Arquivo da tag: concentração

mas essa escola é diferente

(*)

sugiro clicar pra ampliar a linda ilustra do Decur (*)

“A nossa obra de adultos não consiste em ensinar, mas sim em ajudar a

mente infantil no trabalho de seu desenvolvimento”

Maria Montessori – “Mente Absorvente”

……………………………………………………………………..

“Mas sempre tem um que é diferente

Tem sempre um que até surpreende a gente”

Paulo Tatit – “O Rato”

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui o uniforme é qualquer roupa confortável. Calça de malha, shorts manchado, camiseta velha, camiseta nova, largona ou curtinha, e também vale só cueca, só calcinha, só fraldinha. Pés descalços, com chinelo, com crocs, só de meias, com tênis, sandália, sem nada, um pé de cada jeito. Pé no chão, pé na areia, pé no pedal, pé na água, pé no pé de fruta; pé dançante, pé pulante, pé veloz. Uniforme, aqui, pode ser tinta. É permitido usar o corpo como suporte para a arte. Menina não tem que usar rosa, nem menino só usa azul. Tem menina de camisetão e menino com saia rodada, girando pra lá e pra cá nas oficinas de dança ou nas histórias que se conta.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui a mochila desconhece personagem, só tem pano, papel não há. Não se carrega caderno ou livro didático. O conhecimento está do lado de fora e ainda nem foi escrito; está todo por ser descoberto, explorado, construído; está nas árvores, nos jogos com os colegas, no pedal da bicicleta; no purê de abóbora, no suco de romã, no abraço, no colo, nos afetos e vínculos, no presente que se ganha espontaneamente do amigo e no presente que se dá. E que não custa dinheiro, só demanda olhar, conexão, proximidade, um papel com canetinha ou tinta guache.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui não tem professor. Ou educador. Ou cozinheiro. Ou porteiro. Aqui tem gente de coração aberto para acolher a infância, para respeitar o outro, para estar presente sem interferir, para dar a mão sem indicar o caminho, para oferecer e oferecer-se. Gente capaz de desvestir a máscara dos títulos (porque eles não importam mesmo) e da “facilidade” da prepotência adultista para ser e estar e promover um ambiente em que as crianças sejam e estejam.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui tem concentração, muito prazer nas atividades e descobertas, criança trabalhando quieta e entregue naquilo que escolheu. Tem muita conversa, de pequeno com pequeno, de grande com pequeno, de grande com grande, de pequeno-com-pequeno-com-grande-com-pequeno-com-grande. E outra coisa que grassa por aqui é ouvido. A escola toda, pode-se dizer, é um ouvidão bem atento (não são as paredes só que têm ouvidos: todo mundo tem). Daqueles que principalmente escutam, ao invés de só ouvir. Tem olhos também. Brotam aos montes, em todo o lugar. Que veem, enxergam e reparam (como diz o Saramago).

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui a sala de aula é grande, é ampla, tem sacada, tem jardim, tem escada, refeitório, ateliê, quintal, um vaso com lavanda, um casal de sabiá. E amplia espaços, ao invés de se fechar. Não é gaiola. É asa. Aqui a porta está sempre aberta, e a criança escolhe onde ficar. Pode ser no grupo que está pintando ou no que vai começar a jogar, pode ser ouvir história, pode ser observar. Tem muito tempo de quintal, tem todo o tempo para brincar. Aqui brincar é coisa séria, como só criança consegue ser. Aqui criança tem autonomia, liberdade, é sujeito. Os limites –sim, eles existem- servem só para organizar, facilitar; jamais controlar, submeter, adequar. Limite aqui é leito de rio: ajuda a fluir. Mas a água segue livre pelo curso, que ela mesma vai fazendo (tal qual o caminhante) ao caminhar.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui criança não tem TDAH como se fosse gripe. Gripe, falando nisso, é outra coisa que quase não dá. O que dá muito por aqui é riso, gargalhada, grito, corre-corre, pega-pega, trepa-trepa. Tem umas brigas, umas negociações, umas explosões de raiva. Das naturais, das infantis.  Não carecem de remédio pra aquietar. Nada aqui, aliás, foi talhado para ser quieto. Tudo é movimento e tudo está em seu lugar.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui não tem festinha, não tem coreografia ensaiada, pasta com atividades pra pai ver de vez em quando.  Aqui pai e mãe estão dentro da escola o tempo todo. A fotografia é documental, tirada em tempo real. No sentido figurado, mas também no literal, na máquina fotográfica que registra as atividades e que muitas vezes é operada pela criança –que expressa-se a si mesma sem o olhar do adulto a escolher a hora de abrir o obturador. Aqui não tem apresentação de teatrinho, mas dá umas cenas lindas que dá vontade de filmar: abraços apertados e sinceros entre duas amigas depois das férias; um grupo tranquilo de crianças fazendo castelo de areia como se fosse praia (inclusive com raio oblíquo de sol, sombra de árvore protegendo cabecinhas e nada mais no corpo além de cueca, fralda e calcinha); outro grupinho apostando corrida de triciclo com circuito e regras que eles mesmos criaram –e respeitam, sem necessidade de sanção ou ameaça.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui não tem inglês, nem francês, nem alemão e tampouco japonês. Aqui ninguém é bilíngue de nascença, nem sabe escrever antes da hora. Palavra é coisa séria nessa escola. É pra ser dita, sentida, vivida, percebida, manipulada, saboreada, engolida, respirada, ouvida, tocada, corrida, pulada, dormida, abraçada, comida, digerida, cantada, brincada. Aqui não tem informática ou TV. E ninguém parece dar a mínima pra adultos bem sucedidos. Porque aqui, nessa escola, não é de tudo que dá. O que dá mesmo é infância, muita infância, ah, como dá.

