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uma cama para cinco

Daí que filho está gripado. Daí que o pequeno ainda não sabe ao certo como funciona esse treco complexo que os adultos chamamos “assoar o nariz”. Daí que o problema não é apenas ter de respirar pela boca na maior parte do tempo. Mais complicado é que o catarro não expelido adequadamente se assenta na garganta e gera tosses, muitas tosses.

Daí que essas crises de tosses, às vezes, vêm fortes, bravas, irrompem sem aviso prévio e só param quando Enzo vomita. Vomita de tanto tossir. Daí que, para dormir à noite, fica um tanto mais complicado. Enzo acorda diversas vezes por causa das tosses e os pais mal dormem preocupados com o pequeno. Solução: pai sugere trazer o filho pra cama do casal, já ocupada pelos dois e pela gata (*). Mãe topa e, com o a chegada da criança e do Pimpão (o urso de pelúcia), os cinco se espremem para caber no (pequeno) espaço que lhes compete embaixo do edredom.

Enzo já dormiu na nossa cama antes, claro. Mas nunca desde o início da noite. As vezes em que o bebê divide o colchão com a gente acontecem no finzinho da madrugada, começo da manhã, quando ele acorda me chamando. Em geral, eu costumava levantar e niná-lo até dormir. Depois, berço de novo. Acontece que ele pesa, hoje, 14 kilos e é filho de uma mulher que teve escoliose na infância. Não posso com peso e estava sendo muito, mas muito difícil ninar Enzo por 20, 30 ou até 40 minutos. Foi aí que, coisa de uns dois meses atrás, Dri teve um bela conversa com nosso filho numa dessas madrugadas em que ele queria passar tempo no meu colo antes de dormir de novo. Propôs dormirmos juntos na cama e, daí em diante, eu nem levanto mais para pegá-lo. Dri vai lá e traz Enzo pra deitar do meu lado. Coluna agradeceu horrores.

Mas foi a gripe, por essas vias meio tortas, que botou o pequeno entre a gente desde o comecinho da noite, oficialmente, não como um arremedo de madrugada, mas como o lugar certo para se dormir desde que se deita. E quer saber? Adoramos. Porque é muito bom dormir apertadinho com quem se ama, ué. Porque é divertido. Porque dá uma sensação de aconchego e acolhimento sem igual. Porque sentir filho botando a mãozinha no seu rosto pra ver se você está mesmo ali é de uma ternura difícil de descrever. Porque numa dessas noites, acordei (eu também estou gripada, o que dificulta dormir bem) e vi Enzo enroladinho no papai, cabecinha no ombro, agarrado ao braço do Dri, coisa mais linda. Porque é gostoso e ponto final.

Adotamos a cama compartilhada de vez? Não. Mas mais por causa do Enzo do que nossa. Na terceira noite dormindo com a gente, ele mesmo pediu pra voltar para o berço, creia. Não se acostumou muito com a confusão de gente se virando para lá e para cá a toda hora. E ele é bem espaçoso para dormir, gosta de ficar atravessado, braços e pernas abertas, o que fica meio impossível quando se bota dois adultos, um menino, uma gata e um urso de pelúcia em apenas 1,3o metro de largura.

Mas, depois dessas experiências, me arrependo horrores de não ter compartilhado cama com o pequeno desde sempre. Se tiver um segundo filho, certeza que farei diferente. É como aconteceu com uma amiga minha: primeiro filho, seguiu à risca as indicações e “conselhos” dos “especialistas” de sempre, esses que aparecem em todas as revistas, sites e livros de maternidade. Botou o bebê para dormir em quarto separado logo que voltaram da maternidade. Com a segundinha, o oposto. Botou marido pra dormir com o mais velho e levou a nenê pra cama de casal. Resultado: noites melhores dormidas para todos os envolvidos, amamentação exclusiva sem a menor dificuldade (primogênito complementou), livre-demanda, bebéia tranquila, apegadinha, mas bem mais independente que o irmão mais velho na mesma idade.

Quando Enzo nasceu, eu era ainda mais ignorante sobre a bebezice do que sou hoje. Já tinha descoberto alguns blogs maternos, mas, apesar de interessada em várias ideias novas apresentadas por aqui, o desconhecimento e a insegurança me faziam pender um pouco  mais para o lado “mainstream” da maternidade, aquele que sai mensalmente na “Crescer” e na “Pais & Filhos”, aquele representado lindamente (só que não) na TV pela “Supernanny” e suas ideias autoritárias, desrespeitosas e inócuas de disciplina.

Eu era tão carente de conhecimento e de amadurecimento que projetava um ideal de maternidade –que espelhava, claro, minhas necessidades infantis de ser “perfeita” e “ganhar uma estrelinha no caderno” da sociedade, da família, dos amigos no final do ano–  no qual eu seria melhor mãe tanto mais quieto, educado e obediente fosse meu filho. Quanto mais Enzo se parece com uma boneca, tanto melhor mãe eu seria.

Daí que, para isso, nada “melhor” que meter as caras nesses livretinhos de auto-ajuda materna aos montes por aí e ouvir os “conselhos” da pitaqueirada de plantão de sempre (o que inclui familiares de todos os graus, médicos, estranhos e até enfermeiras da maternidade. Porque qualquer um, qualquer um mesmo, sempre se sente no direito de te dizer como educar seu filho. Para mim, essa é, sem dúvida, a coisa mais irritante da maternidade). E eu acabei fazendo um pouco isso no começo mesmo.

