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o momento especial

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Recentemente, fiz um curso para aumentar a conexão e melhorar a relação com meu filho, organizado pelo Marcelo Michelsohn e baseado em princípios de “parenting by conection” (dê uma olhada no site da organização Hand in Hand Parenting, da Patty Wipfler) e de educação ativa (Margarita Valencia, Rebeca Wild e a experiência no Pestalozzi do Equador).

Marcelo é “pai ativo” há alguns anos e está reorganizando novamente a vida profissional para compartilhar suas experiências e aprendizados com outros pais e –principalmente– para estar mais presente na vida dos dois filhos pequenos. Fiz uma entrevista recente com ele, publicada no Mamatraca, que pode ser lida aqui ó.

Optei pelo curso –depois de virar leitora assídua do blog do Marcelo– principalmente porque a “fase da birra” é mesmo extenuante emocionalmente (para os filhos principalmente, sejamos sinceras, mas nós sucumbimos primeiro, afinal nunca nos ensinaram a lidar com nossas próprias emoções), e eu estava me tornando a mãe que se afasta ou a mãe que chilica, ambas opostas à mãe que desejo ser e que meu filho merece -e de que precisa.

Curso ótimo, me ensinou muito sobre as crianças, sobre como lidam com sentimentos, sobre como evidenciam nós que os adultos ainda precisamos resolver em nossas próprias bases emocionais e padrões mentais, sobre como se comunicam e sobre do que precisam. 

Plus é que Marcelo dá diversas referências para quem quiser se aprofundar. Já assisti a um webnário da Patty Wipfler e estou lendo –com muito entusiasmo, porque é ótimo– o “Etapas del desarrollo” (estapas do desenvolvimento) da Rebecca Wild. Vai virar uma resenha pro blog, mas, desde já, recomendo.

Dentre muitas práticas cotidianas que Marcelo apresenta e sugere que usemos na relação com nossos filhos, há uma chamada “Momento Especial“, que consiste em oferecer aos filhos (a um deles de cada vez) algum tempo diário de atenção exclusiva, de forma presente e entusiasmada, vivendo, de fato, o presente (quem leu Laura Gutman ou Carlos González vai se lembrar de que eles sugerem coisas do tipo também). Nesse momento, vale fazer qualquer coisa que o filho queira. Ele manda na pauta.

Não há exatamente um objetivo com essa ação, faz-se pelo processo: estar com os filhos, demonstrar interesse genuíno, compartilhar momentos importantes, conectar-se. No entanto, arrisco que há –digamos– efeitos colaterais, tais como aproximar pais e filhos, aumentar a intimidade, a confiança, a compreensão, a comunicação.

Comecei a fazer isso com o meu filho há cerca de dois meses e quero relatar o que aconteceu já na minha primeira experiência, porque foi muito surpreendente e revelador.

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Faz um tempo que percebi que quando começamos bem o dia, tendo estado juntos de fato ao acordar, as coisas fluem muito mais facilmente ao longo do dia, tanto pra mim quanto pro filho. Então resolvi ir por esse caminho e oferecer um tempo só pra ele, logo cedo.

Expliquei a ele que teríamos quinze minutos pra fazer qualquer coisa que ele quisesse. O primeiro pedido: “vamos sair!” Argumentei que não daria tempo, que ele escolhesse algo para fazermos em casa. “Ler o ‘Livro da Chuva’”(**), pediu. Sentamos no sofá e imediatamente ele mudou de ideia: “Mamãe, quélo pintar o sofá com giz pastel”.

Isso veio à tona porque ele havia ganhado o giz pastel dois dias antes, quis desenhar no sofá assim que abriu a embalagem,  não deixei. Na hora em que neguei, ficou bravo, jogou vários longe, mas não chorou.

No dia dessa primeira experiência de Momento Especial, novamente trouxe essa proposta, respondi que usamos apenas papel para pintar. Sugeri colocarmos as folhas sobre o sofá. Ele saiu bravo.  Mas não chorou. Insisti no limite. Se fechou no meu quarto, me mandou embora, mas não chorou. Agachei e fique do lado de fora, porta encostada, falando que ficaria ali esperando por ele. Baixou a guarda, abriu a porta, sentou no meu colo. Quis saber por que não poderia pintar com giz no sofá. Não falei muito (hoje sei que explicar não é tão bacana para crianças pequenas), mas expliquei. Ele se satisfez, voltou pro sofá querendo novamente ler o “Livro da Chuva”.