(*) Do genial artista argentino Guillermo Decurgez. o Decur. Metáfora perfeita. Daqui ó.

Deixe um comentário

Arquivado em artes, bebezices, brincar, reflexões

um pouco de silêncio

Dia desses estávamos Enzo e eu no quarto dele. Ele havia pedido companhia para brincar com massinhas e também ajuda, pois uma delas fica guardada num pote plástico que o pequeno não estava conseguindo abrir sozinho (ainda me pergunto porque caracas brinquedos de criança vêm em embalagens que precisam de adultos para abrir/fechar…).

Quando o filho finalmente começou a manipular a massinha, ficou em silêncio. Fez menção de me perguntar alguma coisa, mas desistiu. Ficamos alguns segundos assim: ele mexendo num pedaço da massa, eu noutro. Então senti uma necessidade de falar alguma coisa, de perguntar, de sugerir, de interagir, de marcar presença. Como se simplesmente estar ali com ele não fosse interação suficiente. E como se o silêncio fosse insuportável. Fosse mais insuportável que os ruídos todos com os quais lidamos diariamente e com os quais nos acostumamos.

Cheguei a abrir a boca e puxar o ar para começar a falar. Cheguei a formar a frase na cabeça. “O que você quer fazer com essa massa? Precisa que eu te ajude a fazer uma bolinha?” (Notei que ele fazia movimentos como se quisesse formar uma bola, mas não estava conseguindo, segundo o que meus padrões escolarizados definem como “bola”, claro). Cheguei até a começar o gesto de estender a mão para oferecê-la, caso ele quisesse me de dar seu pedaço de massinha pra eu “consertar”.

E então, num segundo, antes de efetivamente fazer qualquer dessas coisas, concluir qualquer dessas ações, olhei para o meu filho. Olhei para o rosto dele, para suas mãos que não paravam, para seus olhos fixos na massinha. Foi estranho, porque parei de pensar. Simplesmente não pensei em nada por aqueles segundos. Só vi. Só enxerguei. Só senti. Como se houvesse uma interrupção no tempo/espaço e como se eu, suspensa, fora da cena, pudesse compreender completamente, para além do raciocínio, o que estava acontecendo ali entre o filho, a massinha e eu.

Senti o que ele estava sentindo. Senti como estava pleno, concentrando, entregue àquele momento, curtindo e sentindo prazer na manipulação daquele objeto. Percebi como estava numa espécie de espaço/tempo diferente do meu. Porque eu ficava elucubrando um monte de coisas na cabeça, ansiosa, tensa, tentando prever se ele precisaria de ajuda ou tentando preencher alguma coisa com a fala.

Enzo, no entanto, já estava preenchido; presente naquele contato com aquela massinha. Ele estava no presente, naquele quarto. Eu não: estava na minha cabeça, pensando, pensando, pensando.

Então, de repente, quando percebi tudo isso, não havia mais necessidade de falar nem de fazer nada nem de pensar nada. Parei tudo: a fala, o gesto, os pensamentos. E me entreguei como ele ao contato com a massinha que estava nas minhas mãos. Fiquei ali, só manipulando, sem intenção alguma, sem “construir” nada, só sentindo a sensação de mexer naquele material. Só sentindo a presença do meu filho; só estando. Ele e eu, estando juntos. No silêncio. Por uns 20 minutos, talvez mais. Ficamos ali, cada um do seu jeito, compreendendo e vivendo aquele momento, aquelas sensações.

