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um pouco de silêncio

Dia desses estávamos Enzo e eu no quarto dele. Ele havia pedido companhia para brincar com massinhas e também ajuda, pois uma delas fica guardada num pote plástico que o pequeno não estava conseguindo abrir sozinho (ainda me pergunto porque caracas brinquedos de criança vêm em embalagens que precisam de adultos para abrir/fechar…).

Quando o filho finalmente começou a manipular a massinha, ficou em silêncio. Fez menção de me perguntar alguma coisa, mas desistiu. Ficamos alguns segundos assim: ele mexendo num pedaço da massa, eu noutro. Então senti uma necessidade de falar alguma coisa, de perguntar, de sugerir, de interagir, de marcar presença. Como se simplesmente estar ali com ele não fosse interação suficiente. E como se o silêncio fosse insuportável. Fosse mais insuportável que os ruídos todos com os quais lidamos diariamente e com os quais nos acostumamos.

Cheguei a abrir a boca e puxar o ar para começar a falar. Cheguei a formar a frase na cabeça. “O que você quer fazer com essa massa? Precisa que eu te ajude a fazer uma bolinha?” (Notei que ele fazia movimentos como se quisesse formar uma bola, mas não estava conseguindo, segundo o que meus padrões escolarizados definem como “bola”, claro). Cheguei até a começar o gesto de estender a mão para oferecê-la, caso ele quisesse me de dar seu pedaço de massinha pra eu “consertar”.

E então, num segundo, antes de efetivamente fazer qualquer dessas coisas, concluir qualquer dessas ações, olhei para o meu filho. Olhei para o rosto dele, para suas mãos que não paravam, para seus olhos fixos na massinha. Foi estranho, porque parei de pensar. Simplesmente não pensei em nada por aqueles segundos. Só vi. Só enxerguei. Só senti. Como se houvesse uma interrupção no tempo/espaço e como se eu, suspensa, fora da cena, pudesse compreender completamente, para além do raciocínio, o que estava acontecendo ali entre o filho, a massinha e eu.

Senti o que ele estava sentindo. Senti como estava pleno, concentrando, entregue àquele momento, curtindo e sentindo prazer na manipulação daquele objeto. Percebi como estava numa espécie de espaço/tempo diferente do meu. Porque eu ficava elucubrando um monte de coisas na cabeça, ansiosa, tensa, tentando prever se ele precisaria de ajuda ou tentando preencher alguma coisa com a fala.

Enzo, no entanto, já estava preenchido; presente naquele contato com aquela massinha. Ele estava no presente, naquele quarto. Eu não: estava na minha cabeça, pensando, pensando, pensando.

Então, de repente, quando percebi tudo isso, não havia mais necessidade de falar nem de fazer nada nem de pensar nada. Parei tudo: a fala, o gesto, os pensamentos. E me entreguei como ele ao contato com a massinha que estava nas minhas mãos. Fiquei ali, só manipulando, sem intenção alguma, sem “construir” nada, só sentindo a sensação de mexer naquele material. Só sentindo a presença do meu filho; só estando. Ele e eu, estando juntos. No silêncio. Por uns 20 minutos, talvez mais. Ficamos ali, cada um do seu jeito, compreendendo e vivendo aquele momento, aquelas sensações.

Entendi –não racionalmente, pois não racionalizei essa nova compreensão naquele momento– que as palavras são muitas vezes desnecessárias. Mais que isso: atrapalham. Eu teria atrapalhado a entrega do Enzo àquele presente, àquele momento, se tivesse dito qualquer coisa.

Já tinha lido muitas vezes que criança, por natureza, se estiver sentindo-se bem e equilibrada, é do silêncio. Brinca em silêncio, trabalha em silêncio, aprecia o silêncio. Encontrei afirmações desse tipo em muitas fontes diferentes, de Maria Montessori e Ana Thomaz a Carlos González. Tem momentos para extravasar, óbvio, em que os pequenos gritam, cantam alto, riem abertamente. Mas há muitíssimos outros momentos, quando, segundo Montessori, acham o que querem fazer, em que o silêncio não só é suficiente como é necessário, absorvidos que estão pela atividade “ideal” para aquela situação.

Acontece que toda essa informação racional só fez sentido, só foi completamente compreendida, apreendida, percebida por mim quando todo o cognitivo aprendeu também. Só fez sentido quando eu senti o significado do silêncio para o Enzo. E, uma vez sentida a informação, aí sim foi lá ser “validada” pelo racional, que já tinha o argumento na ponta da língua.

