já me disse uma vez a Mari Zanotto, não há nada mais político nessa vida que educar cria. E é disso que se trata esse vídeo da Laura. Vale a pena.

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dos limites e do ócio

Discordo bastante do senso comum sobre limites. Não acho que o principal problema das crianças seja falta de limites. Ao contrário, a vida delas já é bastante limitada, bem mais do que foi na minha geração. O que falta, na verdade, é tempo (com os pais, para o ócio, para não fazer nada, para fazer de tudo um pouco, para brincar, para errar…) e espaço (físico-literal, mas também figurado. Não há espaço para a infância, que é experimental e errante por natureza, numa sociedade em que, de repente, tudo é “orientado para resultados”).

Daí que venho pensando bastante nisso e, hoje, boa surpresa, encontro esse texto aqui no MMqD. Direto ao ponto, bota os pingos nos “is”. Estamos criando pessoas ou um exército de futuros yuppies que vão falar 15 línguas, ter experiências internacionais, MBAs, conhecimento sobre vinho e gastronomia nanomolecular e, paradoxalmente, não farão a mínima ideia de quem são?

Recomendo a leitura.

E, aproveitando, vale ver esse vídeo aqui, do sempre ótimo Carlos González. Com muito bom humor, tiradas irônicas e algum deboche, ele fala o que precisa ser dito sobre limites. Está em espanhol, infelizmente sem legendas. Mas, no geral, dá pra entender bem. E vale a pena.

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“Tila Mozae. Põe Macucô”

Domingo, 20h41, trabalhando, ouvindo “I will“, saudade louca do blog bate, resolvo passar por aqui. Me surpreendo: faz quase dois meses que não posto NADA. Céos! E –ironia– justamente num período em que tem tanta coisa rolando por aqui.  Enzo se desenvolve tão rapidamente que, a cada dia, parece que o pai e eu deixamos escapar algum detalhe. “Onde foi mesmo que ele aprendeu isso?” tem sido uma das perguntas mais comuns por aqui.

Ele já fala bem (muito bem) para a idade –e para o pouco tempo desde que se atreveu a soltar as primeiras palavras. Forma frases, dá ordens (“senta, mamãe!”;  “pá lá, papai!”), nomeia o mundo ao seu redor com desenvoltura, paixão e orgulho. Tudo precisa receber um nome agora, de modo que ele passa boa parte do dia apontando para as coisas e repetindo os substantivos relativos a elas. Ou então contando e recontando façanhas dele ou nossas (“bô veja mamãe” sobre quando eu quebrei um copo com cerveja na semana passada; ou “tem agá Queissê”, sobre quando ele achou um copo com água no quarto da “tia” Clarisse, a mulher do meu irmão).

Canta o dia inteiro, um pouco de tudo. Músicas que existem (“cá cá, baion; cá cá, baion”) e outras que ele mesmo inventa (letra, música, harmonia).

Pergunta todos os dias das pessoas e coisas mais queridas, uma atrás da outra: papai? tu Já (tio Zé, meu irmão)?, Noná (minha sogra)? ti Di (tio Diego, amigão aqui de casa), vovô (meu pai)? vovó (minha mãe)?, Queissê? Totó (o cachorro de pelúcia)? Jojó (a gata)? Loló (Léo, o leão de pelúcia)? No looping.

E aí agora deu pra perguntar, de todas essas pessoas, quem tem pipi. Pois é. Cá estou eu explicando diariamente a um bebê:  não, mamãe não tem pipi. Papai tem, tu Já tem, vovó não tem, nem a Queissê… Quer saber? Adouuuuro e dou muita risada com a curiosidade infinita e as tiradas espirituosas.

Ganhou CDs novos e já sabe quem é Mozart, que ele chama de Mozae. “Tila Mozae. Põe macucô”, me pedea quando cansa de ouvir o austríaco e prefere voltar ao bom e velho “Na Casa da Ruth” (projeto bacaníssimo: músicas de Hélio Ziskind sobre poesias de Ruth Rocha, cantadas por Fortuna e pelo Coral Infantil do Sesc Vila Mariana). “Macucô” é como ele chama “macaco”, e refere-se à primeiro faixa do álbum, chamada “Lá vem a macacada”.

Já são 21h. Uma olhada rápida no relógio do note me lembra de que preciso voltar ao trabalho remunerado, que paga as contas aqui de casa e que, no fim das contas (com o perdão da repetição) também é fonte de prazer pra mim. Vou nessa, mas não sem lamentar. Tanta coisa para contar a registrar e eu aqui, ocupada, sem tempo.

Estou terminando vários posts sobre nossa pequena epopeia familiar-educacional, que culminou comigo e com o Dri tirando Enzo da escolinha –aliviados, felizes– depois de apenas três dias. Prometo que conto tudinho, desde a visita às escolas até as razões pelas quais decidimos desescolarizar o pequeno por enquanto.

Enquanto isso, compartilho esse vídeo ótimo do Carlos González (adouuuuuro) falando justamente sobre escolarização de crianças muito pequenas (“A escola infantil não é necessária para as crianças”, dispara ele, logo de cara. González, já disse que te amo?!?). Já deixo, assim, uma pista do que nos levou a optar por adiar a entrada do Enzo no mundo educacional. González fala em catalão, mas as legendas estão em espanhol. Não é ideal, mas não encontrei em português. Dá para entender e vale muito a pena, garanto.

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