Entendi –não racionalmente, pois não racionalizei essa nova compreensão naquele momento– que as palavras são muitas vezes desnecessárias. Mais que isso: atrapalham. Eu teria atrapalhado a entrega do Enzo àquele presente, àquele momento, se tivesse dito qualquer coisa.

Já tinha lido muitas vezes que criança, por natureza, se estiver sentindo-se bem e equilibrada, é do silêncio. Brinca em silêncio, trabalha em silêncio, aprecia o silêncio. Encontrei afirmações desse tipo em muitas fontes diferentes, de Maria Montessori e Ana Thomaz a Carlos González. Tem momentos para extravasar, óbvio, em que os pequenos gritam, cantam alto, riem abertamente. Mas há muitíssimos outros momentos, quando, segundo Montessori, acham o que querem fazer, em que o silêncio não só é suficiente como é necessário, absorvidos que estão pela atividade “ideal” para aquela situação.

Acontece que toda essa informação racional só fez sentido, só foi completamente compreendida, apreendida, percebida por mim quando todo o cognitivo aprendeu também. Só fez sentido quando eu senti o significado do silêncio para o Enzo. E, uma vez sentida a informação, aí sim foi lá ser “validada” pelo racional, que já tinha o argumento na ponta da língua.

A partir desse dia, desses minutos brincando em silêncio, mais presente do que nunca ao lado do Enzo, mesmo muda, mesmo “na minha”, mesmo sem “interagir” com ele no sentido mais objetivo do termo, comecei a reparar muito mais no que e quando falava com meu filho. E na atitude de outras pessoas com ele e até de outros pais com seus próprios filhos.

***********

 1)

Um menino, de uns 4 ou 5 anos, estava brincando de amarelinha. Feliz da vida, completamente alheio ao que acontecia ao redor. Do jeito dele, da forma que ele queria: pulando aleatoriamente os números, contando, andando por sobre os desenhos, dando saltinhos quando bem entendia, fingindo que caía e por aí vai. Até que o pai, quando se deu conta de como a criança brincava, resolveu “corrigir” o filho, que brincava “errado”. E começou, à princípio, sutilmente, com perguntas do tipo: “Você sabe que tem que pular desse e desse jeito?” ou “Por que você não faz assim ó? (demonstrando como “deve ser”).

Como a criança não estava dando muita bola para o pai e se limitava a fazer o que ele pedia no momento em que pedia para, logo em seguida, brincar como estava brincando antes, o adulto não se conteve e começou a efetivamente explicar e dirigir completamente a brincadeira. Pegou uma pedra ele mesmo, jogou a pedra num número ele mesmo, virou-se para o filho: “agora você tem que ir pulando assim e assim (demonstrando) até a pedra”. O menino, imóvel, olhava o pai. “Vai, vai, vai!”, o pai dizia, gesticulando.

O menino foi, visivelmente deslocado, sem muita convicção, sem entender porque cara@#&*  precisava parar de se divertir para ficar pulando pedrinhas. E o pai ainda assim não estava satisfeito. Continuava a “corrigir” o brincar do filho, cada vez mais impaciente, cada vez falando mais alto, dando mais ordens. Suspirava quando o menino não “acertava” o pulo –com um pé só ou dois.

Depois de tentar de tudo para agradar o pai, ainda que estivesse obviamente se desagradando, a criança simplesmente deixou de brincar e foi sentar-se num canto. Fosse um temperamento um pouco mais “forte”, o menino ao invés de se isolar talvez começasse a “incomodar” os adultos com comportamentos “ruins”. Aí diriam que ele é malcriado, que faz manha, birra, dá chilique. “Não sei o que tem esse menino. Não obedece nunca”. Superativo, precisa de ritalina. Sei…

**********

2)

Uma mulher e um garotinho brincavam juntos num Sesc. Não sei bem o parentesco entre eles, mas eram parentes. Ou ela era avó ou tia. Haviam pedido diversos brinquedos, alguns com números, outros de montar e ainda alguns jogos de adultos. O menino estava brincando fazia um bom tempo com um único deles, não me lembro bem qual.

Mas a acompanhante dele encasquetou que ele deveria parar o que fazia para brincar com o das peças de montar. “Olha, Fulano, vamos fazer um carrinho?”. E aí ela fazia, o menino assistia para, logo depois voltar ao brinquedo original. “Fulano, aqui tem esse ó, dá pra montar um monte de coisas legais”. Menino ainda na dele. A moça esperava um pouco e retomava a artilharia: “Que tal a gente brincar com esse de montar?”