A partir desse dia, desses minutos brincando em silêncio, mais presente do que nunca ao lado do Enzo, mesmo muda, mesmo “na minha”, mesmo sem “interagir” com ele no sentido mais objetivo do termo, comecei a reparar muito mais no que e quando falava com meu filho. E na atitude de outras pessoas com ele e até de outros pais com seus próprios filhos.

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 1)

Um menino, de uns 4 ou 5 anos, estava brincando de amarelinha. Feliz da vida, completamente alheio ao que acontecia ao redor. Do jeito dele, da forma que ele queria: pulando aleatoriamente os números, contando, andando por sobre os desenhos, dando saltinhos quando bem entendia, fingindo que caía e por aí vai. Até que o pai, quando se deu conta de como a criança brincava, resolveu “corrigir” o filho, que brincava “errado”. E começou, à princípio, sutilmente, com perguntas do tipo: “Você sabe que tem que pular desse e desse jeito?” ou “Por que você não faz assim ó? (demonstrando como “deve ser”).

Como a criança não estava dando muita bola para o pai e se limitava a fazer o que ele pedia no momento em que pedia para, logo em seguida, brincar como estava brincando antes, o adulto não se conteve e começou a efetivamente explicar e dirigir completamente a brincadeira. Pegou uma pedra ele mesmo, jogou a pedra num número ele mesmo, virou-se para o filho: “agora você tem que ir pulando assim e assim (demonstrando) até a pedra”. O menino, imóvel, olhava o pai. “Vai, vai, vai!”, o pai dizia, gesticulando.

O menino foi, visivelmente deslocado, sem muita convicção, sem entender porque cara@#&*  precisava parar de se divertir para ficar pulando pedrinhas. E o pai ainda assim não estava satisfeito. Continuava a “corrigir” o brincar do filho, cada vez mais impaciente, cada vez falando mais alto, dando mais ordens. Suspirava quando o menino não “acertava” o pulo –com um pé só ou dois.

Depois de tentar de tudo para agradar o pai, ainda que estivesse obviamente se desagradando, a criança simplesmente deixou de brincar e foi sentar-se num canto. Fosse um temperamento um pouco mais “forte”, o menino ao invés de se isolar talvez começasse a “incomodar” os adultos com comportamentos “ruins”. Aí diriam que ele é malcriado, que faz manha, birra, dá chilique. “Não sei o que tem esse menino. Não obedece nunca”. Superativo, precisa de ritalina. Sei…

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2)

Uma mulher e um garotinho brincavam juntos num Sesc. Não sei bem o parentesco entre eles, mas eram parentes. Ou ela era avó ou tia. Haviam pedido diversos brinquedos, alguns com números, outros de montar e ainda alguns jogos de adultos. O menino estava brincando fazia um bom tempo com um único deles, não me lembro bem qual.

Mas a acompanhante dele encasquetou que ele deveria parar o que fazia para brincar com o das peças de montar. “Olha, Fulano, vamos fazer um carrinho?”. E aí ela fazia, o menino assistia para, logo depois voltar ao brinquedo original. “Fulano, aqui tem esse ó, dá pra montar um monte de coisas legais”. Menino ainda na dele. A moça esperava um pouco e retomava a artilharia: “Que tal a gente brincar com esse de montar?”

Não interessa muito as razões dela. O menino estava seguro com o brinquedo que queria. As escolhas dele deveriam ter sido respeitadas. E estava óbvio que ele não queria brincar de montar nada. No fim das contas, de tanta insistência, o pequeno cedeu e foi montar sei-lá-o-quê com a tia/avó.

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3) 

Avó leva a neta de quatro anos num parquinho. A menina é inteligente e articulada para a idade. A avó, toda orgulhosa, me explica que é porque a menina é “superestimulada” pelos pais, dois professores universitários que investem tudo na educação integral da criança e que, em casa, ainda insistem em “puxar” a menina, oferecendo sempre atividades artísticas e de lazer que possam “contribuir” para o “aprendizado”.