E os conselhos em geral diziam (e dizem) o seguinte, basicamente (vou exagerar, mas é bem pouco): 1) Filho bom é filho absolutamente submisso e treinadinho pra só chorar quando tiver fome; 2) Mãe que é mãe tem mais o que fazer na vida do que dar peito, dar colo, dar atenção, dar amor etc. Então bote logo esse nenê no lugar dele, que é naturalmente o carrinho, o berço, outro quarto (quanto mais longe do seu, melhor); 3) A vida é dura aí fora, portanto, nada de tratar esse nenê como se ele fosse…er… um… nenê. Ele tem que aprender a se virar, né não? 4) Jamais, em hipótese alguma, coloque seu filho no mesmo quarto que vocês. Isso dá em divórcio por falta de sexo (porque, né?, só é permitido transar na cama e à noite. Se o bebê estiver lá…) e porque o seu marido vai sentir ciúme do filho (lógico, todo homem tem o desenvolvimento emocional de uma criança de quatro anos e vai rivalizar com a própria cria). Além do mais: cama compartilhada gera dependência (bebê tem que nascer adulto já, minha gente!). Pode até ser agradável, delícia mesmo, mas, mãezinha, agora que você tem um filho, tem deixar de lado essas coisinhas à toa, sabe? Maternidade não é gostoso, maternidade é padecer no paraíso, mãezinha, lembra? Maternidade é disciplina. É ensinar seu filho a lidar com esse mundo cruel. Não seja boazinha com ele, não facilite a vida desse bebê, não acostume essa criança no colo, não crie um filhinho-de-mamãe. Supernanny nele! Cantinho do pensamento nele! Deixe chorar no escurinho do quarto, sozinho, no berço, até dormir!

Não comprei toda essa baboseira aí de cima, mas uma parte, infelizmente, sim. Eu achava mesmo que seria uma boa mãe se disciplinasse meu filho desde pitiquinho, se ele “aprendesse” a dormir sozinho desde sempre, se tivesse horários rígidos e mamadas de três em três horas.

Sorte nossa é que mãe tem instinto. Forte. Imperativo. Acho que foi isso que me fez começar a dar mais ouvidos às outras mães da madresfera que aos especialistas de sempre. Foi isso que me fez decidir por botar Enzo dormindo no nosso quarto desde que chegamos do hospital. Não na nossa cama (que pena!), porque eu tinha medo de machucá-lo. Mas no quarto. Ficou dormindo com a gente por quase um ano. E foi ótimo. Mas teria sido ainda melhor se fosse na cama. Calor humano, sabe? E era isso que eu queria, que nosso instinto –o meu e o dele– pedia. Frustramos um desejo bem genuíno. Lamento. E lamento ainda mais agora, que experimentei de fato. Putz, é bom, é o “certo”. Não o certo universal que não acredito nisso. Mas o certo pra mim, entende? Eu já tinha virado, depois de tudo que aprendi na madresfera com tantas mães maravilhosas que encontrei por aqui –e também com González, com Gutman, com Gerhardt, com Odent, com Uplinger–, uma entusiasta teórica da cama compartilhada. Agora, apesar da pouca experiência, virei uma entusiasta prática.

Hoje mesmo, Enzo veio pra nossa cama às 5h45 da matina. E apesar de só ter voltado a dormir às 7h50, foi bom, foi ótimo, foi gostoso, foi natural. Hoje, e cada vez mais, acho mesmo que o lugar das crianças pequenas é com os pais. Fisicamente com os pais. No colo, na cama, grudadinho no sofá. Contato, calor, pele-com-pele, carinho, toque delicado. Isso diz muito, muito mais que qualquer  “eu te amo”.

Fica cada vez mais fica evidente pra mim, como já dizia Montessori há duzentos anos, que as crianças são naturalmente impulsionadas para a independência. É natural, a gente não precisa fazer nada, só estar ali do lado, dando condições para que os filhos deem os próprios passos quando for a hora. E esse é o ponto: quando for a hora. Quando o filho está pronto, ele se vira sozinho sem precisar ser “ensinado”. Ninguém precisa ensinar bebê a dormir sozinho. Se ele ainda não faz isso, é porque precisa de colo, ué! Porque isso é o natural para ele naquele momento de seu desenvolvimento. Não se precisa treinar uma criança a usar o penico. Quando ela estiver pronta, vai partir dela a iniciativa para o desfralde. Não precisa tirar filho da cama dos pais. Quando ele estiver pronto, ele vai pro quarto dele sozinho, como fez Enzo e como fez a Clara, filha da Lígia Moreira Sena, aos 3 anos.

Então fica aqui meu relato e minha sugestão: se você tem vontade de oferecer cama aos filhos, vai fundo. Porque pode dar muito certo. E porque é bom, bom demais. Aqui tem um post muito bom e muito completo sobre cama compartilhada, com um viés científico, escrito pela Lígia e pela Andrea Mortensen, duas cientistas que pesquisam o tema há tempos. Super recomendo.

(*) Pela verdade dos fatos: a cama é da gata desde sempre. Ela é quem chega primeiro, se espalha e, depois, permite que Dri e eu deitemos no canto que sobra. Não sei se ela tem curtido muito a ideia de dividir seu espaço com Enzo e Pimpão, mas até agora ainda não reclamou…

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laura gutman: só lendo

Comecei a ler a Laura Gutman. Quem é mãe blogueira e frequentadora assídua da madresfera sabe bem de quem estou falando.Para quem ainda não sabe, Laura Gutman é uma psicóloga argentina, especializada em amamentação e no atendimento a crianças e casais. “Militante” da criação por apego, é fundadora da Escola Capacitação Crianza, onde atende mães e bebês e promove cursos para profissionais da saúde e doulas.

Laura escreveu o que acho que seja o mais importante livro sobre maternidade da nossa geração,  “A maternidade e o encontro com a própria sombra“,  justamente o que estou lendo agora, numa “sentada” só (impossível parar de ler!). Entre (muitas) outras coisas, ela mostra de que forma emoções que consideramos “ruins” e que pretendemos não reconhecer (a nossa “sombra”) se refletem nos nossos filhos.