Zerei o cronômetro e resolvi recomeçar o Momento Especial. Pegamos o livro e li duas ou três vezes, conforme ele foi pedindo “mais”. Na hora em que anunciei que teria de levantar para terminar o meu café e para começar minhas tarefas do dia, ele, contrariado, reparou no barulho do chuveiro (marido estava tomando banho para sair) e começou o diálogo inesperado:

“Ah, mamãe, não! O papai está tomando banho! Não quélo que ele tome banho!”

Antes do curso, talvez eu tomasse isso como um pedido deslocado ou achasse simplesmente que ele implicou com o chuveiro ou com o banho ou com o pai sem motivo aparente. Talvez achasse que implicou com qualquer coisa para tentar “atrasar” a retomada das minhas tarefas. Talvez eu ficasse intimamente irritada. Não que fosse deixá-lo falando sozinho, mas certeza que não continuaria o diálogo tão tranquila e tão presente quanto fiz nessa ocasião.

“Por que não, filho?”

“Por que ele vai trabalhar! Não quélo que ele trabalhe!”

“Você sente falta do papai durante o dia?”

“É!”, disse, quase chorando.

“Queria que ele ficasse em casa?”

“É.”

“O que você gostaria de fazer com ele se ele pudesse ficar?”

“Brincar de ‘papai bagunçou’” (é uma brincadeira só deles. Eles vão pro meu quarto, geralmente quando Dri chega à noite, e bagunçam tudo enquanto fingem arrumar minha cama. Fazia muito tempo que não brincavam disso, retomaram justamente duas noites antes do Momento Especial).

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Foi assim, sem mais nem menos, que meu filho verbalizou a saudade que sente do pai, coisa que nunca fez. Foi assim também que deixou entrever como sentiu falta do pai nesse período em que eles pararam a brincadeira (ficaram uns bons meses sem brincar de “papai bagunçou”).  A gente vinha reparando que Dri e ele estavam se afastando. E por isso resolvemos retomar a brincadeira noturna diariamente. Mas não imaginei que o efeito “reconectador” fosse tão imediato, que o “papai bagunçou” fosse assim tão importante para a relação deles.

E só fiquei sabendo disso porque, surpreendentemente pra mim, logo no primeiro Momento Especial, Enzo já se sentiu à vontade para dividir esses sentimentos. E fui para esse encontro com ele sem expectativa de coisa nenhuma. Não esperava nem que a gente realmente conseguisse fazer um momento relaxado e verdadeiramente especial logo na primeira tentativa. Porque parece meio óbvio que as crianças precisam desses momentos de dedicação exclusiva e entusiasmada. Mas dificilmente a gente consegue fazer isso normalmente. A gente se dedica pacas aos filhos, mas, em geral, fazendo outra coisa, como trabalhar pra pagar a escola, preparar o almoço, dar um banho, fazer as compras de alimentos etc.

Num dos trechos que mais me marcaram em “A maternidade e o encontro com a própria sombra“, da Gutman, ela desafia os pais a: 1) lembrarem quando foi que conseguiram passar ao menos 15 minutos dedicando-se integralmente e entusiasmadamente aos filhos, sendo companhia pra eles e 2) passarem esses 15 minutos, ao menos, diariamente com os pequenos. Foi a primeira vez –quando li esse trecho– que me dei conta que estar presente é muito diferente de ser presente, de oferecer presença, de fazer-se presente do ponto de vista da criança.

O que ficou muito claro dessa experiência inicial do Momento Especial pra mim é que as crianças sabem perfeitamente como se comunicar, como se expressar. Precisam apenas sentir que há ouvidos. E essa segurança, essa sensação, está diretamente ligada ao vínculo, à conexão, à qualidade da relação em cada momento. A criança precisa sentir que está amparada pra abrir o coração (como todos nós, aliás). E essa abertura não se dá num momento pré-determinado, como muitas vezes com adultos, mas no momento em que a criança sente a conexão mais potente. Por exemplo depois de uma entrega mater/paterna genuína, integral, entusiasmada, como é o caso do que se faz no Momento Especial.