Além de articulada, a menina tem muita energia e imaginação. Logo transforma o tanque de areia em piscina. Quando a avó percebe, vai lá “ajudar” e “superestimular” a neta, que está concentrada, brincando e falando consigo mesma. Quer dizer, estava, até a avó aparecer: “nossa, que piscina grande! Deixa eu ver se a água está boa (fingindo colocar os pés na areia-água)”. E continua: “o que você está fazendo? Por que você não atravessa a piscina nadando? Vem até aqui nesta margem nadando que eu vou marcar seu tempo (!!!)” “Poxa, como você nada bem! Que tal mergulhar agora?”.

A menina não brincou sozinha, não inventou situações. Viveu apenas as fantasias da avó, que não parou de dirigir a brincadeira da neta até elas irem embora, duas horas depois.

Todas essas situações relatadas acima são reais, presenciadas recentemente.

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Não fazemos isso por mal. Nem eu nem o pai ou a tia/avó ou a avó. Mas atrapalhamos um bocado mesmo sem querer. Tiramos a liberdade, a tranquilidade e a energia das crianças.

Não conseguimos respeitar a conexão delas com o agora, com o que estão fazendo (talvez porque não tenham respeitado a nossa e porque tenham nos ensinado a nos desconectar desde muito cedo). Atrapalhamos. Muito. O tempo todo. É enlouquecedor.

Comecei a ficar muito incomodada. Irritada mesmo. Só de ver. Só de ouvir.

Fico imaginando como se sentem as crianças com tanta gente tagarelando, interrompendo os fluxos naturais de concentração e o prazer de estar presente numa atividade que tenha despertando interesse.

E em boa parte das vezes, fazemos pior: além de atrapalhar falando, a fala em si pretende dirigir as ações dos menores. Sugerimos que prestem atenção nisso ou naquilo (e não no que eles já estão prestando atenção); que façam de um jeito “certo”, pois pretendemos “ensinar” como se “faz” ou simplesmente fazer com que façam aquilo que achamos que devem fazer, não o que querem fazer.

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Comecei a tomar o caminho inverso. Falo cada vez menos com Enzo –e, creia-me, já é muito. Quando estamos juntos brincando, sempre espero que ele tome a iniciativa de falar comigo. Se me perguntou algo, só respondo. Se a conversa continuar, será porque ele quis. Antes de abrir a boca, olho, olho, olho e olho mais uma vez e olho de novo. Para ter certeza absoluta de que não estou interrompendo nada. Não interfiro nas brincadeiras dele, não sugiro nada. Todos os brinquedos dele estão acessíveis em diversos cômodos da casa. Outros utensílios com os quais goste de brincar, idem. Não sou eu quem vai achar ou sugerir ou estimular o que fazer. Essa é uma prerrogativa dele. Meu papel é “apenas” garantir que ele tenha atividades adequadas à mão. E que esteja bem emocionalmente para ouvir a si mesmo e achá-las.

Ainda escorrego muitíssimo, porque sou tagarela. Mesmo. E adoro isso. Mas agora sei –em diversos níveis, não apenas racionalmente– como é que a coisa toda deve ser. Ter me permitido experimentar a massinha, ter procurado sentir a emoção do Enzo, está sendo essencial nesse processo. E, em contrapartida, tenho aprendido muito nessa observação. Tenho aprendido –ou me lembrado de– como é bom a entrega a uma tarefa que te enche de vida e te absorve e te coloca em contato com tudo e com nada ao mesmo tempo. As crianças são mesmo geniais. Estou tentando não estragar isso.

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Para ler mais a respeito desse assunto, recomendo muito:

-Esse post aqui, do Marcelo Michelsohn;

-O Lar Montessori, do Gabriel Salomão, e em especial esse post;

-O encontro com o silêncio da Ana Thomaz

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a (falta de) TV e o “computador” do filho

Faz 15 dias que estamos sem TV. Quer dizer, o aparelho continua firme e forte, funcionando (até onde eu sei), no mesmo lugar onde está desde que tiramos da caixa. A diferença é que, faz duas semanas, ele permanece desligado durante o dia todo, pelo menos até a hora do filho ir para a cama.

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A princípio, eu queria apenas diminuir o tempo de exposição do Enzo às telas. Observando o comportamento recente dele, havia percebido um aumento muito grande de interesse pelos programas televisivos e, na mesma proporção, a diminuição (ou perda completa) de interesse por atividades lúdicas quaisquer.

Sempre fui favorável a estimular uma infância com pouca TV porque sempre acreditei que TV distrai do que é importante. Ligar o aparelho muitas vezes é desligar-se, especialmente no caso das crianças, em que a relação delas com o mundo pode ser tão intensa e frutífera e que a criação e a descoberta ainda estão tão potentes (ainda não desaprenderam a inventar). Criança não bloqueia a criação nem a percepção racionalizando e tentando explicar/entender logicamente o mundo, como a gente faz. Criança primeiro sente, cria, primeiro ousa, experimenta. Depois apreende o sentido lógico, que é só uma das faces de qualquer coisa. A Ana Thomaz diz que as crianças têm os sentidos ainda muito abertos e usam muito mais do que a parte racional do cérebro (os famosos 5%) que os adultos usamos. Concordo.

Para os pequenos, um objeto é muito mais do que a função utilitária que ele tem. É também forma, cor, textura, cheiro, som, gosto e zilhões de possibilidades de percepção e aplicação. Ou, de outra forma, uma tampa de panela jamais viraria uma direção de carro, confere? E isso não é “só” brincadeira. Quem disse que alguém começa a aprender a dirigir quando senta no carro da autoescola? Para mim, criança começa a aprender tudo sobre tudo não apenas quando faz as perguntas racionais e lógicas aos adultos sobre o que é isso ou o que é aquilo, mas principalmente quando (e porque) se permite experimentar todas as coisas, observar, testar, imaginar, inventar e reinventar usos reais e imaginários e absorver das coisas tudo o que elas têm para dar, sem limites. Elas acham as próprias respostas antes de fazer as perguntas.

Só que esse percurso de criação e experimentação pode ser atrapalhado, entre outras coisas, por tecnologia e brinquedos prontos (ou “ultraprontos”, tipo a boneca que come, faz xixi e fala). Aliás, isso explica porque criança pequena não gosta muito de brinquedo, prefere embalagem. Para criar, é preciso algum vazio; alguma coisa por fazer, certo? E para mim fez muito sentido na prática, como disse, pela observação do meu filho. Quanto mais ele preenchia seu tempo com entretenimento, menos criava. Resolvi ampliar as possibilidades de criação dele pelo modo mais óbvio: diminuindo a distração.

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(**)

No primeiro dia em que fiz isso, recorri a um expediente muito conhecido entre as mães: a mentira. Não me orgulho, mas… menti descaradamente. Como de costume, ele começou a pedir para ligar a TV assim que acordou, antes mesmo do café. Desconversei. Não deu certo. Então apelei: “filho, sinto muito, mas a TV quebrou”. Esperto que só, não acreditou muito. Retrucou com um “a mamãe ti mosta que quebou“. Improvisei um teatro, dei uma disfarçada com o controle remoto e, bem na hora em que o desenho que ele pediu ia começar, desliguei. “Está vendo, filho, quebrou”. Se convenceu.

Tinha planejado ligar mais à tarde e deixá-lo ver o desenho que quisesse. Mas, para minha surpresa e admiração total (ou não, porque no fundo eu esperava que isso acontecesse), ele simplesmente esqueceu que a TV existia. E foi brincar. Brincou com guache, depois com os carimbos (lavou as almofadas de tinta dentro do copo de água, de modo que saiu toda a tintura e as ditas cujas foram pro lixo), desenhou com giz de cera e lápis de cor, tirou tudo para fora da caixa de brinquedos e voltou a usar muitos que fazia tempo nem ligava, encaixou e desencaixou inúmeras pecinhas, conversou com os bichos de pelúcia, pegou o edredom do meu quarto e fez uma cama para a Branca e para o Pimpão (a coelha e o urso, respectivamente, com quem ele dorme todos os dias), “telefonou” para um monte de gente, correu. Nem um minuto parado. Dormiu cedo, exausto.

Esperei para ver como seria no dia seguinte. Pediria ou não para ver “Charlie e Lola”? Não pediu. Tomou café e foi brincar de novo. Como ele não pedia para ligar a TV, eu simplesmente ia deixando desligada. E assim estamos. Ele não pede, eu não sugiro. Os personagens de que ele gostava, que antes eram parâmetros para todas as (poucas) brincadeiras, surgem esporadicamente nas fabulações dele, que agora são muito mais criativas e reveladoras do que ele realmente observa, pensa e sente. E isso tem sido um aprendizado para mim também, porque vejo nossa dinâmica refletida e consigo perceber, por exemplo, quando ele se chateou com alguma coisa ou quando ficou impressionado com algo que eu (ou as pessoas próximas) fiz (fizeram). Brincadeira (assim como a arte) também é comunicação.

Dia desses ele pegou meu edredom, colocou no sofá, “guardou” sob ele a Branca e o Pimpão, cobriu metade das pernas (sob um calor de 35º C) e me chamou. Sentei onde ele indicou (bem ao lado dele) e então começou a brincadeira: “Agola não é mais o Enzo, é a majetade. E eu estou levando a mamãe de tem pro paque“. Majestade é uma personagem de um livro que ele adora (e que nem temos em casa; a gente lia numa biblioteca pública). Trem é o veículo utilizado num dos episódios de que ele mais gosta do “Backyardigans”. E o parque é a praça onde vamos com ele com frequência nos finais de semana. Bem mais rica e imaginativa essa brincadeira do que simplesmente reproduzir falas do “Mr. Maker”… E isso é só um exemplo. Porque uma criança que brinca o dia inteiro sem parar (pausas esporádicas para me ajudar a lavar o tomate cereja e preparar o almoço ou arrumar a casa…) diz muito sobre o bom estado da sua criatividade, confere?

Mas eu soube mesmo que está dando certo e que estamos no bom caminho sem a TV anteontem. Da mesa da sala, onde trabalho às vezes, vi e ouvi o pequeno brincando (porque a gente trabalha em casa sempre com um olho no peixe e outro no gato, né?). E eis que Enzo pegou um livro fininho, mas de capa dura, colocou deitado em cima do móvel da TV e abriu a capa, levantando-a apoiando-a no aparelho. Começou a “digitar” no livro aberto como se fosse o notebook. Tirou uma das mãos do livro, levou ao ouvido, e então ficou um bom tempo “conversando” e fazendo “perguntas” sobre valejo (varejo, área que eu cubro como jornalista). Aí se despediu (“xau, xau, bigadu“), colocou o “telefone” de volta na mesa da TV, baixou a capa do livro e, satisfeito, disse para si mesmo: “Ponto, posso fechar o compodoi que eu já acabei minha entevita“.

(*) Mafalda veio daqui e (**) o Calvin eu achei nesse endereço ó.

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como alegrar e entreter uma criança com menos de R$ 10

Sabe aquelas ideias tão óbvias, mas tão óbvias, que a gente nunca tem? Aquelas que quando finalmente surgem fazem a gente ficar um tempão se perguntando, com cara de otária, “como eu não pensei nisso antes”? Pois eu tive uma dessas ontem.

Não sei bem como a coisa aconteceu, mas lembro que estava almoçando num shopping e, sei-lá-porque, lembrei de uma papelaria na qual eu costumava ir por lá, a papelaria me lembrou crayon, que me lembrou do Enzo e… Putz, claro! Dar crayon pro Enzo! Como eu não pensei nisso antes? Justo eu, mãe de um menino que se divertiu horrores desenhando pelas paredes (todas, sem exageros) da casa!

Corri pra loja na mesma hora. Resumindo, a contabilidade ficou assim:

1 caixa de crayon: R$ 2,90

2 folhas de papel pardo: R$ 1,20

100 folhas de papel sulfite: R$ 3,40

Enzo alegre (compenetrado) e apaixonado por sua nova brincadeira favorita: R$ 7,50 (poderia escrever que não tem preço –e não tem mesmo–, mas acho que ficou meio lugar-comum essa piadinha, tô errada?)

logo que ganhou o kit...

logo que ganhou o kit…

...apaixonou.

…apaixonou.

 

 

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é proibido ser criança

Não corra!, não grite!, não mexa aí!, não veja com as mãos!, não ria alto!, não entre!, não saia!, não derrube no chão!, não toque!, não é assim que se faz!, não coloque na boca!, não brinque com isso!, agora não é hora para brincadeiras!, tome banho!, não molhe o banheiro!, escove os dentes!, não coma de boca aberta!, vá dormir!, acorde!, termine a lição!, não pule!, não suba aí em cima!, não se suje!, não brinque no chão!, não deixe o cachorro te lamber!, não ponha a mão aí!, não me desobedeça!, não pergunte!, não tente descobrir sozinho!, não seja imaturo!, fique quieto!, coma sentado!, durma sozinho!, não coma isso!, não responda sua tia!, obedeça todo mundo!, estude!, não falte às aulas!, não cante essa música! não leia isso! leia isso!, seja responsável!, não ande pelo restaurante!, não rabisque a parede!, não rabisque!, não abra essa caixa!, não desmonte o controle remoto!, não fuce aí!, não perca a aula de inglês!, não coloque as mãos na tinta!, não fale sozinho!, de novo com essa boneca?!, não sente no chão!, não brinque no chão!, tire a mão da terra!, não fale alto!, agora não!, já disse que não!, quantas vezes eu tenho de falar não para você?!, você não entende o que significa não?!, não pode entrar aí!, não pode sair daí!, não pode passear pela escola!, agora não é hora de fazer xixi!, não pode sair da sala!, não pode mexer no microscópio sem a ajuda do professor!, não me enfrente!, não fale assim comigo!, não brinque assim!, não aperte esse botão!, não coma isso!, não coma com as mãos!, não coloque os pés no sofá!, não brinque com minha maquiagem!, não brinque com a minha gravata!, não ligue o carro!, não pise no tapete com esses pés sujos!, não suba em cima dos bancos do carro!, não toque a buzina!, não coma biscoito na sala! não coma biscoito no carro!, não brinque na sala!, não brinque com esse vaso!, não vá ao escritório!, não atenda o telefone!, não derrube no chão!, não use a colher sozinho!, faça cocô no penico!, não faça xixi na cama!, não use essa roupa!, não escreva nos livros!, não desenhe no livro! não use esse caderno!, não ria que estou falando sério!, NÃO SEJA CRIANÇA!

 

 

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a alma do negócio

Na semana passada, no blog do MMqD, a Pérola Boudakian escreveu um post ótimo sobre a publicidade para crianças. Entre outras coisas, ela fez uma entrevista super bacana com duas das blogueiras mais ativas nesse campo: a Mari Sá, do Viciados em Colo, e a Tais Vinha, do Ombudsmãe. Recomendo uma boa lida.

Muitos dos argumentos de ambas já foram expostos por aqui, mas ressalto duas coisas. 1) Tais lembra -muito bem- que as crianças ainda não conseguem diferenciar muito bem o que é fantasia do que é imaginário. Para elas, é ainda mais nociva a mensagem -largamente difundida pela publicidade- de que é preciso consumir para ser alguém. E, pior, essa mensagem vem sendo direcionada aos nossos filhos por intermédio de concessões públicas de comunicação que, em tese, deveriam nos ajudar a formar uma sociedade de cidadãos, não uma legião de consumidores.

2) Já a Mari dá exemplos muito tristes de crianças assumindo comportamentos que já seriam nocivos em adultos, que dirá em crianças: uma amiga da filha cuspiu um chocolate porque não queria engordar; outras deixam de brincar pois estão vestidas como gente grande (salto, cabelo “feito”). Esse comentário também me deu a impressão de que, para as meninas, assim como para as mulheres, no mundo machista em que vivemos, o fardo é mais pesado. Parece que delas se exige mais. Mais uma razão para regulamentarmos a publicidade infantil: igualdade de gêneros.

E acabei voltando a esse assunto também porque a leitora Patrícia, que comentou lá no post do MMqD, sugeriu um documentário sobre o tema, disponível no YouTube. Já tinha ouvido falar, mas assisti a ele apenas ontem. Recomendo muito. Trata-se do “Criança: A Alma do Negócio”, da Estela Renner (diretora do “Amores Expressos“, uma vídeo série que registrou os bastidores da criação de romances para uma série de literatura com o mesmo nome).

O documentário mostra, por exemplo, crianças dando seus depoimentos sobre como a publicidade direciona seus hábitos, gostos e opções. E, claro, ouve pais e especialistas, que apontam os estragos que a propaganda podem fazer na autoestima e na autoimagem dos pequenos.

Vale a pena dar uma boa olhada.

Já disse que ainda não sei bem qual seria o modelo ideal de regulamentação e regulação de publicidade infantil. Mas o marido -que é favorável à proibição total- saiu-se com um argumento que acho válido compartilhar. Nossa legislação proíbe menores de 18 anos de assinarem qualquer contrato de compra, venda, prestação de serviço etc. Isso porque entende que quem tem menos de 18 ainda não tem elementos suficientes para decidir autonomamente por adquirir ou se desfazer de algo, nem para entrar de igual para igual numa negociação. Então, se já partimos desse pressuposto, é um contra-senso imaginar que os pequenos -que não podem comprar- podem ser alvos de propagandas, certo?

 

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