Ela fala de gravidez, de parto, de amamentação, de comportamentos e doenças infantis, do papel dos homens, do prazer das crianças (e da nossa reação a ele), de limites e comunicação, de sono, de violência. E escreve sobre tudo isso com uma profundidade que eu não tinha encontrado antes em nenhum  “especialista”  que ousei ler.

A leitura de  “Maternidade”  é, ao mesmo tempo, prazerosa e dolorida. Gutman afaga e acolhe na medida em que nos ajuda a reconhecer que muitas das nossas falhas são “explicáveis”por um sistema de coisas que é alheio à nossa vontade; mostra que a maioria das nossas inclinações maternas –aquilo que a gente tem vontade genuína de fazer de bom pros filhos, mas que a sociedade recrimina–são heranças femininas que carregamos conosco há milênios e que, em última análise (como já disse Carlos González), permitiram a sobrevivência da espécie humana por essas bandas.

Mas também é soco no estômago porque nos força a reconhecer que a parte de nós que nos esforçamos tanto para esconder nossos filhos trazem à luz. É difícil engolir que, de repente, aquela atitude que tanto irrita na criança é apenas RESPONSABILIDADE sua ou a manifestação externa, no bebê, de um conflito SEU.

Também pode ser complicado para algumas mães refletir sobre a maternidade que praticam. Gutman, assim como González, adota o ponto de vista do bebê. Ou seja, não se preocupa muito em passar a mão na cabeça das mães. Ao contrário, aponta como funciona a psiquê dos pequenos, a “fusão” com a mãe nos dois primeiros anos de vida, a “exterogestação”, que dura os primeiros nove meses, e a consequente importância que a figura materna tem na formação da personalidade das crianças. Sem medo de cutucar as mães, ela mostra o IDEAL de maternidade para a CRIANÇA (não para a mãe, nem para o marido, tampouco para o mercado de trabalho).

Enfim, muito mais do que um manual do tipo “faça isso, não faça aquilo”, o livro é uma espécie de “reflexão guiada” sobre si mesma e sobre o universo da formação da personalidade dos bebês. É profundo e libertador.

Mesmo ainda na metade, recomendo. Ainda ruminando o que tenho lido, separei algumas frases para compartilhar por aqui:

“O selvagem torna todas as mulheres saudáveis. Sem o lado selvagem, a psicologia feminina fica desprovida de sentido”.

“O mundo seria outro se as salas de parto fossem menos silenciosas, se no início da relação entre os seres humanos houvesse espaço para as emoções, se a desumanização não abrangesse as áreas da boa vinda ao mundo”.

“Quando as situações injustas são correntes, perdemos a noção de liberdade”.

“Talvez este [o parto] seja o espaço mais sutil encontrado por toda a sociedade para se permitir exercer o controle, os maus-tratos e o ódio sobre o poder infinito das mulheres que estão parindo”.

“Quando [o bebê] mama com mais frequência, isso não acontece, necessariamente, pelo fato de o leite não ser suficiente. Pelo contrário, é porque é um bebê ativo, conectado e feliz”.

“Um bebê se constitui um ser humano na medida em que está em total comunicação com o outro, de preferência a mãe. (…) o tempo todo de colo, calor, abrigo, movimento, ritmo”.

“A possibilidade de sugar, ingerir e satisfazer a fome deveria estar disponível cada vez que o bebê pedisse”.

“Deveríamos refletir sobre o poder que exercemos sobre elas [as crianças], na posição de adultos, dizendo arbitrariamente quando é justo oferecer alimento e quando isso não é adequado ou merecido”.

“A alma não registra o tempo”.

“Somos uma sociedade extremamente violenta com nossas crias. Insistimos em não atender as queixas dos bebês, que dependem exclusivamente do cuidado dos adultos”.

Esse são só alguns exemplos, o livro é repleto de ideias complexas, que precisamos “marinar”  com calma. Para quem se interessou, também recomendo um vídeo que as meninas do Mamatraca fizeram para registrar a palestra da Gutman no Brasil. Elas editaram as melhores partes do seminário, que podem ser conferidas aqui ó.

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curtinhas (ou nem tanto) do fim de semana

Conseguimos emendar o feriadão, o que foi ótimo, pois aproveitamos bastante para descansar, curtir uns dias de preguiça em família, conversar (na correria do dia a dia, até uma simples e prosaica conversa entre Dri e eu acaba sempre sendo adiada), adiantar pendências domésticas (sempre elas) e passear bastante, apesar do friozinho que fez aqui em SP.

Na quinta, fomos numa livraria que eu adoro. Olha um livro aqui, vê a orelha de outro ali, leva Enzo brincar na seção para crianças acolá e o bebê começa a chorar. Ok, eu amo a livraria; o Enzo tolera. O marido tinha ficado com o pequeno enquanto eu passeava pelas prateleiras. Quando ele quis dar a olhadinha dele, peguei Enzo e fui pra fora; a inquietação do neném deixava claro que seu prazo de validade para ambientes internos tinha vencido.

Acontece que lá fora a coisa não melhorou muito. Tentei colocá-lo no carrinho, o que piorou a situação. Pega no colo de novo, Enzo acalma por dois segundos e resolve que tem que mexer em tudo o que não pode, como extintores de incêndio, adesivos de promoção das vitrines, cartazes de lojas. Pergunto: como distrair um bebê impacientíssimo, que está estrilando loucamente no seu colo?

Repondo: começando a cantar feito uma louca, chacoalhando a cria, abaixando e levantando com a cria no colo, fazendo de conta que vai derrubá-la no chão (Enzo ri que só quando faço isso), correndo, rodopiando pelos corredores do shopping enquanto todo mundo olha para você com cara de espanto, atravessando a rua fazendo o maior barulho só pro filho rir… Ou seja, dando uma banana para o bom senso, a auto-imagem e a vergonha própria.

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Já li por aí (ou melhor, por aqui, pela madresfera) que bebê tem uma espécie de sensor: é só pai/mãe botar o garfo na boca, encostar a cabeça no travesseiro, ajeitar o bumbum na cadeira, começar a molhar o cabelo no banho que o bebê apita (leia-se: acorda).

Pois eis que o Dri provou e ampliou essa teoria no feriado. Enzo brincou sozinho, alegre, bem disposto, risonho como ele só, nenhum pitizinho, nenhuma lagriminha. Isso até começarem na TV os programas preferidos do pai, por exemplo. Porque foi só o árbitro apitar o começo do jogo Alemanha x Portugal que o pequeno abriu o berreiro.

E fora de casa a regra também se aplica. Foi só o pai chegar na porta da livraria que o pequeno acordou chorando loucamente. Foi só o pai começar a saborear o almoço de domingo que o neném resolveu que era hora de reclamar. Foi só o pai decidir dar uma passadinha naquela loja de que ele tanto gosta que a avó teve de intervir, pois filho estava inconsolável no carrinho.

Daí que Dri concluiu que bebês são à prova de diversão paterna.

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Antes do Enzo nascer, eu achava minha gata pesada. Brincava com ela, reclamando, que estava meio gordinha. Imagina, pelo contrário, a Jóh sempre foi esbelta e bem mignon. Mas, pra mim, 4,5 kgs era um peso e tanto. E como virava e mexia eu tinha de pegar a moçoilinha no colo (ela sempre estava e está aprontando várias), os quilinhos me pareciam multiplicados por 10.

Mas aí, meu bem, eu virei mãe. E aí eu descobri o que é peso de verdade. Pois o meu minimenininho pesa nada desprezíveis 11,5 kgs e AMA colo. Carrinho, pro Enzo, é castigo. Daí que passei 4 horas com ele no shopping no sábado e daí que foram 4 horas com ele no colo.

De volta em casa, precisei ir buscar a Jóh, que tinha fugido até a porta do apê vizinho (explico: sei-lá-porque ela é apaixonada pelo tapete do casal). E descobri que ela é LEVE FEITO PLUMA. Ou ela emagreceu ou eu fiquei mais forte. Tudo na vida é uma questão de referência.

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Estava com Enzo numa outra livraria, seção infantil, e lá um pai, com cara de cansado, escuta o filho, de uns 6 anos, ler um livro pra ele. Página vai, página vem, o menino termina. Pai comemora:

-Ótimo, Joãozinho*, vamos embora agora?

-Peraí, pai, ainda falta ler aquele ali.

-Joãozinho, já disse que seria só mais esse.

-Mas pai, aquele outro ali é ainda mais legal!

-Tá bom, mas só mais esse e depois a gente vai embora sem discussão. Promete?

-Prometo, pai.

Página vai, página vem, o menino acaba a leitura.

-Joãozinho, coloca no lugar e vamos embora.

-Pai, deixa só eu ler de novo aquele outro que eu li antes desse?

-Mas você tinha prometido ir embora agora. Estou cansado. Já deixei você ler muito. Vamos para casa.

-Mas pai, eu achei que esse fosse mais legal. Mas agora acho que mais legal era o outro. Deixa eu ler o outro de novo só mais essa vez, vai?

-Joãozinho, você já leu aquele três vezes hoje!

-Mas na quarta eu vou tirar a dúvida de qual é mais legal! E aí vou acertar aquele trecho que eu sempre erro e que você sempre me corrige! Treino, pai, treino!

-Tá bom. Mas depois EU vou embora.

Pai desiste, sai batendo os pés e deixa o filho lendo para o irmão mais velho. Os dois ainda brincam um pouco depois que a leitura termina e só aí vão procurar o pai, que estava com cara de poucos amigos, sentadinho, esperando perto dos caixas.

Dois pensamentos: 1) nunca confie na promessa de uma criança em loja de brinquedos (ou de livros).

2) Lembrei, com muuuita inveja desse pai, desse comercial aqui, lembra? Eu juro que quero que Enzo peça pra não sair da livraria e que faça “birra” pra eu comprar brócolis! 🙂

* O nome do menino não era exatamente Joãozinho, mas confesso que não lembro…

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com colo também se anda

Daí que desde antes do Enzo nascer, sou gentilmente (quase sempre) bombardeada com “sugestões” provavelmente bem intencionadas sobre como não devo proceder com meu filho. No topo da lista de proibições, claro, o colo, esse vilão. Começou com a GO, que teimava em me “ensinar”, em quase todas as consultas, como eu deveria educar o bebê em gestação. Pegar no colo não era uma das formas de ter um filho educadinho, segundo ela.

Depois, ainda com Enzo na barriga, amigos, parentes e até passantes desconhecidos na rua fizeram questão de dar sua contribuição. Enzo nasceu, a pressão aumentou e foi num crescente conforme as pessoas perceberam que eu dava -e dou- colo sim. Muito colo. Colo à vontade, o que significa que Enzítolo passava e passa boa parte do dia de carona na mamãe aqui.

Os conselheiros oscilavam entre os que tinha dó de mim e queriam me ajudar a “domar” meu pequeno tiraninho (“é só dizer não. Ele vai chorar um pouquinho, depois passa”) e aqueles que me julgavam má mãe (“dizer não é sinônimo de amor, é sua responsabilidade”).

Parece que todo mundo se indignava com minha disposição de dar colo e com minha indisposição de dar ouvidos aos pitacos, avisos e ameaças.

-Esse menino vai ficar mimado demais!

-Esse menino não vai te respeitar!

-Esse menino não vai ter limites!

-Esse menino viciou em colo!

-Esse menino deveria estar mais independente de você!

-Esse menino já deveria estar engatinhando (ãhã!) e só não engatinha porque você não deixa ele livre (ãhã!).

Lançando mão de toda a paciência com a qual eu fui contemplada, dava sorrisinhos e dizia: quando ele se sentir mais autônomo e quiser explorar mais o mundo, vai naturalmente se desinteressando no meu colo. Fiquem sossegados.

Era a minha forma polida de dizer: gentes, meu filho e eu sabemos o que é melhor pra nós. Dou de ombros se você acha que colo não se dá. O meu é do Enzo sempre que ele quiser. Sorry se eu não faço parte dessa confraria que acha que mãe não pode dar colo a filho, que colo estraga. O que estraga mesmo é falta de amor. Não tenho a menor pressa pra que Enzo ande, ele vai levar o tempo dele, sacou?

Não dizia nada disso porque é inútil. E também porque o que interessava mesmo é que eu sabia que, quando chegasse o momento ideal para o Enzo -não para os outros- ele mesmo procuraria sua autonomia física.

Pois bem, meu minimenininho já é um bípede! Se locomove bem apoiando-se nos móveis e no sofá e anda um bocado segurando nas minhas mãos. Ainda não engatinha, nem sei se vai pular essa fase (eu pulei). Não que eu ache adequado saltar etapas. Pelo contrário, mesmo andando, tento estimulá-lo a engatinhar também, pois é importante para o equilíbrio e até para o desenvolvimento da leitura (parece que engatinhar estimula áreas do cérebro que serão requisitadas durante o processo de alfabetização). Mas o moço gosta mesmo é de andar.

E, mesmo com todo o colo que teve e ainda tem, ele mesmo, como eu dizia, começou a se interessar em outras coisas, passou a querer menos colo e a valorizar seus momentos livres, nos quais treina seu andar e sente-se autônomo para ir onde quiser. Não é lindo ver e participar disso? Não é lindo saber que é possível estimular o desenvolvimento dos pequenos sem, no entanto, negar-lhes o carinho, a proteção e a segurança de que necessitam?

Enzo ama colo. Ama contato. Brinca, anda, se diverte, mas sempre comigo por perto. E faço questão de estar fisicamente próxima, sem carrinho, sem cercadinho, sem nenhuma barreira entre nós, pois sei que isso faz meu filho mais feliz, mais seguro, mais pronto para dar seus passinhos, literais e figurados.

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maternidade é competição?

Pulga atrás da orelha: quando foi que a maternidade/paternidade virou competição? Ser mãe/pai é competir? O “desempenho” dos filhos é o que mede a qualidade da maternagem/paternagem (ok, essa palavra não existe, mas vou me permitir a licença poética)? É justo cobrar dos (ou esperar que os) filhos sejam os primeiros em sei-lá-o-que para que mães/pais ganhem sei-lá-o-que na comparação com outras/os mães/pais? Ou nós estamos tão acostumados à competição que nem percebemos a doideira que é tratar os filhos como se fossem competidores e/ou troféus?

Não tenho as respostas. Não tenho nenhuma delas, na verdade. Mas tenho pensado muito nisso, especialmente depois de encontros casuais que tenho tido com outras mães. Parece que há certos marcos de “desempenho” esperados para os filhos que servem, na verdade, para as mães medirem o “sucesso” delas e das crias.

Por exemplo: engatinhar é um desses marcos. Rola uma comparação deliberada para se saber qual bebê já engatinha ou começou a engatinhar primeiro, como se isso realmente significasse alguma coisa. O que se ganha quando um neném é “precoce” nessa área? Eu não sei, mas as mães parecem saber. Um google despretensioso vai mostrar que a idade “ideal” para começar a engatinhar é entre seis meses e um ano. Qualquer pediatra com dois neurônios funcionando vai dizer que, nesse período, o que vale mesmo é respeitar o tempo de cada criança. Mas experimenta dizer isso para as mães.

Dia desses ouvi de uma delas, cujo filho com 5 meses “quase engatinha”, que o “segredo” para a precocidade (que ela deve achar uma qualidade a ser copiada) do rebento é que ela nunca o pega no colo. Deixando o filho sozinho, sem colo, ela conseguiu que ele desenvolvesse habilidades motoras mais cedo. E ela critica as mães que fazem o contrário.

Pergunto: 1) Que vantagem o filho leva com isso? 2) Não seria melhor ter colo de mãe enquanto isso é fundamental –até para estimular o desenvolvimento neurológico e as sinapses– e deixar para estimular a evolução motora quando for a hora (ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo)? 3) Essa mãe já refletiu sobre a importância da autoestima na vida do filho? Será que já pensou que “se virar sozinha”, nessa idade, não é algo desejável para uma criança?

Filosofia de botequim (que eu A-DO-RO! Pena que não esteja tomando cerveja por esses dias. Do contrário, confesso, já estaria com uma bem gelada a me fazer companhia): vivemos em uma sociedade altamente competitiva, que estimula ainda mais competição como se isso fosse o único caminho para uma prometida prosperidade. Nós pais, perdidinhos da silva, achamos que o melhor para os filhos é que já nasçam competindo, que já nasçam na frente, chegando antes dos outros bebês em qualquer lugar que seja.

É uma síndrome de maternagem desenvolvimentista, sabe como? A preocupação principal deixa de ser o bem estar, a felicidade, o crescimento saudável e no tempo de cada criança, o respeito às etapas e ao ritmo do filho. O objetivo torna-se desenvolver -o quanto antes, de forma “otimizada”- tudo o que tiver que ser desenvolvido no menor espaço de tempo possível.

E daí a competição: se meu filho engatinha antes, ponto para mim, que consegui estimulá-lo e desenvolvê-lo mais rápido. Se ele anda primeiro, ótimo. Se fala primeiro, então, nossa, eu poderia ganhar um Nobel da maternagem.

O natural sequer é considerado. E o tempo, que nos submete a todos, é solenemente ignorado na busca ansiosa por alcançar, via filhos, a ponta, o pódio, o primeiro lugar de qualquer coisa que seja. Os filhos são superestimulados e, paradoxalmente, recebem menos atenção do que mereciam, já que “aprender a se virar sozinho” virou mantra. Na maternagem desenvolvimentista hegemônica,  quanto antes os bebês ficarem independentes, melhor. Mesmo que isso custe (se é que alguém ainda se preocupa com isso) boa parte da formação afetiva e emocional desse neném.

E essa “nova” forma de maternar -não por acaso- cai como uma luva numa sociedade consumista e individualista que parece que desaprendeu a ter filhos. Enquanto não consome, filho não se insere nesse contexto. Para mim, parece fato que, ao passo que a ciência evolui e permite que casais que jamais teriam filhos concebam, coletivamente, perdemos a capacidade de nos reproduzir a contento, pois perdemos -e nos orgulhamos disso- habilidades fundamentais para maternar/paternar:

-Não temos mais tempo: não esperamos nossos filhos crescerem e se desenvolverem; queremos acelerar os processos todos. Não temos tempo, nem nossos filhos tem, para esperar as etapas normais e apropriadas.

– Não temos mais disponibilidade: prioridade é o que vem em primeiro lugar. Não dá para ter vários primeiros lugares na nossa lista. E, em geral, mesmo querendo priorizar nossos filhos, na prática, priorizamos o que paga as contas. Porque, afinal, as contas precisam ser pagas, e vivemos numa sociedade esquizofrênica que nos faz escolher entre filhos e ganha-pão.

-Não temos mais paciência: sou tecnológica, adoro os avanços todos da ciência, mas acho que o mundo super conectado, que nos leva a trabalhar como loucos (ao invés de nos poupar tempo, como seria de se supor) também nos faz acostumar com um ritmo irreal e não-natural de vida. Queremos adiantar tudo, queremos tudo para ontem, levamos o imediatismo a um outro nível. Não queremos para já, queremos que já esteja pronto quando começarmos a desejar o que quer que seja.

-Não respeitamos o que é natural: bacana mesmo é o artificial, é o que acelera processos, “facilita” processos, substitui o que seria natural por algo mais adequado à nossa vida corrida, cosmopolita, sem qualquer ligação com instintos, ancestralidade, com as heranças que gerações anteriores levaram milênios para aperfeiçoar e nos legar.

E, veja, não estou apontando o dedo para ninguém. Também me incluo nisso tudo aí, também sou fruto disso tudo aí, também reproduzo isso tudo aí, também já me flagrei cobrando a mim mesma sobre o desenvolvimento do Enzo e planejando quais as habilidades dele eu vou querer “acelerar”.

Não aponto dedos não apenas porque teria de começar por mim mesma e porque não estou aqui para isso, mas, principalmente, porque não há exatamente responsáveis. A sociedade caminhou para onde estamos, nos trouxe até aqui, nos estimula. Somos consequência do mundo em que vivemos, dos valores do nosso tempo, da ciência e das informações de que dispomos, daquilo que nós e que os outros consideramos importante, ainda que discordemos um pouco (não vivemos numa ilha). Somos filhos do tal zeitgeist, o “espírito do tempo”.

E o espírito do nosso tempo é extremamente competitivo, individualista, frenético,workaholic (vida pessoal, esse palavrão, não gera lucro para as empresas capitalistas, afinal), artificial, contraditório, caótico, precoce, imediatista, consumista e eternamente insatisfeito. Por que as mães ficariam de fora?

O que nos resta, então? Refletir, refletir, refletir. Debater, debater, debater. Transformar, transformar, transformar. E olhar para os nosso filhos, acima de tudo, com os olhos livres desses óculos todos que nos fazem ver os pequenos sob o prisma do que o mundo quer deles, não do que eles querem do mundo e podem dar a ele.

Fácil não é. Mas também não é impossível. Minha segunda resolução -já colocada em prática- é respeitar as inclinações do Enzo e o tempo dele. Quando ele quer brincar no chão, tentar engatinhar, tentar andar, ajudo, estimulo, fico do lado. Quando ele quer colo, sombra e água fresca, é isso que dou. Quando me cobram largar meu filho, não dar colo, deixá-lo “independente”, não estou mais me calando. Digo que optei por uma maternagem na contra-mão mesmo, sinto muito, mas não vou na sua casa dar pitaco, né? Plis, não faça isso na minha. Faço isso por mim, mas também pelas outras mães. Circular conhecimento. Esse é o nome do jogo.

Também decidi -faz tempo, o que faz dela minha primeira resolução- priorizar mesmo Enzo. Meu tempo é dele. Ponto. Isso me custa correrias extras no trabalho, mas vale muitíssimo a pena. Qualidade também é quantidade nesse caso. E como eu posso (tem mãe com bem menos sorte), não vejo razão para não fazer isso.

E -terceira resolução, que na verdade é consequência de uma resolução maior (fugir dos modismos consumistas)- optei por mudar um pouco as coisas com a festa de um ano do Enzo. Estava planejando contratar especialistas e buffet para fazerem o aniversário dele. Mas mudei de ideia e vou fazer tudo (com exceção dos salgados). Não quero inserir Enzo desde sempre nessa coisa capitalista de competição pela festinha de aniversário mais “bacana” (leia-se mais cara e cheia de coisas supérfluas). Quero uma festa linda, claro, mas feita por nós, cumprindo todas as etapas, participando de todos os processos, com as nossas possibilidades reais, sem disfarces dados por especialistas.

Meu bolo não vai ter três andares e pasta americana. Mas vai ser delicioso, feito com muito amor, bem bonito, saudável, orgânico e sem porcarias. Enzo vai poder comer o próprio bolo!

Enfim, estou refletindo. E saindo da caverna.

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o papel do pai

Aqui em casa não há uma divisão formal de tarefas entre marido e eu, tipo mamãe faz isso e papai faz aquilo. Qualquer um de nós faz o que tiver de ser feito, o que for possível ser feito, seja lavar roupa, lavar banheiro, fazer o jantar, passar pano na casa ou cuidar do Enzo. E muitas dessas tarefas domésticas são cumpridas à noite e aos finais de semana.

Anteontem, por exemplo, Dri chegou exausto do trabalho, mas foi faxinar a casa, lavar a louça, preparar nosso lanche. Enquanto isso, eu dava jantinha pro Enzo, banho, colocava pra dormir. Hoje, é possível que ele tenha de me ajudar a lavar a cozinha. Sim, a jornada tripla aqui não conhece diferença de gêneros, é da mãe, mas também do pai.

E daí que pode parecer que não, mas isso tem tudo a ver com maternagem. Com a maternagem possível. Pra mim, caiu a ficha ao ler um texto com um depoimento de uma mãe que dizia que não conseguia dar colo ao filho na medida do que gostaria por ter as tarefas de casa todas para fazer ao longo do dia. Ao bebê, restava tempo apenas para cuidar das necessidades físicas básicas de sempre, aquelas que não podem ser adiadas.

Esse arranjo (mãe-dona-de-casa-sobrecarregada) não é novidade. Minha mãe viveu isso comigo e com meu irmão. Nunca que ela poderia parar de fazer o que fosse em casa para brincar comigo ou para me dar colo. Até porque, se ela deixasse de fazer, ninguém faria por ela. E eu tinha um irmão que precisava comer, um pai que chegava para jantar, enfim, a vida era outra e era necessário que a prioridade filhos X casa fosse compartilhada.

Percebi, portanto, que a minha opção de maternagem, que inclui apego, colo em livre demanda, brincadeiras, atenção integral às necessidades físicas e emocionais do Enzo e disponibilidade total para ele, depende muito -quase exclusivamente- do acordo tácito que tenho com o marido em relação às responsabilidades da casa.

Durante o dia, minha prioridade absoluta é o Enzo. Quando ele dorme ou se distrai sozinho, sem necessidade da minha companhia, é o tempo que tenho para trabalhar, para dar conta do prazo, afinal (já contei aqui e ali minhas aventuras trabalhando em casa com um bebezico delícia que adora atenção). Geralmente, antes mesmo de eu terminar minhas tarefas jornalísticas, Enzo já acordou de novo ou já notou que eu dei uma fugidinha até a mesa -e já está protestando por isso, claro.

De modo que limpar a casa, fazer comida ou lavar as roupas são coisas que não cabem na minha rotina diária. Quando dá, eu faço. Ninguém quer, às 22h30, cansadaça, louca pra ler um livro ou assistir um DVD com o marido, começar a faxinar o banheiro, né? Pois é, nem eu. Mas lidamos com o possível e o possível é feito de escolhas.

Quando aproveitei meu home office para ficar com Enzo, a decisão foi FICAR COM ENZO. Não com a casa. Não com a faxina. Não com a roupa para lavar. Não com o jantar/almoço. Daí que priorizo Enzo. Do contrário, não haveria razão para não colocá-lo num berçário e ir logo trabalhar fora.

No fundo, acho que o papel de pai que Dri representa inclui -mas claro que não se limita a- permitir que eu seja a mãe que quero ser pro Enzo, a mãe que acredito que devo ser, a mãe que acho que Enzo merece, da qual precisa, pela qual espera. Respeitaria meu filho se ele fosse diferente, mas a cria é um bebê que precisa de mãe, que adora colo, que adora companhia, que quer aprovação e afeto o tempo inteiro. É um bebê dependente.

Por meu lado, sou uma mãe que acha ótimo que o filho seja dependente nessa fase da vida, pois é nisso que acredito: bebezicos dependentes são iguais a crianças, adolescentes e adultos seguros, confiantes, com autoestima saudável. De modo que Enzo e eu combinamos bem. E o Dri, que compartilha comigo essa ideia sobre criação dos filhos, nos dá esse espaço porque não se furta às obrigações domésticas só por ser homem ou só por trabalhar fora.

ABRE PARÊNTESE: Preciso dizer que essa postura do marido não é de hoje, não é do nascimento do Enzo. Sempre foi assim. Dri nunca achou que limpar a casa fosse minha tarefa, nem nunca fez muxoxo para arregaçar as mangas, comigo, e dar conta das chatíssimas tarefas de casa. FECHA PARÊNTESE.

É comum, navegando por sites de jornais e revistas, encontrar especialistas questionando o papel do homem no mundo de hoje, o papel do pai na família etc etc etc. Pode ser que o papel que Dri assumiu não interesse a todos os homens desempenhar, nem mesmo a todas as mulheres. E, de verdade, respeito isso. Acho todo arranjo familiar válido; o que importa é fazer sentido para aquela família.

Mas aqui em casa, é justamente essa postura do marido que me dá o tempo de que preciso para por em prática aquilo no que acredito, como mãe.

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mais uma sobre partos

Essa blogagem coletiva sobre violência obstétrica me deu muito o que refletir. Nesses dias, li coisas interessantíssimas na madresfera (posso emprestar o termo, Mari?) e dois textos em particular me chamaram mais atenção, pois falaram mais claramente coisas que eu andava matutando, mas que não tinha ainda conseguido colocar em palavras, elaborar racionalmente.

Vou pela ordem de leitura, então. Esse aqui, da Mari, do Viciados em Colo, foi de uma clareza e de uma sobriedade arrebatadoras. E foi doído também, uma vez que botou em evidência sentimentos com os quais a maioria de nós lida ou tem lidado. Ela mostra todos as etapas pelas quais passamos quando descobrimos que sofremos uma cesárea desnecessária, quando entramos em contato, ainda que virtual, com a possibilidade de outros partos. Vale muito a pena ser lido.

