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a nuvem cheia de água

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Ontem choveu. Na virada de 2014 para 2015, também. Muito. A ponto de passarmos quatro dias sem energia elétrica, às vésperas da festa de 31/1º. A “responsável” pela pane, segundo informações oficiais da companhia de distribuição de energia que atende meu bairro, foi a queda de uma árvore na rua de trás.

Responsável ou não, o fato é que a árvore caiu mesmo, logo no primeiro dia de temporal, talvez atingida por um raio ou derrubada pelas rajadas de vento. Junto com ela, só aqui pelas imediações, foram ao chão mais outras 10.

Filho, na época, ficou muito impressionado. Não apenas pelos muitos dias sem energia elétrica, mas principalmente pelas árvores gigantescas tombadas no meio das ruas. A maior delas caiu justamente na rua onde moram meus pais, paralela à nossa.

Voltando a ontem: fomos jantar com meus pais, na rua de trás, debaixo de chuva. Calhou de estacionarmos o carro bem em frente do que sobrou da árvore derrubada no final/começo do ano, da qual filho não se esquece. O que, naturalmente, não passou despercebido pelo pequeno.

–Mamãe, foi essa árvore que caiu naquele dia, né?

–Foi, sim, filho.

–Mamãe, será que vai cair mais dela hoje?

–Acho que não. A chuva de hoje está fraquinha.

–Mamãe, só chuvas fortes derrubam coisas?

Abri a boca para responder, mas parei. Parei porque me lembrei de que não quero dar todas as respostas. Não tenho todas as respostas. Não preciso ter todas as respostas. Meu filho não merece ser limitado por todas as respostas. Maternidade é sobre dar asas, não sobre fechar em gaiolas. Maternidade é sobre ajudar a descobrir o que os olhos do outro querem enxergar, não é sobre emprestar meu olhos para o filho ver o que melhor me apetecer. Maternidade é sobre poesia, sobre lirismo; não é sobre livro técnico nem sobre acúmulo de conhecimento racional. Maternidade é sobre sentir, não é sobre saber.

–O que você acha?

–Acho que precisa pesar a água na árvore pra derrubar.

–Hum, acho que sim.

–Mamãe, quando choveu aqui naquele dia, choveu em todos os lugares do mundo, até em outros países? Quando chove aqui, chove em todos os lugares do mundo ao mesmo tempo?

–O que você acha?

–Acho que não, mamãe. Acho que só chove no que está embaixo da nuvem cheia de água.

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(*) Daqui ó.

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o choro e a chuva

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–Não, mamãe, ele não chorou porque já é adulto, e adultos não choram.

–Por que você acha isso?

–Porque adultos já aprenderam que, se não der pra fazer, têm que tentar fazer de novo até acertar.

–Bom, adultos talvez não fiquem frustrados por não conseguir destampar um pote, mas ficam por outros motivos. Se para criança abir uma tampa é difícil, para um adulto pode ser igualmente difícil realizar um trabalho, por exemplo. E aí adultos choram.

–Mas adultos já sabem. Não precisam chorar. Só bebês e crianças choram. Porque eles não sabem.

–Adultos não sabem tudo. E choram muito também.

–Não choram nada. Porque eu não quero que os adultos chorem.

–Você ficaria com medo se eles chorassem? Se sentiria assustado? Desprotegido?

–Com medo. “Despotregido”.

–Você acha que chorar é uma coisa feia ou errada? Ou que quem chora é frágil? Que adultos que choram não podem te proteger?

–Não sei. As mães às vezes falam que a gente não pode chorar. Não querem que a gente chore.

{Eu, a mãe em questão, quase choro, ali, bem na frente dele, bem na hora}

–É que os adultos –e as mães– erram, filho. Erram muito, erram feio. E falam muita bobagem, como isso.

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Peguei ele no colo, coloquei bem do meu lado na cama, olhei bem nos seus olhinhos brilhantes e confusos. Ficamos um bom tempo assim, só eu e ele. E então foi que pensei na chuva. E no choro. No choro como chuva, como uma descarga elétrica emocional tão necessária para aliviar nossos sentires quanto a chuva o é pra água aliviar-se cá pra baixo.

–Sabe quando a nuvem fica cinza escura e você diz que está cheia de chuva?

–Ã-hã.

–O que acontece quando a nuvem está bem bem bem cinza e bem bem pesada?