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(*) A imagem vem daqui (loja do Etsy) e é uma aquarela da artista israelense Liz Kapiloto.

(**) “Livro da Chuva” é como meu filho chama o “Poesia na Varanda“, de Sonia Junqueira e Flavio Fargas.

 

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a infância que não cabe na TV

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A gente até sabe que a Academia Americana de Pediatria (AAP, na sigla em inglês) recomenda que bebês até 24 meses não assistam à TV e que crianças a partir dos dois anos vejam, no máximo, duas horas diárias de programação televisiva. A gente até sabe que os argumentos principais da AAP para essa restrição fazem sentido. Segundo pesquisas daquela academia, ficou evidente que a TV prejudica a sociabilização das crianças com suas famílias, atrapalha a aquisição da linguagem e está no pacote do estilo de vida causador, em crianças, de doenças como obesidade, hipertensão e diabetes tipo 2.

Se isso já não fosse motivo suficiente, tem mais: psicólogos têm apontado que o uso insistente das telas (**) diminui a concentração e a capacidade criativa das crianças. Tem textos interessantes para se começar a pensar sobre esse efeito aqui, aqui e aqui também. O tédio e o ócio, tão próprios da infância e tão importantes para o livre brincar e o desenvolvimento dos pequenos, são bastante prejudicados quando a criança fica boa parte de seu tempo diante de dispositivos eletrônicos. Para se entendiar a ponto de criar a partir disso, é preciso não ter distrações. Para ter tempo livre e “fazer nada” a ponto de achar algo realmente interessante pra fazer (e até para poder descobrir o que é interessante naquele momento), não se pode estar inerte diante de um aparelho que faz quase tudo sozinho.

Tudo o que vem pronto para a mão dos pequenos tira deles a possibilidade de experimentar, de criar. E é nessa experimentação, nessa criação, que eles são, que eles vivem.

Essa infância, a infância potencializadora, livre, plena, essa não cabe na caixa. Não cabe na TV (nem na escola, mas esse é outro assunto). Essa simplesmente não cabe nesse modelo de vida que a gente leva (outro assunto que rende). A infância da TV é a infância do entretenimento. E entretenimento não goza de muito boa reputação por aqui (“distração”, diz o dicionário. E quem disse que distração é coisa boa?).

Mas, o caso é que, no dia a dia, na realidade dos nossos afazeres e das nossas muitas limitações (inclusive de espaço, uma vez que muitos de nós moramos em apartamentos cada vez mais minúsculos), acabamos por fazer concessões a muitas coisas, inclusive à TV e às telas.

Aqui não foi diferente, especialmente quando comecei a lidar, ao mesmo tempo, com as tarefas do trabalho e com as tarefas de mãe. Como fazer uma entrevista de 40, 50 minutos com a cria chorando, querendo atenção e brincadeira? Liga a TV! Dá o celular para ele brincar! Bota um joguinho no tablet! Tudo errado, eu sei.

Resultado disso é que parte dessas coisas que eu só lia em teoria, estou vendo acontecer aqui em casa. Responsabilidade minha, meu pequeno, se eu deixar, passa o dia diante da TV. Justo ele que, há poucos meses, só assistia a programas com muita, muita insistência. Nós passávamos o dia inteiro com a tela desligada. O.Dia.Inteiro.Sem.Nadica.De.TV. Enzo nem se aproximava dela. E brincava, como brincava. Com tudo e qualquer coisa, das panelas, tampas, colheres e utensílios aos brinquedos, gizes de cera e papéis.

Nem parece o mesmo garoto que, agora, acorda e vai logo pedindo  “qué vê o Mêique” (no caso, o Mr. Maker, aquele programa inglês ótimo –só que ao contrário– de “artes” [hã hã] para crianças). Nem parece o mesmo que se planta diante da TV pra ver Sid ou DVD do Palavra Cantada ou qualquer coisa que esteja passando.

Enzo se desinteressou pelos utensílios domésticos, pelos não-brinquedos tão interessantes que sempre chamaram a atenção dele e desenvolveram sua criatividade; se desinteressou por vagar pela casa à cata do que fazer. Ele brinca muito, mas brinca melhor com a TV ligada, no melhor estilo “um olho no peixe, outro no gato”. As brincadeiras todas agora envolvem o Maker e o Sid. Ele continua criativo, mas a criatividade deles agora se baseia no que vê na TV. Cria a partir do Maker, a partir do Sid, a partir do Palavra Cantada. A TV virou sua referência.

Um dia, cheguei na sala e vi uma cena que me chocou profundamente: Enzo sentadinho, comportadinho, perninhas cruzadas, tão absorvido, mas tão absorvido, que não piscava! Não me viu ali –e olha que eu fiquei um tempão parada, chamando a atenção, falando. Ele nem olhou. Estava igual ao Calvin e ao Haroldo da tirinha aí de cima.

Que desperdício de talento, que desperdício de vitalidade, que desperdício de energia criadora, que desperdício de criatividade. Crianças não foram desenhadas para não criarem, para receberem a coisa criada pronta. É da natureza deles gerar coisas. É na geração, na fabulação, na invenção, na reprodução, na ressignificação, na construção/descontrução que eles se conhecem, olham pra si mesmos, constroem sua autoestima, desopilam, extravasam frustrações, se divertem, sentem prazer, curtem a vida, aprendem, crescem, se sociabilizam, questionam e se estimulam. É um ciclo virtuoso. Que a TV quebra. Vi isso acontecer aqui, é evidente. TV não é inofensiva.

E eu, que sempre fui favorável a oferecer pouca TV, mas que cheguei a julgar “exagerados” alguns pais que criaram os filhos sem o acesso nenhum ao aparelho, estou revendo muita coisa porque a prática que eu vi, vejo e estou vivendo aqui em casa me mostrou que a teoria faz todo o sentido.

Também estou num momento de revisão de valores, de questionar “verdades” que são tomadas como “universais” e “naturais” da condição humana (e nem estou falando dos “ismos” –machismo, racismo, sexismo–, mas de coisas bem mais profundas e ancestrais, talvez originárias dos preconceitos todos).

Tenho descoberto, gratidão especial à Ana Thomaz e ao Humberto Maturana, que muito do que a gente acha que é uma característica humana ou uma manifestação da condição humana, válida para todos os seres humanos no planeta, na verdade, é uma construção social. Ou consequência de padrões socialmente definidos pela nossa civilização. Daí concluí que, se é uma construção social e não faz sentido (como muitas dessas construções não fazem sentido pra mim), pode ser simplesmente desconstruída. Não no mundo lá fora. Mas aqui, na minha casa, na minha vida, no meu dia a dia.

E, nesse contexto, é ainda mais importante não atrapalhar o processo criativo do meu filho e a comunicação livre e fluida que ele tem com ele mesmo, característica de todas as crianças, justamente porque ainda não foram “educadas”, enquadradas, encaixadas, “socialmente construídas”.

Tamo junta, Mafalda! (***)

Tamo junta, Mafalda! (***)

[Tem um post interessante, recente, da Ana, que fala um pouco sobre isso. Não sobre TV, mas sobre a capacidade de conexão das crianças. Recomendo. Vá por aqui]

Então estou colocando em prática umas adaptações à nossa rotina para diminuir a exposição do Enzo à TV. Para começar, estou tentando observar e registrar o tempo em que a TV fica ligada, para ter ideia de em que pé estamos quanto ao consumo das telas. Sinceramente, não faço ideia de por quanto tempo o pequeno fica exposto.

O segundo passo é entender o percentual de atenção exclusiva que Enzo concede à TV. Porque, em geral, ele pede para ligar, assiste por dez, 15 minutos, e vai fazer outra coisa. O aparelho fica ligado, a pedido dele, que de vez em quando volta para dar uma olhadinha. Mas boa em parte desse período, ele está fazendo outra atividade.

Não que isso mude muita coisa. TV ligada é TV ligada. O caso é que eu quero entender bem a dinâmica dele com o aparelho para descobrir quais necessidades estão sendo transferidas para as telas.

Outro passo é me estruturar melhor para: 1) ter condições de sair com ele de casa para atividades ao ar livre (ou em outros ambientes) todos os dias e 2) poder oferecer alternativas verdadeiramente interessantes. Muitas delas dependerão mais de mim do que depende o consumo das telas.

Não quero proibir. Não acho proibição eficiente. E –o principal– é uma violência, um desrespeito, uso do poder e da força. Estou procurando não usar o poder com ele. De modo que a ideia não é que eu limite, mas que eu proporcione um ambiente tão bacana e adequado a ele que o filho mesmo prefira outras atividades mais instigantes.

Que TV que nada! Criança gosta mesmo é de criar

Que TV que nada! Criança gosta mesmo é de criar

Hoje, por exemplo, a TV ficou ligada na parte da manhã e num pedaço da tarde. Depois do almoço, ele me pediu para pintar com as tintas guache que ganhou ontem e deu muito certo. Esqueceu completamente da TV e passou a tarde todinha (e uma parte de noite: só topou tomar banho às 2oh!) pintando. Conectado, entregue, feliz, muito feliz. Nem sombra de irritação, aquela irritação de tédio que ele tem com frequência quando fica muito tempo vendo TV (ou fazendo alguma coisa vazia, que preenche tempo, mas não a necessidade dele).

Sei que é bem possível que ele reduza seu interesse pelas telas, porque sei que eu “viciei” Enzo em TV; porque já tivemos uma experiência semelhante com celular (em restaurantes, ele só parava quieto mexendo no aparelho. Hoje, basta levar giz e papel); porque criança não precisa nem gosta genuinamente de TV (ou das telas). O aparelho é apenas sedutor e fácil.

Para nós, acho que o caminho é esse. Sem pressa. Sem cobranças –nem de mim para mim, tampouco de mim para ele. Aproveitando o processo. 

(*) A tirinha do “Calvin e Haroldo” eu peguei daqui.

(**) Para este texto, “telas” (celular, tablet, notebook, desktop, games e congêneres) e “TV” são quase sinônimos. Tudo o que escrevi sobre a última, vale para as primeiras.

(***) A tirinha da “Mafalda” (Quino é um gênio!) veio daqui ó.

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da série #maedemerda {#1}: ele só quer presença

Ele só quer presença, só quer que eu esteja por perto, conectada. A proximidade física é irrelevante se não houver proximidade emocional e, como disse a Ana Thomaz (vídeo imperdível, acesse por aqui e ou veja no fim do post), as crianças ouvem o que a gente sente, não o que a gente fala.

Mas acontece que tem dias em que eu não quero e/ou não posso ser essa mãe presente. Ou porque estou mesmo sem disposição para ficar sentada ao lado dele brincando ou porque estou a fim de terminar de ler aquele livro ou porque simplesmente tenho alguma tarefa para cumprir.

{Parêntese rápido: a Gutman já tinha dito que a fase fusionada, mãe-filho-uma-coisa-só, começa a afrouxar lá pelos dois anos dos pequenos. E aí interesses da mãe que ficaram suspensos no período de fusão vão, aos poucos, ganhando importância novamente. Estamos nesse momento por aqui}

Nesses dias, ele briga muito. Não consegue me conceder esse espaço, talvez porque seja ele quem precise das minhas concessões, não o contrário. Exige –não pede– ainda mais presença do que normalmente. Chora muito, grita muito, me puxa, tenta me bater, se joga no chão, arremessa as coisas longe, chora com raiva, chora de impotência, depois chora sentido.

E aí eu erro e falho duplamente: nem presente, nem firme. #maedemerda vezes dois: eu, que sei que ele só quer a mim –mas sei também que preciso ensiná-lo a não agir com essa agressividade toda–, acabo culpada, sem convicção para educar meu filho, para mostrar a ele que não vai obter o que quiser se comportando dessa forma. Eu tento. Mas, em geral, ou perco a paciência e, mesmo me contendo, acabo agindo de forma impositiva e agressiva especialmente na linguagem corporal e no tom de voz (o que frustra todo o processo e vira um anti-exemplo) ou fico com dó por achar (saber?), lá no fundo, que tudo o que ele quer é presença. A minha presença. Que eu nego, mesmo quando cedo e sento junto. Porque meu filho está ouvindo o que sinto e sabe que não estou lá.

*O vídeo imperdível da Ana Thomaz (dura mais de 60 minutos, mas eu recomendo muito, já vi e revi inúmeras vezes):

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