Comentei com ela, lá no Viciados, algumas coisas que acho que complementam bem o post que fiz sobre violência obstétrica. Para começar, a responsabilidade por ter feito uma cesárea foi, em larga medida, minha mesmo. Queria um normal, mas não me preparei para ele nem física nem psicologicamente.

Fisicamente faltou um monte de coisas: atividades físicas adequadas -e recomendadas- para gestantes, atenção com a pressão, diminuição efetiva do sal nos alimentos, uma dieta mais equilibrada e uma longa lista de etc.

Psicologicamente faltou calma, tranquilidade e, portanto, atenção ao que realmente importava. Faltou também confiança em mim e no meu corpo, faltou entrega à gestação, entrega à natureza, ao ancestral, ao feminino ancestral em nós, ao arquétipo de mãe, aos antigos mitos fundadores da maternidade. Faltou encarar o parto com a naturalidade necessária para deixar de temê-lo e, assim, passar por ele.

Reconheço também que toda a informação de que disponho hoje já estava por aí, na madresfera. Fui em quem não busquei ou não busquei adequadamente, nos lugares certos. Ignorância pode até ser justificativa, mas não desculpa.

De modo que, respondendo à pergunta que a Mari fez no final do post dela, não, eu ainda não me perdoei. Estou no caminho, pois compreendo que fiz o que pude, que o que dei de mim era o que eu tinha pro momento, mas sigo culpada, sigo doída, especialmente pelo que privei Enzo de viver (um parto propriamente, no qual ele participasse, fosse ativo, não fosse surpreendido por mãos apressadas “nascendo-o” à força) e pelo que obriguei Enzo a viver (meu filho bebezico e confuso saiu de mim e foi direto ser mexido e remexido por braços estranhos, num universo estranho, frio. E foi sozinho, sem nem carinho, sem nem conhecer a voz que o acompanhou na estadia do útero. Foi prum berço aquecido, mas sem toque, sem colo, sem vozes ou sons conhecidos, sem referências, sem cheiro familiar, sem afago, sem carinho, sem aconchego, sem ninguém que lhe dissesse “está tudo bem, não se assuste”.

Eu só toquei meu filho, só pude colocar meu filho no colo, sentir seu cheiro, falar com ele, olhar pra ele 4 horas depois do parto. Entre uma coisa e outra, ficamos, eu e ele, separados pela frieza institucional das regras da maternidade, da equipe médica, do staff de enfermeiros, de sei-lá-mais-quem que, por sei-lá-que-motivo inventou normas que atendem a sei-lá-quais-interesses (mas não aos do meu filho, nem aos meus).

Então dói ainda, dói muito. E, talvez por essa razão, terminei de ler o texto da Mari com os olhos rasos d’água.

O que me leva ao segundo texto que li (por indicação da Mari lá no post dela) e que ficou martelando aqui na cabeça. A Anne, do Super Duper, diferenciou muito bem as vias de nascimento. Uma coisa é parto, outra é nascimento. Quem teve uma cesárea, como eu, na verdade não teve um parto. Clic! Isso nunca tinha ficado tão claro antes.

Eu não participei do nascimento do Enzo, fui mera coadjuvante. Sabe como descobri que meu filho já tinha nascido? Ouvindo a obstetra dizer “bem vindo”. Ela falou isso uma vez, falou duas, achei estranho e, meio grogue, perguntei: “Já nasceu?”. Sim, tinha sido nascido. Nem me dei conta. Nem me dei conta do momento mais importante das nossas vidas -minha e do Enzo. Aconteceu e eu mal estava lá. Qualquer pessoa que esteve naquela sala de cirurgia vai saber contar melhor como foi o nascimento do meu filho que eu.

Sinto por mim e por Enzo, mas pelas pessoas de um modo geral. As histórias, os marcos fundamentais da vida, estão perdendo valor para uma supervalorização de uma pseudo-ciência vendida a preço de ouro. Adorava ouvir a história de como eu nasci. Isso é essencial, faz parte da nossa identidade, toda criança quer saber. E quanto mais emoção, melhor.

Minha mãe sempre contava com detalhes como foram as contrações, que ela achou que não era nada, que quase nem vai para o hospital, e que -veja só- chegando lá eu já estava quase nascendo. Lembrava dos detalhes, do médico que não chegava, da enfermeira que a tranquilizava, de não ter sentido muita dor (“é uma cólica menstrual um tanto mais forte”, me dizia, pra eu não ficar com medo), de eu ter nascido rápido, da emoção de me ver pela primeira vez, do primeiro choro (meu e dela, como mãe), do primeiro colo, da primeira mamada. E eu ouvia, satisfeita com minha origem.

Isso faz de nós menos mães? Claro que não, nem acredito que exista isso. Mas não posso deixar de lamentar que, ao invés de um relato de parto, a origem das nossas crias -e a narrativa fundadora da vida dos nossos filhos- será algo como: “Mamãe marcou na agenda, fomos lá, tomei uma injeção e você nasceu”.

Sei que o post está enorme, mas ainda preciso dizer que o convencimento da indústria da cesárea foi tão potente, tão manipulador e tão certeiro que tem (muita) gente que associa PN à pobreza, à gente desassistida, à gente que não tem acesso às “maravilhas” da ciência. Muita mocinha classe média por aí que adora elogiar as maravilhas da vida “civilizada” fora do Brasil, esquece que lá fora, entre os civilizados, a regra é PN. Pra todo mundo.

Aqui, virou “privilégio” ter sua barriga cortada desnecessariamente, passar por um procedimento cirúrgico arriscado desnecessariamente, ser privada de um momento de comunhão maravilhoso desnecessariamente.

Uma mistura de preconceito de classes com violência disfarçada de ciência.

Sou pela livre escolha da mulher, da parturiente, mas que livre escolha há, que livre escolha é possível, sem informação verdadeira e adequada? Como já disse no post anterior, manipulação é, com certeza, uma forma de violência.

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