–Chove.

–Chove o quê?

–Água, ué.

–É igual o choro.

Ele me olhou e sorriu, interessado. Curioso.

–Quando você está triste ou frustrado ou com raiva, você se sente mal?

–Ã-hã.

–Parece que tem assim uma coisa meio desconfortável crescendo bem no meio da sua barriga?

–Parece. Eu sinto mal.

–Essa coisa é como se fosse uma nuvem, que vai enchendo, enchendo, enchendo dessas sensações até ficar cinza bem escuro, como a nuvem. Aí precisa chover. E aí você chove.

–Aí eu choro?

–Isso, querido, aí você chora. Quando a nuvem estiver cinza, chore.

Ele sorriu, pediu pra dormir abraçadinho e dormiu.

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E eu perdi o sono. Quando é que passamos a ser tão babacas? Quando é que passamos, assim, definitivamente, a não acolher mais nada nem ninguém? A ignorar o que há de mais puro, mais belo e mais genuíno? Quando é que passamos a tirar dos filhos o direito de chorar –e não apenas de expressar emoções, mas principalmente de extravasar esses sentimentos? São cri-an-ças. Crianças lidando com um mundão de sensações novas e assustadoras. E não podem sequer chorar. Por que nós, os “adultos” supostamente maduros, não aguentamos um pitizinho. Ta-que-pa-riu!

Choram porque não abriram sozinhas a tampa da tinta guache. Sim! Com todo o direito e toda a razão do mundo. Porque é foda ser criança, ser pequeno, sentir-se indefeso e dependente e não conseguir sequer destarrachar uma porra duma tampinha ridícula. São crianças, mas não idiotas. Sabem-se crianças. Sabem-se limitados pacas em muitas coisas que gostariam de fazer. E foda-se que temos pressa e achamos que chorar pela tampa não-aberta é frescura. Frescura é a nossa, que reclamamos –como o bando de adultos mimados que na verdade somos– por ter de lidar com o sentimento de frustração tão genuíno quando, do alto da nossa “importância”, sequer conseguimos ser empáticos com a dificuldade sincera dos nossos filhos.

Pior que não abrir uma tampinha de guache sozinho –coisa pra qual uma criança pequena realmente ainda não tem força e habilidade suficientes– é essa sensação de ter força e habilidade, mas mesmo assim não fazer. Por cegueira. Por preguiça. Por adultismo.

Quanto de abandono e repressão ainda seremos capazes de impor? Quão babacas ainda seremos? Por quanto tempo? Quanto choro nosso foi brutalmente reprimido quando éramos crianças? Quando finalmente cresceremos e nos tornaremos adultos a ponto de acolher as crianças –as que fomos, as que somos e as que geramos?

Vou lá ver a lua –dizem que está linda– que aqui dentro agora chove um bocado.

(*) “Rain”, de Dario Moschetta, veio daqui.

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perguntas e respostas

"Mamãe, por que chove?" (*)

“Mamãe, por que chove?” (*)

Por que o pé tem dedos? Por que chove? Por que tem nuvem? O que é a nuvem? O que é alto mar? Onde fica além-mar? Por que tem relâmpago? Por que depois do dez vem o onze? Por que o oito chama oito? Por que só tem um pedaço da lua no céu? Cadê a lua “círcula”?  Por que tem um vinte nessa placa [apontando para uma placa de limite de velocidade]? Por que pintaram essa casa de bege? Por que a moça tem o cabelo azul? Por que você tem de trabalhar? Por que a luz ilumina?

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–Mamãe, por que aquela nuvem está “cula”?

–O que você acha?

–Acho que ela está “cula” porque está cheia.

–Cheia de quê?

–Cheia de chuva.

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–Vamos sair para dar uma volta, filho?

–Acho que não. Está muito quente lá fora. A gente “picisa” esperar.

–Esperar o quê?

–Esperar o sol baixar. É assim ó: o sol nasce e vai subindo, subindo, subindo até chegar onde está aquela lâmpada [apontando pro teto]. Aí fica muito quente. Depois, o sol vai baixando, baixando, baixando. E esfria. E aí o sol se põe e fica noite. Entendeu, mamãe?

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(*) Imagem daqui. A obra é do Leonid Afremov.

(**) Inspirado por uma postagem da Ligia Moreiras Sena no facebook.

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