Não interessa muito as razões dela. O menino estava seguro com o brinquedo que queria. As escolhas dele deveriam ter sido respeitadas. E estava óbvio que ele não queria brincar de montar nada. No fim das contas, de tanta insistência, o pequeno cedeu e foi montar sei-lá-o-quê com a tia/avó.

**********

3) 

Avó leva a neta de quatro anos num parquinho. A menina é inteligente e articulada para a idade. A avó, toda orgulhosa, me explica que é porque a menina é “superestimulada” pelos pais, dois professores universitários que investem tudo na educação integral da criança e que, em casa, ainda insistem em “puxar” a menina, oferecendo sempre atividades artísticas e de lazer que possam “contribuir” para o “aprendizado”.

Além de articulada, a menina tem muita energia e imaginação. Logo transforma o tanque de areia em piscina. Quando a avó percebe, vai lá “ajudar” e “superestimular” a neta, que está concentrada, brincando e falando consigo mesma. Quer dizer, estava, até a avó aparecer: “nossa, que piscina grande! Deixa eu ver se a água está boa (fingindo colocar os pés na areia-água)”. E continua: “o que você está fazendo? Por que você não atravessa a piscina nadando? Vem até aqui nesta margem nadando que eu vou marcar seu tempo (!!!)” “Poxa, como você nada bem! Que tal mergulhar agora?”.

A menina não brincou sozinha, não inventou situações. Viveu apenas as fantasias da avó, que não parou de dirigir a brincadeira da neta até elas irem embora, duas horas depois.

Todas essas situações relatadas acima são reais, presenciadas recentemente.

**********

Não fazemos isso por mal. Nem eu nem o pai ou a tia/avó ou a avó. Mas atrapalhamos um bocado mesmo sem querer. Tiramos a liberdade, a tranquilidade e a energia das crianças.

Não conseguimos respeitar a conexão delas com o agora, com o que estão fazendo (talvez porque não tenham respeitado a nossa e porque tenham nos ensinado a nos desconectar desde muito cedo). Atrapalhamos. Muito. O tempo todo. É enlouquecedor.

Comecei a ficar muito incomodada. Irritada mesmo. Só de ver. Só de ouvir.

Fico imaginando como se sentem as crianças com tanta gente tagarelando, interrompendo os fluxos naturais de concentração e o prazer de estar presente numa atividade que tenha despertando interesse.

E em boa parte das vezes, fazemos pior: além de atrapalhar falando, a fala em si pretende dirigir as ações dos menores. Sugerimos que prestem atenção nisso ou naquilo (e não no que eles já estão prestando atenção); que façam de um jeito “certo”, pois pretendemos “ensinar” como se “faz” ou simplesmente fazer com que façam aquilo que achamos que devem fazer, não o que querem fazer.

**********

Comecei a tomar o caminho inverso. Falo cada vez menos com Enzo –e, creia-me, já é muito. Quando estamos juntos brincando, sempre espero que ele tome a iniciativa de falar comigo. Se me perguntou algo, só respondo. Se a conversa continuar, será porque ele quis. Antes de abrir a boca, olho, olho, olho e olho mais uma vez e olho de novo. Para ter certeza absoluta de que não estou interrompendo nada. Não interfiro nas brincadeiras dele, não sugiro nada. Todos os brinquedos dele estão acessíveis em diversos cômodos da casa. Outros utensílios com os quais goste de brincar, idem. Não sou eu quem vai achar ou sugerir ou estimular o que fazer. Essa é uma prerrogativa dele. Meu papel é “apenas” garantir que ele tenha atividades adequadas à mão. E que esteja bem emocionalmente para ouvir a si mesmo e achá-las.

Ainda escorrego muitíssimo, porque sou tagarela. Mesmo. E adoro isso. Mas agora sei –em diversos níveis, não apenas racionalmente– como é que a coisa toda deve ser. Ter me permitido experimentar a massinha, ter procurado sentir a emoção do Enzo, está sendo essencial nesse processo. E, em contrapartida, tenho aprendido muito nessa observação. Tenho aprendido –ou me lembrado de– como é bom a entrega a uma tarefa que te enche de vida e te absorve e te coloca em contato com tudo e com nada ao mesmo tempo. As crianças são mesmo geniais. Estou tentando não estragar isso.

**********

Para ler mais a respeito desse assunto, recomendo muito:

-Esse post aqui, do Marcelo Michelsohn;

-O Lar Montessori, do Gabriel Salomão, e em especial esse post;

-O encontro com o silêncio da Ana Thomaz

5 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões